Francisco e a liturgia.

Por Fratres in Unum.com – Desde os primeiros instantes do pontificado de Francisco, o orbe católico acompanha atentamente a gradativa exposição das posições e práticas litúrgicas do novo Pontífice. “Procuro manter o mesmo jeito de ser e de agir que tinha em Buenos Aires, porque se eu mudar, na minha idade, com certeza vou fazer um papel ridículo”. A afirmação é do Papa Bergoglio em uma carta dirigida, no início deste mês, a um sacerdote argentino. Nela, Francisco fala de seus costumes, mas podemos, sem temores, estendê-la às suas preferências litúrgicas.

francisco

Francisco e o Motu Proprio

“Não se toca no motu proprio ratzingeriano de 2007, Summorum Pontificum, e o missal de 1962 de João XIII (que é, pois, a última versão do missal tridentino do Papa S. Pio V) está salvo. Aquele rito […] não é uma antiguidade, detrito a ser despachado para um museu a ficar empoeirado. Foi o próprio Pontífice reinante a dizê-lo”. Ou ao menos é o que Matteo Matzuzzi, do Il Foglio, depreendeu do relato de Dom Domenico Padovano, bispo de  Conversano e Monopoli, sobre a conversa do Papa com um grupo de bispos, dentre os quais ele próprio, recebido por Francisco em visita ad limina Apostolorum. Na realidade, o jornalista apenas retransmite, sem acrescentar nada de novo, o que Sandro Magister publicou em seu blog: “Os bispos da região lamentaram com o Papa a obra de divisão criada dentro da Igreja pelos paladinos da Missa segundo o rito antigo. O que lhes respondeu o Papa? Segundo o referido Monsenhor Padovano, Francisco teria exortado a vigiar sobre os extremismos de certos grupos tradicionalistas, mas também a guardar a Tradição e fazê-la conviver na Igreja com a inovação”.

Ao mesmo tempo em que não é possível antever qualquer revisão de Summorum Pontificum, dois aspectos devem ser considerados dentro do “programa de governo litúrgico” de Francisco:

Quanto à Missa Tradicional – A ênfase na colegialidade, até o momento traço mais marcante do pontificado de Francisco, permite crer que, transcorrendo tudo dentro da normalidade, dificilmente veremos intervenções de Roma junto às dioceses a fim de fazer valer o que está previsto na lei. Cabe-nos aguardar e rezar para que a aplicação do motu proprio em Buenos Aires não se torne novo paradigma para o restante do mundo católico.

Quanto à liturgia em geral –  O ars celebrandi do Papa será interpretado, queiramos ou não, não só como um estímulo à manutenção do status quo litúrgico na Igreja Latina, mas também como uma chancela a tudo que se praticou mundo afora nas últimas décadas, o que inclui, por certo, tanto a aplicação selvagem de uma pseudo reforma como a defenestração do preciosíssimo tesouro litúrgico da Igreja Romana. Se Bento XVI preferia uma reforma das mentes, e não das leis, hoje não vislumbramos nem uma nem outra — ao menos proveniente do Papa, já que o Espírito Santo tem suscitado um crescente redescobrimento das riquezas litúrgicas na Igreja discente.

Guido Marini

Ainda na visita ad limina, o Papa teria dado como exemplo de convivência entre tradição e inovação a sua própria atitude: “Vocês estão vendo? Dizem que o meu mestre de cerimônias é de corte tradicionalista; e muitos, após a minha eleição, me convidaram a retirá-lo de seu cargo e substituí-lo. Eu respondi que não, precisamente para que eu mesmo possa me beneficiar de sua preparação tradicional e, ao mesmo tempo, que ele possa tirar proveito, igualmente, de minha formação mais emancipada”.

O Papa no Vaticano

Também presente entre os bispos recebidos por Francisco, o Arcebispo de Bari, Dom Francesco Cacucci, declarou à Rádio Vaticano que o Papa exortou a “viver a relação com a liturgia com sensibilidade e sem superestruturas”. Tal sensibilidade de Bergoglio se fez notar já na primeira Missa como Soberano Pontífice, com o retorno do altar-mesa, de infelicíssima memória.

Sobre as celebrações na Casa Santa Marta, limitamo-nos a recordar que Francisco passa a ser o primeiro Papa a celebrar suas missas cotidianas versus populum. 

Mesmo nas celebrações na Basílica de São Pedro, o latim perdeu espaço para o italiano — inclusive com o seu “per tutti” [“por todos”] na oração eucarística — ; além de tantas outras mudanças menores, mas não menos importantes: nos paramentos, no sermão proferido de pé junto a um ambão, no retorno da “férula conciliar“, etc. Sinais de um homem de personalidade firme, decidido, capaz de fazer mudanças drásticas sem nenhum respeito humano. Diga-se de passagem, exatamente o que se espera para a reforma da Cúria Romana. No entanto, no âmbito litúrgico, são gestos que não podem ser menosprezados ou tidos por irrelevantes — o que é normalmente feito por aqueles que bradavam vivas às menores das restaurações no pontificado de Bento XVI. Já dizia Ratzinger estar “convencido de que a crise na Igreja, pela qual passamos hoje, é causada em grande parte pela decadência da liturgia”. E tal decadência, mesmo nas liturgias pontifícias, deve ser honestamente reconhecida, a fim de que os desvios sejam esclarecidos e evitados. Evidentemente, trata-se de outra razão para rezarmos ainda mais pelo Papa.

O bispo de Roma

Mas é fora do Vaticano que o senso litúrgico do bispo de Roma aflora mais nitidamente. Prenúncio, talvez, do que nos espera na Jornada Mundial da Juventude. A moderna e horrenda igreja de Santa Isabel e São Zacarias foi a primeira paróquia a ser agraciada pela visita do bispo de Roma, no domingo passado, festa da Santíssima Trindade. E Francisco respeitou plenamente os costumes litúrgicos da comunidade — violão, restabelecimento da comunhão de pé, “coroinhas-garotas”, “arranjo beneditino” minimizado para um pequeno crucifixo e dois castiçais, etc.

A repetição de um gesto (foto acima) que marcou a primeira aparição de Bergoglio no balcão de São Pedro — embora desta vez se fale inequivocamente de “benção” — talvez possa sintetizar os valores mais prezados pelo Pontífice.

Assim reportou o Corriere della Sera de domingo: «Estavam vestidos de branco como o seu bispo, haviam acabado de fazer a primeira Comunhão e o pároco sorri: “querem cantar para vós, Santidade, a benção de São Francisco de Assis” e, reunindo-se em torno dele, iniciam o canto. E o Papa retira a mitra e inclina a cabeça, mãos juntas, se inclina para receber a benção das crianças: e assim permanece, absorto, até terminarem: “eu vos agradeço”».

Francisco está claramente voltado a se apresentar como um verdadeiro pai de uma Igreja acolhedora e inclusiva, e é o que se percebe pelo afeto com que trata a todos. Exatamente por isso, nos assuntos que considera acessórios — e a liturgia parece não ser uma de suas preocupações primordiais –, leva a crer que procurará a benção de todos, isto é, não incomodará ninguém: desde os neocatecumenais aos tradicionalistas. Sem extremismos, claro.

43 Comentários to “Francisco e a liturgia.”

  1. Sobre as celebrações na Casa Santa Marta, limitamo-nos a recordar que Francisco passa a ser o primeiro Papa a celebrar suas missas cotidianas versus populum.

    Mas João Paulo II e I e Paulo VI também não o faziam?

    Paulo VI, o responsável pelo altar-mesa, inclusive improvisava a missa segundo um livro-documentário que li. Foi o introdutor da criatividade do celebrante.

    • Pedro, ao que nos consta, as missas privadas dos Papas, até Francisco, eram celebradas na capela do Palácio Apostólico, cuja disposição do altar é “versus Deum”.

  2. “Os bispos da região lamentaram com o Papa a obra de divisão criada dentro da Igreja pelos paladinos da Missa segundo o rito antigo. O que lhes respondeu o Papa? Segundo o referido Monsenhor Padovano, Francisco teria exortado a vigiar sobre os extremismos de certos grupos tradicionalistas, mas também a guardar a Tradição e fazê-la conviver na Igreja com a inovação”.

    Quem “seríamos” esses extremistas? Até quando essa gente ficará cega para a decadência da Fé?

  3. “Muitos, após a minha eleição, me convidaram a retirá-lo de seu cargo e substituí-lo”. Quem para nós é um guardião da tradição, para outros (“muitos”) parece incomodar bastante. Graças a Deus, o Papa negou o convite e humildemente reconheceu: “para que eu mesmo possa me beneficiar de sua preparação tradicional”. Que Monsenhor Marini fique firme diante da “formação emancipada” litúrgico jesuítica de Sua Santidade. Com certeza, principalmente nesse momento, a missão de Mestre de Cerimônias é uma missão sacrificial, a qual, esperemos, ele tenha ajuda divina, a cooperação leal dos que estão à sua volta comprometidos com os sagrados mistérios e, de nossa parte, conte com uma oração fervorosa.

  4. “e, ao mesmo tempo, que ele possa tirar proveito, igualmente, de minha formação mais emancipada”
    Que proveito seria esse?
    Ontem uma bela homilia. Hoje essa pancada na cabeça!
    Tem horas que é preferível não acessar o fratres…

  5. “Ao que nos consta….”

    Pode parecer implicância minha com vocês o fato de ressaltar a expressão acima. Mas o caso é que,não foram poucas as vezes nas quais vi afirmações enfáticas aqui baseadas nesse “ao que me consta”, um critério de fundamentação bem discutível quando as questões são sérias e tratadas num contexto para além do “jogar conversa fora”. Não é assim não? Nossas considerações, antes de virem a público, não precisariam ser precedidas de maiores averiguações? O questionamento de Pedro Pelogia no primeiro comentário tem tudo a ver. Outra coisa que me dá gastura nesta notícia é o Fratres continuar dando cobertura às interpretações da imprensa no que diz respeito aos gestos de Francisco. Estava grudada na TV quando o Papa inclinou a cabeça depois de pedir ao povo que rezasse por ele. Não houve ali qualquer intenção de “inclinar-se para o povo” ou de “pedir a bênção do povo”. Simplesmente, é costume de Bergoglio inclinar-se ao orar, suas orações parecem feitas com muita reverência. É o que ele repete diante das crianças. Meu Deus, quanta malícia na observação sobre o branco igual da veste do papa e das crianças! Ninguém sabe que na primeira comunhão a túnica é branca? Mas pior é a conclusão final que se tira de tudo, de que o papa procura “a bênção de todos”. Essa aí é de doer!

    • Dona Léa,

      “Ao que nos consta” não significa que não procuramos fundamentar a informação que transmitimos, mas sim que, com as informações a que tivemos acesso, chegamos a essa conclusão. Seguem algumas imagens:

      A capela do Palácio Apostólico reformada em 1965 por Paulo VI – o altar permanece “versus Deum”:

      Paulo VI

      E abaixo a mesmíssima capela, deixada do mesmíssimo jeito por João Paulo II e Bento XVI:

      Daí, como eles a usavam diariamente, concluirmos que suas missas eram “versus Deum”.

      Quanto ao resto, trata-se, sem dúvida, como a senhora mesmo disse, “de implicância minha com vocês”. Primeiro, porque nós abordamos o gesto da oração no balcão da Basílica de São Pedro apenas de passagem. Depois, quanto ao novo gesto, das crianças, quem falou em benção foram simplesmente o pároco, testemunha ocular do fato, que recebeu Francisco em sua própria paróquia, e um docente na Pontifícia Universidade Lateranense. Não é o Fratres in Unum, muito menos a dona Léa quem os desmentirão.

  6. Eu tenho medo deste papa…

  7. Quanto aos extremistas ele poderia estar se referindo a FSSPX ?

  8. O que me faz confusão é o extremismo estar apenas direccionado para o tradicional, e nunca para as inovações e criações mais absurdas da liturgia. Aqui já é tolerado, mas no tradicional não. Há algo estranho neste comportamento.

  9. Entendam que quando perguntei se ao referir-se aos extremistas ele falava do FSSPX é que realmente gostaria de saber se é sobre esse grupo que ele fala ou de outros… pois a FSSPX não recua em suas convicções (Graças a Deus)

  10. Vídeo de Centro Televisivo Vaticano falando sobre a “benção das crianças” sobre o Papa. Ou seja, não é coisa da “mídia secular” não…

  11. Senhores: minhas considerações,

    Triste e precisa constatação.

    Infelizmente, quando se ainda aspirava um pouco de alento no pontificado de Bento XVI, interrompido abruptamente com sua “renuncia-morte”; pode-se verificar o que está obvio do texto em comento.

    Ainda, no reinado de Bento XVI, documentos importantes dele mesmo; como motu proprio Summorum Pontificum; não imperava como se devia no meio eclesiástico e se mantinha com relativa força por conta dos esforços de algumas pessoas que o faziam valer depois de duramente enfrentar seus bispados.

    O declínio litúrgico trouxe, advindo do ultimo concilio e da reforma do Pontífice Pauto VI, se se cabe emendar, muitas atentados contra a fé.

    Tendo em vista, por exemplo, do Santo Sacrifício do Calvário reatualizado na Santa Missa; onde sinas da liturgia dizem diretamente – acessórios ou não – o que a fé afirma e que de fato acontece nesse augustissimo sacramento.

    Pior são os achincalhes que ocorrem nos circos-lirturgia.

    Porém, o que mais dói é vê como são dadas as comunhões. São distribuídas como biscoitos em festas de garotadas.

    Nenhum Papa pos-conciliar-reforma deu ordem de anátema para por fim nesta profanação sacrílega.

    Horror quando distribuída em missas campais, onde as frações inteiramente-corpo-sangue-alma-divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo ficam espalhadas pelo chão para serem pisoteadas pela multidão.

    Podem alegar que sejam ínfimas para os sentidos, mas jamais poderão grunhir que a razão não o saiba.

  12. Com a Sua Santidade Francisco, o jesuíta com alma de franciscano, muita gente irá cair do cavalo (a exemplo de São Paulo), pois penso que foi Nossa Senhora quem o preparou para o papado nesse momento crucial, tendo incrível capacidade de sedução, mas firme na condução da barca de Pedro. Que São Francisco de Assis interceda constantemente por Sua Santidade lá do alto dos Céus, pois os dias são maus!

  13. Caro Ferretti,
    Que é isso, amigo? Primeiramente, é bom me citar devidamente: eu não disse que “era implicância minha”, mas que PODIA PARECER isso. No meu pequeno comentário, quis simplesmente expor o incômodo que me dá muitas vezes quando os leio (e aí não me referia aos blogueiros estritamente e sim, mais, a participantes nos comentários), ao ver afirmações e considerações fundamentadas nesse “ao que me consta”, sem interesse por busca de bases mais sólidas. Afinal, aqui não estamos num papo bêbado, de boteco, não é? A intenção inicial era só isso, uma confissão sincera sobre essa impressão desagradável que me vem ao ler alguns comentários – e às vezes o próprio post do blog. Há algum mal essencial na exposição desse meu sentimento? A impressão que o provoca é equivocada? Não existe a falta de investigação mais ampla? No caso em pauta, o blog pesquisou suficientemente antes de afirmar que Francisco seria o primeiro papa a celebrar suas missas cotidianas “versus populum”, não havia nenhum traço de leviandade nessa afirmação? As fotos mostradas provam isso? Que bom, minhas indagações estão respondidas!… “Quanto ao resto”, infelizmente, sua resposta não dá cabo da minha gastura com a trela que vocês dão às interpretações dos gestos de Francisco divulgadas na imprensa, produzidas pelos jornalistas, vindas de “testemunhas oculares dos fatos”, teólogos ou quem quer que seja, pois ainda não vi interpretação que, de algum modo, não deturpasse o fato. Aqui também estou sendo implicante? . ,

    • A senhora diz: “ainda não vi interpretação que, de algum modo, não deturpasse o fato”. Nesta afirmação está incluída a sua própria interpretação?

      Temos a Rádio Vaticano, o Centro Televisivo Vaticano, o próprio pároco que recebeu o Papa dando testemunho. E eis que surge, bravamente, Dona Léa dizendo que tudo isso é deturpação. Bem, alguém tem dúvida de quem é o implicante nessa história toda?

      Espero que meus esclarecimentos tenham sido satisfatórios e, caso contrário, lamento minha impossibilidade de convencê-la. Como disse, caixa de comentários não é caixa de diálogo e, portanto, despeço-me desejando-lhe um Santo Feriado de Corpus Christi.

  14. Texto preciso e equilibrado. Conseguiu captar em linhas gerais o que esperar de Francisco quanto a liturgia. É nítido que Francisco é um Papa profundamente preocupado em restaurar aquela unidade eclesiológica, de que tanto ele fala em suas homilias, o senso de “pertencer-se Igreja”, profundamente estilhaçado. Portanto, o tom, inclusive no modo como ele enfoca a colegialidade, é de acolhimento e autocrítica. Francisco parece querer colocar a Igreja “no divã”, isto é. leva-la a uma reflexão sobre o estado geral da fé católica no mundo, mas sobretudo o estado geral da fé de cada um.

    Francisco é o primeiro papa pós-Concílio; adveio e viveu um cenário de consolidação do CVII, diferentemente de todos os outros papas que lhe antecederam. A mim parece, inclusive, que ele próprio não tem uma percepção muito aguçada das questões implicadas no Concílio; já o tem como um “fato” e, como tal, não a nada a fazer senão seguir em frente e “deixar” que o Espírito Santo conduza o povo de Deus ao futuro da Igreja.

    Por isso que a questão litúrgica, aos olhos dele, soa talvez menor do que, por exemplo, os indubitavelmente graves problemas administrativos no Vaticano e na Igreja como um todo. Problemas estes que ele parece compreender a partir de um senso mais pastoral do que teológico; daí tantas as exortações contra o carreirismo na Igreja, em favor da humildade, do amor aos mais pobres, aos mais frágeis, de abertura da Igreja para as “periferias sociais e espirituais”, A questão litúrgica assoma-se como de primeira ordem tão só para aqueles que tem o Concílio como um tema central na história da Igreja.

    Não é o caso de Francisco. Basta ver as parquíssimas citações ao Concílio em sua homilia, quase nulas se comparadas ao modo como o tema era recorrente nas palavras de Bento XVI.

    Pode-se dizer que, a julgar pelas declarações dele divulgadas na mídia, Francisco se filia a uma corrente, digamos, mais sutil de hermenêutica da continuidade; essa ideia de que a Tradição deve ser animada pela modernidade, que não existe uma contradição ontológica entre os textos conciliares e o Magistério da Igreja, que se trata apenas de um enfoque hermenêutico que “una” passado e presente, que as duas formas do rito romano podem conviver pacificamente…

    Enfim, parece-me que Francisco, de algum modo, dá continuidade a seu jeito ao projeto-base que Bento XVI deixou em aberto: uma Igreja que ser perfaz em uma grande Tradição, que não é pré, nem pós conciliar, mas expressa a própria Igreja na história. A eclesiologia de Francisco, no final das contas, é a mesma de Bento XVI, simplesmente pq ele não põe em questão todo o aparato magisterial construído no pontificado anterior. Então todos lá na comunhão plena: tradicionalistas “formalizados”, conservadores, carismáticos, TLs “não-marxistas” (?), progressistas, radicais da mornidão…

    Ou seja, Francisco provavelmente será um pontífice que tentará aparar as arestas, criar alguns consensos, justamente com vistas a reaver essa unidade real, prática, perdida nas clivagens “ideológicas” nos últimos tempos. Só não sei se eu esforço logrará êxito justamente por compreender a questão unicamente por um ângulo moral e pastoral. Há questões teológicas e litúrgicas sérias que, se deixadas de lado, como se “coisa menor” fossem, vão cobrar em breve um preço.

    Enfim, façamos então o que nosso Padre nos solicita tão insistentemente, mas certamente com boa razão: oremos por ele.

  15. Léa,

    Não foi só o Ferretti que observou o gesto do papa de curvar-se para receber a oração dos fiéis. Várias outras pessoas perceberam a mesma coisa logo na primeira apresentação no balcão, eu inclusa. Uma coisa é a pessoa se inclinar para rezar. Alguns monges fazem isso em determinadas passagens dos livros de orações, outra coisa é pedir orações por si e se inclinar em seguida, como foi o que aconteceu e você bem observou. Então, são duas ações diferentes. Quanto à reverência, esse é um outro aspecto e ela pode estar presente em ambas as situações.

  16. Pois eu não ponho NENHUMA, mas NENHUMA esperança mesmo nesse Papa Francisco. Ele é um filho do Vaticano II e como filho do Vaticano II ele vai atuar durante todo o seu pontificado. Quando eu leio: ““Não se toca no motu proprio ratzingeriano de 2007, Summorum Pontificum, e o missal de 1962 de João XIII (que é, pois, a última versão do missal tridentino do Papa S. Pio V) está salvo. Aquele rito […] não é uma antiguidade, detrito a ser despachado para um museu a ficar empoeirado. Foi o próprio Pontífice reinante a dizê-lo”, a única certeza que ainda permanece em mim é que o Espírito Santo jamais deixará de guiar e conservar a Igreja, apesar de seus Papas e maus prelados. Todos eles passarão, mas a Igreja permanecerá.
    Certa vez perguntei a Dom Fellay numa Conferencia sobre a restauração da Igreja e ele me disse que devemos continuar rezando e esperando por um milagre, pois só um milagre poderá fazer com que a Igreja volte ao esplendor de antes. Humanamente isso é impossível. Da parte da hierarquia eclesiástica não podemos esperar nada. Os estragos foram tão grandes e a influencia funesta do liberalismo tão profunda que seria o mesmo que tentar fazer a pasta de dentes voltar ao tubo. Os poucos passos de Bento XVI nessa direção praticamente custaram-lhe o Pontificado.

  17. Gente, alguém já leu a barra lateral do blog?

  18. Gente surtada, vão acabar fazendo o Fratres fechar os comentários. Aí vão ter que gastar com tarja preta kkkkkkkkkk

  19. Vou continuar a confiar no Santo Espírito.

  20. Permanecem as apreensões sobre o que poderá vir , talvez em outubro, mês de São Francisco de Assis…

  21. FernandoNF:
    Brilhante sua análise do papa Francisco. Muito verdadeira. É isso mesmo. Voce enxergou com perfeição. Não podemos esperar demais. Mas devemos valorizar o que Deus permitiu que ele seja capaz de nos dar. Sem, no entanto deixar de nos preocupar e rezar.
    Parabéns.

  22. Sem dúvida, ele se inclinou para pedir a oração das crianças, assim como se inclinou para pedir a oração dos fiéis em sua primeira saudação como Papa. E eu achei tudo ótimo!!! Como já disse em outros comentários, humildade não se opõe a autoridade. Lavar os pés dos outros e ser humilde não implica em deixar de ser mestre e senhor, como deixou claro Jesus na santa ceia.

    E, apesar de toda esta humildade, ele está no centro das atenções. Ele seduz, ele encanta, ele atrai pessoas para Cristo e sua Igreja. Sua humildade e simplicidade surpreendem e encantam a todos. E isto não é bom para a Igreja?

    Colegialidade? Sim, claro. O que são os concílios se não o ponto mais alto da colegialidade? Ouvir o sínodo, ouvir de verdade, sim, por que não? Agora, se vai ficar havendo votações e se ele seguirá o resultado de votações, eu duvido!!! Ele ouvirá com atenção, perguntará, dialogará, e ao final decidirá.
    O bom gestor ouve, mas não se exime da responsabilidade de ser gestor. E ele decidirá na hora certa.

    E que ele continuará nos surpreendendo? Não tenho a menor dúvida. E atenção: Deus nem sempre fala aquilo que queremos ouvir. Ora ele irá desagradar aos tradicionalistas, ora desagradará aos progressistas. Deus não se enquadra em nossas categorias, em nossas divisões. Não aprovará as frases do tipo “eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo”, “eu sou do grupo tradicionalista”, “eu sou da TL” etc.

  23. Eu já escrevi aqui que nunca antes modernistas e progressistas bajuladores comentaram tanto no blog como o fazem agora depois que elegeram Bergoglio como bispo de Roma. Parecem petistas em relação ao “molusco Lula”. Nos dois casos há uma certa semelhança sim. A maioria dos que se apresentam como “católicos” tem o papa que merece. Eles têm se completado. Como diz o ditado: “É a panela e sua tampa. Há muita gente “otimista” esperando “o que não foi e o que não volta mais”. Pois bem! Acredito em “todo mundo”; mas só confio em Deus. Do jeito que “se acumulam as nuvens” podem prepararem-se esperarem pela tempestade”. Quanto a liturgia?… “Não há nada tão ruim que não possa piorar”…

  24. Pedir orações seria uma coisa. Pedir bênçãos, outra. É a subversão dos papéis. Deus não quer essa pobreza.

    Oremos pelo Papa, com a intercessão de todos os santos jesuítas, franciscanos, carmelitas, beneditinos, cistercienses, mártires, virgens, confessores, bispos, etc, pois ele vai precisar.

    Isso me lembra a história da Porta de S. Pedro em Roma.

    Conta a tradição posterior aos Evangelhos que, uma vez vencido, Simão, o Mago, se mudou para Roma e se fez amigo de Nero. Em Roma, São Pedro foi detido e preso na prisão Mamertina juntamente com São Paulo, companheiro do Apóstolo naqueles dias.

    Mas os carcereiros foram convertidos e baptizados por São Pedro e deixaram os prisioneiros escapar.
    Então os seus amigos rogaram-lhe que fugisse de Roma.

    São Pedro obedeceu e saiu de noite por uma das portas das muralhas. Fora das muralhas de Roma, prestes a empreender o caminho pela Via Apis para os portos do sul, Pedro viu que Jesus se preparava para entrar na cidade. Surpreendido, perguntou-lhe:”Aonde vais? (em latim:Quo vadis, Domine”?)
    “Vou a Roma”, respondeu-lhe Jesus, “ser crucificado de novo”.

    São Pedro entendeu que se referia a ele, ao sofrimento que deveria padecer Jesus pelo martírio do primeiro Apóstolo, e então voltou para Roma e foi crucificado, mas de cabeça para baixo, porque se julgava indigno de ser crucificado da mesma maneira que fora o Seu Mestre.

    Esta lenda é lembrada numa antiga capela que existe no lugar em que a tradição situa este encontro.

    Liberalismo, modernismo e falta de rédeas. Sem Rei, sem Reza e sem Regra. Quo vadis, Domine?

  25. Mesmo O Cristo só agiu de forma ‘inovadora’ em questões muito pontuais, e com a estrita finalidade de constituir a Nova Aliança. Daí um Rabino judeu concluir: A Doutrina de Cristo é a plenitude da Doutrina Judaica, sem tirar nem por, com um único acréscimo: a própria Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Não consta do Evangelho que qualquer Sacerdote tenha alguma vez se inclinado para receber a benção das crianças… ou de qualquer não-Ordenado… Se atitudes como essa é o que chamam “inovação” e emancipação”, como poderá a Tradição conviver com elas?

    Citando um recente ensinamento do Pe. Paulo Ricardo, o Sacerdócio Comum dos Fiéis (Batizados Leigos), ainda que Religiosos não-Ordenados (ou seja, Leigos também), só existe no sentido de que o Batismo permite certa participação no Sumo Sacerdócio de Cristo, mas ele só ocorre de forma muito distinta do que hoje é o (muito torto) senso comum geral (e justamente por isso a atitude do Papa Francisco torna-se extremamente equívoca)…
    Por exemplo, quando os Pastorzinhos de Fátima rezavam a oração “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam”. Eles estavam, ao mesmo tempo, adorando, imprecando e aplacando a Deus e, portanto, estavam exercendo o dito “Sacerdócio Comum dos Fiéis” de forma justa e correta. Não tem nada a ver com criança dando benção a Sacerdote…

  26. Logo agora que estamos prestes a enviar um recurso a Ecclesia Dei pela missa em nossa Diocese dado a resistências do Bispo Diocesano! Tomara que não se confirme esta perda de força do Summorum Pontificum em razão da “colegialidade”! Pedimos a oração de todos pelo nosso recurso!

  27. Queridos irmãos em Jesus Cristo,
    Nosso querido Papa tem suas características, vamos respeitar. Vamos falar de coisa boa sobre ele também, o que acham? Por exemplo, a necessidade de se eliminarem certos vícios humanos dentro da Igreja…Olha que maravilha. Ele é a favor de investigações severas, independente de qualquer coisa. Que lindo!

    Ele disse que a Igreja deve ser acolhedora. Ora, quanta gente deixou nossa Igreja por falta de acolhida (e fé também, é claro). Mas como é importante uma acolhida…Não é? Deus é amor, louvemos com alegria o Espírito Santo.

    Deixemos de pensar em coisas pequenas. Desta forma, acabamos por especular, murmurar, causando injustiça…

  28. Quanto a Summorum Pontificum mesmo durante o pontificado de Bento XVI ela não foi bem implementada, houve muitas resistências e nem sempre a Comissão Eclesia Dei conseguiu resolver a situação.

    Quanto o resto é muito , muito preocupante tudo isso.O Papa está promovendo de forma clara o progressismo litúrgico.

    O Sr Fernando NF diz que “Francisco provavelmente será um pontífice que tentará aparar as arestas, criar alguns consensos, justamente com vistas a reaver essa unidade real, prática, perdida nas clivagens “ideológicas” nos últimos tempos.” : a função do papa não é criar consensos , a Igreja não é sociedade democrática fundada na opinião consensual da maioria.A unidade da Igreja não está na práxis mas na doutrina.A unidade real depende exclusivamente da doutrina que ela sim deve iluminar a práxis pastoral.

    O problema todo está em que desde o CV II a práxis foi colocada na frente da fé.

    No fim das contas fica isso aqui “dizem que o meu mestre de cerimônias é de corte tradicionalista; e muitos, após a minha eleição, me convidaram a retirá-lo de seu cargo e substituí-lo. Eu respondi que não, precisamente para que eu mesmo possa me beneficiar de sua preparação tradicional e, ao mesmo tempo, que ele possa tirar proveito, igualmente, de minha formação mais emancipada”.O Papa é um dialético a la Hegel …que crise terrível vivemos !

  29. Amigo Ferretti,
    Como você encerrou seu último comentário desejando-me um santo Corpus Christi, aproveito para contar-lhe sobre a pregação na missa a que assisti naquele dia. O evangelho era o da multiplicação dos pães. E o sacerdote FALOU: sobre a natureza (trigo e uva), a necessidade de cuidar dela, tema secularmente descuidado pela Igreja; sobre o trabalho (pão e vinho), questão que nunca recebeu a devida valorização da Igreja; sobre a corporeidade / sexualidade, dimensão humana reprimida pela Igreja; sobre Maria, que deu à luz Jesus, corpo de mulher, feminino e feminista, cujas reivindicações são ignoradas pela igreja; sobre o alimento, a refeição / partilha do pão, a que a maior parte da humanidade não tem acesso por causa da injustiça social, do consumismo, do individualismo, contra os quais a Igreja só se coloca timidamente; sobre a comunidade, sociedade, a quem cabe prover a vida plena do pão para todos, pouco trabalhada pela Igreja. É claro, em cada tópico, a cada situação desfavorável ao bem comum descrita, ressaltava-se a responsabilidade do capitalismo injusto, do conservadorismo mantenedor do status quo. E o padre NÃO FALOU: do corpo DE DEUS; do sangue DO SACRIFÍCIO. Não fosse a Seqüência de São Tomás de Aquino, não nos lembraríamos do que estava sendo celebrado.

    Por que menciono isso aqui, sabendo que vocês, em posts e mais posts, não se cansam de reportar situações semelhantes, que mostram o palanque em que se transformaram os altares no Brasil? É que, às vezes, quando vocês mencionam questões litúrgicas, ressaltam muito o papel de Roma, da hierarquia eclesiástica, da necessidade de um documento papal ou das Conferências Episcopais, que venha reger a matéria e até restaurar as cerimônias antigas. Entendo errado o que vocês dizem? Mas, se for assim, será que os procedimentos requisitados darão em alguma coisa, ou não darão no oposto do pretendido, estando o clero (“o baixo clero” especialmente, ao qual as pessoas têm acesso), as lideranças leigas e mesmo os fiéis tão impregnados dessa visão sociológica da religião? Gercione Lima, citando Dom Fellay, fala da esperança de um milagre que restaure na Igreja “o esplendor de antes”. Reflitamos mais. Milagres nem sempre prescindem do humano, do natural. Em Caná, há os seis barris vazios enchidos com água; no deserto, os sete pães e os dois peixes; em Betânia, os amigos de Lázaro que removem a pedra do túmulo; em muitas ocasiões, as pessoas que trazem o doente para ser curado. No caso do “milagre litúrgico”, o que caberia aos tradicionalistas que rezam por ele, num procedimento bem humano? É disso que tentarei tratar no próximo comentário, que espero poder escrever amanhã.

  30. Amigo Ferretti,
    No meu comentário de ontem, faltou refletir um pouquinho sobre um aspecto revelado nas palavras do padre que me parece vir ao encontro do tema aqui tratado: o esvaziamento do sagrado, do transcendente, do espiritual, do divino, do eterno, do sacrificial em nossa vida. A encarnação do Verbo de Deus, o Deus-Conosco que vem nos atrair à comunhão com Ele, é substituída por mera encarnação do homem na história para a construção de uma nova terra, sem males, reino da igualdade, da partilha do pão. Aí, pra que esplendor litúrgico? Sem a memória do Cristo crucificado, em que se transforma a missa? Se, como prega certa “teologia viva” que de curso em curso vai formando uma nova mentalidade em nossas “comunidades cristãs”, se a presença do Cristo não é real e sim, simbólica, exemplo de partilha, como não julgar os rituais se não como detritos a serem jogados fora como antiguidades sem valor? É aí que me vem uma segunda reflexão. Aqui, muitos têm chamado os que têm esperança no Papa Francisco de “ingênuos”, “papálatras”, “bajuladores”, “ignorantes” e coisas tais. De minha parte, esclareço que, na minha confiança, existe uma base que precede a primeira aparição de Bergoglio na sacada do Vaticano. Fundamento minha esperança na escolha de Deus, que permitiu a Bergoglio testemunhar um milagre eucarístico em Buenos Aires, episódio que já narrei em outro post do Fratres, “Dois meses com um papa do ‘fim do mundo'”, de meados do mês de maio. Se alguém se interessar pelo assunto, clique lá e leia o que escrevi no dia 16. A alguém que é dado ver e tocar a humanidade viva de Cristo escondida na hóstia é impossível tornar-se cúmplice da degradação dos nossos rituais, é impossível esquecer que a missa é o sacrifício da Cruz revivido “incruentamente”. Pode ser que ele não veja mal no uso do vernáculo, filho do Vaticano II, como Gercione Lima diz que ele é; pode ser que ele propugne por vestes simples, sem o esplendor antigo. Mas ele tudo fará para trazer o Cristo crucificado para o centro dos altares, de nossas existências. Ele tudo fará para restaurar uma viva reverência diante do sagrado, presença real de Cristo que se faz nosso alimento. É assim que ele tem celebrado. De joelhos, agradeço a Deus por ter preparado esse Francisco que nos é dado num momento tão complicado e empobrecido na história da Igreja. Estou sendo “ingênua”, “papálatra”, “bajuladora”, “ignorante”?

    PS 1 – Não entendi porque o comentário que fiz em resposta às críticas que recebi foi recusado, pois foi escrito com muito respeito pelos críticos. Ele precedeu o que se publicou acima.

    PS 2 – Este não é o comentário anunciado ontem. Tentarei redigi-lo amanhã, no dia da minha amada Festa do Sagrado Coração de Jesus, que cairá numa primeira sexta-feira.

  31. Aqui, muitos têm chamado os que têm esperança no Papa Francisco de “ingênuos”, “papálatras”, “bajuladores”, “ignorantes” e coisas tais.
    A senhora é realmente cansativa e pode-se dizer que é um copo cheio. N aceita nada que os outros falam. E pior, deturpa tudo. DE forma alguma eu ou outra pessoa aqui falamos que, quem tem esperança no papa seja papólogo. N é essa a definição da palavra.
    Papólogo é o ser que arruma desculpa esfarrapa para erros dos papas.

  32. Os comentaristas frequentes do blog não têm palavras menos agressivas para responder às interessantes reflexões de Léa Nilse Mesquita? A mim, elas deram muito para pensar. Obrigada, France

  33. Amigo Ferretti,
    Enfim, eis o anunciado comentário com a matéria que imaginei pudesse vir a contribuir com vocês tradicionalistas em sua preocupação com o estado atual da liturgia católica. Para realizá-la, inicialmente, conversei informalmente com 10 pessoas. O assunto? A missa antiga e a atual. Essas pessoas, nove mulheres e um homem (ex-seminarista lazarista), entre 64 e 93 anos, com vivência da Igreja, do ritual antigo e do novo, não pertencem a nenhum movimento ou grupo católico definido (TL, TFP, Opus Dei, RCC, Missa Tridentina, entre outros). Uma delas se disse “afastada da igreja”. Segundo suas palavras, atualmente, “é intolerável a doutrinação marxista que domina os altares, mas o espírito fechado dos tradicionalistas e conservadores não me anima a estar com eles. Se em BH existisse a Igreja Ortodoxa, a freqüentaria”. Neste comentário, pretendo, pois, expor o resultado dessas conversas. Espero que a matéria desperte o interesse do blog, lhe motive reflexões que possam gerar ações futuras de acordo ou não com o que será sugerido ao final.

    As conversas
    Como já disse, trata-se de conversas informais, que tiveram como ponto de partida perguntas que levantei: (1) Lembra-se da missa antiga, o que achava dela?; (2) O que achou da mudança?; (3) Há alguma coisa da antiga missa que deveria voltar? As pessoas ouviram as perguntas (feitas em conjunto) e deram suas respostas, na maior parte das vezes misturando as questões, sem que eu interferisse em seus comentários, a não ser quando julgava necessário um esclarecimento aqui e ali.

    Resultados das conversas
    Antes de tudo, é bom esclarecer o que pode parecer um erro. Foram 10 as pessoas contactadas. Mas se as somarmos pelas respostas abaixo registradas, encontraremos um número superior. Como explicar isso? Acontece que pessoas diversas deram respostas parecidas (A, B, H: uma só resposta) e uma única pessoa fez afirmações diferentes (J: três afirmações). Não sei se consegui explicar direito a questão. procurem entender.

    90% das pessoas ouvidas, por motivos diferentes, disseram preferir a missa atual, embora duas delas (20%) tenham revelado profundo respeito pelo rito anterior. Mais à frente, tentarei transcrever a fala total de uma delas por me parecer muito interessante e reveladora. Os motivos apresentados para essa preferência foram o uso do latim na missa antiga, o padre que celebrava de costas para o povo, rezando baixinho, o tipo de pregação naquele tempo: “Ninguém entendia nada” (7 pessoas); “…os padres não explicavam” (4 pessoas);”os padres de costas distanciavam os fiéis da celebração” (5 pessoas) “as pregações eram mais para criticar os costumes modernos:namoros, vestidos sem manga e decotados, bailes…” (2 pessoas); “ninguém ficava sabendo do evangelho e das epístolas”, “a Bíblia era considerada coisa de protestante”(2 pessoas); “assistir missa era um verdadeiro sacrifício” (3 pessoas). “Com o uso do vernáculo” (9 pessoas), “com os fiéis podendo participar” (8 pessoas); “com os padres explicando as leituras” (5 pessoas), “falando de assuntos atuais” (2 pessoas) “tudo mudou para melhor”; “mais mudanças são necessárias” (2 pessoas).
    A única pessoa que disse preferir o rito antigo foi a “católica afastada”. Curiosamente, afirmou: “Na época, para mim, era um sacrifício ir à missa, eu era moderninha, ignorante, nada sabia dos símbolos. Com o Vaticano II, até antes, participei de grupos de estudos litúrgicos nos dominicanos e carmelitas, todos a favor da reforma. Mas com o tempo, vendo o que virou a missa, passei a ser contra, acho tudo um horror, não agüento o carnaval carismático nem o palanque sem sacralidade da Teologia da Libertação.”
    Assinale-se que, além dessa “católica afastada”, outras cinco pessoas referiram-se aos carismáticos, dizendo que admiram “seu trabalho com os jovens”(3 pessoas), mas que “pela idade” (4 pessoas) não gostam de freqüentar suas celebrações: “barulho demais” (3 pessoas); muitas fantasias (SIC) parecendo carnaval (1 pessoa); “missa de extrovertido (2 pessoas).
    Ressalte-se que o único homem que aceitou responder foi o que mostrou maior aderência à reforma, dizendo-se, inclusive, favorável à continuidade das mudanças; outra “entrevistada”, que vim a saber que era irmã de uma teóloga, afirmou o mesmo.
    Outra questão que foi alvo de atenção nas conversas foi a dos “abusos” nas atuais celebrações: “falta de respeito dos fiéis: conversas durante a missa, vestes indevidas” (3 pessoas); “doutrinação” (2 pessoas); “carnaval” (2 pessoas); “alguns tiraram o crucifixo e o sacrário do altar” (2 pessoas); “falta de compreensão da missa como sacrifício do Calvário” (2 pessoas); “invenção de novidades”: “por parte dos padres” (1 pessoa), “pelos fiéis”(2 pessoas); “desleixo”, “falta de solenidade dos padres” (2 pessoas), “falta do sentido do sagrado” (3 pessoas); consagrações da hóstia sem devoção” (2 pessoas), “com os ministros e fiéis de pé” (1 pessoa); “homilias sem preparo” (1 pessoa)

    A fala da velha senhora
    Por seu conteúdo, pelo sentimento contido nas palavras, merece um relevo especial a fala de uma velha senhora de 93 anos: catolicíssima, originária de “tradicional família mineira”, estudou interna por sete anos no Colégio Sion, onde recebeu formação aristocrática e de profunda religiosidade.

    “Minha filha, a missa antiga era belíssima, tinha solenidade, as pessoas podiam não entender por causa do latim, mas tinham devoção, acompanhavam tudo com respeito, fervor, tinham o sentido do sagrado, de que a missa era a renovação do sacrifício do Calvário. Mas as pessoas mudaram, o mundo mudou muito, os tempos são outros.Hoje ninguém tem condição de seguir missa em latim, sem participar, com o padre virado de costas para elas. A agitação da vida de hoje tornou as pessoas inquietas, elas querem é movimento, não aceitam ficar paradas, sem participar, o espírito de devoção, de recolhimento, acabou. Por isso, para hoje, o melhor é a missa atual, em vernáculo, com as pessoas podendo participar. Pensando bem, naquele tempo já havia problema. As pessoas, embora devotas, boas, respeitosas, não conheciam o evangelho, a Bíblia. Com a missa em vernáculo, elas aprendem. Nós, no Sion, estudávamos as escrituras, a liturgia, tínhamos condição de acompanhar a missa em latim [ de cor, cita várias passagens], mas éramos uma elite. Para o povo, é melhor o rito atual. No entanto, há muitos abusos, os padres inventaram muitas coisas que não vieram do Vaticano II, os leigos acompanharam com outras novidades, alguns tiraram o crucifixo, o sacrário, do altar, há missas sem solenidade ou senso do sagrado, sem a compreensão de que são a renovação do sacrifício da Cruz, há muita papagaiada, carnaval, até candomblé (lá na Bahia, já vi), os fiéis usam roupas indevidas, ficam conversando durante a missa. Acho que tudo está bem até as preces comunitárias – se bem que passem muito por cima do ato penitencial, é preciso firmar mais o arrependimento, o pedido de perdão dos pecados – mas a partir do ofertório, passando pela consagração até a comunhão ( a parte mais importante da missa), acho que é aí que os abusos mais aparecem: há muito desleixo no ritual, falta de devoção e respeito pela eucaristia (isso é o pior), comunhão dada nas mãos, às vezes só pelos ministros, o padre fica sentado no altar – aí tem muito erro, os bispos deveriam olhar mais e consertar. Mas as pessoas de hoje acham que está bom assim. O mundo não volta atrás (talvez infelizmente). Se a missa fosse como antes, só uns poucos iam assistir. Você não acha, minha filha?”

    Finalmentes
    Não vou entrar na “discussão dos resultados”, isto aqui não é trabalho acadêmico, muito pelo contrário, é coisa que só tem mesmo a pretensão de REGISTRAR a percepção de católicos comuns sobre essa questão que tanto os atormenta, a liturgia. Em cima desse registro, cabe-nos refletir longamente. Em outro comentário acima, mencionando a afirmação de Gercione Lima (citando Dom Fellay) sobre a necessidade de um milagre para reverter a decadência litúrgica na Igreja, falei que nem sempre os milagres prescindem do humano, do natural, que caberia aos tradicionalistas um papel importante para a realização do “milagre litúrgico”. Pode-se depreender de muitas falas aqui trazidas que falta às pessoas a compreensão do que está envolvido na liturgia, dos significados das celebrações. Por isso estou quase certa de que não adianta qualquer documento papal ou de bispos, como, aliás, vários não têm valido de nada. Querem um exemplo banal? A Festa da Misericórdia foi instituída por João Paulo II em 2000. Até hoje, pelo menos aqui em Belo Horizonte, são pouquíssimas as paróquias que a celebram. Se não fosse a Canção Nova, tenho impressão de que seria ignorada. Então? A “católica afastada” lembrou os movimentos de grupos de estudos litúrgicos que precederam e acompanharam o Vaticano II aqui em Belo Horizonte, então “uma roça grande”, como a chamavam. Esses movimentos, na Europa, já vinham de décadas. Num livro sobre a conversão de Edith Stein, eles são citados, a filósofa deles participou quando já estavam entranhados nos meios intelectuais de seu tempo. Sem esse longo preparo, é impossível entender o que se passou no Concílio Vaticano II. Quero chegar é aí, meus amigos. Quem sabe, o Fratres in Unum inicia um movimento desses entre nós? Aqui, há muitas pessoas preparadas para essa missão. Os padres interessados na questão também poderiam promover encontros com os fiéis no mesmo intuito. Se as pessoas, como aquelas com quem conversei, não tiverem um conhecimento mais aprofundado do que representa a liturgia, elas jamais poderão amar os ritos que amamos porque os compreendemos. Ao contrário do que disse a velha senhora, acredito que há muitas pessoas – minoritárias, mas muitas – com espírito de recolhimento. Acho que foi Jung que disse que, na população, 20% são introvertidos, de natureza mais contemplativa. Então, são milhões no Brasil. Mas aí, no caso de vocês, surge um problema. Vocês não se acham muito fechados ao diferente? Muitos aqui, tirando “os Montfort”, parecem abominar todo tipo de católico. Estou equivocada? Como me ensinou a Marta, em mensagem para mim na primeira discussão da Ana Maria comigo, a Igreja não é confraria, é católica, aberta a abraçar todos que dela precisam. De qualquer jeito, seria bom pensar nesses estudos litúrgicos abertos aos interessados, não? Pensem nisso!

  34. Meus caros, lamentavelmente, existem inúmeros membros ativos deste site que representam um pensamento extremista e anticristão, revelando sentimentos contrários a fé católica (UNIVERSAL), pois não aceitam a eleição legítima de Francisco. Consideram donos da verdade. Não preciso citar seus nomes. É sabido que o Senhor guarda a sua Igreja e as chaves dela está nas mãos de Francisco. Para esses críticos implacáveis de Sua Santidade o papa Francisco, vale a máxima de Cristo:” Perdoa-lhes eles não sabem o que fazem”. Há, pois, dívidas materiais, morais e espirituais. Considera-se dívida material o dinheiro ou mercadoria que, tomada emprestada, não foi restituída. É dívida moral a estima tirada e não devolvida (veja a crítica DESTRUTIVA com relação a opinião da Léa Nilse Mesquita). Por fim, dívida espiritual corresponde à obediência a Deus, do qual muito se exigiria, e ao qual se dá bem pouco o amor para com Ele. Deus nos ama e deve ser amado, assim como se ama uma mãe, uma esposa, um filho, do qual se exigem tantas coisas. O EGOÍSTA quer ter e não dar, está entre os antípodas do Céu. Temos dívidas para com todos. Desde o Criador até o parente, passando pelo amigo e chegando até o próximo. Ai de quem não perdoa! Não será perdoado. Deus não pode, por justiça, perdoar a dívida que o ser humano tem para com Ele que é o Santíssimo, se o homem não perdoa o seu semelhante. Que vocês revejam seus atos, sob pena de responder por mais esse GRAVE PECADO perante o tribunal divino. É a minha opinião, doa a quem doer e custe o que custar.

  35. Amigo Ferretti,
    Nada como um dia atrás do outro, pois, de repente, nos vemos caindo do cavalo que nos conduziu a querer tirar o cisco do olho do outro. Foi só lhe mostrar que o seu “ao que me consta” era impróprio a um blog com pretensões a ir além de jogar conversa fora e dou de escrever o comentário acima (de 8/6) cheio de impropriedades. Como desculpa, poderia dizer que estava tão preocupada em não lhe dar ares “acadêmicos” que acabei deixando de lado cuidados exigidos mesmo pelas palavras mais informais que emitimos. Por exemplo, fui escrevendo o texto aqui, baseando-me em anotações das conversas rabiscadas em papéis dispersos que tinha à minha frente, meros rascunhos. Foi aqui que agrupei os dados levantados e quantifiquei-os, tudo sem qualquer trabalho prévio. Só poderia dar no que deu: imprecisões, lacunas, afirmações esquecidas. Por desencargo de consciência, vou tentar consertar aqueles erros que pareceram mais evidentes à leitura que fiz depois de lhe enviar a mensagem. Levo as coisas muito a sério?

    Errata

    No tópico “Resultado das conversas”
    * A porcentagem referente às pessoas que disseram respeitar o rito antigo está errada. Mais precisamente, ela corresponde a pouco mais de 22% das 90% que declararam preferir a missa atual. Mais importante que isso é assinalar que, levando-se em conta a “católica afastada” que mostrou preferência pelo ritual anterior, temos que 30% das pessoas ouvidas reconheceram o valor da missa antiga. Talvez consiga explicar a relevância desse dado mais adiante.

    * Sobre as pregações do passado, as falas não se restringiram a mencionar as criticas dos padres aos costumes modernos; elas referiram também a exaltação do exemplo de santos antigos, “que usavam cilício e viviam de penitências severas e jejuns rigorosos contra as tentações”.

    * Há incorreção na citação “alguns tiraram o crucifixo e o sacrário do altar”. O certo é “alguns tiraram o crucifixo e o sacrário do CENTRO do altar”. O mesmo erro apareceu na fala da velha senhora.

    * As pessoas ouvidas, quando trataram dos abusos, enfatizaram mais a questão da eucaristia. Ao organizar o quesito, faltou, portanto, o item “desrespeito à eucaristia”, mencionado explicitamente por quatro pessoas. (É um dado importante, que revela a importância que o meio católico continua dando à presença real. Isso, associado às referências nas falas ao sagrado, não mostra a resistência que existe ainda no catolicismo ao secularismo?)

    No tópico “A fala da velha senhora”
    Faltou mencionar aí a descrição feita sobre a capela do Colégio Sion, que ficava no centro dos edifícios, com altura superior a todos eles. Com essa descrição, a velha senhora quis mostrar como antigamente dava-se atenção aos simbolismos religiosos, presentes em todos os campos – no caso, na arquitetura, que era como uma pregação sem palavras, com a qual todos podiam aprender.

    No tópico “Finalmentes”
    Na terceira linha, quando escrevi “percepção de católicos comuns com essa questão que tanto os atormenta”, quis dizer “atormenta vocês, os tradicionalistas”.
    Outra ambigüidade aparece ao final. Na quinta linha de baixo pra cima, está: “Muitos aqui, tirando ‘os Montfort’, parecem abominar todo tipo de católico.” Aí, o que eu quis dizer foi que muitos aqui parecem abominar todo tipo de católico, menos os montfortiananos.

    Agora a questão é outra. Não agüento. Apesar de ter dito que não ia discutir os resultados, vou aqui deixar alguma coisa sobre eles. Falo para você, Ferretti, meu único possível leitor, pois, com tantos posts fervendo de interesse, este assunto já ficou para trás. Mas é com você mesmo que desejo tratar, liderança tradicionalista que é, grande guerreiro neste blog que luta bravamente para restaurar a liturgia católica, tirá-la de sua decadência. Quero reiterar o que disse no outro comentário: vocês têm um papel importantíssimo para a realização do milagre litúrgico. Lá, no entanto, me perdi um pouco, misturando assuntos. Então, volto ao que ficou evidente nas falas e que merece sua atenção. Foi dito: “As pessoas não entendiam nada [da missa]”, “os padres não explicavam”. Não terá sido essa ignorância determinante para a aceitação tão pronta e fácil do ritual novo, que se mantém na preferência dos fiéis até hoje, mesmo reconhecendo-se os abusos que permitiu e que incomodam parte considerável dos católicos ouvidos? Todos sabemos que há 50 anos martelam em nossa cabeça sobre as belezas e alcances da missa nova, enquanto desqualificam tudo da antiga. Mesmo assim, 30% dos “entrevistados” ainda reconhecem o valor do rito antigo e o relembram com respeito. Duas das pessoas explicaram os motivos disso. A velha senhora afirmou que no Colégio Sion estudava-se a liturgia, seus significados, tal como ocorria com a arquitetura sacra. A “católica afastada” disse que, vindo a compreender os símbolos, passou a entender a missa e a ver que a antiga tinha mais razão de ser. Vou referir coisas ditas por ela que não registrei no comentário anterior por não querer me alongar. Ela contou que, nos anos 70, leu tudo que havia no Brasil de Jung e Eliade, tendo participado no Rio de Janeiro de um grupo de estudos coordenado pela Dra. Nise da Silveira. Foi a partir desses estudos que ela, de moderninha, foi passando a tradicionalista em religião. Ou seja, nos dois casos, vê-se a importância do conhecimento da tradição para o despertar do amor a ela. Aqui, acrescento minha experiência particular. Também a mim esses dois autores ajudaram a ver o valor da religião tradicional. Foram eles que acabaram me levando ao interesse pelo assunto e a encontrar estudiosos dele, entre os quais, René Guénon, Ananda Coomaraswamy, Joseph Campbell. Você sabe, nos anos 70, o orientalismo virou moda, também li muitos mestres orientais, a que cheguei orientada por Thomas Merton, que também me levou aos místicos cristãos. Você pode pensar: “Que miscelânea indigesta!” Será? Logo que entrei aqui, defendi que os católicos, se pensavam ganhar a luta pró-vida, deveriam se unir a todos os defensores da causa, fossem católicos ou não. Recebi paulada à beça: “Como poderíamos nos unir a cismáticos, apóstatas, hereges, pagãos, gnósticos?” Mas eu lhe afirmo: não foi ouvindo “missa de sempre”, “missa de sempre” que me convenci do valor da tradição. Foi a leitura desses autores que citei (“cismáticos”, hereges”, “apóstatas”, etc.) que me deu fundamentos para “ver” o sagrado, que me instruiu sobre o saber que a consciência da presença do sagrado no mundo espalhou por civilizações diversas, onde ritos e toda sorte de arte procuraram dar-lhe expressão. Relegar esses tesouros é loucura, que acaba por permitir o avanço da onda da barbárie em que estamos mergulhados, certos de que o antigo está ultrapassado. Acho que me perco de novo. Aonde quero chegar? Que vocês tradicionalistas precisam pensar se a causa de vocês não se enfraquece na medida em que se fecham na sua aldeia, só nas “leituras” das cartilhas aí elaboradas, que renegam tudo de fora. Caio nos assuntos que geram as brigas comigo. E eram outras as coisas que eu imaginei a princípio que ia tratar neste comentário. Mas é isso aí. Foi assim que saiu.
    Ferretti, você tem aí meu e-mail. Gostaria de saber o seu. De agora em diante, gostaria de tratar nossas “polêmicas” em mensagens pessoais. Tenho muito a aprender com vocês, mas aprender fica difícil nessas leituras apressadas que aqui fazemos uns dos outros. De qualquer forma, obrigada por existirem.

  36. Cara Léa,

    Ficaria feliz se a discussão continuasse por aqui para todos (no caso eu) verem e aprenderem. Não sou tradicionalista, inclusive tenho reservas, mas respeito muito. Minha opinião: Os próprios tradicionalistas são progressistas em muitos quesitos. Por exemplo, na Renovação Carismática vemos grande fervor, mas simplicidade. Foi assim que nasceu nossa igreja. Não? Ora, então, neste caso, os Carismáticos são os tradicionais, correto? Os Carismáticos respeitam por demais os tradicionalistas, mas o contrário não é fato…

    Acho que a missa deve ser uma comunhão, e não um levanta e senta amém. Acontece que muitos irmãos, infelizmente, mesmo tendo feito catequese, não compreendiam bem o ritual todo. Mas por que não compreendiam. Ninguém ensinava? A Igreja deve estar junto ao povo, tantos se foram em parte por essa distância, e devem ser recuperados, esse é meu pensamento. Mas gostaria de continuar lendo suas palavras aqui…

  37. Maria [1],
    Seu comentário me dá oportunidade de tentar esclarecer o que gerou tantos mal-entendidos. Eu não disse que foi o Ferretti ou o blog que deu a referida interpretação ao gesto do Papa. Disse, sim, que divulgou, “deu trela” às interpretações que julgo deturpadas. Ao contrária do que possa parecer, sou muito simples, quase simplória. Vi o Papa pedindo a oração dos fiéis e depois curvar a cabeça. Para mim, isso mostrava simplesmente que ele também estava rezando, pois são muitas as pessoas que, quando rezam, abaixam a cabeça. Duas horas depois, entrei num canal católico e ouvi um padre, que é notório simpatizante da Teologia da Libertação e inimigo da Fraternidade São Pio X, tecer elogios a Francisco, explicando que ele, com aquele gesto, estava pedindo a bênção do povo, ao qual se curvava. Não acho que na minha frase haja “interpretação”, ela apenas expressa o que vi (e sou a primeira a admitir que minha visão pode ser estreita e míope). Mas, no caso do padre, ele interpreta sim, empresta um sentido ao gesto que o extrapola. Baixar a cabeça não significa necessariamente pedir bênção ou curvar-se a alguém – você não acha? E desde que ouvi a interpretação nesta primeira vez, achei que continha má-fé. A Teologia da Libertação tem a mania de referir tudo ao povo, considerado como o centro para o qual deve estar voltada a religião. Dizer que o papa curvava-se ao povo é associá-lo à causa dessa teologia. Tem mais. Depois, qualquer canal que eu ligasse estava recitando essa interpretação. Desconfio muito dessas sinfonias midiáticas, considero-as orquestrações de grupos que desejam imprimir em nós sua visão, o que, geralmente, alcançam, pois conseguem espalhá-la por todo lado como se tratasse de um consenso. Quando vi tantos aqui no Fratres proclamando a mesma coisa, me deu uma tristeza danada, é como visse que a coisa não tem jeito não, até os tradicionalistas estavam engolindo as manobras da esquerda, como me parecia ser o caso. Estou errada? Ninguém aqui me convenceu disso, o que não quer dizer que eu esteja certa. É isso, Maria [1]. Ana Maria Nunes já disse que escrevo complicado, isso talvez dificulte o entendimento do que expresso. Mas acho que os mal-entendidos vêm também pelo tipo de leitura que fazemos na internet, meio às pressas e por alto. No caso do Ferretti, isso se intensifica. Pelo número de comentários que ele precisa examinar, não dá para ler todos com a atenção que pelo menos alguns pedem. Enfim, acredito que toda a “briga” veio de um mal-entendido. Jamais tive a intenção de acusar o blog de deturpar os fatos. Se me lessem com atenção, veriam isso. Falando em atenção, não posso deixar de agradecer a que você teve com minhas palavras.

  38. “Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum.” ( Salmos, 132, 1 – verso usado como lema deste blog, do qual retirou seu nome)

    Ana Maria,
    O ser humano é mesmo uma fonte inesgotável de espanto para as almas atentas. Tenho para mim que você é a mente mais crítica deste blog, a que mais pega no pé dos erros que vê. No entanto, a qualquer palavra que lhe pareça dirigida com teor crítico, sai de baixo!, Deus nos acuda!, reage feito onça, garras de fora, sem se importar se elas arrancam a face do “oponente”. Acredito que isso aconteça não por sentir-se ferida no próprio peito, mas por perceber atacados os grupos, as causas que abraça com fervor. Outra vez você se levanta contra mim. E outra vez preciso esclarecer-lhe. Na frase destacada por você, não tive qualquer intenção de não aceitar, muito menos de censurar, o que alguns aqui falam sobre quem tem esperança no Papa Francisco. A dita frase serviu-me apenas para introduzir a mudança de assunto, para puxar a reflexão sobre os fundamentos da minha confiança no Papa. Mas sua resposta mostra que não entendeu assim. Você já disse que escrevo complicado, misturo as coisas. Deve ser isso que dificulta a compreensão das minhas palavras. Mas isso pode mudar, não? Quem sabe posso melhorar minha redação, praticando mais a escrita, me devotando mais a ela e, assim, conseguir me fazer entendida? Outra coisa. Isso de dizer que não aceito o que os outros falam, que deturpo tudo não beira a calúnia dito assim sem provar? Nas minhas afirmações, vivo repetindo que posso estar enganada, equivocada, que minha visão das coisas pode ser míope, falta implorar para que me convençam do contrário. Aqui, sendo lida ás pressas e por alto, como acontece na internet, posso até parecer que me faço de dona da verdade. Mas sou o exato oposto disso, hesito, vacilo demais, sou quase um caso perdido tão indecisa sou. Preciso de orações. Mas ó Ana Maria, confesso-lhe que na hora que li suas palavras, elas me atingiram como um soco. Com os dias esse sentimento subjetivo foi sendo substituído por uma tristeza de ver que a “maré escura de sangue avança e afoga / os ritos da inocência em toda parte”, até entre aqueles que esperam a Vinda. Meu Deus, tende piedade de nós!

  39. Paulo,
    Sabe o que mais me impressionou na sua mensagem? O fato de ter sido escrita, “doa a quem doer”, “custe o que custar” no mesmo dia em que o blog publicou como post seu comunicado sobre as manifestações contra o aborto em Brasília. Não sei se é porque já vivi muito entre pessoas capazes de tudo para conseguir editar seus trabalhos, o caso é que essas suas palavras me deram um alento, ao me mostrarem que há gente corajosa que se arrisca até ao boicote, mas que expressa seu sentimento publicamente diante de uma situação que incomoda. E o Ferretti também se mostrou altivo ao publicar seu comentário. Obrigada a ambos.

  40. Caro José Miranda,
    Suas palavras aqui são sempre ponderadas. Por isso não me surpreendeu seu pedido para reavaliar minha decisão de tratar as polêmicas com o autor deste blog de forma particular. Vou pensar na sua sugestão. Espero também ver mais participações suas aqui, elas sempre nos ensinam a pensar melhor.