Renúncia, saúde e Vatileaks. Em Roma, há quem lamente a decisão do Papa.

Por Fratres in Unum.com – O anúncio do Papa Bento XVI, na segunda-feira, 11, de que suas “forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro”, deixou o mundo todo boquiaberto. Segundo o Sumo Pontífice, “para governar o barco de São Pedro e proclamar o Evangelho, é necessário tanto força da mente como do corpo, o que, nos últimos meses, se deteriorou em mim numa extensão em que eu tenho de reconhecer minha incapacidade de adequadamente cumprir o ministério a mim confiado

Mas, afinal, qual é o histórico e o estado de saúde atual do Pontífice?

AVC, problemas cardíacos, de próstata e de vista.

Sábado, 16 de fevereiro de 2013: Bento XVI recebe o primeiro ministro italiano Mario Monti.

Sábado, 16 de fevereiro de 2013: Bento XVI recebe o primeiro ministro italiano Mario Monti.

Em 1991, Ratzinger sofreu um derrame cerebral (AVC), que temporariamente afetou sua visão; dez anos mais tarde, sofreria um outro derrame, tendo se recuperado plenamente nos dois casos.

Seus problemas cardíacos também são conhecidos de longa data, tendo que controlar continuamente sua pressão arterial por medicamentos. De acordo com o jornal Il Sole quotidiano, há pouco menos de três meses e no mais absoluto sigilo, Bento XVI foi operado do coração na clínica Pio XI, na via Aurélia de Roma, para a troca de bateria de um marca-passo. Aparelho, diga-se de passagem, que até então ninguém sabia que o Papa possuía. A intervenção foi bem sucedida e confirmada nesta semana pelo porta-voz da Santa Sé, Padre Federico Lombardi. O Papa se recuperou normalmente, nunca faltou a um compromisso do Angelus dominical, tem demonstrado sua habitual serenidade e boa capacidade de resistência para um homem de quase 86 anos.

Em 2009, o Papa quebrou o braço ao cair no banheiro em suas férias nos Alpes. E os outros tropeços, em 2008, na Basílica de São Pedro, e, em 2011, na Alemanha, ocorreram provavelmente pelos problemas de visão do Sumo Pontífice — que, em novembro passado, fizeram-no interromper uma audiência geral com os seguintes dizeres: “Desculpe-me, meus olhos não funcionam bem”. De acordo com o seu biógrafo, Peter Seewald, no último encontro que tiveram, Bento XVI parecia cego do olho esquerdo.

Um médico próximo da equipe que cuida do Papa afirmou que, como é comum para homens de sua idade, Joseph Ratzinger tem alguns problemas na próstata.

Movimentos são extremamente dolorosos.

Ademais, o Papa teria enormes dificuldades para caminhar até mesmo pequenas distâncias, o que justificaria o uso de uma plataforma móvel em suas entradas para as missas. O Pontífice sofre de osteoartrite em seus joelhos, quadril e tornozelos, que faz com que ele perca a cartilagem nas articulações, tornando qualquer movimento extremamente doloroso.

Segundo o Dr. Alan Silman, diretor médico do Arthritis Research do Reino Unido, “seria doloroso para ele se ajoelhar para rezar e o levantar-se novamente poderia ser excruciante”.

O jornal italiano La Stampa publicou, na última quinta-feira que Bento XVI bateu sua cabeça e sofreu um sangramento quando saiu da cama, no meio da noite, num quarto desconhecido, na cidade de León, no México.

O porta-voz do Vaticano, Padre Federico Lombardi, confirmou a ocorrência do incidente, mas afirmou que “não foi relevante para a viagem, que não a afetou, nem a decisão” de renunciar. O jornal L’Osservatore Romano, do Vaticano, publicou no início desta semana que Bento XVI decidiu renunciar após a visita que fez ao México e a Cuba, que foi fisicamente extenuante para o pontífice, de 85 anos.

Fala o biógrafo

O jornalista alemão Peter Seewald, biógrafo e autor do livro-entrevista “Luz do mundo”, afirmou nesta semana que Bento XVI está  “esgotado há muito tempo”. Em entrevista ao jornal alemão Focus, Seewald admitiu ter se reunido duas vezes com o Papa nos últimos meses. No último dos encontros, questionado sobre o que se poderia esperar dele no futuro, o Papa teria respondido: “Sou um homem idoso, as forças me abandonam. Acho que basta o que fiz até agora”.

Segundo Seewald, que declarou nunca ter visto Bento XVI tão extenuado, o terceiro volume de Jesus de Nazaré foi escrito “com suas últimas forças”. “Seu corpo emagreceu tanto que os alfaiates tinham dificuldade em manter as roupas recém ajustadas”, acrescentou.

Vatileaks e Paolo Gabriele

Ainda conforme o biógrafo, o caso Vatileaks não teria sido determinante na decisão do Papa, que lhe teria declarado: “A psicologia de Paolo Gabriele é, para mim, simplesmente incompreensível”.

Falando sobre a traição de seu mormodo, Bento XVI declarou ao jornalista: “Não caí numa espécie de desespero ou de dor profunda, o fato para mim é simplesmente incompreensível”. “Mesmo se vejo a pessoa, não consigo entender, o que se poderia esperar. Eu não consigo penetrar nesta psicologia”.

O Pontífice expressou não ter se sentido “nem confuso, nem esgotado depois do Vatileaks”. Fontes vaticanas asseguram que, depois do perdão concedido, Bento XVI continuou a ter contato com seu ex-mordomo e sua família, demonstrando interesse e grande afeto paterno.

Por sua vez, o Vaticano preparou um ofício para assinatura de Gabriele, em que ele se compromete a não divulgar mais nenhuma informação ou documento obtidos ilegalmente dos aposentos papais.

Críticas

Sacerdote segura cartaz na Praça de São Pedro: "Nós sentiremos a sua falta".

Sacerdote segura cartaz na Praça de São Pedro: “Nós sentiremos a sua falta”.

Além do majoritário reconhecimento de humildade e coragem pela medida tomada, há também, entre expoentes da hierarquia eclesiástica, quem critique a decisão de Bento XVI.

Segundo um vaticanista ouvido por Le Monde,”numerosos religiosos, bispos, cardeais, sem falar do pessoal do Vaticano, ficaram em choque com esta decisão, com a qual eles não estão de acordo”. Um professor de uma universidade pontifícia relata como seus alunos, quase todos seminaristas, ficaram “claramente incomodado com essa renúncia”. E acrescenta: “Eles também se perguntam o que está por trás disso e que escândalos ainda podem vir à tona, após as declarações do Papa denunciando ‘rivalidades’ na Igreja”.

Outra fonte bem articulada nos meios vaticanos confessa: “Alguns cardeais também estão incomodados com o fato de que este gesto afasta do Papa o seu lado sagrado”. O temor é que os seus sucessores, em suas primeiras dificuldades, tanto de saúde como de governo, sejam pressionados, dentro e fora da Igreja, a renunciar. No entanto, um bispo da cúria se apressa em esclarecer: “Isso não significa que todos os Papas farão como ele”.

Enquanto quase todos preferem o anonimato, alguns se manifestaram abertamente. O mais importante deles foi o Cardeal Stanislaw Dziwisz, secretário pessoal de João Paulo II, que, ao ser questionado, emitiu uma crítica sutil: “Wojtyla permaneceu, ele compreendeu que não se desce da cruz”.

O bispo de Dijon, França, Dom Roland Minnerath, expressou claramente suas preocupações em uma rádio: “Quando se é Papa, assume-se até a morte. Sempre foi assim e a Igreja se saiu bem dessa maneira. Se introduzirmos um critério de eficiência, é um critério perfeitamente válido no governo das coisas temporais, mas a atuação do pontífice é outra coisa. É de ser um testemunho, para todas as idades, seja quando se está em boas condições e ou quando se está cansado”. Dom Minnerath é um conhecido do Papa Bento  XVI, que o nomeou como Secretário Especial para o Sínodo dos Bispos de 2005. Ele também esteve cotado, mesmo que com pouca força, para assumir a Congregação para a Doutrina da Fé.

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22 Comentários to “Renúncia, saúde e Vatileaks. Em Roma, há quem lamente a decisão do Papa.”

  1. É duro ter que afirmar isso, mas Bento XVI fez mais pela Igreja em 08 anos do que João Paulo II em quase trinta. É o que eu penso. Não acho que a conduta de um Papa deva ser comparada com a de outro, as circunstâncias são diferentes.

  2. Estão reclamando não sei de quê. É nisso que dá enquadrar o Papado no “espírito do Vaticano II”, onde o Papa tem que atuar como um “rock star”. O Papado sempre foi visto como uma monarquia com direito a sedia gestatoria, mantum e tiara papal.
    Se um Papa não podia mais caminhar, havia quem o carregasse. Se não podia se locomover, ficava lá no Vaticano despachando, recebendo autoridades, mas em total governo da Igreja como qualquer monarca. O mais importante não era o corpo e sim a mente, a palavra final e decisiva.
    Só louco não vê que submeter uma pessoa de avançada idade a atividades que não são mais condizentes com o quadro físico e as condições de saude de um homem como Bento XVI era covardia.
    Eu me perguntava o que um homem na idade dele fazia nessas sucessivas e inúteis “viagens apostólicas” ou jornadas mundiais da juventude! Nesses shows de música popular pra lá de discutiveis, nesses encontros com celebridades, nessas festinhas mundanas.
    Recentemente jogaram-no no “twitter” e a gente via claramente que nele se cumpre aquilo que Nosso Senhor disse a Pedro: “Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.” (Jo 21,18).
    Tudo que era novidade que os burocratas do Vaticano inventavam, tinham que jogar o Papa no meio pra dar legitimidade ou selo de aprovação e o resultado não podia ser outro. O Papado também precisa ser purificado do fermento podre do Vaticano II. Só não sei como isso será possível depois dessa ruptura com a Tradição da Igreja no tocante a essa instituição.
    As pessoas ainda não se deram conta da gravidade dessa situação: «Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho serão dispersas. Mas, depois da minha ressurreição, hei-de preceder-vos na Galileia!» (Mt.26,31-32). Precisamos de muito terço na mão e joelho no chão, pois estamos vivendo tempos proféticos.

  3. O Papa foi sábio. Penso eu que ele não quis deixar alguns cardeais governarem quando ele estivesse com muita debilidade. Seria Bertone quem iria mandar em tudo? Um padre disse que Bertone até mesmo já ditava as vestes que o Santo Padre deveria usar.

  4. As circunstâncias são totalmente diferente. É errado comparar Bento XVI e João Paulo II. Já afirmei aqui outras vezes: dos ultimos 5 Papas, de longe, o atual foi o melhor, na minha opinião. O Mottu Próprio de 2007 foi libertador em todos os significados da palavra.Resumo:

    1) O Papa renúnciou por conta da Saúde.Ponto.

    2) O Papa,mesmo estando doente, ainda está lúcido, também deixou subentendido que a Igreja não vive um bom momento.Isto posto, a doença dele toma uma proporção maior.Ponto.

  5. Gercione,

    Estamos vivendo a “pós-modernidade”. Nesse contexto atual, as visitas do Papa possuem um peso de evangelização muito forte, não acho que ele deva se tornar um “burocrata” apenas em Roma.A imagem e o impacto da presença do Santo Padre, faz sim diferença. Talvez, ele devesse informar seu estado de saúde crítica, para esse tipo de atividade, e mudar os protocolos. E se ele tivesse alguma esclesore senil? Os lobos iriam dizer que ele disse, o que não disse. Seria pior.

    Acontece minha amiga, que a Igreja vai “mal das pernas”, e a palavra compreensão , amor filial ao Santo Padre e sub-serviência, não faz parte do linguajar clerical hoje.

  6. A renúncia de Bento XVI é a “proclamação da república” no Vaticano.
    Um cargo que até então era vitalício passará a ser ocupado periodicamente (e sem direito a reeleição).
    Não se enganem caros leitores. Quem foi o Pe. Ratzinger durante o Concílio Vaticano II?
    Uma pessoa certa vez me disse que Bento XVI estava se convertendo. E agora? A conversão parou?

    Para complementar este post recomendo a leitura do artigo do Prof. Roberto De Mattei: Considerações sobre o atuo de renúncia de Bento XVI, cuja tradução encontra-se aqui: http://ipco.org.br/home/noticias/consideracoes-sobre-o-ato-de-renuncia-de-bento-xvi

  7. Creio, com temor e tremor, de que a renúncia é, não mais que, não confiar na Graça de Estado, isto é, tem-se mais consideração ao estado do corpo e da mente do que no múnus outorgado por Cristo a seu vigário… Mesmo que “apesar das fracas forças” é aí que a Graça brilha e refulge, pois na fraqueza humana é exaltado o poder de Deus!!! Assim nos ensina S. Paulo…
    Se assim não fosse, por que se “recolher ao estudo e a oração” se para tal as “forças físicas e espirituais” também não serviriam?!…
    Dom Roland Minnerath, bispo de Dijon, matou a charada: onde está o testemunho de confiança em Cristo?!…

  8. O Papa não se sente em boas condições físicas para cumprir tanto trabalho. Não é por isso que o Papado virará uma “república”. Essa agenda extenuante de eventos e o “auxílio” de subalternos que pouco ajudam destroem a saúde de qualquer um, mesmo dos mais jovens.

    Talvez, por isso, os cardeais resolvam escolher um Papa mais jovem e tomara que o Papa pare com essa agenda de executivo.

    Curiosa, essa via crucis global.Os últimos dois Papas (JP II e B XVI) foram os Papas das cruzes (andaram pelo mundo todo – diferente de todos os outros anteriores). Agora, o Papa vai para o “sepulcro” dum mosteiro (antes de se retirar, porém, ainda fará algumas declarações – as 7 palavras na cruz) e o próximo, creio, será o Papa da ressurreição da Igreja (calma, gente, isso vai demorar ainda alguns poucos anos). A Igreja segue a vida de Cristo em direção à sua glória. Santo Agostinho tinha razão…

  9. Uma pergunta curiosa, amigos(as): vocês tem observado que os religiosos, sacerdotes, Bispos e Teólogos, que acreditam piamente que o Santo Padre renúnciou apenas por questão de saúde – e até louvam sua humildade!!-, também têm eles mesmos, alguma simpatia pelo progressismo e pela mente liberal na Igreja? Ou é impressão minha?

    Eu tenho observado isso. E vocês?

  10. Pois é,essas palavras do Marcus Moreira,assim como o artigo do De Mattei,nos fazem pensar.

    Sobre essa questão agora de falar na idade do papa,dando a entender que esse é um critério importante a ser levado em consideração no conclave que se aproxima,se isso fosse levado em consideração no conclave anterior o Papa Bento não seria eleito Papa.

    Há propósito da abdicação do Papa,assistam esse debate no link abaixo. Tem que ter estômago.

    http://globotv.globo.com/globo-news/globo-news-painel/v/convidados-debatem-anuncio-da-renuncia-do-papa-bento-xvi/2411313/

    Fiquem com Deus.

    Flavio.

  11. Esse é um triste precedente para a Igreja: todos os Papas a exceção de “São” Celestino V (com todas as implicações e complicações políticas da época que nublam a verdade até hoje!) abdicaram por problemas reais de impedimento, tais como S. Clemente I preso na Sicília nas minas de sal; Papa Martinho I, preso pelo imperador bizantino; Papa Ponciano, preso nas minas de cobre da Sadenha e outros; isto é, abdicaram para o bem da Igreja, pois estavam impedidos por circunstâncias e forças externas à sua vontade, bem como privados de liberdade, longe de Roma.
    Hoje, estamos sozinhos perante os lobos, pois o Pastor está “sem forças” para nos proteger…

    Lembro de 2005 quando o Papa Bento assumiu: pediu orações por conta do assédio da alcatéia; pediu que rezássemos por Ele para que não fraquejasse perante os rosnares e investidas lupinas…

    Estamos sós vendo os lobos avançarem sobre o redil desprotegido, pois o Pastor não deu a vida pelas suas ovelhas: foi ler e estudar…

    Confesso a vocês que já chorei muito… Estou com medo…

    Olho pro Céu e peço: Senhor, dai-nos mais uma graça! A graça de um bom Papa!!! De um Pai valente que lute por nós e por Ti!!!!!!

  12. Acredito que Bento XVI renunciou num gesto de imolação a Deus pela Igreja e pelo próximo pontificado. Ao menos é o que vejo em suas últimas palavras. Afinal a renúncia, não só ao papado, mas ao mundo – já que vai enclausurar-se, é como morrer para este mundo. Não seria em sacrifício? Impossível conhecer as intenções do Santo Padre, mas creio que foi de ordem mais sobrenatural que natural.

  13. Calma Pessoal: o Bento XVI não morreu não! Temos que esperar o que vêm pela frente.Eu espero que nessas horas de “estudos e leituras”, ele faça ainda alguns ultimos atos como Pastor e surpreenda todos nós.

    Eu torço que ele rasgue o véu de silêncio obsequioso e revele – sim, ele mesmo porque ele sabe!!! – , o 3° segredo de Fátima por completo. Espero que ou ele o faça ou peça ao Papa reinanto após ele.Aí seja o que Deus quiser!!!

  14. Eu concordo com Dom Minnerath: um Papa não pode simplesmente deixar a Barca.Ademais o papa governa com a mente e não com o corpo.O problema é que Bento XVI tinha em Bertone seu braço , seu agente , mas os bipos e a cúria o questionavam entre outras coisas por ter apoiado o Papa quanto a aplicar sanções contra Bispos que não agiram suficientemente contra a pedofilia.Bento XVI diferentemente do que sempre determinou o CDC – que só preve punições a Bispos por razões de fé – aplicou puniçãos por razões morais e isto o episcopado não tolerou.Em suma a maioria do episcopado mundial está vendido.

  15. O que tiver que acontecer,vai acontecer.O céu sabe quem entrará ,se será bom ou ruim estará dentro dos planos de Deus para este possível final dos tempos.

    Em tempos antigos nunca acompanhei a vida dos papas,tinha simpatia por João Paulo II mas não entendia sobre a política dentro da igreja,(não entendo muito até hoje).Mas tenho para mim que Bento XVI foi um papa extraordinário,no meu interior é isso que sente minha alma,que foi um servo de Deus.

    E se haviam muitos erros no Vaticano,não foram todos criados agora nestes últimos anos,não sei em que época mas alguém foi deixando que eles fossem acontecendo gradativamente,ou então,nenhum teve culpa mas sim tudo estaria escrito e teria que se cumprir.

    Com todos os problemas de saúde citados acima é triste pensar que alguém disse que ele teria descido da cruz,ele vai carregar sua cruz até o final da sua vida,cargo não é cruz, cruz é outra coisa.

  16. A questão é: o papa saiu da barca por livre e espontânea pressão. Nada me faz pensar diferente de que Bento XVI preferiu sacrificar o seu papado para por fim à guerra velada na Cúria Romana. Se certos cardeais fazem pouco da sua autoridade dentro dos palácios do Vaticano, agora perderão o chão e vão ter que responder a um novo papa, provavelmente cônscio da situação e propenso à rigores, assim espero, que Bento XVI não chegou por profunda esperança de conversão.

    Nada me faz pensar diferente de que Bento XVI pensou primeiro na Igreja do que na sua biografia. A saúde é um pretexto racional e perfeito, mas nas suas palavras nesses últimos dias transpassam razões outras, sutis e mais complexas, do que o mero envelhecimento do pontífice. Aliás, como eu li em um texto, a vida de um padre é uma vida de renúncias. Renúncia aos prazeres, ao conforto de uma vida doméstica, renúncia a uma família, renúncia à riqueza, renúncia ao mundo… O padre morre para nascer de novo. Tudo isso por Deus e tão somente. E, no final das contas, Joseph Ratzinger renuncia mais uma vez por Deus. Um gesto de humildade extrema qual todo católico deveria orgulhar-se e respeitar profundamente.

    Wojtyla desceu da cruz quando fora endeusado pela mídia laica até o último fio de sua dignidade, que fizeram do seu ocaso dolorido um espetáculo deprimente. Ratzinger jamais descerá da cruz, pq ele jamais será perdoado por ter sido escancaradamente católico em seu pontificado. Foram anos de afirmação de fé, sem concessões ao discurso melífluo e incoerente da modernidade. Foram anos de confronto aberto contra à degradação da espiritualidade cristã. Foram anos de um olhar firme diante das mazelas do mundo.

    Ratzinger paga e pagará por ter sido tão fiel, tão coerente, tão firme no exercício do Mandato Petrino.

    Há tempos Roma não tinha um bispo tão resiliente e impávido. 8 anos que valeram por 50. E já está fazendo falta…

  17. Desta vez, Marcus, o Papa pode ter perdido a liberdade pela falta de saúde ou por ser excessivamente tolhido por seus assessores… Quem já esteve enfermo ou acidentado, ou já sentiu os entraves duma administração desorganizada e incompetente por parte de subalternos ou superiores entende isso.

    Sim, Heitor, dá para reparar que o clero e os religiosos estão assanhadinhos…talvez por um Papa mais conforme aos delírios liberais dos mesmos.

    Creio que Bento XVI ainda nos dirigirá palavras interessantes – as palavras de Cristo na cruz se repetirão pela boca do Papa [já começou a dizer algumas coisas] e podemos ser surpreendidos, quem sabe?

    Em março, o “sepulcro” do mosteiro o aguarda pois o Papa será descido da cruz. Mais uns 3 anos e meio para as coisas começarem a mudar, talvez precipitadas por alguns acontecimentos dramáticos como a vinda do falso messias anticristão e seu reinado ímpio. O tempo dirá…

  18. “…cargo não é cruz, cruz é outra coisa.”

    Agora ser Vigário de Cristo na terra é apenas um cargo?

  19. Caros leitores, BXVI já está silenciado. Pra que esse retiro de silencio agora se daqui 10 dias ele estará supostamente enclausurado e rezando?
    Ademais, mesmo que ele fale alguma coisa depois da renúncia vão relembrar que ele mesmo se acusou de física, mental e espiritualmente fraco.

    A democracia chegou na Igreja. Agora papado é cargo (sem reeleição) e para conquistá-lo terá que fazer exame ocupacional de admissão.

  20. Essa história de “descer da cruz” é repetição comum a quem fazia culta à personalidade de João Paulo II (pelo menos da boca pra fora). Na Igreja sempre houve espaço para formas variadas de ser (comparem a personalidade e as atitudes dos santos e verão que são bastante distintas; o que une apenas é o amor a Deus), e não é preciso o martírio físico e público para carregar a própria cruz. Só que as pessoas achatam a realidade para que se encaixe naquilo que lhes parece melhor ou para dentro de suas próprias limitações de visão.

    Se Bento XVI considerou que seria melhor para a Igreja a sua renúncia e isso era previsto nos estatutos da Igreja, então não há sentido em ficar julgando sua atitude. Se preocupar sim, discordar até é possível (embora temerário já que não conhecemos as minúcias), mas ficar fazendo exigências e dizendo que ele fugiu, aí não dá.

    Diversas revistas estão colocando essa situação como primeira página. A maioria está escrevendo mais do mesmo (chamam a Igreja de retrógrada, atacam Bento XVI, anseiam por um Papa liberal), mas a Veja – por incrível que pareça (já que quase sempre ela segue uma pauta anticlerical) – veio com um tom diferente. A frase em destaque de capa é “O sacrifício de Bento XVI pela Igreja”. Achei a reportagem bastante sóbria.

  21. Caro Confrade, as coisas que tenho escutado da boca do Papa nesses últimos momentos de ocaso são de aggiornamento, apenas. É a velha cantilena modernista agora com ares de piedoso pietismo, “denúncia” e outras que tais, pois há compadecer-nos com “as intrigas e pressões da Cúria rebelde” sobre o alquebrado Papa em aviso-prévio.
    O que vemos, caro Confrade, infelizmente, é a auto-demolição pela auto-demissão do múnus que lhe foi confiado…
    Oh, Senhor!, como gostaria eu de pensar diferente e de estar errado!!!