Sobre a realeza de Maria e a instituição de sua festa a 31 de maio.

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 Créditos do vídeo ao leitor Alexandre Fernandes.

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[…] Segundo a tradição e a sagrada liturgia, o principal argumento em que se funda a dignidade régia de Maria é, sem dúvida, a maternidade divina.

Na verdade, do Filho que será dado à luz pela Virgem, afirma-se na Sagrada Escritura: “chamar-se-á Filho do Altíssimo e o Senhor Deus dar-lhe-á o trono de Davi, seu pai; reinará na casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim”(Lucas 1,32,33); ao mesmo tempo que Maria é proclamada “a Mãe do Senhor” (Lucas 1,43). Daqui se segue logicamente que Maria é Rainha, por ter dado a vida a um Filho, que no próprio instante da sua concepção, mesmo como homem, era Rei e Senhor de todas as coisas, pela união hipostática da natureza humana com o Verbo. Por isso, muito bem escreveu São João Damasceno: “Tornou-se verdadeiramente senhora de toda a criação, no momento em que se tornou Mãe do Criador”. E assim o arcanjo Gabriel pode ser chamado o primeiro arauto da dignidade real de Maria.

Contudo, nossa Senhora deve proclamar-se Rainha, não só pela sua maternidade divina, mas ainda pela participação singular que Deus quis que Ela tivesse na obra da salvação. “Que pode haver – escrevia nosso predecessor de feliz memória, Pio XI – mais doce e suave do que pensar que Cristo é nosso Rei, não só por direito de natureza, mas ainda por direito adquirido, isto é, pela redenção? Repensem todos os homens, esquecidos do quanto custamos ao nosso Redentor e recordem todos: “Não fostes remidos com ouro ou prata, bens corruptíveis[…], mas pelo precioso sangue de Cristo, cordeiro imaculado e sem mancha’.(1ª Pedro 1,18,19) “Não pertencemos portanto a nós mesmos, pois Cristo a alto preço nos comprou”.(1ª Coríntios 6,20).

Sua cooperação na redenção

 Ora, ao realizar-se a obra da redenção, Maria santíssima foi intimamente associada a Cristo, e por isso justamente se canta na sagrada liturgia: “Santa Maria, Rainha do céu e Senhora do mundo, estava traspassada de dor, ao pé da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. E um piedosíssimo discípulo de Santo Anselmo podia escrever na Idade Média: “Como… Deus, criando todas as coisas pelo seu poder, é Pai e Senhor de tudo, assim Maria, reparando todas as coisas com os seus méritos, é mãe e senhora de tudo: Deus é senhor de todas as coisas, constituindo cada uma delas na sua própria natureza pela voz do seu poder, e Maria é Senhora de todas as coisas, reconstituindo-as na sua dignidade primitiva pela graça, que lhes mereceu”. De fato “como Cristo, pelo título particular da redenção, é nosso senhor e nosso rei, assim a bem-aventurada Virgem [é senhora nossa] pelo singular auxílio, prestado à nossa redenção, subministrando a sua substância e oferecendo voluntariamente por nós o Filho Jesus, desejando, pedindo e procurando de modo singular a nossa salvação”.

Dessas premissas se podem argumentar: Se Maria, na obra da salvação espiritual, foi associada por vontade de Deus a Jesus Cristo, princípio de salvação, e o foi quase como Eva foi associada a Adão, princípio de morte, podendo-se afirmar que a nossa redenção se realizou segundo certa “recapitulação”, pela qual o gênero humano, sujeito à morte por causa duma virgem, se salva também por meio duma virgem; se, além disso, pode-se dizer igualmente que essa gloriosíssima Senhora foi escolhida para Mãe de Cristo “para lhe ser associada na redenção do gênero humano” e, se realmente, “foi ela que – isenta de qualquer culpa pessoal ou hereditária, e sempre estreitamente unida a seu Filho – o ofereceu no Gólgota ao eterno Pai, sacrificando juntamente, qual nova Eva, os direitos e o amor de mãe em benefício de toda a posteridade de Adão, manchada pela sua desventurada queda”, poder-se-á legitimamente concluir que, assim como Cristo, o novo Adão, deve-se chamar Rei não só porque é Filho de Deus, mas também porque é nosso redentor. Assim, segundo certa analogia, pode-se afirmar também que a bem-aventurada Virgem Maria é Rainha, não só porque é Mãe de Deus, mas ainda porque, como nova Eva, foi associada ao novo Adão.

Sua sublime dignidade

É certo que no sentido pleno, próprio e absoluto, somente Jesus Cristo, Deus e homem, é Rei, mas também Maria – de maneira limitada e analógica, como Mãe de Cristo-Deus e como associada à obra do divino Redentor, a sua luta contra os inimigos e ao triunfo deles obtido participa da dignidade real. De fato, dessa união com Cristo-Rei deriva para ela tão esplendente sublimidade, que supera a excelência de todas as coisas criadas: dessa mesma união com Cristo nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispensar os tesouros do reino do Redentor divino; finalmente, da mesma união com Cristo se origina a inexaurível eficácia da sua intercessão junto do Filho e do Pai.

Portanto, não há dúvida alguma que Maria Santíssima se avantaja em dignidade a todas as coisas criadas e tem sobre todas o primado, a seguir ao seu Filho. “Tu finalmente, canta São Sofrônio, superaste em muito todas as criaturas… Que poderá existir mais sublime que tal alegria, ó Virgem Mãe? Que pode existir mais elevado que tal graça, a qual por divina vontade só tu tiveste em sorte?” A esses louvores acrescenta São Germano: “A tua honra e dignidade colocam-te acima de toda a criação: a tua sublimidade faz-te superior aos anjos”. São João Damasceno chega a escrever o seguinte: “É infinita a diferença entre os servos de Deus e a sua Mãe”.

Para melhor compreendermos a sublime dignidade, que a Mãe de Deus atingiu acima de todas as criaturas, podemos considerar que a Santíssima Virgem, desde o primeiro instante da sua conceição, foi enriquecida de tal abundância de graças que supera a graça de todos os santos.

Por isso, como escreveu na carta apostólica Ineffabilis Deus o nosso predecessor, de feliz memória, Pio IX, Deus “fez a maravilha de a enriquecer, acima de todos os anjos e santos, de tal abundância de todas as graças celestiais hauridas dos tesouros da divindade, que ela – imune de toda a mancha do pecado, e toda bela apresenta tal plenitude de inocência e santidade, que não se pode conceber maior abaixo de Deus, nem ninguém a pode compreender plenamente senão Deus”.

Com Cristo, ela reina nas mentes e vontades dos homens

Nem a bem-aventurada Virgem Maria teve apenas, ao seguir a Cristo, o supremo grau de excelência e perfeição, mas também participou ainda daquela eficácia pela qual justamente se afirma que o seu divino Filho e nosso Redentor reina na mente e na vontade dos homens. Se, de fato, o Verbo de Deus opera milagres e infunde a graça por meio da humanidade que assumiu  e se utiliza dos sacramentos e dos seus santos como instrumentos para salvar as almas, por que não há de servir-se do múnus e ação de sua Mãe santíssima para nos distribuir os frutos da redenção? “Com ânimo verdadeiramente materno para conosco, como diz o mesmo predecessor nosso, de feliz memória, Pio IX – e ocupando-se da nossa salvação, ela, que pelo Senhor foi constituída rainha do céu e da terra, toma cuidado de todo o gênero humano, e – tendo sido exaltada sobre todos os coros dos anjos e as hierarquias dos santos do céu, e estando à direita do seu unigênito Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor – com as suas súplicas maternas impetra com eficácia, obtém quanto pede, nem pode deixar de ser ouvida”.  A esse propósito, outro nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, declarou que foi concedido à bem-aventurada virgem Maria um poder “quase ilimitado” na distribuição das graças; São Pio X acrescenta que Maria desempenha esta missão “como por direito materno”.[…]

Excerto da carta encíclica do Papa Pio XII “Ad Caeli Reginam” sobre a realeza de Maria e a instituição da sua festa, n°s. 34-40. Publicado no boletim paroquial “A Voz da Rainha”, Pe. Renato Leite, de Maio de 2011.

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5 Comentários to “Sobre a realeza de Maria e a instituição de sua festa a 31 de maio.”

  1. “Ó tu, mão guiadora de Deus, Mãe de Deus…..” imensamente belo é o vídeo;uma digníssima forma de festejar o Dia de Hoje. Agradeço Alexandre Fernandes e Fratres !!!

  2. Ganhei o dia vendo este vídeo hoje. Não dá para aceitar padres engole-fogos, em missas-espetáculo para atrair fiéis com exotismos hilariantes. O vídeo postado hoje celebra dignamente a festa da realeza de Nossa Senhora, “mão guiadora de Deus, mãe de Deus!”

  3. Caros irmãos em Cristo,
    Eu tenho ouvido um tanto vagamente notícias sobre um pedido ao Papa de declaração de um 5º Dogma Mariano que seria o Dogma de Maria Corredemptora ou Corredemptrix. Sei que os Franciscanos da Imaculada tem se empenhado em pedir ao Papa a declaração solene de Maria como Corredemptrix, Corredentora da humanidade.
    Os irmãos, sabem mais sobre o assunto?

  4. Caro Ferreti, eu poderia divulgar aqui um texto muito interessante sobre o desenvolvimento do Rosário ao longo dos séculos, sobretudo dentro da Ordem Cartuxa?!
    Esse texto eu o recebi por e-mail de um amigo, e o publiquei em meu blog, mas infelizmente esse texto tão bom tem tido poucos acessos.

    O ROSÁRIO DAS CLÁUSULAS. (parte 1)

    Um pequeno excerto:

    É coisa conhecida que, exatamente para favorecer a contemplação e para que a mente estivesse sempre em sintonia com as palavras, se costumava outrora – e tal costume conservou-se em diversas regiões – ajuntar ao nome de Jesus, em cada Ave-Maria, uma cláusula, que chamasse a atenção para o mistério enunciado (nº.46).

    http://alexbenedictus-et-patensis.blogspot.com/2012/03/o-rosario-das-clausulas-uma-lectio.html

  5. O ROSÁRIO DAS CLÁUSULAS. (parte 2)

    TRÊS EXEMPLARES DO SANTO ROSÁRIO
    SEGUNDO A TRADIÇÃO DAS CLÁUSULAS

    http://alexbenedictus-et-patensis.blogspot.com/2012/03/o-rosario-das-clausulas-uma-lectio_14.html