Gotti Tedeschi: “Prefiro não falar, de outra forma só diria palavras rudes”.

A queda do economista do IOR: “Não digo nada; não quero incomodar o Papa”. Três anos e muitos inimigos.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com

Gotti Tedeschi.

Gotti Tedeschi.

“Prefiro não falar, de outra forma só diria palavras duras, tenham paciência”. E depois: “Ainda me debato entre a ânsia de explicar a verdade e não querer incomodar o Santo Padre com tais explicações. Meu amor ao Papa prevalece sobre qualquer outro sentimento, inclusive para defender a minha reputação, que de modo vil se coloca em discussão”.

A moção de censura que provocou a queda de Ettore Gotti Tedeschi do IOR [Instituto para as Obras Religiosas, comumente conhecido como “Banco do Vaticano], sem sequer ter completado três anos na presidência, chegou de surpresa, mas já há vários meses o banqueiro havia considerado a possibilidade da renúncia. Desde os dias da investigação da magistratura romana sobre as transações de algunas contas do IOR de bancos italianos para bancos alemães, Gotti havia decidido colaborar diretamente com os magistrados. Esse foi o princípio de uma série de incompreensões com o diretor geral do instituto, Paolo Cipriani. Naquela ocasião, Gotti Tedeschi, sob investigação, recebeu o apoio de Bento XVI, que o saudou depois de um Angelus em Castel Galdolfo. “Devemos ser exemplares”, tinha repetido o Pontífice. E o novo presidente, eleito pelo Secretário de Estado, o Cardeal Tarcisio Bertone, continiou com o processo de renovação e de transparência que estava em curso: fechou as contas correntes inativas vinculadas a “laranjas”.

Entre as pessoas com quem Gotti Tedeschi teve dificuldades está Marco Simeon [ndr: leigo de enorme influência sobre Bertone e que também estaria envolvido na queda de Dom Viganò], atual diretor do canal Rai Vaticano, ligado a Luigi Bisignani. Durante o verão do ano passado, o IOR se viu envolvido na operação para salvar o hospital San Raffaele de Milão, sob a égide do Cardeal Bertone e muito aplaudida por muitos empresários e políticos milaneses. Gotti Tedeschi, que inicialmente era favorável, teria depois se convencido do contrário, dado que se tratava de uma “aventura perigosa”, e teve um forte embate com Giuseppe Profiti, administrador do hospital do Menino Jesus e um dos homens de Bertone dentro do mundo das saúde italiana. Até as relações com o Secretário de Estado foram esfriando progressivamente, embora nos últimos meses se tenha registrado alguma melhora.

Mas o ponto sem volta para Gotti Tedeschi foi a nova leia sobre a transparência que levaria o Vaticano à “white list” dos países virtuosos na luta contra a lavagem de dinheiro. O presidente do IOR, em sintonia com o Cardeal Attilio Nicora, considerava que as mudanças eram demais e, sobretudo, que se redimensionava o papel da AIF, o organismo de vigilância criado com a lei anterior. A razão disso será indicada por experts de Moneyval em julho, quando darão a conhecer o informe final sobre a adequação da Santa Sé às normas internacionais. Detrás da moção de censura de ontem, Gotti Tedeschi intui uma espécie de acerto de contas.

Por sua vez, a explicação da moção de censura é completamente diferente. “A decisão do Conselho do IOR foi tomada com absoluta autonomia”, indicam fontes da Secretaria de Estado, que desmentem a orquestração de Bertone na renúncia de Gotti, e enfatizam que o momento não é dos melhores para realizar uma operação deste tipo, em meio do escândalo dos “vatileaks”, o vazamento de documentos reservados, alguns dos quais têm relação com a correspondência do presidente do banco vaticano. Um dos motivos dos que retiraram a confiança de Gotti Tedeschi é que não conseguia trabalhar em equipe com os colaboradores, fato que teria tido conseqüências negativas para a gestão do Instituto. De toda forma, o resultado é o mesmo: o governo da Santa Sé parece estar, cada vez mais, em meio ao caos.