A primeira Semana Santa de Francisco.

IHU – Gestos fortes. Homilias essenciais. Ritos simplificados. Uma semana que revelou o estilo do novo Papa, mas que também levantou algumas interrogações que ficaram sem resposta. A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 01-03-2013. A tradução é do Cepat.

A primeira Semana Santa do papa Francisco (foto) revelou ainda mais o seu estilo: na celebração, na pregação e na presença.

A decisão de celebrar a missa in coena Domini, da Quinta-Feira Santa, entre os jovens na prisão de menores de “Casal del Marmo”, lavando os pés de doze deles, sendo uma deles uma jovem muçulmana, é provável que faça escola. Por outro lado, realizou-se num terreno já fértil, pois gestos deste tipo não são raros. Na Sexta-Feira Santa, na França, mais precisamente em Lyon, o cardeal Philippe Barbarin rezou com um grupo de ciganos expulsos de um acampamento demolido por autoridades. Em São Paulo, Brasil, o cardeal Odilo Pedro Scherer levou a Paixão de Jesus em procissão pela tristemente célebre região da Cracolândia, de má reputação.

Entretanto, fica ainda sem resposta a interrogação sobre duas atitudes, aparentemente contrastantes, com aquelas que o papa Jorge Mario Bergoglio teve no início de seu pontificado.

Em “Casal del Marmo” não receou em também oferecer aos jovens não cristãos a celebração da missa, “culmen et fons” da vida da Igreja. Sendo que, na audiência do dia 16 de março, com os jornalistas, absteve-se de pronunciar as palavras e de fazer o gesto da bênção porque “muitos de vocês – disse – não pertencem à Igreja católica, outros não são crentes”.

Na pregação, o papa Francisco confirmou que se concentra em poucas palavras essenciais, uma forma seguramente mais eficaz do ponto de vista comunicativo. Na homilia do Domingo de Ramos, a passagem chave foi aquela em que descreveu a entrada de Jesus em Jerusalém como a de um rei cujo “trono régio é o lenho da cruz”.

Na brevíssima homilia da Quinta-Feira Santa, em “Casal del Marmo”, deteve-se no significado do serviço do lava-pés.

Na homilia da Vigília Pascal, a passagem culminante foi a seguinte: “Aceite que Jesus Ressuscitado entre em sua vida, acolha-o como amigo, com confiança: Ele é a vida! Se até agora você esteve distante Dele, dê um pequeno passo: Ele acolherá você com os braços abertos. Se você era indiferente, aceite arriscar: você não ficará decepcionado. Se parece difícil segui-lo, não tenha medo, confie Nele, tenha a segurança de que Ele está perto de você, está contigo, e Ele vai lhe dar a paz que você busca e a força para viver como Ele quer”.

De qualquer modo, a homilia mais rica, profunda e sugestiva, entre as pronunciadas pelo papa Francisco, na Semana Santa, foi a da missa crismal da quinta-feira pela manhã. O “povo” liturgicamente carregado sobre os ombros do sacerdote que celebra; as “periferias” das cidades e dos corações alcançadas pelo óleo messiânico; os pastores que devem ter “cheiro de ovelha”: são todas elas imagens que ficam felizmente impressas.

“L’Osservatore Romano”, do dia 30 de março, revelou que o texto desta homilia da missa crismal, “com exceção de alguns acréscimos”, era o mesmo que Bergoglio havia “preparado antes de ser eleito papa e que tinha entregue a seus colaboradores antes de ir para o Conclave”; tanto é assim, que foi lido também na missa crismal celebrada na catedral de Buenos Aires.

No que diz respeito ao “ars celebrandi”, nas liturgias da Semana Santa, na Basílica de São Pedro, notou-se um respeito maior à simbologia e esplendor dos ritos do que o percebido na missa de início de pontificado.

Contudo, neste ponto, também contando com abreviações nem sempre compreensíveis. Em particular, não se entendeu qual a razão pela na qual, na Vigília Pascal, após o canto do Exultet, reduziu-se ao extremo as leituras bíblicas e, literalmente, mutilou-se a primeira, a narração dos seis dias da criação reduzida apenas à criação do homem.

Essa brevidade, que em alguns contextos pode ter sua justificativa e está, de fato, prevista pelo missal, não teve o seu sentido compreendido numa Vigília Pascal presidida pelo Papa e em que participou – em pessoa ou através da retransmissão televisiva – um povo fiel altamente motivado, do qual foi subtraída a plenitude dessa narração da “historia salutis” que a liturgia ilumina nesta noite culminante do ano, com a luz do Círio Pascal.

Numa de suas páginas memoráveis, Romano Guardini descreveu a celebração da liturgia da Páscoa na Basílica de Monreale, na Sicília, repleta de camponeses pobres, em grande parte analfabetos, no entanto, encantados pelo esplendor do rito: “A sagrada cerimônia durou mais de quatro horas, mas sempre houve uma viva participação nela”. Foi precisamente sobre Guardini que o jesuíta Bergoglio escreveu sua tese de doutorado em teologia, em Frankfurt, em 1986.

* Todas as homilias do papa Francisco, em vários idiomas, podem ser lidas aqui.

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15 Comentários to “A primeira Semana Santa de Francisco.”

  1. Na terceira Vigília Pascal que celebrei na Matriz de Irajuba, mais uma vez fizemos todas as leituras. Sem pressa e sem folheto “litúrgico”!
    Quinta-feira Santa na Matriz, lavando pés somente a homens. Não beijei pé de ninguém, que, até onde sei, não está prescrito nem é bíblico, além de ser anti-higiênico. Não pretendo ofuscar a humildade de Cristo por uma aparência da humildade que não tenho, mas não quero emitir juízo sobre o gesto externo de outrem, menos ainda das máximas autoridades temporais da Igreja, ainda que internamente não possa fugir de meus próprios pensamentos e impressões.

  2. Não penso serem as atitudes referidas como contrastantes, nem aparentemente. O público é totalmente diverso e, atualmente, o maior embate da Igreja é com uma mídia que ignora completamente o que seja a Igreja Católica e, não satisfeita com sua ignorância, fomenta contra ela matérias sem fundamento fático, muitas vezes com acusações absurdas, sem, jamais, enaltecer e evidenciar a atuação benéfica dela em diversas frentes da sociedade, como, por exemplo, menores infratores, inclusive de outras religiões.

  3. Ainda quanto ao lava-pés, saiu em matéria no ACI:

    “No lava-pés participaram jovens católicos, muçulmanos, ortodoxos e ateus da África, do Leste Europeu, Itália e Equador.”

    http://www.acidigital.com/noticia.php?id=25196

  4. A minha Vigilia Pascal também foi completa. Aqui está pra quem quiser ver:
    http://www.flickr.com/photos/sspxcanada/sets/72157633131258882/

  5. “Fico imaginando” se as Sagradas Escrituras não estariam erradas ao descreverem a Cidade Celestial construída por Cristo nos Céus. Como seria pra muita gente de “humildade tamanha a dar inveja” a todos os Santos que já passaram por esse mundo cruel, essa Cidade Celestial construída por Cristo para acolher os Justos desse mundo. A Santa Igreja Romana tenta nos mostrar a grandeza e o esplendor dessa Cidade também através da Sagrada Liturgia; que, por maior e mais bela que seja, não passa de uma “leve sombra” da riqueza descrita no Livro Sagrado. Os Grandes e Católicos Papas da história se esmeraram para apresentarem a Deus Nosso Senhor o que de mais belo e grandioso o homem pode oferece-lO por meio da Liturgia. O texto Sagrado fala de uma cidade murada com pedras preciosas. Diz-nos da beleza dos Santos, do esplendor de suas vestes luzentes e de seu caminhar por ruas de ouro e cristais; o que inspirou um poeta a dizer: “Metade da Glória celeste, jamais se contou aos mortais”. Costumo dizer: Deus por amor criou o belo e por ódio o diabo criou a extravagancia. Deus por amor criou o coração singelo o diabo por ódio fez muitos ter o coração papalvo. Em fim, o diabo pôs a miséria no coração daqueles que deveriam ser pobres de espirito para que pelo Amor de Deus fosse também destes o Reino dos Céus. Viva a Santa, Bela e Grandiosa Liturgia! Viva o Papado! Sobre tudo e todos VIVA CRISTO REI! QUE VIVA !!!

  6. Dizem que São Pio V beijou o fé ulcerado de um homem.
    De que me adianta respeitar nossas regras litúrgicas se não temos nem piedade e muito menos humildade em reconhecer Cristo no outro?

  7. O Papa Francisco está correto,é o pastor que a igreja precisa nesse momento taõ difícil.

  8. Elton, vá então e faça como ele! O que não falta é mendigos com pés ulcerados pelas esquinas. Mas lembre-se que a verdadeira humildade não toca trombetas pra ser vista pelos homens.

  9. De que me adianta respeitar nossas regras litúrgicas se não temos nem piedade e muito menos humildade em reconhecer Cristo no outro?

    Mas porque as duas coisas teriam que ser excludentes entre si?

    Fiquem com Deus.

  10. Não preciso falar o que faço ou não, basta Deus saber. Só disse que foi um ato muito louvável da parte de Pio V e agora de Francisco. Realmente, a humildade não precisa ser anunciada a som de trombeta, realmente, mas então devíamos censurar a Sagrada Escritura no que tange tudo o que Jesus fez com os excluídos daquele tempo. E em um mundo globalizado, alguém como o papa não pode ficar escondido e muito menos o que ele faz.
    Conheço, muitos sacerdotes que possuem as mais belas casulas e alvas, igrejas com os mais belos castiçais e cruzes, mas fazias, frias e empoeiradas, sacerdotes preocupados em não suar a batina negra com faixa e mozeta desprezando aquele que não pode ajudá-lo no dízimo da paróquia. Bento XVI retocou a liturgia, mostrou-nos que nada mudou e que todo o esplendor pode ser usado com a piedade litúrgica e sendo humilde, a como Bento XVI foi humilde.
    Não é necessário ser excludente em nada Fábio. O mais correto é uma forma completar a outra. Mas se no caso um homem se acha muito importante por conta da roupa que não pode olhar pro irmão ou dividir com o irmão poderia dizer Senhor, Senhor e não entraria no reino dos Céus.
    O que ninguém compreende é a manipulação da mídia. Bento XVI falou sobre o Concílio da mídia, e hoje, vemos o papa da mídia.
    Ninguém vê o que Francisco disse sobre Bento XVI e muito menos o que ele disse sobre a Igreja não se tornar uma ong e fazer o que é próprio da Igreja, salvar almas.
    E o que vejo a mídia dizer? O papa do povo, o papa renovador, o papa social, oras, deviam então os católicos se recordarem de Leão XIII que ficou conhecido como o papa social. E devíamos recordar mais ainda que João Paulo II agora bem aventurado mesmo cometendo erros pastorais não deixou de ser aclamado a honra dos altares. Mas o que nós católicos vemos e entendemos? Aquilo que a mídia quer: um papa que vai renovar a Igreja.
    A teologia da libertação vai se aproveitar disso. Claro que vai, eles se aproveitam de tudo, mas eu me lembro bem das palavras de nosso Senhor: As portas do inferno não prevalecerão.
    Francisco é um papa da TL, ótimo, conte-me mais como a TL geralmente aceita aquilo diz a Santa Sé segundo os assuntos mais críticos tangentes a vida humana e a família.
    Hoje eu não me furto de dizer: São os próprios católicos que destroem a Igreja. Ao invés de nos relacionarmos observando e velando o santo Padre não, jogamos pedras nele como se nunca houve pecado em nossas vidas.
    João Paulo II opinou pelos pobres e não foi comunista nem simpatizante da TL, Bento XVI esteve no meio dos pobres e enquanto cardeal excomungou a TL, Francisco viveu com os pobres e nem por isso deixou de aceitar o papado, deixou de crer que a Igreja salva almas e muito menos de reconhecer o pontificado de Bento XVI.

    Oremos pela Igreja, oremos para que o Espírito sempre a assista e sobretudo não nos esqueçamos que quando nossa Igreja Santa não faz algo pelo que tem fome uma seita vem e os arrebanha. Prefiro andar com os mendigos sendo taxado de fariseu e salvar aquelas almas arrebanhando-os para a Igreja do Cristo que ser chamado de homem de fé e deixá-los para o espiritismo, protestantismo e umbanda os arrebanharem fazendo-os a confessar o erro.

    “Quando não confessa Jesus Cristo, confessa o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio.”
    “Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornaremo-nos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor.” Francisco, papa da Sagrada Igreja Romana.

  11. Eu gostaria de escrever um pouco mais; só que os comentários de Gercione Lima e Flávio são um “tenha calma, cale a boca e aprenda” no misancene modernista.

  12. “Hoje eu não me furto de dizer: são os próprios católicos que destroem a Igreja.”

    Relutei muito em escrever isso, mas concordo. E digo isso como uma pessoa nascida em uma família luterana e convertida ao catolicismo através do matrimônio. Não, não vou fazer como o muçulmano Magdi Allam . Muito menos como muitos católicos aqui que tiveram coragem de apoiá-lo indiretamente ao insinuar que a sua saída se deu por causa do Papa Francisco.

    Não o faço por várias razões:
    Em primeiro lugar porque o meu compromisso foi com a Igreja fundada por Jesus Cristo e na Sua Promessa de que as portas do inferno não prevalecerão contra Ela, aconteça o que acontecer. Quem constrói a sua fé em cima desses alicerces, não tem o que temer. Nem pessoas, nem acontecimentos.

    Em segundo lugar porque ficou bem claro para mim que na adesão à Fé Católica estava implícito o reconhecimento do Magistério e a autoridade papal. Seja esse Papa como for . Pois a sua escolha não se dá pela minha vontade e caprichos, mas pelo Espírito Santo, cujas razões me fogem à compreensão. Acreditem – e disso aí eu entendo bem – a não aceitação desses requisitos nos coloca automaticamente na categoria de protestantes. Argumentem como quiserem, mas essas são as bases que nos distinguem do protestantismo. Não há uma terceira via, lamento.

    Em terceiro lugar , porque acredito e temo as palavras de São Mateus 12,36: “Em verdade vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido.”
    Mas pelo visto, isso já não intimida mais ninguém! Fico estarrecida com a falta de respeito, a rede de intrigas,o desejo mórbido por fofocas, a instabilidade, a soberba e a falta de caridade manifestada pelos que se dizem católicos. Espero que sejam todos muito jovens para que tenham as suas faltas abonadas por conta da inexperiência e da imaturidade!

    Hoje, infelizmente, depois de tudo que ouvi também não me furto de dizer : são os próprios católicos que destroem a Igreja. O melhor Papa não conseguiria mudar o coração de muitos católicos!
    Mais: se fosse influenciável , diria : por quê não me avisaram que entraria para uma Igreja cujos membros a odeiam e fazem de tudo para demoli-la ?!
    Não, por favor, não digam que a amam. Lutero também dizia isso. Mas preferiu o caminho da soberba independência, como muitos fazem hoje.

  13. Instaura-se o NOVO Magistério Vivo. RESPEITA-SE, ELOGIA-SE, LOUVA-SE o anterior, joga-se confetes, etc. só que agora é outro o Magistério Vivo. Saem os esplendores.

    Haja Hermeneutica da continuidade. Eu diria MALABARISMO da continuidade.

  14. A dona Marta tem razão ao dizer ninguém jamais destruirá a igreja de Deus e realmente os inimigos dessa indestrutível igreja estão dentro dela. Se dizem católicos mas são de fato protestantes. São modernistas bajuladores sem conhecimento da Fé, da Tradição. do Magistério etc. São aqueles do tipo “eu engulo tudo não importa”… Bradam: Temos um papa e o que ele fizer eu sigo mesmo que seja ecumenismo. modernismo progressista apimentado pela teologia da libertação eu sigo. Acho bonito tudo que os bispos modernistas fazem pois são bispos e eu só tenho que seguir. Sou um fiel que segue o que o meu pároco manda mesmo que seja distribuir pão francês com suco de uva como se fosse eucaristia. (Também aconteceu nesta Pascoa em Cubati PB) Fazem dos missas baladas, enrolam a língua em barulhos estranhos e dizem ser o “espirito santo” que os faz rolar pelo chão; porem não faz mau eu aceito tudo sou um fiel “bonzinho e obediente” ao padre que promove, ao bispo que apoia e consequentemente sou obediente até ao papa. Sou um “verdadeiro católico”. Mentira! Mentira! Mentira! Ser Católico é bem mais que isso. Ser Católico antes de mais nada é: Crer em TUDO o que a Santa e Romana Igreja SEMPRE ENSINOU e lutar contra tudo e todos que quiserem mudar isto, mesmo correndo o risco de sermos chamados de: “católicos que destroem a igreja”. Era só o que faltava…

  15. O Espírito Santo está no Papa Francisco. Não podemos duvidar que em matéria de Fé, seja infalível. Existe a Tradição da Igreja. Existe o Evangelho. O Papa tem que agir de acordo com o que Jesus e seus continuadores pregam; agindo assim, não se terá dúvida que o Espírito Santo nele habita. Agora… Se algo está sendo anunciado de modo contraditório? E se o Papa assim o fizer, temos que aceitar suas decisões mesmo sendo ferida a Santa Doutrina Católica? A conclusão que chego é que sua infalibilidade está atrelada a confirmação da Fé que cada Católico traz desde o seu batismo e todos sabem quais são estes ensinamentos.