O corajoso Bispo de Xangai dá um comovente testemunho de fé.

Havia apenas uma razão para a sua objeção: seu pai, seu irmão mais novo e ele mesmo foram todos encarcerados por causa de sua Fé Católica. Ele não queria ver seu amado filho sofrendo a mesma dificuldade.

Por Geraldo O’Connell | Tradução: Fratres in Unum.com – Dom Thaddeus Ma Daqin está confinado no seminário de Sheshan, na periferia de Xangai, desde 7 de julho – o dia de sua ordenação episcopal. Ele está sendo efetivamente punido em prisão domiciliar já há 125 dias por ter anunciado sua intenção de abandonar a Igreja Católica Patriótica (CPA) – o órgão criado pelas autoridades comunistas para controlar a Igreja – e por dedicar-se em tempo integral ao seu ministério pastoral.

Dom Ma Daqin.

Dom Ma Daqin.

As autoridades chinesas consideraram a sua decisão um sério desafio ao seu sistema de controle sobre a Igreja. Eles o levaram na noite de sua ordenação episcopal e desde então ele está confinado no seminário, efetivamente, em prisão domiciliar.

Isolado do mundo – os seminaristas não tiveram permissão de voltar, embora, algumas vezes, alguns católicos consigam vê-lo — Dom Ma está privado da liberdade de ir e vir e dispõe de pouca liberdade de expressão, exceto com relação ao seu blog. Ele não pode vestir trajes ou usar sua insígnia episcopal. As autoridades querer quebrantar seu espírito e fazê-lo se retratar.

O Cardeal Zen tem reivindicado a sua libertação. O Cardeal Tong tem pedido diálogo com o Governo para resolver esse problema e instou os líderes políticos mundiais a prestarem atenção aos seus apuros. O Cardeal Filoni do Vaticano denunciou o fato de que ele está “segregado e privado de suas liberdades” e enfatizou a necessidade de diálogo de alto nível entre a China e o Vaticano para resolver este e outros problemas.

Em 3 de novembro, o bispo Dom Ma, publicou em seu blog o seguinte testemunho comovente sobre a sua “Fé de uma criança”. A UCA News o editou e traduziu do chinês para o inglês.

“Fé de uma Criança”

Por Dom Thaddeus Ma Daqin

Sinto-me grato por meus pais terem falecido cedo.

Meu pai faleceu quando eu cursava o segundo ano de teologia. Passei todas as férias de inverno ao lado de seu leito. Desde que entrei para o seminário, tivemos menos chance de conversar, diferentemente de quando eu era criança e ele costumava me contar muitas histórias. Ele ficou mais calado quando aprendi a estudar e ler. Então, ele ficou gravemente enfermo, sem muita força para falar; assim, foi a minha vez de sentar-me perto de sua cama e fazer-lhe companhia silenciosa.

Eu tinha que dar sinal de vida no início do novo semestre. Se eu tivesse escrito ao reitor, dizendo-lhe sobre o meu pai, estou certo de que ele teria me deixado ficar em casa um pouco mais. Porém, quando pensei naqueles seminaristas viajando de tão longe, vindos de outras províncias, percebi que não era justo que eu, uma pessoa da diocese local, prolongasse as minhas férias.

Meu pai pediu-me para ficar tanto quanto possível e eu voltei apressado para o seminário só na véspera do início das aulas. Na manhã seguinte recebi um telefonema da minha família: meu pai havia falecido às 4h. Corri de volta para casa e encontrei seu corpo envolto em roupas brancas.

Minha mãe sofria de um raro tipo de leucemia e vinha tomando medicação chinesa e ocidental por 10 anos. Assim que fui designado para a paróquia de Nanqiao, perto de Fengxian, sua saúde deteriorou repentinamente. O médico nos contou que ela tinha três meses de vida. Não foi fácil viajar de Fengxian, que fica na periferia de Xangai, de volta para o centro da cidade para visitar a minha mãe.

Nesse meio tempo, tive febre e fiquei hospitalizado com uma pneumonia atípica; eles queriam checar para ver se era SARS [Síndrome Respiratória Aguda Grave]. Minha mãe e eu fomos enviados para hospitais diferentes, porém, conseguíamos conversar por telefone.

“Daqin, não importa,” ela me disse. “Embora a cruz que Deus nos deu seja pesada, devemos ser capazes de suportá-la. O Deus misericordioso não nos daria uma cruz que não pudéssemos carregar”. Ela viveu mais três meses, e faleceu na festa de Cristo Rei.

Sou o mais novo de três filhos. Meus pais não queriam me ver sofrer e suportariam qualquer coisa por minha causa. Todos os bons pais do mundo fazem isso, não é mesmo? E os filhos reconhecem sua responsabilidade filial de tomar conta de seus pais somente quando eles falecem?

Minha mãe me apoiou quando decidi entrar para o seminário, mas meu pai opôs-se energicamente. Havia apenas uma razão para a sua objeção: seu pai, seu irmão mais novo e ele mesmo foram todos encarcerados por causa de sua Fé Católica. Ele não queria ver seu amado filho sofrendo a mesma dificuldade.

Monumento de Nossa Senhora de Sheshan – Catedral de Sheshan, Xangai, China. Foto: Reuters.

Monumento de Nossa Senhora de Sheshan – Catedral de Sheshan, Xangai, China. Foto: Reuters.

Mas eu persisti. Fui admitido em Sheshan, que, naquela época, era o maior seminário no país. Por determinadas razões, o seminário está temporariamente suspenso nesse momento. Os seminaristas de várias dioceses que estavam estudando teologia e filosofia aqui foram transferidos. Ainda assim, ele é um lugar sagrado no meu coração e acredito que também em muitos outros corações. Localizado em Sheshan, local de peregrinações mundialmente famoso, ele é um grande presente de Deus para Xangai e para a Igreja na China.

No dia seguinte eu estava sozinho em meu quarto, rezando o terço e rezando pelos falecidos durante este mês das Santas Almas do Purgatório, quando alguns dos outros saíram para a catedral a fim de assistir à ordenação diaconal.

Pensei nos meus pais e algo aconteceu comigo: senti-me muito grato por eles terem falecido tão cedo, porque eles não precisam se preocupar comigo. Eles foram honestos e sinceros durante todas as suas vidas, mas eles sofreram um movimento político atrás do outro. Somente as pessoas de sua geração podem verdadeiramente apreciar as lutas por que passaram.

Se eles ainda estivessem vivos hoje em dia, não sei quanto eles estariam nervosos e preocupados comigo! Mesmo quando católicos começaram a vir para me ver depois de agosto, as suas primeiras palavras eram sempre “o senhor foi espancado?” e, em seguida, mais provavelmente, “o senhor parece magro e emaciado.”

Às vezes, o que você experimenta em poucos dias, semanas ou meses pode ser mais do que você já experimentou em toda a sua vida. Ao testemunhar a dinâmica entre as pessoas e suas vicissitudes, crescemos e amadurecemos, crescemos para envelhecer gradualmente.

Mesmo assim “bebi chá” [uma metáfora por ser advertido pelas autoridades governamentais] muitas vezes e foi alertado para não ter quaisquer ilusões; meus pensamentos são livres.

As pessoas me perguntam: Por que eu não fui embora? Isso se deve por causa do que meu pai me disse quando insisti em entrar para o seminário e me preparei para o sacerdócio. “Se você está determinado a ir, não volte atrás e não desista quando você estiver no meio do caminho”, ele disse. Não hesitei em responder “é claro!”

Tenho mantido essa promessa até hoje. Vou mantê-la até o dia em que envelhecer, se Deus desejar que eu chegue até a velhice.

Essa é uma promessa muito pequena que um filho fez a seu pai. É esta promessa a fé de um filho humilde e frágil?

11 Comentários to “O corajoso Bispo de Xangai dá um comovente testemunho de fé.”

  1. Triste ver que um país que tem sofrido tantas catástrofes não acorda para Deus. Estamos no século XXI e a China sempre foi um país à parte do Cristianismo. No início da perseguição contra os cristãos na China, um descendente da minha família – o missionário Carlos Spínola, que havia entrado naquele país para evangelizar, Viveu de 1614 a 1618 escondido e com falso nome, pois corria o risco de ser morto, assim como a todos os que se converteram ao cristianismo. Estima-se que em 1614 já havia 300.000 cristãos naquele país, e o Pe. Carlos foi preso juntamente com várias pessoas que estavam em sua companhia, e permaneceram todos durante 4 anos na prisão em condições sub-humanas. Depois todos foram mortos em fogo lento.
    Hoje, em 2012, quase 1.400 anos depois, as perseguições contra os cristãos continuam, e a força da fé está cada dia mais forte. O sofrimento desses sacerdotes e do povo cristão na China é algo que precisa ser visto pelo mundo. É necessário que a Associação Internacional de Direitos Humanos tome uma atitude, ou a China deveria ser impedida de exportar para o mundo cristão. Quem sabe assim eles veriam seus altos negócios falirem, e deixariam de ser tão maus.

  2. Ao ler este testemunho,vejo o quanto a Igreja Católica Apostólica Romana é linda!!!!
    Fiel como JESUS foi fiel ao Pai na sua missão….

  3. Um herói!

    Os povos doutros continentes são campeões de fé! Que vergonha para o ocidente!

    O que o Papa e os defensores dos direitos humanos, inclusive os EUA e a OTAN histérica, pretendem dizer ou fazer a respeito? Nada? Com a China, ninguém mexe? Como fica a hipocrisia diplomática – a mesma coisa de sempre?

    Direitos humanos = bandeira marxista (com cubanos, norte-coreanos e chineses, ninguém mexe).

  4. Li atentamente as palavras de Dom Ma qin, e senti uma forte alegria na alma, pois a sua vida está direcionada ao Senhor Jesus.
    Fiquei pensando como seria ter a vida, numa tentativa, retaliada em atos e expressões! Penso, ainda, que morreria de paixão, se não pudesse falar o que penso e viver o que devo.
    ‘Misericórdia, Senhor! Sei que sou pequeno e miserável! Misericórdia, Senhor’!
    Passei a rezar pelo homem capaz de se entregar ao Deus máximo e Único. A desejar que haja Paz nos corações; que haja Amor nas emoções; que haja Deus nos cidadãos.
    Não tenho muito a oferecer, mas minhas orações nesse momento estão numa só direção: a Igreja da China e a Dom Ma qin.
    Rogo ao Deus da Vida, que permita à liberdade a esse homem, criatura e filho, que vive uma Esperança solidária na dor. Unificada na existência e sofrida no amor.
    Dai-lhe Senhor, toda a gratuidade de Teu Amor. Toda a ternura de Teu perdão. Toda Liberdade de herdeiro do Reino.
    Esse nome não poderei esquecer: Dom Ma Qin.
    Obrigado meu Deus por ser quem sou, fazer o que faço e amar a Ti, Senhor.

  5. Diante deste testemunho de Fé nada mais há a dizer,a não ser Rezar E Chorar!Estamos perante um mártir do séc.XXi(como aliás muitos outros,alguns dos quais só Deus conhece.Miguel Teixeira E Melo
    (Portugal).

  6. Será mais um confessor da fé? Que Nosso Senhor ajude este grande apóstolo.

  7. A China não dialoga com ninguém. Nem com o Papa. A força da oração é o recurso mais forte e viável em favor do cardeal. Mas também uma condenação explicita da Santa Sê seria bem útil. Ate memso excomunhão aos que pertencerem a esta tal igreja patriótica; sejam clérigos ou leigos.

  8. Nenhuma palavra sobre o comunismo, progressismo e relações do Vaticano com os governos comunistas.

  9. Neuza Maria Spínola, “quando mercadorias não cruzam fronteiras, soldados o farão” (Frédéric Bastiat).

  10. Podemos ajudá-lo nos unindo em oração por ele para que a força da sua fé mantenha acesa a coragem de ser um homem de Deus.

  11. Pela não consagração ao Imaculado Coração de Maria , a Russia espalhou o erro do comunismo. A China acolheu esse erro e quem paga com a vida são seus filhos.Que um dia esse mal possa ser destruido e desaparecer da face da terra!