O dia em que a ideologia foi escolhida como porta-voz do Papa.

Por Francisco Panmolle

A teóloga brasileira Maria Clara Lucchetti Bingemer, adepta da teologia de gênero e da libertação, foi uma das convidadas a apresentar  — pasmem! — o livro do próprio Papa Bento XVI. O evento se deu na última terça-feira, 20, na Sala Pio X, em Roma.

A Dra. Bingemer se notabiliza pela habilidade de escorregar entre a teologia da libertação, à qual permanece sempre fiel, e a doutrina da Igreja, a qual não refuta explicitamente. O que não torna o convite para discursar na apresentação do livro do Papa menos escandaloso. Enquanto, aqui no Brasil, a teologia da libertação vai perdendo o respaldo popular e definhando, seja por falta de vocações, seja por envelhecimento de sua intelligentia, os conselheiros do Papa encontram-lhe um refúgio à sombra do Palácio Apostólico.

À mesa, da esquerda para a direita: Paolo Mieli, presidente da RCS Libri; Pe. Lombardi, porta-voz da Santa Sé; Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura; Maria Clara Bingemer, teóloga da PUC-RJ; e Pe. Giuseppe Costa, SDB, diretor da Livraria Editora Vaticana.

À mesa, da esquerda para a direita: Paolo Mieli, presidente da RCS Libri; Pe. Lombardi, porta-voz da Santa Sé; Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura; Maria Clara Bingemer, teóloga da PUC-RJ; e Pe. Giuseppe Costa, SDB, diretor da Livraria Editora Vaticana.

As altas esferas vaticanas certamente não desconhecem que a ilustre teóloga foi uma das participantes do recente e escandaloso Congresso Teológico da Unisinos. Assim, esta senhora, que esteve há pouco mais de um mês juntando forças a Leonardo Boff, Jon Sobrino, Gustavo Gutierrez, Frei Betto et caterva, é indicada para apresentar o terceiro volume do livro Jesus de Nazaré – A Infância de Jesus do Papa Bento XVI. Em artigo intitulado como “Reflexões a propósito de um duplo aniversário”, ela se regozija por sua participação neste infeliz congresso e canta rasgadamente, entre delírios saudosistas às baladas das CEBs, homenagens a esses seus confrades “teólogos”, alguns das quais punidos pela Santa Sé.

Já se foi o tempo em que, aos ouvidos do Papa, tinham acesso homens da envergadura moral de um Cardeal Dom Eugênio Sales. Foi este purpurado quem retirou, em bom tempo, os seus seminaristas do ambiente ideológico da PUC dos jesuítas, onde a Dra. Bingemer é catedrática.

O estilo esquivo e a linguagem inexata (isto na mais benévola das hipóteses) ao qual nos referimos pode ser conferido nesta entrevista, em que a Dra. Bingemer afirma, entre outras asserções duvidosas, que “antes de tudo, Jesus é uma pessoa humana”, que São Tomás e Santo Agostinho, ou a interpretação de suas palavras — belo subterfúgio! –, seriam sexistas, que “Deus também é Mãe” e que a Trindade é… uma “comunidade de amor que se revelou também no feminino”.

Há mais amostras de seu pensamento: num artigo dedicado à visita de Bento XVI ao Brasil, ao qual intitula “A Igreja que Bento XVI encontrará”, ela anseia por “uma retomada mais vigorosa e explícita da opção preferencial pelos pobres, grande conquista das conferências de Medellín, em 68, e de Puebla, em 79”, à qual “a conferência de Santo Domingo, em 92, não apontou como prioridade”; além do que, propõe uma modificação “da própria configuração da Igreja e sua ação pastoral na América Latina. Muito centrada no clero e nos bispos, pôs como prioridade em Santo Domingo o protagonismo dos leigos”.

Como é óbvio, tais afirmações estão em total sintonia com a “eclesiologia libertadora”, que confunde o sacerdócio ministerial com o sacerdócio comum dos fiéis, além de pleitear uma instrumentação da Igreja, vista como meio de mobilização do proletariado em vistas da revolução social.

Em um outro artigo, bastante equívoco e merecedor de uma leitura atenta, “Crise e salvação na e da Igreja”, a Dra. Bingemer comenta uma entrevista concedida por Hans Küng. Digna de nota é a perspectiva da autora em sua análise: coloca-se como espectadora do debate entre Küng e o Papa Bento XVI, posicionando-se de forma tão neutral, que, na conclusão, se permite uma afirmação [quase?] ofensiva ao Romano Pontífice:  “enquanto o coração humano for fiel a Jesus de Nazaré, reconhecido e proclamado Cristo de Deus, a Igreja terá salvação [barbaridade!]. Ainda que entre todos os seres humanos espalhados pelo planeta existisse apenas o coração de Joseph Ratzinger…, ou o de Hans Küng…, batendo ao ritmo do coração amante de Jesus, Verbo Encarnado e salvador do mundo” [sublinhado nosso].

Enfim, a Dra. Maria Clara Lucchetti Bingemer se camufla mediante um tipo de dissertação descritiva que, beneficiando-se duma pretensa neutralidade, serve-se disso para pender sempre ao lado libertador. Esta dissimulação é especialmente daninha, pois encerra a violência revolucionária no disfarce de uma falsa e diabólica meiguice poética.

Restaria apenas uma pergunta: em que time jogam os conselheiros do Papa? Parece-nos que eles estão prestando um péssimo serviço à Igreja do Brasil e do mundo.

17 Responses to “O dia em que a ideologia foi escolhida como porta-voz do Papa.”

  1. Quando a gente acha que tem salvação aparece uma dessas… o Papa sabe disso, não é possível que não saiba… basta ver a lista de novos cardeais… tenho medo do futuro e do próximo conclave…

  2. E agora vamos mandar e-mail pra quem? Pro Vaticano? Só rezando mesmo.

  3. Muito obrigado pelos endereços. Já ia escrever sobre o livrinho da CNBB, agora já tenho mais um assunto. Quem precisar de tradução para o italiano de seus respectivos e-mails/cartas, estou à disposição.

  4. Bento XVI tem minha admiração, porém de vez em quando não sabe pra que lado ir. Resumindo: Muito indeciso… cambaleante. Quer agradar a gregos e a troianos.

  5. A Igreja de JESUS CRISTO confiada a homens passa por um momento de ataque muito grande em relação as verdades da fé. .Fomos convidados por esta mesma Igreja a viver o Ano da Fé, portanto tenho fé nesta verdade:….o inferno não prevalecerá sobre ela…

  6. Uma simples educação catequética de boa qualidade seria uma vacina contra heresias como a TL, o feminismo e outros marxismos.

  7. Bento XVI é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. Vendo que a igreja está dividida, agrada a uns, depois a outros. Dá uma rasteira num grupo aqui, depois dá outra num grupo acolá.

    Vivo, astuto, perspicaz. Um grande sábio.

  8. Rosilene, enquanto o papa age como diz, algo grave ocorre diariamente ALMAS DESPENCAM NO INFERNO!

  9. Será, Ana Maria? eu não acho que quem tenha a chance de se salvar, se perca por culpa de outros. Concordo com a Rosilene. O Papa não quer que ninguem se perca. Tenta atrair a todos para o caminho certo, sopra a mecha que ainda fumega. Talvez onde nós vemos “capacidade de escorregar” e “falsa neutralidade” (e eu também vejo assim), ele enxergue possibilidade de salvação, enxergue alguem que pode se salvar e trazer muitos com ele. Eu realmente acho que ele está enganado mas… prefiro tentar pensar o melhor dele, pois acho que é o melhor Papa que a Igreja podia ter agora. E, como o Rafael, também tenho medo do próximo conclave.

  10. E eu,boca aberta,enviei email para o Núncio e para o Bispo de São Leopoldo falando sobre o congresso herético que esta sra participou.Que situação!

  11. Desse jeito, mais 20 ou 30 anos e a maioria de nós estará em Couer d’Alene…

  12. Bento XVI está cercado por lobos. Desde o avanço da heresia modernista o Papa tem estado rodeado de lobos e mais lobos, foi um crescimento lento e paulatino que culminou no Concílio Vaticano II. Temo o futuro e um novo conclave, mas se Deus está conosco, quem estará contra nós? Também tinhamos tudo para temer o último conclave e o menos esperado clérigo foi eleito sucessor de Pedro, para a surpresa arrebatadora de todos. E em 07 anos temos a Liturgia Romana antiga novamente em vigor em toda a Igreja e as excomunhões levantadas dos bispos da FSSPX. Temos, pelo menos, a condenação no magistério ordinário da hermenêutica da ruptura. As celebrações papais da Liturgia renovada todas voltadas para a continuidade. Em 2005 quem imaginava isso?

  13. Vocês todos se dão conta de que estamos julgando conscientemente ou não o Vigário de Cristo? Não vou entrar no mérito da triste e indignante questão exposta aqui a partir do fato narrado: se a teóloga é ou não é isto ou aquilo, e por quê está aí apresentando o livro.
    Lembro-me do episódio de Noé dormindo desnudo sob o efeito do vinho e da atitude dos tres filhos ao vê-lo assim. Quem se atreve dizer que não vivemos um tempo pré apocalíptico? Os dois filhos que cobriram o pai caminhando de costas demonstravam muito respeito. Não quer dizer que aprovavam o pai. Creio que temos que rezar com muita fé e devoção face ao próximo conclave. A luta entre o Bem e o Mal se fará imensíssima!
    O mundo católico está brincando com alta tensão! Sejamos fieis, sem medo.

  14. Caiu está página em minhas mãos por acaso, mas vejo que o nobre escritor de tal artigo, possui pouca ou quase nenhuma informação sobre a história eclesiástica recente deste país. Exalta a figura do Eminente Cardeal Eugênio Sales e critica a CEBS.
    Por acaso se esquece que a CEBS foi criação do próprio Cardeal juntamente com o seu irmão de sangue, também bispo D. Heitor? (qualquer semi alfabetizado que procurar esta informação na internet a encontrará) Tudo bem que posteriormente o próprio Cardeal (preocupado com sua imagem ante Roma) combateu o engajamento político e a teologia (libertação) desenvolvida nestes grupos. Mesmo assim, poderia a CEBS em sua criação ter outra função a não ser exaltar e valorizar o protagonismo leigo e a decentralização do poder clerical? Gente por favor, quais repostas baratas vamos continuar a oferecer para o povo de Deus? Que a nossa fé seja ao menos um pouco razoável… Pois fé sem razão, é fé burra…

  15. “poderia a CEBS em sua criação ter outra função a não ser exaltar e valorizar o protagonismo leigo e a decentralização do poder clerical?”

    Na verdade, a única função das CEBs é promover a revolução gramsciana.

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