O “o que” dos “Vatileaks”.

Da coluna do dia 4 de janeiro de John Allen Jr:

O “o que” dos “Vatileaks”

O assunto mais interessante referente ao Vaticano em 2012 foi o escândalo dos “Vatileaks” [vazamentos de informações do Vaticano], alimentando imagens de lutas pelo poder e intrigas palacianas ao estilo do “Código Da Vinci”. Ele também consolidou as impressões de que o papado de Bento XVI pode ser um triunfo em termos de ensino, mas também é, até certo ponto, uma bagunça administrativa, fazendo com que seja provável que a governança seja um dos critérios de votação da próxima vez que os cardeais elegerem um papa.

Surpreendentemente, o que dominou a atenção foi o “quem” e o “porquê” desses vazamentos, e não o “o que”. O que exatamente ficamos sabendo da onda de documentos secretos que fluíram da Santa Sé?

Em parte, isso se deve ao fato de que alguns desses documentos eram de importância secundária ou apenas francamente tolos. (Lembram-se da suposta trama para assassinar o papa? Vamos falar sério: mesmo que você estivesse disposto a acreditar que um cardeal do século XXI conspirasse para assassinar o pontífice, você acha, honestamente, que ele discutiria isso durante um jantar de negócios em Beijing?)

Outros documentos, entretanto, eram bem mais sérios e revelaram algumas coisas que vale a pena saber.

Agora sabemos, por exemplo, que o Pe. Rafael Moreno, secretário privado do falecido Pe. mexicano Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, tentou informar o papa João Paulo II, em 2003, a respeito de acusações feitas contra Maciel, mas o papa “não quis ouvi-las, não acreditou”. (Maciel acabou sendo condenado, em 2006, a uma vida de oração e penitência por causa de atos de má conduta sexual e financeira.)

Também sabemos que um destacado jornalista italiano acusou diretamente tanto o cardeal secretário de Estado quando o editor do jornal do Vaticano de orquestrar uma conspiração contra ele, a qual, alegou o jornalista, incluía a falsificação de um documento jurídico. Sabemos também que o líder do movimento Comunhão e Libertação escreveu uma carta pessoal ao papa, em março de 2011, para acusar os dois arcebispos anteriores -de Milão, os cardeais Carlo Maria Martini e Dionigi Tettamanzi, de promover uma “ruptura” na fé e “uma espécie de ‘magistério alternativo’ a Roma e ao Santo Padre”.

O que talvez seja o mais importante é que ficamos sabendo que profundas preocupações circularam no Vaticano com a má administração financeira e corrupção. Os documentos vazados incluem um extenso memorando de um ocupante de um cargo funcional cujo nome não é mencionado, presumivelmente da Prefeitura de Assuntos Econômicos, escrito na primavera de 2011. Ele assinala uma série de supostos problemas, incluindo o ato de ignorar o sistema interno de controle mútuo do próprio Vaticano, a “desmoralização” de pessoal e a nomeação de pessoas “que carecem da competência adequada”.

A conclusão é inequívoca: “As situações problemáticas são numerosas e de extrema gravidade, principalmente porque poderiam ter efeitos devastadores no futuro, mesmo que agora não possam ser percebidas e tudo pareça estar bem. Meus superiores diretos, com que falei repetidamente, não creem que seja oportuno fazer qualquer coisa por enquanto. Eles dizem que nosso principal ponto de referência é o secretário de Estado, só que em muitos casos o problema é justamente ele. Minha consciência exige que eu apresente essas questões ao Santo Padre.”