Francisco, Papa. Reações (IV) – Dom João Braz de Aviz.

“Reforma da Cúria? Inevitável e não agradará a todos”. Entrevista com João Braz de Aviz

“Se estou contente? Bem, não podia estar melhor. Francisco é um bem para todos.”

Cardeal João Braz de Avis, o representante brasileiro no consistório de hoje.

Cardeal João Braz de Avis.

IHU – O cardeal brasileiro Braz de Aviz manda um aviso: ”A reforma do Papa Francisco não agradará a todos: é possível que haja resistência. Mas é preciso podar para tornar a planta mais forte. Abolir o IORSão Pedro não possuía um banco, mas tinha que pescar para viver…”.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 19-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Cardeal João Braz de Aviz, está feliz com a eleição de Bergoglio?

Se estou contente? Bem, não podia estar melhor. Francisco é um bem para todos.

Franciscano de nome e de fato…

Pessoalmente, eu conhecia muito bem essa sua propensão à sobriedade, a não ir buscar o supérfluo para se concentrar no essencial. Francisco, pelo que vemos ele fazer, está impondo uma direção de marcha autêntica para o percurso cristão. A sua visão mostra uma vivência mais próxima do povo. Ele tem a coragem de fazer, de testemunhar em primeira pessoa. Lembro-me da conferência deAparecida do episcopado latino-americano, em 2007. A transparência com que ele enfrentou o nó das desigualdades sociais chamou a atenção de todos. O seu testemunho era direto através de uma coerência de vida. Ouvíamos um homem que mostrava o que já havia posto em prática, ele por primeiro. Na América Latina, é muito sensível o papel de liderança do pastor que se torna um guia para o povo no momento em que o povo percebe a sua credibilidade. Isso também acontece com os políticos, mas com os pastores essa dinâmica é muito mais pronunciada. Bergoglio é amado porque é simples.

Qual é o seu projeto?

Podemos intuir a Igreja que ele delineia com o seu descer entre o povo, sem formalidades, para estar mais perto do povo. Ele insiste muito no conceito da misericórdia. Já em Aparecida ele criticava aqueles pastores que tendiam a se ocupar com posições de prestígio, ao invés de descer ao lado das pessoas. É muito bonito o seu modo de ver as coisas da vida, de conceber a grandeza de Deus, um Deus que perdoa, que ama e nunca se cansará de fazer isso.

Ele quer uma Igreja pobre…

Não é um conceito novo, porque reflete a famosa opção preferencial pelos pobres. Mas ele foi além, falou de uma “Igreja pobre para os pobres”, e isso significa que a pobreza implica em comunhão.

Na Cúria, nem todos vão pular de alegria…

Eu acho que a Cúria precisava de uma mensagem como essa. Ou, melhor, todos precisávamos disso. Sobriedade significa evitar o risco do carreirismo, a busca a todo custo de um posto importante em vez de outro. É o exercício da sobriedade que Francisco nos ensina, o voltar o olhar para a radicalidade do Evangelho.

Ele vai viver no Palácio Apostólico ou optará por permanecer em Santa Marta?

Eu imagino que ele tenha se admirado com tanto espaço, pensando sobretudo na sua casa em Buenos Aires, três peças ao todo. Eu não sei se ele irá viver lá. Quem sabe? Francisco é uma pessoa livre interiormente, e eu tenho certeza de que ele continuará nos surpreendendo com aquele seu grande sorriso. Estamos todos assistindo coisas tão bonitas e coerentes que só podemos ficar tocados ou, melhor, contagiados. Certamente, talvez ele também encontrará dificuldades na Cúria.

Há quem reme contra?

Como todas as mudanças, essa também envolverá algumas dificuldades. É todo um conjunto de coisas, a Igreja é uma realidade complexa. Provavelmente, haverá atitudes relutantes, talvez essa simplificação tão grande não poderá agradar a todos.

Haverá uma reforma?

Eu acho que sim. Todos os ramos da videira tem um significado próprio, mas às vezes é preciso fazer uma poda para tornar a planta mais forte. Estou convencido de que Francisco levará adiante o projeto de reforma através do diálogo e com a ajuda de todos. Eu não acredito que ele queira rupturas, no máximo quer deixar claro que a Igreja já não pode ir nessa direção.

O cardeal Fox Napier disse que São Pedro não tinha um banco, dando a entender que era preciso rever o IOR…

(Risos) Bem, é preciso dizer que São Pedro, embora não possuísse um banco, contudo, tinha que ir pescar para se manter. Devemos refletir sobre o fato de que a maior segurança não é dada por uma conta bancária, mas sim por Deus. Certamente, a nossa fonte de sustento é o nosso trabalho, mas depois entra em cena a Providência. Onde está a nossa segurança, no dinheiro ou em Deus? O dinheiro, assim como o IOR, obviamente são instrumentos de que precisamos para operar em áreas muito difíceis do mundo.

O senhor também sonha com uma Igreja pobre?

No mundo, há zonas de miséria sem nada porque há uma péssima distribuição dos bens em nível planetário. É preciso uma reflexão fraterna, uma dimensão comunitária.

O que a América Latina pode ensinar para a Europa?

Nós fomos evangelizados pela Europa há cinco séculos, mas não entendemos por que no continente que nos ensinou Cristo a sua mensagem se dispersou, desapareceu o sentido de Deus entre o povo. Por que há esse cansaço na fé? O que aconteceu? Bento XVI evidenciou isso. Agora caberá a Francisco intervir.

O secretário de Estado irá mudar logo?

No momento, o papa prorrogou todos com a fórmula donec aliter provideatur. É uma confirmação provisória.Francisco tomou um pouco de tempo para conhecer e estudar. Os tempos não serão longos. Ele está trabalhando com a visão de um Pai.

Leia também:

Francisco, Papa. Reações (III) – Comunicado da Casa Geral da FSSPX.

Francisco, Papa. Reações (II) – Coletiva de três cardeais brasileiros que participaram do conclave.

Francisco, Papa. Reações (I – Leonardo Boff).

6 Comentários to “Francisco, Papa. Reações (IV) – Dom João Braz de Aviz.”

  1. Então agora a sede do papado será transferida a Buenos Aires para o Papa Francisco poder morar em uma maloca? E em relação a opção pelos pobres quando a TL fez essa opção preferencial os pobres procuraram os evangélicos porque queriam ouvir falar do pecado, do inferno, do paraiso, serem reprendidos; além do mais, os leigos que não possuem uma vocação religiosa não tem que fazer votos de pobreza, tem família para sustentar e, o resultado é que muitos mais catolicos irão procurar as seitas protestantes.

    Muito se fala dos votos de pobreza, mas e a castidade? São Maximiliano Maria Kolbe como franciscano combatia a impureza e os vícios da sensualidade (além é claro de atacar os ideiais da maçonaria como o liberalismo e o socialismo). Quero ver estes franciscanos começar a pregar a virtude da pureza tão esquecida dos ensinamentos dos sacerdotes.

    PS – interessante ver que os padres possuem carros mas não possuem batina. Não usam o hábito para se vestir como o povo, mas falam do pobre e possuem patrimonio, cade o voto de pobreza. Não era melhor usar batina e não possuir bens e propriedades?

  2. Soltaram as últimas amarras dos lobos? Se os cardeais fossem mais santos, certamente não seria necessária nenhuma reforma. Reformem-se a si mesmos cardeais, daí incendiarão o mundo. Querem reformar a Igreja, mas não querem reformar suas almas? Querem reduzir a Igreja ao pó que seus pensamentos se reduziram? Em nome de São Francisco querem desfigurar a liturgia, as estruturas da Igreja, a disciplina, o primado. Deleitem-se, pois a derrota já está predita!

  3. Uma igreja pobre para os pobres! Deixa-me apreensivo! Na verdade também os apóstolos e discípulos de Jesus levantaram a mesma questão e jesus respondeu: Pobres sempre tereis entre vós. Na verdade a Igreja foi fundada com objectivo de salvar os pecadores. Não foi fundada como uma organização filantrópica. Uma igreja santa para os homens faria todo o sentido, pois é a essência da sua fundação: a salvação dos homens. Uma Igreja Santa que santifique os homens tem depois por acréscimo o socorro dos pobres. Uma igreja pobre para os pobres é mais um programa politico tipo teologia da libertação. Uma Igreja pobre para os pobres é até discriminatória, pois a Igreja é para todos os homens, ricos e pobres. Todos são objecto de salvação. O pobre por ser pobre não tem a salvação garantida, pois a sua pobreza pode ser causa da sua perdição. Como? Se não aceitar a vontade de Deus, se revoltar-se contra Deus por ser pobre. O rico por ser rico também não tem a salvação garantida. Se ele não usa os dons que Deus lhe deu em favor dos outros, mas apenas para si, também a riqueza é causa da sua perdição em vez de salvação. Uma Igreja pobre para os pobres não é certamente o espírito de Jesus. Jesus veio salvar todos os homens (pobres, ricos, negros, brancos, deficientes, etc, etc). Jesus veio salvar o homem de quê e para quê? Jesus veio para derrotar Satanás, logo para salvar-nos do espírito maligno e para nos levar a salvação eterna. É este o objectivo da salvação.
    Uma Igreja pobre e para pobres não se insere na missão de Jesus. Não é a pobreza condição de salvação ou santidade. A santidade não está em ser pobre, mas em cumprir os mandamentos, ser puro, ser orante e ser vigilante pois apesar de derrotado, Satanás continua operante e extremamente activo.
    Que Deus ilumine o Papa Francisco e faça ver que a Igreja não deve ser pobre, mas santa.

  4. Em complemento ao meu comentário, acima exposto, a crise actual no mundo reside no que Pio XII denunciou: Direito sem Deus, Politica sem Deus e Economia sem Deus. Direito com Deus, a lei protege os homens. Direito sem Deus, a lei vira-se contra o homem (aborto, eutanásia, casamentos homossexuais, legalização da droga, etc, etc); Politica com Deus, os políticos usam a coisa pública em favor das pessoas, do povo. Política sem Deus, o políticos usam a coisa pública para eles (corrupção). Uma Economia com Deus, a mesma tem como objectivo as pessoas. Economia sem Deus, o objectivo é apenas o lucro e as pessoas são instrumentos para tal objectivo.
    Só uma purificação dos homens se consegue levar Deus novamente ao Direito, à Política e a Economia.
    E essa purificação faz-se com uma Igreja santa, com bispos, padres e religiosos santos. Um bispo pode viver no seu palácio devido a sua dignidade, mas ser pobre. Um pobre pode viver numa barraca e ser um vaidoso, orgulhoso, impuro, etc. Este pobre pode ser mais avarento do que o bispo que vive no seu palácio episcopal.
    O problema da Igreja é ter bispos e padres que fizeram acordo entre o espírito de Jesus com o espírito do mundo e o seu comportamento e palavra são “talvez”, “pode ser”, “quem sabe”, “não é bem assim”, “depende”, etc. O problema é que temos um clero e religiosos amigos do mundo. Isto é, são mais sacerdotes do mundo do que Jesus. Neles a radicalidade do Evangelho “sim, sim”, “não, não” desapareceu. Não é a pobreza que vai trazer a santidade, mas o contrário.
    A abertura ao mundo do Vaticano II trouxe a autodemolição de que falava o Papa Paulo VI. É esta abertura que ainda hoje causa estragos a Igreja. A Igreja é que deve evangelizar o mundo, com a agiornamento do Vaticano II, o mundo “evangelizou” a Igreja, por isso que ela hoje está irreconhecível. A alma do mundo é a Igreja. Como a Igreja está em crise e gravíssima, porque os pastores tornaram-se cloacas de impureza, o mundo está doente.
    A cegueira espiritual dos pastores tem sido a perdição de muitas almas e a desgraça da Igreja. Nesta cegueira espiritual estão muitos bispos. Costumo dizer aos meus filhos: Nem como mirone quero estar no julgamento de bispos e padres no dia em que estiverem na presença de Deus.

  5. Acredito que realmente precisamos de muitas mudanças e que sejam significativas; mas que esteja presente a Teologia da Continuidade com o Pontificado de Bento XVI, e que o movimento da reforma liturfica continue a todo vigor.

  6. Pobres de nós…