A desolação da vida religiosa pós-conciliar.

Este triste artigo não deve ser causa apenas de lamentações, mas de um renovado ardor em nossas orações pelas vocações: Senhor, dai-nos sacerdotes; Senhor, dai-nos santos sacerdotes; Senhor, dai-nos muitos santos sacerdotes; Senhor, dai-nos muitas santas vocações religiosas!

O último monge da Itália

IHU – O padre Francis Darbellay, 77 anos, cônego de Gran San Bernardo, Itália, ama as palavras francas e diretas. “No outro dia, quando deixamos para sempre a casa religiosa Chateau Verdun, houve uma festa. Estavam o bispo de Aosta, o presidente da junta regional, o nosso prepósito. Não me parecia que eu estava em uma festa, mas sim em um funeral. Depois de mil anos, nós, padres da Congregação dos Cônegos Regulares de Gran San Bernardo, deixamos o Valle d’Aosta e a Itália. Para nós, foi a morte na alma. Deixamos a terra onde nascemos, porque São Bernardo de Menton, nosso fundador, era arquidiácono em Aosta, quando lá em Mont-Joix ele construiu a hospedaria que depois assumiu o seu nome. Tínhamos quatro paróquias, o colégio Gervasone, a Ecole Pratique d’Agricolture d’Aoste, que ensinou a produzir queijo e vinho a milhares de jovens do vale. A casa religiosa Chateau Verdun era a nossa última defesa. Somos como o exército de Napoleão, que chegou até Moscou e depois foi obrigado a retroceder”.

A reportagem é de Jenner Meletti, publicada no jornal La Repubblica, 18-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto

O velho cônego não tem esperança. “O nosso prepósito, Mons. Jean Marie Lovey, líder da congregação, disse: ‘Se Deus quiser, voltaremos para o Vallée e para a Itália’. Eu não acredito. Não há mais vocações. Quando entrei eu, os cônegos eram cem. Agora, somos 30, e muitos estão em repouso na casa-mãe de Martigny, na Suíça”.

O padre Francis Darbellay também está em repouso. Foi o último prior de Chateau Verdun. “Eu tinha que partir para a casa-mãe de Martigny, mas eu pedi para ficar na Itália. Nasci na Suíça, mas sou valdostano [quem nasce em Valle d’Aosta] há 50 anos. Eu vivo na Prepositura de St. Pierre, juntamente com outros sete padres diocesanos em repouso, mas me sinto em casa. Ela também, que era uma casa-fortaleza, foi construída pelos cônegos de San Bernardo”.

Assim termina a história dos cônegos de San Bernardo, na Itália, e a hospedaria construída a 2.473 metros de altura – 200 passos depois da fronteira com a Suíça – também corre o risco de ser abandonada nos próximos anos. “Quando eu me tornei noviço”, conta Francis Darbellay, “havia comigo outros cinco rapazes que haviam se apaixonado por Cristo e pela montanha. Entre noviços e cônegos lá em San Bernardo, éramos cerca de 30. Dois anos de noviciado sem nunca descer ao vale. Era muito lindo. Acordávamos às 5h30, orações, café da manhã… Também fazíamos esportes, obviamente o esqui. Eu vivi os últimos anos em que a hospedagem ainda era aquela desejada por São Bernardo. Hic Christus adoratur et pascitur (Aqui, Cristo é adorado e alimentado), esse é o lema gravado nas nossas pedras. Aprendíamos a esquiar para poder socorrer os peregrinos na tempestade, levá-los ao convento e alimentá-los. O esqui não era o de agora. Para ganhar experiência, subíamos por uma hora e meia com as peles de foca e depois, em dez minutos, voltávamos à base. Sempre sobre a neve fresca, nunca em uma pista. Depois de cada tempestade, descia-se tanto rumo à Itália quanto rumo à Suíça para encontrar peregrinos ou viajantes perdidos na nevasca. Havia também os contrabandistas e em grande parte eram pessoas boas. Da Suíça, traziam sapatos, café, açúcar, cigarros e chocolate. Eram pais de família que, com esse trabalho, haviam criado seus filhos e construído casas. Isso até meados dos anos 1970. Depois, tudo mudou. Chegaram os novos contrabandistas que não pensavam em construir uma família, mas apenas em ganhar dinheiro rápido”.

Até o fim da Segunda Guerra Mundial, a hospitalidade era totalmente gratuita. “Na casa de Chateau Verdun, tínhamos uma verdadeira fazenda. Vacas, galinhas, porcos… Assim, podíamos abastecer a hospedaria de Gran San Bernardo e dar de comer aos cônegos e aos peregrinos. Na fazenda, também fazíamos roupas, porque lá não podíamos secar lençóis, hábitos e cobertores: o gelo e o vento os teriam despedaçado”.

Muitas coisas mudaram na colina de Gran San Bernardo. Em 1964, desde que foi aberto o túnel que une a Itália e a Suíça, não é mais necessário subir aos quase 2.500 metros de passagem. “Quem chega aqui”, conta o cônego Raffaele Duchoud, 52 anos, “não o faz mais por necessidade. Viajantes e peregrinos param para buscar uma cama ou um caldo, mas principalmente para viver dentro de um lugar do espírito”.

Os dias são marcados por momentos de oração. Matinas e Laudes às 7h15, Hora Média às 11h50, Missa e Vésperas às 18h15, Completas às 21h. “Eu não sei por quanto tempo conseguiremos resistir. O último noviço entrou há três anos. Desde então, o noviciado está deserto. Nós, religiosos, somos cinco ao todo: dois cônegos, um diácono permanente, uma oblata e uma aspirante oblata. Depois, há os empregados, que cuidam da cozinha e da hospitalidade, que chega a 140 pessoas”.

A passagem fecha no dia 15 de outubro de cada ano e reabre em junho. Conta o cônego Duchoud: “Sobe-se apenas com a força da panturrilha”, com as raquetes de neve. “No inverno, caem até 20 metros de neve, e se entra no convento só a partir do primeiro andar. Do lado italiano, caem muitas avalanches, mas o perigo também vem da neblina. Branca é a neve debaixo dos pés, branco é tudo ao redor, você não vê nada e é tomado pelo pânico. Essa é a ‘morte branca’, que tem afetado muitos viajantes. Há cerca de 20 anos, dois deles foram encontrados aqui perto. Estavam a 80 metros do convento e da salvação, e não se deram conta disso”.

Há também o necrotério, atrás da grande hospedaria. “Aqui em cima não se podia enterrar os mortos, porque debaixo de 30 centímetros de terra está a rocha. Então, fazia-se o funeral na igreja, usando um único caixão, e depois o corpo era retirado do féretro, amarrado a uma tábua e posto de pé, apoiado ao muro atrás do necrotério. Os corpos aqui em cima não se decompõem, mas são mumificados. Assim, algum parente, meses ou anos depois, podia reconhecê-los. Havia uma pequena janela que permitiu ver esses corpos à espera da eternidade, que depois de décadas se tornavam pó e caíam no chão. Agora, muramos esse lugar”.

Os cães de San Bernardo – ainda há 11 – também acabaram em um museu. Com oito euros, é possível entrar nas salas que contam a história milenar da hospedaria e depois se passa para o canil. “Eu vou fazer um deles sair da casinha, assim você pode acariciá-lo”. Cabras, águias, lebres brancas e marmotas embalsamadas, quadros e estampas que contam os séculos heroicos, com os cônegos com a túnica preta que enfrentam as tempestades para salvar os perdidos, e os cães que encontram mulheres, homens e crianças debaixo das avalanches.

O Papa e os famosos cães de São Bernardo.

O Papa e os famosos cães de São Bernardo.

A História passou por este lugar. Breno com os seus bárbaros, em 390 a.C., depois Aníbal com os elefantes em 218 a.C. Napoleão – assim contam os painéis do museu – atravessou a passagem em maio de 1800 com 40 mil soldados. Os cônegos lhe forneceram 21.724 garrafas de vinho, 3.498 libras de queijo, 749 de sal, 400 de pão, 1.758 de carne, 500 lençóis… Tudo por um valor de 40 mil francos. Receberam apenas 18 mil e somente cinco anos depois.

“Uma vez”, conta o cônego Raffaele Duchoud, “aqui em cima também havia uma pequena estrebaria, com porcos e vacas. Se o inverno era muito longo, o nosso açougueiro punha-se a trabalhar”. Agora, existem os congeladores, e, acima de tudo, o refeitório dos religiosos precisa servir apenas cinco pessoas. Mesmo os cães de San Bernardo são enviados para invernar em Martigny. “O inverno não nos assusta mais. Temos lenha e energia elétrica. O que nos fazer sofrer é apenas a absoluta falta de vocações”.

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9 Comentários to “A desolação da vida religiosa pós-conciliar.”

  1. Quase choro ao ler este texto. Possa Deus trazer a nós um colírio para tal desolação…

  2. A secularização da sociedade, o alto consumismo, o egocentrismo, o isolamento, a falência das família e das tradições… quantos e quantos motivos para atestar esta tamanha falta de vocações. Será que tem haver com a mudança tecnológica e a globalização ou tem haver com os erros mais claros praticado pelo clero, onde muitos que apenas vêem a religião como forma de ter como sobreviver, agora tão copiado pelo protestantismo ( lê-se pentecostalismo) e por nós católicos tão criticados. Deus sempre opera milagres no coração dos que creem! Mas como o próprio Jesus diz, segundo São Lucas: ” Quando o Filho do Homem vier, haverá fé sobre a terra?”

  3. Muito triste mesmo. Oremos com ardor pelas vocações que a Igreja e o mundo precisam.

  4. Um sentimento de muita revolta me invade… Como diz o blog Rorate Caeli, “as luzes se apagam por toda a Europa”; e olha, aqui, não tardará… E há ainda, quem diz que a igreja está viva.

    Até quando, Senhor?

  5. É lamentável!!!! “Senhor dai – nos muitas santas vocações religiosas.”
    Um abraço,
    Ana maria

  6. Triste e lamentável essa situação, porém admirável a franqueza do Pe. Francis Darbellay! Penso que, quando as coisas não estão bem, é necessário reconhecê-lo para encontrar uma solução.

    Aqui no Brasil, muitos conventos e mosteiros também passam pela mesma situação.

    Sinceramente só um milagre para atrair os corações dos jovens de hoje para a vida sacerdotal e religiosa. Os jovens de hoje só querem saber de festas, baladas, bebedeiras e todo tipo de diversão imoral. É um hedonismo e materialismo vergonhosos, pois todos são batizados e não deveriam viver em tamanho abandono da fé e das virtudes morais e cristãs.

    Uma das coisas que mais corroem uma vocação religiosa é a falta de castidade. A esse propósito, gostaria de indicar a leitura de um artigo que publique em meu blog e do qual cito esta parte:

    “Ora, a força vital do Cristianismo é o amor a Jesus Cristo, a devoção completa a Cristo como nosso chefe e nosso Deus. E não é sonho poético, é uma tremenda realidade – e tanto hoje como era nos dias da primeira Igreja. Nossos pagãos modernos O odeiam tanto quanto os antigos, e seu ataque aos seguidores de Cristo é o mesmo. Hoje tentam, ainda mais furiosamente do que antes, destruir nossa castidade, porque eles sabem se conseguirem fazer isso podem derribar todo o nosso código moral e se destruírem o nosso código moral, nossos dogmas terão bem pouca força. É este o plano: não se atrevem a pedir que neguemos a fé em Cristo; mas de fato procuram imiscuir o liberalismo sexual em nossas escolas, por figuras indecentes em nossas telas, livros e revistas obscenos nas nossas mãos. É uma história muito velha. Os romanos tiveram o mesmo plano há dois mil anos.” Gerald Kelly, Juventude, Sexo e Moral, Editora AGIR, p. 152-153.

    http://alexbenedictus-et-patensis.blogspot.com.br/2011/08/castidade-por-amor-cristo.html

    Mas, por mais desesperadora que seja a situação, ela pode ser revertida ou sanada. A solução não é nada fácil, pois passa pelo caminho da penitência e da oração perseverante, conforme indicado por Nossa Senhora de Fátima.

    Quando as pessoas abandonaram a idolatria do prazer, do dinheiro e todas as outras formas de idolatria, as coisas começarão a mudar para melhor.

  7. Se eu pudesse pagaria a passagem de avião para “Carmelitas Eremitas” e frei Tiago d S.José para Chateau Verdun -Itália.

  8. Que história triste. É de cortar a alma.
    Mais um farol da Igreja se apagando. Quem o apagou? Quem foi o responsável por escassear e secar as vocações?
    Eis aí mais um fruto do Concílio!
    Mons. Lefebvre tinha percebido a causa muito antes que ela começasse a produzir seus frutos podres.
    Tá tudo lá: “Acuso o Concílio”! (disponível na Internet)

    “Quando o Filho do Homem voltar, acaso encontrará fé sobre a terra”? (Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o testemunho de São Lucas – Lc 18,8)