Sob o estandarte da Imaculada.

Padre Serafino M. Lanzetta, professor de teologia dogmática no Instituto Teológico Imaculada Medianeira, dos Franciscanos da Imaculada, é, desde 2006, diretor da revista teológica Fides Catholica. Em dezembro de 2010, organizou o Congresso ‘Concilio Ecumenico Vaticano II – Un Concilio Pastorale. Analisi Storico-Filosofico-Teologica’ em Roma, e já apareceu em nosso blog em mais de uma oportunidade [aqui e aqui]. Justamente sobre o seu instituto religioso, a Missa Tradicional e o Concílio Vaticano II, cujos 50 anos estão sendo comemorados, é que o Padre Lanzetta aceitou conversar com Fratres in Unum.

Primeiramente, Reverendíssimo Pe. Lanzetta, muito obrigado por aceitar o nosso convite. Por favor, apresente-se a nossos leitores. De onde o senhor é? Conte-nos sobre sua família e seu discernimento vocacional.

Padre Serafino Lanzetta é sacerdote professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e pároco da Igreja São Salvador em Ognissanti,  Florença, desde 2004.

Padre Serafino Lanzetta é sacerdote professo do Instituto dos Franciscanos da Imaculada e pároco da Igreja São Salvador em Ognissanti, Florença, desde 2004.

Obrigado por me convidar para a entrevista e, sobretudo,  poder apresentar meu Instituto Religioso. Venho de uma cidade em Salerno, Campania (Itália). Esta cidade é Sarno. Graças a Deus, fui criado em uma família cristã. Desde os meus 6 anos, comecei a participar em um grupo paroquial, a “Azione Cattolica”. Recordo, sobretudo, o cuidado de minha mãe em me ensinar a fé e em me impulsionar a ir à Missa dominical. Infelizmente, quando fiquei mais velho, aos 14 anos, deixei os sacramentos e a Santa Missa, atraído e seduzido pelo mundo. Desse jeito, aprendi — depois — que o mundo nem sempre é um amigo verdadeiro. Foi a oração de meus pais, especialmente de minha mãe, que me trouxe de volta à fé. Alguns anos mais tarde descobri, pela graça da oração, a beleza da Fé Católica e tentei me aprofundar nela, fazendo-me muitas perguntas que só poderiam ser respondidas através da Verdade de Cristo. Desde criança perguntava a mim mesmo o que significava uma vocação. Finalmente, senti este chamado em minha alma: em minha inteligência e em minha vontade. Eu deveria obedecê-lo a fim de ser verdadeiramente feliz. Desejei dar minha vida a Cristo e à Sua Igreja. Encontrei os Franciscanos da Imaculada em Frigento (nossa Casa Mãe na Itália) e disse: “Esta é a minha família”.

E por que os Franciscanos da Imaculada? O senhor tem alguma função específica na ordem?

Escolhi este Instituto, primeiramente, porque procurava uma vida religiosa muito fiel ao carisma de São Francisco. A idéia de escolher uma vida religiosa muito similiar à minha vida passada me feria demais. Seria melhor permanecer no mundo. Encontrei nos Franciscanos da Imaculada o rigor da pobreza e de penitência, como descritas nas Fontes Franciscanas, e, ao mesmo tempo, um espírito de grande abertura aos novos desafios do mundo: difundir o Evangelho com todos os meios possíveis, mesmo os mais sofisticados.

Atualmente, sou pároco em Florença (Ognissanti), professor de dogmática em nosso próprio Seminário Teológico (Seminario Teologico “Immacolata Mediatrice”), e também vigário de nossa Delegação Italiana.

Qual é a principal mensagem de São Maximiliano Kolbe, um grande apóstolo dos tempos modernos, aos nossos dias?

São Maximiliano Maria Kolbe.

São Maximiliano Maria Kolbe.

São Maximiliano Maria Kolbe é um grande santo e, por isso, um apóstolo da Imaculada pelo Reinado de Cristo. São Maximiliano compreendeu que o próprio centro da Ordem Franciscana é a Imaculada. Ela é nossa padroeira e advogada, a “Virgo Ecclesia facta”, “Aquela em quem esteve e está toda graça e virtude“, como disse o Pai Seráfico. Segundo São Francisco, devemos viver sob o Seu manto. E podemos acrescentar também: nela e com Ela alcançar a meta: sermos semelhantes a Cristo, Seu FIlho. São Maximiliano leu toda a história da Ordem através da Imaculada. Agora, após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, é hora de difundir esta verdade entre os povos, a fim de levar todos eles a vivê-lo em suas vidas. Por esta razão, o Santo da Imaculada escolheu tudo o que era possível para difundir a devoção a Nossa Senhora pelo fundo: imprensa, televisão, rádio, internet, etc. Todos os meios de comunicação são instrumentos importantes para fazer a Imaculada conhecida. Deus quer salvar o mundo por Ela. Seguimos precisamente este carisma. Podemos dizer: São Maximiliano é um exemplo para compreender corretamente a Tradição da Igreja: sempre fiel às origens (as Fontes), mas em constante processo de compreensão e vivência da mesma mensagem, atualizando-a hoje. Isso é, acima de tudo, a Igreja.

Tem havido cada vez mais notícias sobre o grande trabalho na promoção da Missa Tradicional pelos Franciscanos da Imaculada, inclusive com alguns setores de sua ordem optando por ela como seu rito próprio. Sabemos que os Franciscanos da Imaculada não surgiram de meios já ligados à Missa Tridentina. Como ocorreu esta descoberta, tanto ao senhor individualmente como à congregação?

Dom Manoel Pestana, finado bispo de Anápolis, e o fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe. Stefano Manelli. A ordem foi a responsável pela publicação da obra de Mons. Brunero Gherardini.

Dom Manoel Pestana, finado bispo de Anápolis, e o fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe. Stefano Manelli (à direita do bispo).

Sim, nós não surgimos da Missa Tridentina, embora sempre a tenhamos apreciado, por ser um tesouro da Igreja. Nosso fundadores (Pe. Stefano M. Manelli e Pe. Gabriele M. Pellettieri), após o Concílio Vaticano II, sentiram um chamado, como que uma obrigação, de renovar a vida religiosa — segundo o desejo do Concílio na Perfectae caritatis –, retornando às fontes de São Francisco, lendo-as através dos Santos Franciscanos modernos, como São Pio de Pietrelcina, Ven. Gabriele Allegra, São Maximiliano M. Kolbe e diversos outros. Os Santos do século XX foram uma inspiração para uma renovação segundo a Tradição Franciscana. Tudo isso para dizer que a Missa Tridentina, que descobrimos e celebramos graças ao [motu proprio] Summorum Pontificum, do Papa Bento XVI, não era para nós uma “novidade”, mas simplesmente uma possibilidade de manter a tradição litúrgica ininterrupta do Santo Sacrifício da Missa, desde São Gregório Magno até João XXIII. Nós celebramos ambas as Missas, isto é, na forma ordinária e extraordinária, e tentamos, na medida do possível, ter a forma extraordinária como a Missa própria de nossa vida comunitária. Eu mesmo celebro esta Missa todos os dias e, para mim, esta descobertura foi uma grande graça. Esta Santa Missa me ajuda a viver o mistério que celebro, por causa da beleza e da profunda teologia que está por trás dela.

A sua ordem também está presente no Brasil. O senhor já esteve por aqui?

Sim, estamos em Anápolis, tanto irmãos como irmãs. Infelizmente, ainda não estive no Brasil. Conheço esta majestosa terra apenas do mapa. Espero visitá-la um dia.

Tanto o senhor como sua congregação, que publicou o livro “Vaticano II, un discorso da fare”, de Monsenhor Gherardini, fizeram um forte trabalho de estudo teológico sobre o Concílio Vaticano II. O que os senhores pretendem com esta iniciativa?

Nós estamos só tentando, por amor à Igreja e pelo futuro do Evangelho no mundo, examinar as causas da “crise profunda” que afeta nossa Igreja hoje, como o Papa Bento XVI repetiu várias vezes (ultimamente na Alemanha). Claro que não dizemos — porque não é verdade — que todo o problema ou a causa da crise é o Vaticano II. Os problemas são mais extensos que o Concílio. Basta apenas lembrar do modernismo e do neomodernismo, ou seja, uma forma de unir fé e sentimento e, por último, natureza e graça, causando sua mistura. Hoje a graça tem sido quase absorvida na natureza e, assim, tem desaparecido. Isso era até justificado por algumas teologias errôneas. Freqüentemente ouvimos que só se pode viver a Fé como homens deste mundo. Viver como um homem real já seria, de certa forma, acreditar. Um exemplo: o conceito de pecado mortal enquanto grave ofensa a Deus está quase abandonado. Isso é a secularização. De toda forma, a crise de fé atual também tem algumas ligações com o Concílio. Após quase 50 anos, nós ainda nos perguntamos qual é a verdadeira hermenêutica do Vaticano II!

Vaticano II: ruptura ou continuidade? Problema de recepção e interpretação ou os próprios documentos conciliares são em si problemáticos?

Um católico nunca pode ver um concílio como ruptura. Este é o caminho para justificar o sedevacantismo ou para ver o Vaticano II como um novo início da Igreja. É claro que há continuidade dentro da Tradição como um todo. O problema reside em outro lugar. O Concílio, de fato, é um verdadeiro concílio ecumênico. O problema na minha opinião é o seguinte: o Vaticano II inaugurou uma nova forma de ensinar em um concílio, uma maneira pastoral de dizer a doutrina. Este mesmo significado de “ensino pastoral”, mesmo durante o Concílio, não estava claro. Surgiram muitas interpretações. A teologia neste momento não tem uma categoria suficiente para compreender e qualificar este nível de ensinamento. Mas, de certa forma, os próprios documentos também são problemáticos. Evitando o modo de ensinar com censuras e definições, escolheram a forma descritiva, como uma catequese ou uma homilia. Ambas as formas de ler o Concílio, tanto a forma da continuidade como a da descontinuidade, normalmente citam os textos do Concílio. Os textos são, portanto, suscetíveis a ambas as leituras. Qual é a única correta? Aquela iluminada pela Tradição. Portanto, o Vaticano II precisam de um a priori que é a Tradição da Igreja. E apenas com a Tradição nós podemos examinar os novos documentos. Podemos ler o Vaticano II apenas à luz do Vaticano I, Trento, etc, e nunca o contrário. O mistério da Igreja vem primeiro.

A Itália tem sido palco de um grande debate sobre o Concílio. Monsenhor Gherardini e Roberto de Mattei alcançaram grande sucesso com suas obras. Há esperança de que o Concílio possa ser objeto de um estudo sério e não mais um “super dogma” intocável?

Padre Lanzetta ao lado de Cristina Siccardi e Monsenhor Brunero Gherardini.

Padre Lanzetta ao lado de Cristina Siccardi e Monsenhor Brunero Gherardini.

Creio que o primeiro passo a ser dado neste debate é apresentar o Vaticano II não como um “super dogma”, segundo a significativa expressão do Cardeal Ratzinger. O Vaticano II não é o universo da Fé Católica. Nossos dogmas são muito mais abrangentes que o último concílio, que foi uma tentativa, não de reescrever a doutrina, mas apenas de difundi-la de uma nova maneira ao mundo moderno. Os efeitos destes 50 anos podem nos ajudar a verificar o que deu errado, o que não estava funcionando. Creio que o espírito todo otimista que acompanhou estes anos, a esperança de ser muito amigável com o mundo a fim de conquistá-lo, absolutamente não está funcionando. O mundo conquistou os católicos. Não devemos nunca esquecer a Cruz de Cristo, sua Paixão e Morte. Só após a morte é que vem a ressurreição.

O segundo passo desse estudo deveria aperfeiçoar uma análise crítica para verificar como as novas doutrinas estão em continuidade com a Tradição. Isso é muito delicado, mas não basta proclamar a continuidade. Ela deve ser verificada. O problema principal do Vaticano II é sua interpretação. Então, o Sujeito mais adequado para realizar este trabalho é o próprio Magistério. É por isso que ambos os autores, Gherardini e De Mattei, pedem uma intervenção do Papa para resolver essa questão tão problemática.

Há aqueles que, em nome do que chamam “Magistério vivo da Igreja”, justificam todo e qualquer ato aprovado pelas autoridades da Igreja no período pós-conciliar. O que o senhor pensa a respeito?

Temos sempre que respeitar o Magistério da Igreja, mesmo as iniciativas pastorais dos Papas. Eles são sempre os Vigários de Cristo. Porém, respeito e reverência não significam cegueira, mas antes uma possibilidade real de mostrar desaprovação pelas escolhas pastorais, o que poderia ser um grito de Fé. Elas podem ser verificadas e corrigidas. Recordemos a desaprovação de Ratzinger a Assis I.

Por fim, Padre: um jovem que discerniu sua vocação ao sacerdócio e está ligado ao rito Tridentino, desejando se engajar em um estudo sério e crítico do Concílio, encontraria boas-vindas e portas abertas nos Franciscanos da Imaculada?

Sim, é claro. Esperamos por muitas vocações brasileiras.

5 Comentários to “Sob o estandarte da Imaculada.”

  1. Nossa! Que entrevista interessante! Gostei imensamente!

    Parabéns, Fratres pela publicação da entrevista!

    Ferreti, penso que essa entrevista mereceria ser traduzida para outras línguas também. O que acha?

  2. Gostei muito deste artigo!

  3. A hermeneutica do CVII é “bruto pasticio”, “bagarre”, uma baita confusão. Se você perguntar a 10 evangélicos eles dirão uma só doutrina, a 10 espiritas uma só doutrina e se perguntar a 10 católicos eles terão mais de cem doutrinas diferentes menos a que é exposta no catecismo do Papa São Pio X.
    Quanto a São Kolbe ele criou a Milicia da Imaculada principalmente para a conversão dos franco maçons que em 1917 – ano das aparições de Fátima, portavam em Roma o estandart em que Lúcifer esmagava São Miguel Arcanjo.

  4. Gostei muito da entrevista e admiro profundamente os Franciscanos da Imaculada e seu carisma. Que a Santíssima Virgem Maria suscite muitas vocações aqui no Brasil.

  5. Também sou grande admirador dos Franciscanos da Imaculada.

    Eles tem um canal no Youtube com vídeos das homilias deles (em inglês) e vídeo interessante. Quem quiser conferir o link é este

    http://www.youtube.com/user/franciscanfriars

    Um exemplo dos interessantes vídeos que eles tem postado é o vídeo de uma “menina” (uma moça nova) entrando no Carmelo de Valparaiso, Nebraska, EUA:

    Fi News #132: Catekids to Carmel