Tempos de confusão.

Retransmitimos a mensagem recebida dos amigos da Confraria de Nossa Senhora do Carmo.

Por Frei Tiago de São José

Julguei oportuno dar uma satisfação a tantas pessoas que, de boa fé, investiram material ou espiritualmente no projeto desta comunidade religiosa que estivemos organizando na cidade de Atibaia, Diocese de Bragança Paulista. De fato, não poucos têm me questionado: por que insistir na celebração da santa missa em latim, segundo o uso antigo, comprometendo a fundação deste Mosteiro e um trabalho de 11 anos até chegar ao extremo de ser expulso deste lugar onde vivemos? Em primeiro lugar, quero deixar claro que desde o início da minha vocação sacerdotal, fui muito tocado pelo mistério do santo sacrifício da missa, segundo a forma tradicional. Nunca havia me interessado pelo sacerdócio, antes de conhecer a profundidade deste rito.

Fui ordenado em 2000 com o anseio desta missa no coração, porém, nunca pude celebrá-la. Vim para esta diocese em 2002, pouco depois de ordenado, buscando participar de uma comunidade religiosa na qual pudesse viver um estilo de vida austero e voltado para a oração. Não vi outra forma melhor de ajudar a Santa Igreja. Depois de 5 anos, fiz o pedido de incardinação que não foi contestado pelo nosso Bispo, Dom José Maria. Se o direito canônico fosse observado, desde esta ocasião, eu já estaria incardinado nesta Diocese de Bragança. Ainda mais que Dom José confirmou todos os direitos que recebemos de Dom Bruno, ou seja, de usar o hábito próprio e receber vocações.

O cotidiano das irmãs no ramo feminino da comunidade fundada por Frei Tiago.

Quando foi publicado o Moto Proprio Summorum Pontificum em 2007, tive muita alegria, porque entendi que o Santo Padre nos restituía a Santa Missa no seu uso antigo, nunca abolida, mostrando que isso não ofenderia a Constituição Sacrossanctum Concilium sobre a liturgia, do Concílio Vaticano II. Ao contrário disso, traria o benefício de suscitar uma melhoria nas condições deprimentes que a liturgia celebrada segundo o Missal de Paulo VI havia atingido em toda parte. Entretanto, ainda celebrávamos somente em âmbito privado, esperando a regularização deste uso, o que aconteceu pela instrução Universæ Ecclesiæ. Ali se determina o direito de uma comunidade religiosa usar exclusivamente o rito extraordinário, uma vez que assim decidirem os seus membros. Daí, com autorização de Dom José, começamos a celebrar.

Nunca entramos em polêmicas sobre o Missal de Paulo VI, nem buscamos criticar os outros. Nossa única intenção foi confirmar as próprias palavras do Papa Bento XVI, mostrando que a liturgia segundo o missal de 1962, realizada com zelo e respeito, ainda hoje pode ser uma fonte inesgotável de graças espirituais para toda a Igreja. Ainda mais porque sempre procuramos formar bem os fiéis para uma participação ativa e frutuosa do mistério eucarístico, como orienta o Concílio Vaticano II. E não foram poucos os sacerdotes que, edificados pelas nossas celebrações, me disseram que passaram a celebrar com mais piedade e amor em suas paróquias.

Vendo estes frutos bons, discernimos, nós, irmãos e irmãs eremitas da Virgem Maria do Monte Carmelo, que nossa missão na Igreja estaria vinculada a esse compromisso: realizar uma Eucaristia que manifeste toda a sacralidade e a força que lhes são próprias. Ainda mais pela natureza do nosso carisma monástico que busca haurir na liturgia toda sua razão de ser. Assim, depois desse longo processo, optamos por celebrar a liturgia tradicional em nosso Mosteiro.

Estamos tendo, contudo, que pagar um preço muito caro. Isso, não só pelo lugar e as coisas materiais que perdemos, inclusive as nossas casas que nós mesmos construímos com tanto sacrifício, mas, também, pelos amigos que aqui teremos que deixar. Admito que, sem nunca ter faltado com o devido respeito ao nosso Bispo, na nossa fraqueza humana, ficamos ressentidos por ele não nos ter poupado de um tão doloroso exílio.

Esperamos, em Deus, que logo sejamos livres deste sentimento, e que possamos continuar nossa caminhada, sempre em plena comunhão com o Santo Padre, o Papa e com toda a Igreja.

Em resumo, digo isto: apenas nos recusamos a voltar às celebrações segundo o Rito Ordinário em português, por acharmos que os documentos do Papa Bento XVI nos davam este direito. Se isso for uma “desobediência formal”, peço a Deus que me perdoe, mas, não entendo, pois, o que aprendi é que devíamos obedecer ao Papa… Entendo sim que, em nossos dias, há muita tolerância com aquilo que não é bom e há muita repugnância daquilo que sempre foi católico…

Que a Virgem do Carmo nos ajude!

Fr. Tiago de S. José, Carmelita Eremita.

24 Comentários to “Tempos de confusão.”

  1. Frei, onde poderemos encontra-lo no Paraguai?

  2. Que esse senhor bispo pense nos Novíssimos do Homem,ponha a mão na consciência e volte atrás em sua lamentável decisão.

  3. Penso que assim como o Padre frei Tiago sente o chamado para a santidade especificamente amando a liturgia que muitos santos conheceram e amaram, também existe a necessidade por parte de muitos fiéis , que Deus mesmo suscita, de participar e sentir a mesma ânsia pelo sagrado. Poder estar mais perto de Deus como ele mesmo nos chama é um direito do fiel. Bispo nenhum poderia tirar isto de ninguém, pois é Deus mesmo quem dá.
    Infelizmente posso dizer que não temos nada parecido em nossa diocese e que muito desamparados ficaremos. Não termos o direito de manifestar a nossa fé dentro de uma igreja me é absurdo.
    Comungar de joelhos e na boca, usar véu, precisar de silêncio, parecem coisas naturais mas impossíveis de serem vividas por aqui.
    Se eu pudesse ser ouvida pelo Bispo eu diria, peço humildemente que encorajes muitos padres para seguirem este exemplo, pois o que é bom pode e deve ser exemplo. Se não for ouvida pelo pastor da Diocese, tenho certeza que serei pelo meu Pastor, três vezes Santo.
    Ó meu bom Jesus olhai por nós e nos concede a graça de santos pais na fé, assim como o Padre frei Tiago.

  4. Tempo bicudo este nosso onde o certo vira errado e o errado vira certo.

    Valha-nos, Deus, Nosso Senhor, livrai-nos de bispos toupeiras e mandai-nos mais Santos Sacerdotes como Frei Tiago.

  5. Tristes tempos.
    Que nossa confiança no Senhor seja maior.

  6. Apenas duas coisa e somente essas duas coisas podem fazer uma pessoa preferir a Missa nova à Missa de sempre: (i) ignorância; ou (ii) falta de fé.

  7. “Entendo sim que, em nossos dias, há muita tolerância com aquilo que não é bom e há muita repugnância daquilo que sempre foi católico…”(2)
    Solidário!

  8. O que ainda não ficou claro (embora eu já saiba a resposta extra-oficial), é que o Frei e seus religiosos tradicionalistas foram expulsos e o lugar será deixado às moscas ou será utilizado por outros “religiosos” que abandonando a tradição seguem os passos do CVII?

    Alguém poderia me dizer o que será feito do convento?

  9. Posso estar errado, mas acredito que um padre não pode simplesmente deixar de celebrar no rito ordinário e celebrar exclusivamente a forma extraordinária sem uma autorização. A missa tradicional é a forma extraordinária do Rito Romano, logo, não é a regra, mas a exceção. Tanto que as paróquias não podem simplesmente substituir a missa nova pela missa antiga.

  10. Então, a desobediência para o Bispo D. Colombo é obedecer ao Papa?
    Gisele, se eu pudesse ser ouvida pelo bispo eu não perderia meu tempo, se a tal desobediência for realmente isto, eu gritaria para os ouvidos do Papa. Aliás, impossível não é.

    Registro meu respeito por este Carmelo Eremítico e peço ao Frei Tiago, caso leia esta mensagem, que transmita meu amor às queridas irmãs…fico a pensar na aflição que tudo isto causou e causa a elas e a todos vocês. Mas, não foi teu desejo, Frei Tiago? Seguir e amar Jesus Cristo? E elas, esposas de Nosso Senhor, não desejaram segui-l’O? Eis a prova, eis a tribulação. Bispo nenhum poderá exilá-los do Amor que a Santíssima Trindade derrama sobre vós…e este Amor é o fundamento da vossa casa.

    Seguirei em oração pelo Carmelo Eremítico e pelo Bispo D. Colombo. Manterei o contato pelo e-mail do mosteiro.

    Em Cristo,

    Mariana Chiuso

    *******

    1 Tessalonicenses 1

    2 Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações,
    3 lembrando-nos sem cessar da vossa obra de fé, do vosso trabalho de amor e da vossa firmeza de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai,
    4 conhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição;
    5 porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo e em plena convicção, como bem sabeis quais fomos entre vós por amor de vós.
    6 E vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, tendo recebido a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo.
    7 De sorte que vos tornastes modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia.
    8 Porque, partindo de vós fez-se ouvir a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e na Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se divulgou, de tal maneira que não temos necessidade de falar coisa alguma;

  11. Acho que o frei não deveria bater de frente com o bispo, por mais que ele estivesse com a razão, o bispo é quem tem o poder, e quando a onda é múito maior que nós, devemos mergulhar para que ela passe por cima, as vezes é preciso ceder, mesmo que seja injusto, por um bem maior, o Senhor ja disse: “sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas.”

  12. “Apenas duas coisa e somente essas duas coisas podem fazer uma pessoa preferir a Missa nova à Missa de sempre: (i) ignorância; ou (ii) falta de fé.”

    Podemos perguntar ao Papa Bento XVI?

  13. Meu Deus!

  14. Ao mosteiro minhas orações, aos religiosos e ao Frei todo meu apoio e uma palavra: Sigam firmes em frente na sua missão e vocação, todo o trabalho não foi perdido, pelo contrário, a de se morrer para que a semente dê frutos mais abundantes, veja como está a petição, muitas pessoas assim como o senhor que amam a missa no Rito Antigo lamentam por tanta injustiça e rezam para que o bispo da Diocese mude sua posição em obediência ao Santo Papa, à Santa Igreja e enfim, à Deus. No mais, lamentamos que mais uma região ficará sem a missa Antiga, uma benção tão grande para os que a conhecem e uma perda incalculável para a cidade de Atibaia e região. Deus abriu as águas do mar vermelho para Moisés, abrirá essa “onda” também, porque o Senhor é o nosso Rochedo, e Nossa Salvação.

  15. Prezado Vitor,
    A nomenclatura ‘extraordinária’ indica que o rito tradicional seria uma exceção liberalizada no âmbito da universal da Igreja. Mas conforme o Summorum Pontificum e a Universæ Ecclesiæ – apesar de exceção – não é vedada celebração exclusiva do rito tradicional, por um sacerdote, ou uma paróquia. Simplesmente torna-se livre a sua celebração, conforme algumas condições ali descritas. O fato é que há uma tal fechamento da parte dos bispos, que muitos de nós fiéis acabam achando que a liberação contida nos documentos do vaticano não é tão ampla. O que está havendo no mundo inteiro, com poucas exceções, é a desobediência [ilegal] das autoridades eclesiásticas, às vezes expressa, às vezes velada e sorrateira, tolhendo o uso do rito tradicional. Sabotam com crueldade quaisquer sacerdotes interessados em rezar a missa de sempre, ainda que não seja exclusivamente.

  16. Quem sabe o Bispo Dom Fernando Guimarães, de Garanhuns, dos poucos verdadeiramente católico, quiçá o único, não pode interceder a favor de Frei Tiago, ou arrumar-lhe um local em sua Diocese? Será que não caberia uma ação do Frei Tiago contra a Diocese para ser ressarcido das inúmeras benfeitorias que realizou no local e que serão usurpadas pela Diocese para uso dos progressistas/comunistas? Lembrei-me do episódio de expulsão envolvendo o Mosteiro da Luz de Frei Galvão. Rezemos, rezemos, rezemos e ofereçamos sacrifícios por Frei Tiago e sua obra.

  17. Vivemos tempos em que é necessário muito bom senso. De todas as partes, do bispo, dos padres e nossa. É apenas isso que falta em muitos casos, bom senso. Os Franciscanos da Imaculada são um bom exemplo disso vivendo sob as ordens de um grande lobo em Anápolis. Portanto, se falta bom senso de um lado, tem que sobrar do outro.

  18. Tenho dó deles, mas : ”Quem quiser me seguir,pegue sua cruz e me siga”
    Mas acima de tudo os admiro por não terem renunciado á VERDADEIRA MISSA!
    Enquanto ao Bispo(que muitos acham que todos os bispos são santos e que podem tudo) digo á ele que vai pagar caro,não na terra,mas ”No lugar onde vai haver muitas lágrimas e ranger de dentes!”

  19. Entendo sim que, em nossos dias, há muita tolerância com aquilo que não é bom e há muita repugnância daquilo que sempre foi católico… (3)

  20. Muitos se perguntam o que acontecerá com o local onde está o mosteiro, qual uso se fará dele, etc. Eu arrisco um palpite:
    Vão fazer um curral para mandar pra lá as vacas e bois usados na “missa” sertaneja da Canção Nova e/ou uma escola de “formação” para os novos jumentos da Teologia da Libertação e/ou RCC.

  21. Vitor,
    Tratando-se de ordens religiosas, a Universae Ecclesiae permite que sejam utilizados exclusivamente os livros liturgicos em vigor em 1962.

  22. Amigos do Fratres façamos uma campanha pró este FRei e enviemaos a Roma, por favor!

  23. O que era dúvida, agora não é mais. Claro que a maioria já imaginava que era esse o motivo, mas ainda vinham aqui uns e outros dizendo que “o bispo tem razão”, “que a Igreja não erra” (qual Igreja? os bispos anteriores aprovavam, esse não quer mais… a “igreja” é a vontade do bispo do momento mesmo quando em discordância com as orientações do Papa que permite a celebração em rito Tridentino?). Tem gente que para se mostrar obediente (e aproveitar a aparente oportunidade de repreender os outros) passa por cima da lógica e adere a um legalismo praticamente insano. Ou então são infiltrados.

    A situação é simples, o bispo não aceita a presença de uma comunidade que possui um carisma e uma identidade tradicional em sua diocese (em oposição aos decretos do Papa que assegurou esse direito aos padres e aos fieis, diga-se) porque ela não está de acordo com a linha pastoral escolhida por ele. Quis fazer o frei mudar de posição, o frei não aceitou por entender que isso seria destruir a identidade do eremitério, daí além de ser contrário ao tradicionalismo do mosteiro levou para o lado pessoal a “desobediência”, a “intransigência”.
    O que eu não sabia era que os religiosos em geral viviam em tamanha insegurança dentro da Igreja segundo as normas canônicas.

  24. Ao que parece o lugar será dado à turma dos Arautos, cuja igreja foi elevada a Basílica Menor, entregue pelo Bispo Dom Sergio com os paramentos dos Arautos. Entenderam? Sai o Frei, entram os Arautos.