Considerações sobre o ato de renúncia de Bento XVI.

Por Roberto de Mattei (*)

Raio atinge a cúpula da Basílica de São Pedro poucas horas depois da abdicação de Bento XVI. Foto: Alessandro di Meo, AFP

Em 11 de fevereiro, dia da Festa de Nossa Senhora de Lourdes, o Santo Padre Bento XVI comunicou ao Consistório de cardeais e a todo o mundo sua decisão de renunciar ao Pontificado.

O anúncio foi acolhido pelos cardeais, “quase inteiramente incrédulos”, “com a sensação de perda”, “como um raio em céu sereno”, segundo as palavras dirigidas em seguida ao Papa pelo cardeal decano Angelo Sodano.

Se tão grande foi a perda dos cardeais, pode-se imaginar quão forte tem sido nesses dias a desorientação dos fieis, sobretudo daqueles que sempre viram em Bento XVI um ponto de referência e agora se sentem de algum modo “órfãos”, senão mesmo abandonados, em face das graves dificuldades que enfrenta a Igreja no momento presente.

No entanto, a possibilidade da renúncia de um Papa ao sólio pontifício não é de todo inesperada. O presidente da Conferência Episcopal da Alemanha, Karl Lehmann, e o primaz da Bélgica, Godfried Danneels, haviam apresentado a ideia da “renúncia” de João Paulo II, quando a sua saúde havia se deteriorado.

O cardeal Ratzinger, no seu livro-entrevista Luz do Mundo, de 2010, disse ao jornalista alemão Peter Seewald que se um Papa se dá conta de que não é mais capaz, “fisicamente, psicologicamente e espiritualmente, de cumprir os deveres de seu ofício, então ele tem o direito e, em certas circunstâncias, também a obrigação, de renunciar”.

Ainda em 2010, cinquenta teólogos espanhóis haviam manifestado sua adesão à Carta Aberta do teólogo suíço Hans Küng aos bispos de todo o mundo, com estas palavras: “Acreditamos que o pontificado de Bento XVI pode ter-se exaurido. O Papa não tem a idade nem a mentalidade para responder adequadamente aos graves e urgentes problemas com os quais a Igreja Católica se defronta. Pensamos, portanto, com o devido respeito por sua pessoa, que deve apresentar sua demissão do cargo.”

E quando, entre 2011 e 2012, alguns jornalistas como Giuliano Ferrara e Antonio Socci escreveram sobre a possível renúncia do Papa, esta hipótese havia suscitado entre os leitores mais desaprovação que consenso.

Não existe dúvida sobre o direito de um Papa de renunciar. O novo Código de Direito Canônico prevê a possibilidade de renúncia do Papa no cânon 332, parágrafo segundo, com estas palavras: “Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie a seu múnus, para a validade se requer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém.”

Nos artigos 1 º e 3 º da Constituição Apostólica Universi Dominicis Gregis, de 1996, sobre a vacância da Santa Sé, é prevista ademais a possibilidade de que a vacância da Sé Apostólica seja determinada não só pela morte do Papa, mas também por sua renúncia válida.

Na História não são muitos os episódios documentados de abdicação. O caso mais conhecido continua sendo o de São Celestino V, o monge Pietro da Morrone, que foi eleito na Perugia em 5 de julho de 1294 e coroado em L’Aquila em 29 de agosto seguinte.

Após um reinado de apenas cinco meses, ele julgou oportuno renunciar, por não se sentir à altura do cargo que assumira. Em seguida, preparou a sua abdicação, consultando primeiramente os cardeais e promulgando uma Constituição com a qual confirmava a validade das regras já estabelecidas pelo Papa Gregório X para a realização do próximo Conclave.

Em 13 de dezembro, em Nápoles, pronunciou sua abdicação diante do Colégio dos Cardeais, despojou-se da insígnia papal e das roupas, e tomou o hábito de eremita. Em 24 de dezembro de 1294, por sua vez, foi eleito Papa Benedetto Caetani com o nome de Bonifácio VIII.

Outro caso de renúncia papal – o último registrado até hoje – ocorreu no decurso do Concílio de Constança (1414-1418). Gregório XII (1406-1415), Papa legítimo, a fim de recompor o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), enviou a Constança o seu plenipotenciário Carlo Malatesta, para dar a conhecer sua intenção de retirar-se do ofício papal; as demissões foram oficialmente acolhidas pela assembleia sinodal em 4 de julho de 1415, que ao mesmo tempo depôs o antipapa Bento XIII.

Gregório XII foi reintegrado ao Sacro Colégio com o título de cardeal-bispo do Porto (diocese suburbicária de Roma) e com o primeiro posto após o Papa. Abandonando o nome e o hábito pontifício e retomando o nome de cardeal Angelo Correr, ele se retirou como legado papal nas Marche [província italiana] e morreu em Recanati em 18 de outubro 1417.

Portanto, o caso de renúncia em si não escandaliza: está contemplado no Direito Canônico e verificou-se historicamente ao longo dos séculos. Note-se, no entanto, que o Papa pode renunciar, e por vezes tem historicamente renunciado ao Pontificado, enquanto este é considerado um “cargo jurisdicional da Igreja”, não indelevelmente ligado à pessoa que o ocupa.

A hierarquia apostólica exerce de fato dois poderes misteriosamente unidos na mesma pessoa: o poder da ordem e o poder de jurisdição (ver, por exemplo, São Tomás de Aquino, Summa Theologica, II-IIae, q 39, a 3, resp., III, q 6-2).

Ambos poderes são direcionados a realizar os objetivos peculiares da Igreja, mas cada qual com características próprias, que o distinguem profundamente do outro: o potestas ordinis é o poder de distribuir os meios da graça divina e refere-se à administração dos sacramentos e ao exercício do culto oficial; o potestas iurisdictionis é o poder de governar a instituição eclesiástica e os simples fiéis.

O poder da ordem distingue-se do poder de jurisdição não só pela diversidade de natureza e de objeto, mas também pelo modo como o poder de ordem é conferido, uma vez que tem como propriedade ser dado com a consagração, isto é, por meio de um sacramento e com a impressão de um caráter sagrado. A posse da potestas ordinis é absolutamente indelével, porquanto seus graus não são ofícios temporários, mas imprimem caráter a quem é concedido.

De acordo com o Código de Direito Canônico, uma vez que um batizado se torna diácono, sacerdote ou bispo, é para sempre e nenhuma autoridade humana pode excluir essa condição ontológica. Pelo contrário, o poder de jurisdição não é indelével, mas temporário e revogável; suas atribuições, exercidas por pessoas físicas, cessam com o término do mandato.

Outra característica importante do poder da ordem é a não territorialidade, pois os graus da hierarquia da ordem são absolutamente independentes de qualquer circunscrição territorial, pelo menos no que respeita à validade do exercício.

As atribuições do poder de jurisdição, ao contrário, são sempre limitadas no espaço e têm no território um de seus elementos constitutivos, exceto o do Sumo Pontífice, que não está sujeito a qualquer limitação de espaço.

Na Igreja, o poder de jurisdição pertence, jure divino, ao Papa e aos Bispos. A plenitude deste poder, no entanto, reside apenas no Papa que, como fundamento, sustenta todo o edifício eclesiástico. Nele se encontra todo o poder pastoral, e na Igreja não se pode conceber outro independente.

A teologia progressista, pelo contrário, sustenta, em nome do Vaticano II, uma reforma da Igreja num sentido sacramental e carismático que opõe o poder da ordem ao poder de jurisdição, a igreja da caridade à do direito, a estrutura episcopal à monárquica.

O Papa, reduzido a primus inter pares no interior do colégio dos bispos, exerceria apenas uma função ético-profética, um primado de “honra” ou de “amor”, mas não de governo e jurisdição.

Nesta perspectiva, Hans Küng e outros invocaram a hipótese de um Pontificado “temporário”, e não vitalício, como uma forma de governo exigida pela celeridade das mudanças do mundo moderno e da novidade contínua de seus problemas. “Não podemos ter um Pontífice de 80 anos que já não está totalmente presente do ponto de vista físico e mental”, disse à emissora Südwestundfunk Küng, que vê na limitação do mandato do Papa um passo necessário para a reforma radical da Igreja.

O Papa seria reduzido a presidente de um Conselho de administração, a uma figura meramente de arbitragem, ao lado de uma estrutura eclesiástica “aberta”, qual sínodo permanente, com poder de decisão.

No entanto, caso se considere que a essência do Papado está no poder sacramental da ordem e não no poder supremo de jurisdição, o Pontífice jamais poderia renunciar; se o fizesse perderia com a renúncia apenas o exercício do poder supremo, mas não o poder em si, que é indelével como a ordenação sacramental da qual deflui.

Quem admite a hipótese da renúncia deve admitir com isso que a summa potestasdo Papa deriva da jurisdição que exerce, e não do sacramento que recebe. A teologia progressista está, portanto, em contradição consigo mesma quando procura fundamentar o Papado sobre sua natureza sacramental e depois reivindica a renúncia de um papa, a qual por sua vez só pode ser admitida se seu múnus se basear sobre o poder de jurisdição.

Pela mesma razão não pode haver, após a renúncia de Bento XVI, “dois papas”, um no cargo e outro “aposentado”, como tem sido impropriamente dito. Bento XVI voltará a ser Sua Eminência o Cardeal Ratzinger e não poderá exercer prerrogativas, como a da infalibilidade, que são intimamente ligadas ao poder de jurisdição pontifício [ndr: ainda sobre este aspecto, vale a leitura do parecer de um canonista].

O Papa, portanto, pode renunciar. Mas é oportuno que o faça? Um autor, por certo não “tradicionalista”, Enzo Bianchi, escreveu em “La Stampa” de 1º de julho de 2002:

“Segundo a grande tradição da Igreja do Oriente e do Ocidente, nenhum papa, nenhum patriarca, nenhum bispo deveria renunciar apenas por ter atingido o limite de idade. É verdade que há cerca de trinta anos na Igreja Católica existe uma disposição que convida os bispos a oferecer as próprias renúncias ao Papa ao atingirem 75 anos, e é verdade que todos os bispos recebem com obediência esse convite e apresentam a renúncia, como também é verdade que normalmente elas são aceitas e as renúncias acolhidas. Mas esta é uma regra e uma prática recente, fixada por Paulo VI e confirmada por João Paulo II: nada exclui que no futuro possa ser revista, depois de pesados as vantagens e os problemas que ela tem produzido nas últimas décadas de aplicação.”

A norma pela qual os bispos renunciam a diocese a partir dos 75 anos é uma fase recente na história da Igreja que parece contradizer as palavras de São Paulo, para quem o Pastor é nomeado ad convivendum et commoriendum (2 Cor 7, 3), para viver e morrer junto a seu rebanho. A vocação de um Pastor, como a de todos os batizados, vincula de fato não somente até uma certa idade e a uma boa saúde, mas até a morte.

Sob este aspecto, a renúncia de Bento XVI ao Pontificado aparece como um ato legítimo do ponto de vista teológico e canônico, mas, no plano histórico, em absoluta descontinuidade com a tradição e a prática da Igreja.

Do ponto de vista do que poderiam ser as suas consequências, trata-se de um ato não simplesmente “inovador”, mas radicalmente “revolucionário”, como o definiu Eugenio Scalfari em “La Repubblica” de 12 de fevereiro.

A imagem da instituição pontifícia, aos olhos da opinião pública de todo o mundo, fica de fato despojada de sua sacralidade para ser entregue aos critérios de julgamento da modernidade.

Não por acaso, no “Corriere della Sera” do mesmo dia, Massimo Franco fala do “sintoma extremo, final, irrevogável, da crise de um sistema de governo e de uma forma de papado”.

Não se pode fazer uma comparação, nem com Celestino V, que renunciou após ter sido arrancado à força de sua cela eremítica, nem com Gregório XII, quem por sua vez foi forçado a renunciar para resolver a gravíssima questão do Grande Cisma do Ocidente.

Tratava-se de casos excepcionais. Mas qual é a exceção no gesto de Bento XVI? A razão, oficial, esculpida nas suas palavras pronunciadas em 11 de fevereiro, mais do que a exceção exprime a normalidade:

“No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande importância para a vida da fé, para governar o barco de Pedro e anunciar o Evangelho, é também necessário o vigor, seja do corpo, seja da alma, vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de modo tal, que devo reconhecer a minha incapacidade.”

Não nos defrontamos com uma deficiência grave, como foi o caso de João Paulo II no final de seu pontificado.

As faculdades intelectuais de Bento XVI estão plenamente íntegras, como ele o demonstrou numa de suas últimas e mais significativas meditações para o Seminário Romano, e sua saúde é “geralmente boa”, como afirmou o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, segundo o qual, entretanto, o Papa alertou nos últimos tempos para “o desequilíbrio entre as tarefas, entre os problemas a serem resolvidos e as forças das quais sente não dispor”.

No entanto, desde o momento da eleição, cada pontífice experimenta um compreensível sentimento de inadequação, percebendo a desproporção entre suas capacidades pessoais e o peso da tarefa para a qual ele é chamado. Quem pode afirmar-se capaz de suportar com suas próprias forças o munus de Vigário de Cristo?

Mas o Espírito Santo assiste o Papa não somente no momento da eleição, senão também até a sua morte, em cada momento, mesmo nos mais difíceis, de seu pontificado. Hoje, o Espírito Santo é frequentemente invocado de forma inadequada, como quando se pretende que Ele inspira cada ato e cada palavra de um Papa ou de um Concílio.

Nestes dias, no entanto, Ele é o grande ausente dos comentários da mídia, que avaliam o gesto de Bento XVI de acordo com um critério puramente humano, como se a Igreja fosse uma multinacional guiada em termos de pura eficiência, prescindindo de qualquer influxo sobrenatural.

Mas a questão é: em dois mil anos de história, quanto foram os Papas que reinaram com boa saúde, que não experimentaram o declínio da força nem sofreram com doenças e provas morais de todo gênero? O bem-estar físico nunca foi um critério de governo da Igreja. Sê-lo-á a partir de Bento XVI?

Um católico não pode deixar de se colocar estas perguntas, e se não o fizer elas serão colocadas pelos fatos, como no próximo conclave, quando a escolha do sucessor de Bento será inevitavelmente orientada para um cardeal jovem na plenitude de suas forças, para que possa ser considerado adequado para a grave missão que o espera.

A menos que o cerne do problema não esteja naquelas “questões de grande relevância para a vida da fé” às quais se referiu o Pontífice, e que poderiam aludir à situação de ingovernabilidade em que parece encontrar-se hoje a Igreja.

Seria pouco prudente, sob este aspecto, considerar já “fechado” o pontificado de Bento XVI, dedicando-se a balanços prematuros antes de aguardar o prazo fatal anunciado por ele: a noite de 28 de fevereiro de 2013, uma data que ficará gravada na história da Igreja.

Antes, mas também depois dessa data, Bento XVI ainda poderá ser protagonista de cenários novos e inesperados. De fato, o Papa anunciou sua demissão, mas não seu silêncio; e sua escolha restitui-lhe uma liberdade da qual talvez se sentisse privado.

O que dirá e fará Bento XVI, ou o cardeal Ratzinger, nos próximos dias, semanas e meses? E, sobretudo, quem guiará, e de que maneira, a barca de Pedro nas novas tempestades que inevitavelmente o esperam?

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Fonte: Corrispondenza Romana

(*) Prof. Roberto de Mattei (Roma, 1948). Professor de História Moderna e História do Cristianismo na Universidade Européia de Roma, onde é coordenador de mestrado de Ciências Históricas. É presidente da Fundação Cultural Lepanto e membro do Conselho de Administração do Instituto Histórico Italiano para a Idade Moderna e Contemporânea e do Conselho de Administração da Sociedade Italiana Geográfica. Foi durante vários anos vice-presidente do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália e é autor de vários livros com repercussão internacional, entre os quais destaca-se O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita (Petrus Editora, São Paulo).

27 Comentários to “Considerações sobre o ato de renúncia de Bento XVI.”

  1. «Seria pouco prudente, sob este aspecto, considerar já “fechado” o pontificado de Bento XVI, dedicando-se a balanços prematuros antes de aguardar o prazo fatal anunciado por ele: a noite de 28 de fevereiro de 2013, uma data que ficará gravada na história da Igreja»

    Eu também concordo que devem ser tecidas considerações no período de sede vacante…. Até lá, muitas coisas podem acontecer, por vontade do Santo Padre ou mesmo por vontade do Céu.

    Estará ele, no retiro com a Cúria, a preparar discretamente o seu sucessor?
    Que surpresas nos revelará ainda o Papa Bento XVI?

    Rezemos pela Igreja, pelo Santo Padre e pelo próximo Papa!

    Que Jesus Cristo tenha piedade da Sua Esposam a Igreja Santa e Católica…

  2. São as reflexões mais ponderadas a propósito da declaração de renúncia. Depois de ler este artigo, parece-me muito claro a que veio Bento XVI: jogar os tradicionalistas na farândula conciliar e abrir caminho para a democracia na igreja. Falhou na primeira. Mas fragiliza a imagem do papado, dessacralizando-a; abandona a Sé de Pedro tal como um presidente norteamericano, ao final de 8 anos, deixa a presidência ao sucessor; se outro fosse o motivo da renúncia, Bento XVI não teria creditado seu motivo às “rápidas mudanças do mundo de hoje”: a mesma conversa conciliar de sempre. É a república chegando definitivamente à Igreja… que venham os castigos de Fátima!

  3. Pra mim esse artigo apenas confirma o que eu vinha pensando ha algum tempo. Essa renuncia é sim a destruição do Papado como a instituição que nós conheciamos até aqui, ou seja uma monarquia instiuida pelo proprio Cristo a partir de Pedro e portanto com prerrogativas divinas. Esse pra mim foi o último golpe de Satanás contra a Igreja. Nada que vier de agora em diante me surpreenderá.

  4. Diz um pessimista que “o otimismo é a preguiça da alma”…
    Diz um otimista que “ainda há esperança, pois o pessimista não `confia´”…
    Diz o realista: res, non verba!

  5. Só uma correção ao texto do De Mattei:

    O Papa não “voltará a ser Sua Eminência, o Cardeal Ratzinger”, pois, uma vez papa, sempre papa. Claro, neste caso, sem exercer o pontificado.

    Assim como um arcebispo, quando renuncia, não passa a ser apenas um bispo, mas sim um arcebispo emérito (seu brasão continua com as insígnias arquiepiscopais; quando morre, tem funerais de arcebispo: endossa o pálio e leva aos pés os pálios das arquidioceses às quais teve renunciar antes de sua última sede); ou um cardeal, depois dos oitenta anos, não deixa o cardinalato, apesar de não exercê-lo; o Papa continuará se chamando Sua Santidade Bento XVI, com hábito branco pontifício, mas resignado, sem exercer o pontificado, enquanto outro Pontifica.

    Não teremos dois Papas em exercício, mas um Papa reinante, e outro resignado, ou seja, a não exercer o pontificado, sem cátedra, sem poder de jurisdição e, por isso, sem o primado; apenas com o título e os privilégios diplomáticos, com as honras pontifícias.

    Nem a morte lhe tira as honras pontifícias. A renúncia é apenas uma “antecipação jurídica da morte”…

  6. O texto de De Mattei é um alento no mar de bobagens que tem se lido na “mídia especializada” sobre assuntos da Igreja. Espero que os que especulam sobre a suposta “laicidade” do ato da renúncia tenham em mente que sempre esteve previsto tal possibilidade no Direito Canônico. O papa age perfeitamente dentro das leis da Igreja. E a boa educação católica recomenda sempre creditar respeito às suas decisões.

  7. Não sabia que a letra do Código de Direito Canônico (Cân. 332, 2) era morta…

  8. Curioso é refletir sobre o livro de Malachi Martin, WIndswept House. A trama gira em torno da renúncia do Papa João Paulo II, que seria condição necessária para os arquitetos do novo mundo e da nova igreja alcançarem seus propósitos.
    No entanto, segundo o livro, o Papa sempre relutava em renunciar, pois aguardava algum sinal de Nossa Senhora, relacionado ao segredo de Fátima: sabia, segundo o autor, que a sua renúncia seria um elemento-chave dos acontecimentos preditos por Nossa Senhora em Portugal.
    João Paulo II não renunciou; estaria isso no segredo de Fátima, mas relacionado a outro pontífice?

  9. De Mattei tem toda a razão.Mesmo que sua santidade tenha seus motivos para renunciar esse ato fragiliza o papado e abre brechas para a revolução dentro da Igreja; destaco isso : “a renúncia de Bento XVI ao Pontificado aparece como um ato legítimo do ponto de vista teológico e canônico, mas, no plano histórico, em absoluta descontinuidade com a tradição e a prática da Igreja.

    Do ponto de vista do que poderiam ser as suas consequências, trata-se de um ato não simplesmente “inovador”, mas radicalmente “revolucionário”, como o definiu Eugenio Scalfari em “La Repubblica” de 12 de fevereiro.

    A imagem da instituição pontifícia, aos olhos da opinião pública de todo o mundo, fica de fato despojada de sua sacralidade para ser entregue aos critérios de julgamento da modernidade.”

  10. Eu concordo em gênero, número e grau com o que o Israel TL disse. A renúncia de Bento XVI ainda desencadeará muitos acontecimentos na vida da Igreja e do mundo e, para mim, Fátima tem relação com ela.

  11. No artigo que escrevi no dia seguinte ao da renúncia: “Faltou o Vigor?” ressaltei que “a desistência de um papa é um fato muito emblemático de dificílima avaliação, pois só Deus é Senhor e Juiz. Ao aceitar o papado, se aceita uma paternidade, daí a vitaliciedade do ministério petrino, e a raridade desta desistência na história está justamente nisso. João Paulo II zelou muito por isso, daí seu martírio público. Os desdobramentos desta situação inédita nos tempos modernos, de excessiva exposição midiática, é totalmente imprevisível. E ainda mais: a mídia poderá instrumentalizar a fragilidade desta situação, para dizer que houve uma capitulação e que é preciso a Igreja reconhecer que seu papel no mundo tem que mudar. É o que apregoam os analistas televisivos, por toda a parte. Que efeitos terá na agudeza da crise vivida pela Igreja, ninguém poderá dizer?” E ainda: “Joseph Ratzinger foi sempre fiel à verdade, sofreu por ela e procurou manter a mesma fidelidade no ministério petrino, agora com suas forças extenuadas. O seu drama faz a Igreja reviver o de Sansão e Dalila. ‘E Sansão acabou por confiar-lhe o seu segredo. ‘Sobre a minha cabeça, disse ele, nunca passou a navalha, porque sou nazareno de Deus desde o seio de minha mãe’. Sansão abriu todo o seu coração a Dalila. Foi isto o que se quis com o aggionarmento do Vaticano II? Agradar Dalila, com todo o seu coração? Por tudo isso faltou-lhe hoje o vigor necessário.” Alegro-me que o Prof. De Mattei tenha dito de modo mais expressivo tudo o que penso a respeito desta gravíssima decisão, de conseqüências realmente imprevisíveis para a Igreja, na hora em que vivemos. Tudo isso me leva a interrogar se a renúncia foi mesmo um erro humano, e que atinge a sacralidade do papado. Me disseram que o ato agora é irrevogável. Agora é só rezar por bento XVI, e o próximo escolhido para suceder São Pedro, e que Deus tenha piedade e misericórdia de todos nós, e que o Espírito Santo Consolador proteja os que aceitarem defender e suportar a sã doutrina, em nossos dias, nos dando a força que somente Ele poderá nos dar.

  12. Eu gostaria de saber de quem diz que a renúncia papal é a proclamação da republica na Igreja porque então essa possibilidade era prevista e nada foi feito fora das leis canônicas.
    Se o ato do Papa foi um golpe contra a noção de sagrado, ou o erro ocorreu quando se abriu precedente para tal ato (na elaboração da lei) ou então a noção de sagrado que foi abalada (segundo alguns) estava equivocada. Claro, também ha a possibilidade de não ter havido golpe nenhum.

  13. No livro “O Drama do fim dos tempos”, do Pe. Emmanuel e prefaciado por Dom Marcel Lefvbre, é dito que “o que detém o Anti-Cristo” é o Império Romano, é o poder temporal da Igreja. São os Católicos em cargos públicos e na vida política bem como a influência da Igreja perante a mídia. Quando isso acabar ou ser “suspenso”, o AntiCristo encontrará espaço para agir. Evidentemente, antes vem a Apostasia.

    Podemos, talvez, interpretar isso como a perda do Vaticano e da imagem do Papa frente ao mundo. Hoje, o Papa não é mais levado tão à sério dentro da própria Igreja, imagina no futuro próximo?? O colegiado em vez de unir a Igreja, só enfraqueceu o Papa e tornou o Pontíficado um “cargo”, como uma carreira, uma profissão mesmo.

    Repito: admiro a humildade e abnegação de Bento XVI e ainda espero que ele tenha um “às na manga”, mas que a posição dele pode mesmo ter enfraquecido o Papado, isso não há dúvidas.

  14. Padre Cristóvão, se é assim, como então se deu o que afirma de Mattei?

    “Gregório XII foi reintegrado ao Sacro Colégio com o título de cardeal-bispo do Porto (diocese suburbicária de Roma) e com o primeiro posto após o Papa. Abandonando o nome e o hábito pontifício e retomando o nome de cardeal Angelo Correr, ele se retirou como legado papal nas Marche [província italiana] e morreu em Recanati em 18 de outubro 1417”.

  15. Todos estamos preocupados com os futuros desdobramentos da renúncia de Bento XVI. Porém, creio ser muito mais significante o final do próximo pontificado: se o Papa eleito nesse conclave resistir até a morte, logo todos esquecerão a renúncia de Bento XVI. Se ele ficar velho e ceder às pressões para imitar seu antecessor, bem, aí sim estaremos diante de uma possível nova concepção do papado.

  16. Todos, eu inclusive, parecem ter muito a dizer sobre o ato do papa, sobre o futuro da Igreja; todos, inclusive eu, parecem nutrir certas teorias — muitas vezes mirabolantes, muitas vezes não.

    Talvez seja o momento de todos nos silenciarmos, de suspendermos um pouco os juízos que pululam em nosso espírito, para redobrarmos as orações e tentarmos fortalecer nossa confiança naquele que fundou a Santa Igreja. Rezemos pelo Santo Padre e pelo futuro Santo Padre. Nas aparições de Nossa Senhora, ela prevê coisas que nos assustam, mas nos esquecemos de que ela também promete que, por meio de jejum, oração e penitência, podemos impedir muitos castigos vindos do alto. Em vez de tentarmos adivinhar o que virá, tentemos evitar os castigos, supliquemos a misericórdia do Céu. É melhor do que iniciar bolões e exercícios de interpretação para os quais não conhecemos todos os elementos relevantes.

    Terços na mão, meus amigos.

    Aproveito, em tempo, para divulgar a novena pelo Santo Padre: http://merci.benoit.xvi.le-coin-scout.fr/
    Há link para o texto em português.

  17. “O papa age perfeitamente dentro das leis da Igreja. E a boa educação católica recomenda sempre creditar respeito às suas decisões.”…

    Às vezes esquecemos de quem sustenta a Igreja é o Espírito Santo. Bento XVI pode estar, ou melhor, está debilitado fisicamente, basta ver suas últimas aparições até usando a plataforma móvel que João Paulo II usou no fim de seu pontificado, mas, sua memória está muitíssimo boa. Creio, sem duvidar, que ele não tomaria uma decisão dessa proporção, se ao menos pensasse que, com isso, o papado se tornaria uma “democracia” moderna; que todo seu trabalho de Reforma da reforma seria jogado por terra; que os lobos uivantes e venenosos, como H. Kung e seu séquito que o aconselharam a renunciar tempos atrás sairiam vitoriosos. Será que o grande trabalho de aproximação com a FSSPX , a sua luta pela hermenêutica da continuidade na leitura do Vaticano II, será que tudo isso ele fez por puro capricho??? Penso que não é bem de um homem da têmpera de Bento XVI agir assim…
    Quem duvida das lutas arrojadas que ele enfrentou desde o começo do seu pontificado, interna e externamente???…
    Um homem que tem coragem de ir a Turquia mesmo quando muitos o aconselharam a não fazer pela fúria dos maometanos por causa de seu discurso…
    Como disse nosso amigo, a nós, o melhor é “Terços na mão, meus amigos”…

  18. Queria saber se alguém sabe onde eu encontro o livro do Pe. Malachi Martin na internet para download para que eu possa ler, no qual ele fala sobre a renúncia de um Papa depois do Concílio Vaticano II.

  19. “Essa renuncia é sim a destruição do Papado como a instituição que nós conheciamos até aqui”

    Não, não é… Na história da Igreja o papado viveu períodos de alto prestígio… mas também de decadência… não é a primeira vez que isso ocorre. E sempre aparece um pontífice reformador, que põe ordem na Igreja e recupera o prestígio do cargo.

    Essa crise é grave, mas não é a primeira e nem, ainda, a mais longa… A Igreja sempre triunfa.

    Recomendo a leitura da encíclica MEMINISSE IUVAT, de Pio XII, especialmente o n° 13 e 14.

    “A sociedade fundada por Cristo pode ser combatida, mas não vencida, porque haure a sua força não dos homens, mas sim de Deus. Antes, não há dúvida de que ela deve ser martirizada nos séculos por perseguições, contrariedades, calúnias, como sucedeu ao seu divino Fundador, consoante a profecia: “Se a mim me perseguiram, perseguirão também a vós” (Jo 15,20); mas é igualmente certo que, no fim, assim como Cristo nosso redentor triunfou, ela também alcançará sobre todos os seus inimigos uma pacífica vitória”

    Numa sociedade fundada pelo próprio Verbo encarnado e sustentada pelo próprio Deus Onipotente, acredito que os inimigos dessa sociedade conspiram inutilmente sua destruição.

    Leia também a sessão IV do CV primeiro, especialmente o cânon no n° 1831…

  20. Israel TL,

    «João Paulo II não renunciou; estaria isso no segredo de Fátima, mas relacionado a outro pontífice?»

    Se assim fosse, estaria pelo menos implícita essa renúncia na visão… Coisa que não aparece!

    O Papa caminha pela cidade em ruínas, trémulo e de andar vacilante, sobe a um monte e aí é morto aos pés da Cruz. Isto pode ser o início mas não o fim. A Igreja está em ruínas (na Fé) e Bento XVI deu muitos passos vacilantes e trémulos… Aproximou-se do Calvário.

    Tal como estes tempos se assemelham muito com o sonho das 2 colunas de D. Bosco:

    «De súbito, o Papa cai gravemente ferido. Imediatamente, os que estão com ele o ajudam e o levantam. [atentado João Paulo II?] Uma segunda vez, o Papa é atingido; ele cai de novo e morre. [Cai e depois morre – Bento XVI que cai, renuncia e só depois morrerá?]

    Um grito de júbilo e vitória irrompe dentre os inimigos; de seus navios eleva-se uma indizível zombaria [quantos se alegram com esta abdicação?]. Mas assim que o Pontífice cai, um outro assume o seu lugar. Os pilotos, tendo-se reunido, elegeram outro tão prontamente que, com a notícia da morte do anterior já se apresentam as boas novas da eleição do sucessor [prevê.se um Conclave relativamente rápido e o assunto do dia é a eleição do novo Papa].

    Contudo, a verdade é uma: Fátima tem ainda uma(s) palavra(s) a dizer na História da Igreja e na História do Mundo. Será tarde, os estragos serão muitos e só no meio da maior aflição, que virá, é que se dará ouvidos à Mãe do Céu…

    Mais importante que isto tudo, no entanto, é REZAR, rezar muito e confiar a Deus e à Virgem Imaculada o futuro da Igreja!

  21. “Mas a questão é: em dois mil anos de história, quanto foram os Papas que reinaram com boa saúde, que não experimentaram o declínio da força nem sofreram com doenças e provas morais de todo gênero? O bem-estar físico nunca foi um critério de governo da Igreja. Sê-lo-á a partir de Bento XVI?
    Um católico não pode deixar de se colocar estas perguntas, e se não o fizer elas serão colocadas pelos fatos, como no próximo conclave, quando a escolha do sucessor de Bento será inevitavelmente orientada para um cardeal jovem na plenitude de suas forças, para que possa ser considerado adequado para a grave missão que o espera”.

    O bem-estar físico NUNCA foi um critério de governo da Igreja…FATO. Então essa renúncia de Bento XVI num momento em que a Igreja se encontra passando por duras provas é sim algo que nunca se viu antes.
    Se o critério pra renuncia é doença e velhice, então estamos diante de algo inédito, estamos diante da destruição do Papado como o haviamos conhecido até hoje.
    O Papado continuará existindo? Claro que sim…mas em outros moldes, não mais como a monarquia de origem divina como acreditávamos até agora. Daqui pra frente, basta um “Non ce la faccio più”, convoca-se um novo conclave e voilá: Habemus Papam.
    Dizer que esse fato não diminuiu e muito o respeito e a fé do povo na instituição do Papado é querer fechar os olhos para o óbvio.

  22. Pedro Henrique,
    Salve Maria!

    Excelente comentário!
    Parece que as pessoas estão a duvidar das palavras de Nosso Senhor: “[…] et portae inferi non praevalebunt adversum eam […]“… A destruição do papado equivaleria a destruição da Igreja… Teria a promessa de Nosso Senhor falhado?! Seria vã a nossa Fé?! NÃO! Creio nas palavras de Nosso Senhor!

  23. Pode parecer petulancia minha a comparação ,mas não foi assim mesmo que os discipulos se sentiram ,quando viram o Mestre escarnecido , pregado ,vencido e morto numa cruz?O desanimo que se abateu sobre eles e a desesperança,foram infinitamente maiores que os nossos temores de agora.
    O nosso Papa parece ter sido vencido pelo mundo,sera?

  24. A destruição do papado equivaleria a destruição da Igreja? Não, mesmo porque eu não disse que o papado foi destruido totalmente. Mas é querer fechar os olhos para a realidade não admitir que foi a última instituiçao da Igreja a cair na modernidade.
    E por que deveríamos nos surpreender? A primeira a cair foi a Missa como nós a conhecíamos desde os tempos de Pio V, depois os outros sacramentos a sofrer mudança, veio a tal colegialidade que também é novidade do Concilio e por fim o Papado onde segundo anuncio oficial, a renuncia teria sido por ” motivos de saude e avançada idade”.
    A promessa de Nosso Senhor não falhou, mesmo porque ela ainda não se cumpriu. Como Jesus estava fazendo uso do ministério profético entendemos que Ele estava profetizando sobre algo que começou acontecer e que se concretizaria no futuro. Ele disse claramente que “as portas do inferno não prevalecerão”.
    Dois pontos devem ser observados nesta citaçao: portas no plural e prevalecerão no futuro. Veja que o verbo prevalecer está conjugado no futuro: prevalecerão, mostrando que era algo a acontecer futuramente.
    Ora, se Ele disse que elas não prevalecerão, pressupõe-se que haverá uma luta e somente no final é que serão derrotadas. Não chegamos ainda no triunfo, a Igreja está sob ataque e é o que estamos vendo e presenciando claramente agora. SIM! Creio nas palavras de Nosso Senhor!

  25. Resumindo e arrumando:

    …a norma pela qual os bispos renunciam a diocese a partir dos 75 anos é uma fase recente na história da Igreja que parece contradizer as palavras de São Paulo, para quem o Pastor é nomeado ad convivendum et commoriendum (2 Cor 7, 3), para viver e morrer junto a seu rebanho. A vocação de um Pastor, como a de todos os batizados, vincula de fato não somente até uma certa idade e a uma boa saúde, mas até a morte…

    …a renúncia de Bento XVI ao Pontificado aparece como um ato legítimo do ponto de vista teológico e canônico, mas, no plano histórico, em absoluta descontinuidade com a tradição e a prática da Igreja.

    Nestes dias,…o Espírito Santo é o grande ausente dos comentários da mídia, que avaliam o gesto de Bento XVI de acordo com um critério puramente humano, como se a Igreja fosse uma multinacional guiada em termos de pura eficiência, prescindindo de qualquer influxo sobrenatural…

    …a imagem da instituição pontifícia, aos olhos da opinião pública de todo o mundo, fica de fato despojada de sua sacralidade para ser entregue aos critérios de julgamento da modernidade…

    …mas a questão é: em dois mil anos de história, quanto foram os Papas que reinaram com boa saúde, que não experimentaram o declínio da força nem sofreram com doenças e provas morais de todo gênero? O bem-estar físico nunca foi um critério de governo da Igreja. Sê-lo-á a partir de Bento XVI?…
    .
    … desde o momento da eleição, cada pontífice experimenta um compreensível sentimento de inadequação, percebendo a desproporção entre suas capacidades pessoais e o peso da tarefa para a qual ele é chamado. Quem pode afirmar-se capaz de suportar com suas próprias forças o munus de Vigário de Cristo?…

    ..além disso, as faculdades intelectuais de Bento XVI estão plenamente íntegras, como ele o demonstrou numa de suas últimas e mais significativas meditações para o Seminário Romano…

    Seria pouco prudente, sob este aspecto, considerar já “fechado” o pontificado de Bento XVI, dedicando-se a balanços prematuros antes de aguardar o prazo fatal anunciado por ele: a noite de 28 de fevereiro de 2013, uma data que ficará gravada na história da Igreja…

    …Antes, mas também depois dessa data, Bento XVI ainda poderá ser protagonista de cenários novos e inesperados. De fato, o Papa anunciou sua demissão, mas não seu silêncio; e sua escolha restitui-lhe uma liberdade da qual talvez se sentisse privado…

  26. Prezada Gercione, eu sei muito bem o que a sra disse. Por certo, a sra. não disse que o papado foi destruído totalmente. Foi destruído, então, apenas parcialmente?

    Ou seja, segundo vossas palavras, “como a instituição que nós conheciamos até aqui, ou seja uma monarquia instiuida pelo proprio Cristo a partir de Pedro e portanto com prerrogativas divinas.”

    Quer dizer, foi destruído totalmente a sua essência, ficando apenas um simulacro, um disfarce?

    Tendo a Igreja chegado a tal ponto que o diabo não precisaria mais se preocupar com sua ruína, pois este teria sido o seu último golpe.

    E quanto a vossa análise sobre os ataques à Igreja pelas “portas dos infernos” e o não prevalecimento dessas sobre a Igreja, devo dizer que é completamente equivocada.

    Lógico, o triunfo da Igreja se dará na consumação dos séculos.

    Mas a Igreja ontem, hoje e até o final dos tempos é indefectível. Ela, em todos os segundos, desde que foi fundada é protegida e sustentada por Nosso Senhor. E isso é doutrina da Igreja contida no CV primeiro, que atribui à Igreja uma INVICTA ESTABILIDADE (DZ 1794) e que fundada sobre a rocha “permanecerá INABALÁVEL até ao fim dos séculos”. (Dz 1824)

    E também é de fé, contida nas sagradas escrituras, que a Igreja é edificada sobre a autoridade do Romano Pontífice. Isso são palavras saídas da boca do próprio Redentor. E essas palavras tem valor perpétuo, não servindo apenas para períodos intercalados da história, com períodos de intervalo em que poderiamos nos furtar a sua autoridade. Simplesmente são palavras de valor perene, que valem o tempo todo.

    Por isso que também foi definido que haverá sucessores de Pedro até o final dos século, com as mesmas prerrogativas que este possuia.

    Portanto quando Nosso Senhor disse que as portas do inferno não prevalecerão, Ele não quis dizer que o triunfo da Igreja se daria apenas no final dos tempos, mas que em cada dia da existência da Igreja os poderes malígnos a combateriam, sem, no entanto, que esta Igreja, depositária da Palavra de Deus, tivesse sua fé ou moral corrompidos por esses mesmos poderes diabólicos.

    A Igreja permanece tão pura e integra hoje como em qualquer período de sua história. Isso, certamente, não elimina a luta pela Tradição, nem os problemas do CV II.

  27. Segundo consta em http://www.catholic-hierarchy.org/bishop/bcorre.html Gregório XII, Papa Emérito, foi apontado Cardeal, ou seja, reintegrado ao Colégio dos Cardeais em sua renúncia. Alguém que tenha acesso a algo deste fato histórico poderá confirmar, mas não creio que foi uma “reintegração automática” mas possivelmente uma decisão da Assembléia Sinodal, como escreve o eminente articulista Roberto de Mattei.

    Quanto à Bento XVI retornar ao Colégio dos Cardeais, é possível por decisão do próximo papa.

    Cristo, assim como o homem prudente do Sermão da Montanha, construiu sua casa sobre a Rocha (Pedro). Vieram os ventos e a tempestade e a casa não caiu…