O Concílio Vaticano II nas confidências do Papa João XXIII.

A revista “Civiltà Cattolica” publica os diários do padre Roberto Tucci [hoje cardeal] (foto), seu diretor nessa época. Eis aqui o relato das cinco conversas que teve com o papa que convocou o Vaticano II.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 23-10-2012. A tradução é do Cepat.

IHU – Há poucos dias, a documentação sobre o Concílio Vaticano II foi enriquecida com um novo texto, de notável valor, e inédito até esta segunda-feira. Trata-se de algumas partes dos diários do cardeal Roberto Tucci, nessa época diretor da revista “Civiltà Cattolica”.

Foi precisamente esta revista dos jesuítas de Roma que, baseando-se em tais diários, abriu seu último número com o resumo dos cinco colóquios que Tucci teve com o Papa João XXIII, entre 1959 e 1962, isto é, entre o anúncio e o início do Vaticano II.

A “Civiltà Cattolica” é uma revista muito especial. Antes de seus artigos serem publicados, são controlados pelas autoridades vaticanas, que algumas vezes os aprovam, outras os modificam e outras, ao contrário, os descartam.

No período de Pio XII, era o próprio Papa quem revisava os artigos. João XXIII passou esta tarefa ao seu secretário de Estado. Contudo, continuou se reunindo com o diretor da revista, que, após cada conversa, escrevia a esse respeito em seu diário. Portanto, graças ao diário de padre Tucci, contamos com uma descrição muito próxima de como João XXIII se preparou para o Concílio convocado por ele mesmo.

Confirmou-se, por exemplo, a surpresa do papa com o silêncio que lhe cercou após anunciar o Concílio, em 1959, aos cardeais reunidos na Basílica de São Paulo Extramuros: “Fez a proposta, pediu que lhe dissessem francamente sua opinião, e ninguém falou”.

A respeito de outros momentos de preparação do papa para o Concílio, o diário de Tucci conta com algum ponto inesperado. Por exemplo, parece que a ideia da viagem de trem, feita por João XXIII para Loreto, no intuito de invocar a proteção da Virgem para a assembleia, surgiu por cálculos políticos: “A respeito de sua viagem a Loreto, o Papa disse que tinha que fazê-la para agradar o ministro de fomento, que havia investido muito nessa área, e para favorecer a oportunidade de um encontro com o presidente Gronchi: este queria encontrar uma forma para que o Papa fosse ao Quirinal”.

Também impressionaram as bruscas palavras de João XXIII contra “o mal sutil” da Cúria, uma mistura de afã de êxito e nepotismo, como também o seu sofrimento pela ostentação do vaticano.

Uma causa de profunda irritação para o Papa João eram aqueles que foram definidos por ele como “profetas de desventura”, no memorável discurso com o qual abriu o Concílio. Contudo, há muito mais nos fragmentos do diário de seu diretor daqueles anos, fatos tornados públicos pela revista “Civiltà Cattolica”, em seu número do dia 20 de outubro de 2012. Abaixo, segue a continuação de algumas passagens importantes do artigo.

O papa João e o Concílio no diário do cardeal Tucci, por Giovanni Sale

Através do diário do diretor de “Civiltà Cattolica” da época, padre Roberto Tucci, atualmente cardeal, que em razão de seu cargo foi recebido várias vezes em audiência por João XXIII, é possível confirmar, durante os três anos que durou a preparação do acontecimento, os temas que mais importavam o papa e as estratégias que realizou para dar um maior impulso ao futuro Concílio. […]

A primeira audiência aconteceu imediatamente após a nomeação do padre Tucci, como diretor da revista romana dos jesuítas. O encontro ocorreu em Castel Gandolfo, no dia 12 de setembro de 1959. A respeito disto, anotava o diretor: “Uma impressionante simplicidade e afabilidade que elimina qualquer sensação de coibição, e comove. Acolheu-me na porta e voltou a me acompanha quase até a soleira”. O Papa, indo além do protocolo, tinha ido ao encontro do jovem padre Tucci, que nessa época tinha 38 anos, e, permanecendo de pé, havia dialogado amavelmente com ele: maravilhou-se do jovem que era, falou-lhe dos jesuítas que havia conhecido e da obra que ele mesmo tinha escrito sobre as visitas que, em seu tempo, São Carlos Borromeo fez à diocese de Bérgamo.

Quase finalizando a audiência, escreve o jesuíta, o Papa “voltou a falar da seriedade e segurança doutrinal de nosso periódico, e mencionou o fato de que os bons padres jesuítas franceses de ‘Études’ também tinham deixado se influenciar um pouco pelo movimento de ideias inovadoras, quando era núncio em Paris. Menciona uma espécie de neomodernismo que às vezes, ‘pelo que me dizem’, é também introduzido no ensino eclesiástico: tudo se converte em problema e os jovens acabam questionando tudo”.

O papa fazia referência aos teólogos da “nouvelle théologie” condenada em Roma, nesses anos, e vista com suspeita em alguns ambientes católicos. De fato, muitos desses teólogos eram jesuítas: entre eles estavam os padres Lubac, Daniélou, Teilhard de Chardin, Rahner e outros. Ao contrário de seus colegas romanos da “Civiltà Cattolica”, os escritores da revista jesuíta parisiense sustentavam com entusiasmo esta corrente “novatrice”. […]

A audiência seguinte, que ocorreu cinco meses depois, ou seja, no dia primeiro de fevereiro de 1960, foi muito importante: nela o Papa falou longamente sobre o futuro Concílio. […]

“Mostrou claramente – registrava o diretor de “Civiltà Cattolica” – que ele vê o Concílio ecumênico em conexão com o problema da reunião com, ao menos, as Igrejas orientais separadas. Não se cria ilusões, mas se constata que o clima espiritual melhorou muito, desde os dias de Leão XIII […]. Falam-me para ficar atento, mas, como posso responder duramente a quem se dirige a mim de maneira tão amigável? Contudo, eu sempre tenho uma fresta de meus olhos aberta, para não deixar-me enganar”.

Imediatamente depois, o Papa falou da necessidade de atualizar a linguagem da teologia e a doutrina católica formulada ao longo dos séculos: “Na continuidade – segue o diretor – faz uma distinção bastante explícita entre o dogma propriamente dito, mistérios que é preciso aceitar humildemente, e as explicações teológicas”. […] Disse, além disso, que era necessário falar do inferno aos fiéis, no entanto, ressaltando “que o Senhor será bom com tantos”. Também acrescentou, em tom de brincadeira: “Certamente, todos podemos ir, mas digo a mim mesmo: Senhor, não permitirá que vá o seu vigário, não?” […]

Na audiência do dia 7 de junho de 1960, João XXIII se entreteve falando com o diretor da “Civiltà Cattolica” sobre a preparação do Concílio. Nessa data, a fase antepreparatória já estava concluída, e o papa já tinha nomeado as comissões encarregadas de redigir os esquemas que iria levar ao Concílio.

“O Papa tem a intenção – escrevia o padre Tucci – de envolver não apenas a Cúria Romana no esforço de preparação, mas toda a Igreja. Observa que muitas vezes, no exterior, as pessoas olham para a Cúria Romana como se a Igreja estivesse toda nas mãos dos ‘romanos’; há também tantas belas energias em outros lugares, por que não tentar envolvê-las?” […]

“[O Papa] admite – escrevia o jesuíta – que existiu certa resistência por parte dos cardeais [da Cúria] e que ele, por outro lado, não quer atuar sem eles, porque estão ao seu lado justamente para lhe ajudar no governo da Igreja. Prevê que agora começará uma luta bastante tenaz, porque os cardeais têm seus próprios secretários ou seus protegidos, que buscarão situar nas comissões e, certamente, não por motivos sobrenaturais […]. É o mal sutil da Cúria Romana: as prelazias, as ascensões […]. No entanto, ele também tende a aproveitar os estrangeiros, por isso, pediu a todos os bispos e núncios que redijam algumas listas com os nomes de pessoas adequadas para este trabalho”. A Igreja – concluía o Papa – de alguma maneira deve se adaptar aos tempos, e da mesma forma a Cúria Romana e a Corte Pontifícia também devem proceder.

Também mencionava sua condição de “prisioneiro de luxo” no Vaticano e o excesso de pompa e cerimonial que rodeiam a sua pessoa. “Não tenho nada contra estes bons guardiões nobres – confiou o pontífice -, mas tantas reverências, tanta formalidade, tanta pompa, tanta procissão me fazem sofrer, acreditem em mim. Quando [na basílica] me vejo precedido por tantas guardas, sinto-me como um detido, um malfeitor; ao contrário, desejaria ser o “bom pastor” para todos, ficando próximo das pessoas […] O Papa não é um soberano deste mundo”. Fala sobre como, inicialmente, incomodava-lhe ser levado na “sedia gestatória” [cadeira] através das salas, antecedido por cardeais muitas vezes mais anciãos e decrépitos do que ele (acrescentando, além disso, que nem sequer era muito segura, porque no fundo sempre se balança um pouco sobre ela)”. […]

Na audiência do dia 30 de dezembro de 1961, João XXIII expressou ao diretor da “Civiltà Cattolica” seu pesar e descontentamento por um artigo que o Santo Ofício havia encarregado ao padre Antonio Messineo contra Giorgio La Pira, por conta de suas posições em matéria política, consideradas demasiado indulgentes ou ingenuamente otimistas a respeito da esquerda. “Não se escreve desta maneira sobre um católico praticante e com justas intenções – disse o Papa ao padre Tucci -, mesmo que esteja um pouco louco e, às vezes, possua ideias que não estão bem fundamentadas doutrinalmente”. […]

Nesta mesma audiência, o Papa também falou sobre a situação política e a necessidade de que a Igreja abandonasse os velhos esquemas de contraposição ideológica, e trabalhasse para a reconciliação dos homens.

Lamentou-se das críticas que lhe eram dirigidas, em alguns ambientes eclesiásticos, por ter respondido a mensagem de felicitação enviada pelo presidente da União Soviética, Nikita Krusciov, e acrescentou: “O Papa não é um ingênuo, sabia muito bem que o gesto de Krusciov estava motivado por fins políticos de propaganda; mas não responder seria um ato de indelicadeza injustificada. A resposta, no entanto, estava calibrada. O Santo Padre se deixa guiar pelo sentido comum e o sentido pastoral”. […] Além disso, o Papa se queixou de que alguns detratores o acusavam de “espírito conciliatório” e disse que jamais tinha se “separado, nem sequer minimamente, da sã doutrina católica” e que quem o acusava, deveria apresentar as provas. “Incomodam-lhe também – registrava o padre Tucci – os ‘tipos zelotas’, que querem sempre atacar. Sempre existiram na Igreja, e continuarão existindo, e necessita-se paciência e silêncio!” […]

Falando sobre a política italiana, o Papa deu indicações muito precisas e difíceis para o diretor da “Civiltà Cattolica”. “O Papa deseja – escrevia padre Tucci – uma linha de menor compromisso nas questões da política italiana”. […]

O Papa também disse de forma tranquila, mas decididamente, que não apreciava muito o espírito militante, intransigente da revista e pediu que se adaptasse, tanto no estilo como nos conteúdos, aos novos tempos. Citando um comentário de um amigo seu, disse: “Os bons padres da ‘Civiltà Cattolica” por qualquer coisa choram e choram! E o que conseguiram?”[…] “É necessário ver o bem e o mal – comentou – e não ser sempre pessimistas sobre qualquer coisa”. […]

Nos últimos meses, antes do final da longa fase preparatória, João XXIII esteve ocupado lendo com grande atenção os esquemas redigidos pelas comissões, antes que fossem enviados aos padres conciliares. […] João XXIII, não muito satisfeito com esses esquemas, falou disto ao diretor da “Civiltà Cattolica”, na audiência do dia 27 de julho de 1962.

O Papa, registrou o padre Tucci, “falou-me da revisão que está fazendo dos textos conciliares. […] Ensinou-me algumas de suas notas à margem dos mesmos: [entre outras] as de um texto em que, numa página e meia, enumeram-se apenas erros, observando que seria necessário menos dureza. Disse-me também que teve que explicitar que era sua intenção revisar os textos, antes que fossem enviados aos bispos. Porém, inicialmente não havia levado-lhes em conta, razão pela qual alguns textos já haviam sido enviados sem que ele os tivessem visto”. […]

Voltando ao âmbito político, lembremos que nessa época, entre os católicos italianos, como também entre os próprios líderes da Democracia Cristã, havia um debate sobre a necessidade ou não de aceitar a colaboração dos socialistas de Nenni, no governo. Tal perspectiva […] era muito criticada pelo presidente da Conferência Episcopal Italiana, o cardeal Giuseppe Siri, e também por muitos prelados da Cúria Romana. Em primeiro lugar, pelo [cardeal Alfredo Ottaviani] pró-secretário do Santo Ofício. A administração estadunidense acompanhava a questão com grande apreensão, e pressionava o próprio embaixador na Itália para que fizesse o possível para impedir o alargamento do conjunto do governo à esquerda. Naquele tempo, muitos católicos consideravam que do ponto de vista ideológico e político, entre a posição dos socialistas e a dos comunistas na prática não havia muita diferença, sendo assim, aceitar a colaboração dos primeiros significava implicitamente acolher também os segundos.

“É preciso estar muito atentos – aferia o Papa ao padre Tucci – porque hoje os políticos, também os democrata-cristãos, tentam tirar da Igreja para sua própria parte e acabam utilizando-a para finalidades nem sempre altíssimas. […] Eu não entendo disto, mas francamente não compreendo porque não se pode aceitar a colaboração de outros que têm uma ideologia diferente, para fazer coisas boas em si mesmas, sempre que não se abdique da doutrina”.

15 Comentários to “O Concílio Vaticano II nas confidências do Papa João XXIII.”

  1. Está aí uma das grandes razões pelas quais estamos vivendo a maior crise na Igreja Militante, perdão, Igreja Peregrina, existem muitos que não gostam mais do termo Militante.

  2. Acho que ele tinha bom senso!

  3. Vejo intenção do Beato João XXIII como boa, mas não imune aos erros; creio que ele ultrapassou os limites em certos aspectos como protestantes envolvidos etc, mas isso não me faz ficar indignado, aliás, como ele próprio dissera “desde que não se abdique a doutrina”. É verdade que tudo virou uma lorota, e isso qualquer um pode ver; textos ambíguos, liberdades demasiadas, contradições teóricas etc, mas realmente, não creio que a intenção dele tenha sido essa. Conheço um pouco da história desse papa (há inclusive o filme), ele foi um homem humilde, simples, e não há como negar que ele realmente foi “Bem-aventurado”, e logo, quem sabe, santo. Agora, pesa-nos a saber que ele veio a falecer antes de ver o “fim da picada”; infelizmente, suas boas intenções foram desmontadas em liberdades ocultas, não do clero universal, ma sim regional, como a famosa Teologia da Libertação (que agora abrange área quase-universal), fruto pós-conciliar, de uma primavera errônea e má, oriunda de interpretações erradas dos textos, fugindo da margem estabelecida pelos seus convocadores.

    Se procurarmos encaixar o Concílio Vaticano II com os demais Concílios, veremos que não há contradição, ao menos que se exclua a Sagrada Tradição e a tradição litúrgica ( e não tradicionalismo) e também a modernidade ( e não modernismo). É claro que ainda haverá alguns erros e algumas coisas obscuras, mas para aqueles que tem bom senso e sabem discernir as coisas, respeitando a liturgia, a tradição, a Sagrada Tradição, o Sagrado Magistério, etc, não encontrarão dificuldades para serem a Santa Madre Igreja como ela foi, é e sempre será; edificada em São Pedro, e não em grupinhos, quer seja a FSSPX ( da qual eu simpatizo muito) quer seja a Teologia da Libertação ( ao qual, morte hoje e sempre!).

  4. “Adaptação aos novos tempos, mudar, mudar, mudar, rever, re-apresentar de maneira atual, mudar, mudar…”

    Um dia irmãos(as), um dia entenderei esse “espírito de mudança” generalizada que pairou na Igreja nos idos anos 60 do séc XX. Era uma sanha ( desculpe o termo!) em mudar que parecia que a Igreja tinha se tornado um museu à céu aberto.

  5. Nota-se a grande bondade e sensatez do beato João XXIII nestas confidências. Para fazer “coisas boas em si mesmas” pode-se, sem afrontar a doutrina, aceitar a colaboração de outros (não católicos) que tenham ideologias diferentes, “sempre que não se abdique da doutrina.” A Caridade é a Doutrina da Igreja, é, como dizia Santo Agostinho, o “Novo Testamento de Nosso Senhor Jesus Cristo”, e era nesta virtude que o Beato João XXIII se firmou para tratar com quem não era Católico. As relações da Igreja com os Comunistas deveriam firmar-se nessa virtude sobrenatural, que tem o poder e a capacidade de tudo transformar em Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim a Paz, que é uma boa coisa, pode e deve ter a colaboração de ideologias diferentes. O diálogo com os Comunistas teve o salutar efeito de os desarmar contra os Católicos, com essa abertura de João XXIII os Comunistas não teriam mais motivos para qualquer operação genocida, como o fizeram durante a Revolução Russa, que causou a morte ou martírio de mais de 200 milhões de pessoas. Ao contrário, as condenações do Comunismo, embora justas em si mesmas, seriam o pretexto querido dos Comunistas para a prática da guerra genocida e anticristã, razão pela qual o Beato João XXIII, inspirado pelo Espírito Santo, com iluminada Prudência, recorre ao remédio do diálogo para desestabilizar a expansão da violência ou carnificina Comunista. Sabiamente o Beato João XXIII desarma, por assim dizer, os Exércitos Comunistas, de tal modo que se não fosse o Concilio Vaticano II o mundo todo seria inundado por um mar de sangue. Pode-se dizer que muitos de nós, que temos descendência européia, etc., devemos ao beato João XXIII o estarmos existindo e vivos hoje. Beato João XXIII, ora pro nobis.

  6. Eu fico muito surpreso. Antes eu imaginava que o Concílio Vaticano II não teria feito a Igreja sofrer muito se ele fosse conduzido exclusivamente pelo Papa João XXIII, mas quando eu leio estas declarações, mudo muito de ideia. Toda a ideia do Concílio já tinha sido traçada pelo seu pensamento: Simplicidade na Liturgia, além também de simplicidade nos atos pontifícios extra-litúrgicos, fora da Liturgia; Ecumenismo; Diálogo com o mundo moderno, principalmente com as ideologias políticas liberalistas, pois a Igreja não deveria mais manter uma posição intransigente (Ex: Liberdade Religiosa); Diálogo e cooperação até mesmo com o comunismo, contanto que não haja relativismo da fé; Menos rigor com aqueles que praticam a fé, mas se complicam na hora de escrever sobre ela, etc.

    O que me deixou mais intrigado foi: “Então a visita a Loreto não foi a causa primária da viagem?”. Se assim foi, por isso que deu tudo errado.

  7. São Francisco de Sales nos deixou o excelente conselho de sempre considerar a melhor intenção no próximo, uma vez que só cabe a Deus julgar o íntimo dos corações. Se devo pensar o melhor do meu próximo, quanto mais não devo imaginar das intenções do Papa!

    Assim, é obrigação de qualquer católico que não pretenda usurpar do Bom Deus o juízo das intenções, considerar que João XXIII desejou o melhor para a Igreja. Agora, se foi mesmo o melhor, aí é outra história. Os frutos estão aí, caindo [podres] da árvore.

  8. Acabou com a guarda nobre e a guarda palatina só sobrando a Guarda Pontifícia Suíça. Imagine um príncipe sem seus soldados que o seguem. Até os presidentes mais comunistas, mais radicais não largam sua guarda.

    E quanto a destruição da sede gestatória, junto com as guardas nobre e palatina, fez com que o papado perdesse muito de sua luz para com o orbe. Eles também não gostam é da cerimonia latina mas do pula-pula e abana braço festivo dos shows que se fazem dentro da igreja e que alguns ainda teimam em chamar de “missa”, não é um estorvo.

    Aliás o clero que não gosta da pompa católica, de toda a beleza dos hábitos e paramentos, me recorda muito a passagem bíblica em que judas iscariotes criticou Maria quando esta usou o dinheiro para comprar um perfume caríssimo para Cristo, aduzindo que este dinheiro tinha que ser dado aos pobres, pois assim teria um fim mais “nobre”…

  9. Nota-se a grande bondade e sensatez do beato João XXIII nestas confidências. Para fazer “coisas boas em si mesmas”.

    Só Deus é bom em Si mesmo. Nada que uma criatura faça, diga, pense, é bom em Si mesmo, pois só Deus é o Sumo Bem. “Só Deus é bom e ninguém mais” Mc 10, 17-18.

    Obs1.: antes que me digam que estou usando a tática protestante citar um versículo para justificar o que digo, sugiro que leiam – ou melhor devorem, com o auxílio de um bom padre, se o encontrarem – a Suma Teológica.

    Obs2.: Sim, eu vi as aspas!

  10. Thiago Porto, a ideia de um CVII era um câncer que agiu na Igreja mais de 300 anos ANTES de João XXIII dar inicio nisso. Há declaraçoes da maçonaria em que eles diziam claramente que precisavam de algum papa simpatizante a ideia de um Concílio. Tiveram. A maçonaria e os comunas já tinha seus padres, bispos e cardeais dentro da Igreja, com a abertura do Concílio eles agiriam. Agiram.
    Um livro para vc entender bem a situação: O Derradeiro Combate do Demônio.

  11. Resumo: boa intenção não torna seguro que as consequências sejam boas de tudo aquilo que fazemos.

    O Papa era um homem bom, de reconhecidas e nobres virtudes, simples, modesto,etc. Infelizmente os Modernistas tomaram conta da situação e hoje nos encontramos nesse discursso do que fazer para a barca não afundar.

  12. Eduardo Gregoriano: Só Deus é Bom, mas assim como Ele comunica o ser às criaturas, também comunica a sua Bondade, assim como comunica a sua Santidade (“Sede santos, porque vosso Pai celestial é Santo”) e Misericórdia. Deus é comunicável e participável, na Eucaristia Ele se comunica ao comungante, fazendo dele um outro Deus (Cristo) em tal momento. O teu evangelho está errado, pelo menos a conclusão que se tirou dele: “Só Deus é bom e ninguém mais!” Essa conclusão não está muito bem formulada, creio que você se equivocou, pois depois que Deus criou todas as coisas “viu que tudo era bom, que tudo era muito bom” (cf. Gen.). Santo Tomás foi o maior defensor do “ser” das coisas, isto é, da “bondade” das coisas. Há um principio filosófico que ensina: todo efeito é proporcional à sua causa. Ora, Deus é Bom. Portanto, todas as coisas criadas por Deus são boas. As intenções do Beato Papa João XXIII não só foram boas como tiveram boas consequências. Graças à abertura, incompreendida dele, o mundo mais tarde, no Pontificado do Beato João Paulo II, pode assistir a queda do Comunismo, significada na queda do Muro de Berlim. Isto significa milhões de vidas salvas de uma possível guerra, que o Concílio Vaticano II teve a feliz ventura de adiar.

  13. Gerson:
    O Eduardo não disse que “Só Deus é bom” e muito menos: Só Deus é bom e ninguém mais”. Ele disse que “só Deus é bom em si mesmo”. E isto é a mais pura verdade. Existe uma diferença enorme. Ele recomendou bem: Leia a Suma teológica para entender isto.
    Quanto a “Graças à abertura, incompreendida dele, o mundo mais tarde, no Pontificado do Beato João Paulo II, pode assistir a queda do Comunismo, significada na queda do Muro de Berlim. Isto significa milhões de vidas salvas de uma possível guerra, que o Concílio Vaticano II teve a feliz ventura de adiar”, bem, eu absolutamente não entendi a sua lógica. Quer dizer que uma desgraça deixa de ser desgraçada por causa de um consolo que vem depois? O ladrão invade minha casa, rouba tudo que eu tenho, mas eu acabo concluindo que foi bom, porque então tive a “ventura” de colocar um alarme anti-furto na minha residência?

  14. Caros, nunca saberemos como estaria o mundo sem o concílio. Tendemos a crer que continuaria o mesmo, que as paróquias, as missas, os sacramentos, a sociedade, continuariam como eram antes.
    Entretanto, somente Deus sabe exatamente como estaríamos. Que nos baste confiar na sua Divina Vontade, que permitiu que o Concílio fosse realizado. Porventura alguém pode afirmar que não estaríamos em situação pior hoje?

    Algumas possibilidades:

    – Talvez, sem o concílio, muitos mais teriam abandonado a Igreja, e hoje somente um punhado de católicos se manteriam fieis. Nesse caso, a chance dos que nasceram nos pós-concílio (como eu) receberem o mínimo de educação católica seria ínfima.

    – Talvez, sem o concílio, muitos padres modernistas estariam celebrando missas inválidas, e nós as assistindo, já que não há como reconhece-las no Rito Tridentino, onde o Padre diz tudo em voz secreta; aliás, todos os abusos que ocorrem hoje nos permitem separar claramente os bons dos maus padres, coisa que seria impossível sem o Novus Ordo, por exemplo.

    – Talvez, sem o concílio, não seriam testados na Fé tantos que como nós dizem se manter fieis a Tradição católica. E Deus sabe se não seriamos hoje católicos tíbios ou mornos.

    Vejam bem, NÃO ESTOU DEFENDENDO O CONCÍLIO. Apenas quero lembrar que não podemos sondar os desígnios de Deus que permitiu que ele ocorresse. A nós, resta lutarmos pela Fé e pela Tradição, e rezarmos muito para não apostatar no meio do combate.

    E que venha o Triunfo do Imaculado Coração.

  15. Precioso esse diario do Cardeal Roberto Tucci, sabio e integro jesuita, hoje com 91 anos! Na verdade, essas confidencias servem para confirmar a coerencia do nosso Beato Joao XXIII ao pronunciar o discurso de abertura da Primeira Sessao do Concilio, no dia 11-10-1962:

    “Nos nossos dias, porem, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remedio da misericordia ao da severidade… A Igreja Catolica, levantando por meio deste Concilio o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mae amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericordia e bondade com os filhos dela separados”…