Uma nota sobre o caso dos Franciscanos da Imaculada. O Decreto e a Carta do Comissário Apostólico.

Nota de Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com – Uma clara tentativa de minimizar a importância desse decreto está ocorrendo aqui e ali na blogosfera, como era de se esperar. Dizem-nos que não se trata de algo com que se preocupar; que é só uma situação particular, limitada a uma instituição religiosa específica, e não tem nada que ver com o modo com que o Papa Francisco vê Summorum.

Contra essas manifestações do espírito de negação que conhecemos tão bem desde 28 de fevereiro deste ano, levantamos os seguintes pontos:

1) Primeiro, os Frades Franciscanos da Imaculada não são somente uma pequena ordem ou congregação religiosa ocupando um lugar minúsculo do mundo católico tradicional; com mais de 130 padres, eles formam a segunda maior congregação ou sociedade religiosa canonicamente regular entre aquelas que principalmente ou de facto exclusivamente oferecem a Missa Tradicional (A FSSP é a maior). A família de mosteiros e conventos femininos sob o cuidado espiritual dos FFI não tem outro paralelo no mundo católico tradicional senão a FSSPX. Qualquer ato que restrinja a faculdade dos FFI de oferecer a Missa Tradicional será necessariamente sentio de modo muito profundo no mundo católico tradicional. 

2) Uma justificativa que agora está sendo dada é que a aplicação de Summorum Pontificum entre os FFI causou discórdia em muitas comunidades e que a Missa Tradicional foi “imposta” brutalmente aos padres que não a queriam. Pelo contrário, nós no Rorate, que acompanhamos de perto os FFI desde 2008, podemos afirmar que a verdade é o oposto: Summorum foi aplicado de maneira muito gradual pelos FFI, o Novus Ordo nunca foi proibido em suas casas e igrejas, e em muitas partes do mundo os FFI continuaram a oferecer o Novus Ordo predominantemente. Deve-se notar igualmente que os FFI, em sua promoção da “Forma Extraordinária”, tem sido notavelmente livres de polêmicas e ataques públicos ao Novus Ordo.

3) Ainda outra justificativa que agora está sendo usada é que essa ação é aceitável porque os FFI não foram fundados tendo a Missa Tradicional como uma parte essencial de seu carisma. Esta desculpa é incompreensível na medida em que ignora completamente os direitos dados por Summorum Pontificum aos sacerdotes religiosos. Ademais, se a insatisfação de alguns poucos é suficiente para restringir a toda uma ordem ou congregação o uso de Summorum Pontificum, abre-se um fácil caminho pelo qual os oponentes da Missa antiga podem por fim eliminar a Missa Tradicional de todos os que não fazem parte de institutos “Ecclesia Dei”.

4) Por fim, e mais importante, o decreto — ao especificamente restringir a Missa Tradicional — é uma clara indicação de que ela é vista como algo problemático, algo que deve ser extirpado da vida dos Frades Franciscanos da Imaculada. Se toda essa crise nos FFI não tem nada que ver com a Missa Tradicional, então por que ela é o alvo da exclusão e de restrições, por que o decreto lhe devota tanto espaço e por que o decreto se dá ao trabalho de notar que essa restrição foi pessoalmente ordenada pelo próprio Santo Padre? Se a crise nos FFI é devida ao mau comportamento de alguns, então por que a privação da Missa Tradicional é estendida a todos?

* * *

Decreto original – em italiano, que corresponde exatamente ao reportado pelo competente vaticanista Sandro Magister. No último parágrafo, que traduzimos, consta a ordem, com autorização específica do Pontífice, que restringe o uso do Missal de 1962 para os Frades Franciscanos da Imaculada:

CONGREGATIO

PRO INSTITUTIS VITAE CONSECRATAE
ET SOCIETATIBUS VIATE APOSTOLICAE

PROT. N. 52741/2012

DECRETO

La Congregazione per gli Istituti di vita consacrata e la Società di vita apostolica, attese le consiedrazioni formulate nella Relazione presentata dal Rev.do Mons. Vito Angelo Todisco a conclusione della Visita Apostolica disposta con decreto del 5 luglio 2012, al fine di tutelare e promuovere l’unità interna degli Istituti religiosi e la comunione fraterna, l’adeguata formazione alla vita religiosa e consacrata, l’organizzazione delle attività apostoliche, la corretta gestione dei beni temporali, ha ritenuto necessario nominare un Commissario Apostolico per la Congregazione dei Frati Francescani dell’Immacolata con le conseguente attribuite dal diritto particolare ed universale al Governo Generale del citato Istituto religioso.

Atteso che la suddetta decisione il 3 luglio 2013 è stata oggetto di approvazione in forma specifica a norma dell’art. 18 della cost. ap. Pastor Bonus dal Santo Padre Francesco, con il presente decreto si nomina

il Reverendo P. Fidenzio Volpi O.F.M. Cap.
Commissario Apostolico
ad nutum Sanctae Sedis,
per tutte le Comunità e i sodali della Congregazione dei Frati Francescani dell’Immacolata

Nell’espletamento delle sue mansioni, il Rev.do P. Volpi assumerà tutte le competenze che la normativa particolare dell’Istituto e quella universale della Chiesa attribuiscono al Governo Generale.

Sarà inoltre sua facoltà avvalersi, se lo riterrà opportuno, di collaboratori scelti a sua discrezione e da lui nominati previo assenso di questo Dicastero, a cui potrà chiedere il parere quando lo riterrà necessario.

Il Rev.do P. Volpi ogni sei mesim, dovrà informare questo Dicastero del suo operato, inviando una dettagliata relazione scritta circa le dicisioni adottate, i risultati conseguiti e le iniziative che riterrà utili realizzare per il bene dell’Istituto.
Infine, spetterà all’Istitutodei Frati Francescani dell’Immacolata sia il rimborso delle spese sostenute da detto Commissario e dai collaboratori da lui eventualmente nominati, sia l’onorario per il loro servizio.

In aggiunta a quanto sopra, sempre il 3 luglio u.s. il Santo Padre Francesco ha disposto che ongi religioso della Congregazione dei Frati Francescani dell’Immacolata è tenuto a celebrare la liturgia secondo il rito ordinario e che, eventualmente, l’uso della forma staordinaria (Vetus Ordo) dovrà essere esplicitamente autorizzata dalle competenti autorità per ogni religioso e/o comunità che ne farà richiesta. 

[Acrescente-se ao supramencionado, ainda em 3 de julho, o Santo Padre Francisco dispôs que todo religioso da Congregação dos Frades Franciscanos da Imaculada está obrigado a celebrar a liturgia segundo o rito ordinário e que, eventualmente, o uso da forma extraordinária (Vetus Ordo) deverá ser explicitamente autorizado pelas autoridades competentes para cada religioso e/ou comunidade que lhes solicitar].

Nonostante qualunque disposizione contraria

Dato dal Vaticano, l’11 luglio 2013

f.to Joao Braz Card. de. Aviz
prefetto

+ José Rodrìguez Carballo, O.F.M.
Arcivescovo Segretario

* * *

A seguir, publicamos a tradução da carta do Comissário Apostólico nomeado, Fr. Fidenzio Volpi, OFM, que apresenta o decreto acima publicado. Note-se a ênfase no “sentire cum Ecclesia”, como se a Missa Tradicional fosse um empecilho para isso. Curiosa também é a referência a uma “jornada de renovada eclesialidade”, o que poderia deixar a entender, para muitos, que os FFI teriam uma espécie de visão… restauracionista? Ou melhor, neopelagiana?

Roma, 22 de julho de 2013.

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Aos Irmãos e à Fraternidade da Congregação dos Freis Franciscanos da Imaculada, em todas as suas sedes.

Paz e Bem!

O Santo Padre o Papa Francisco confiou-me o delicado dever de Comissário Apostólico de vossa congregação. Anexo segue o decreto da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, datado de 11 de julho de 2013.

Embora eu reconheça as dificuldades deste dever, eu aceitei a responsabilidade porque é meu desejo acompanhar-vos em uma jornada de renovada eclesialidade. A fim de fazer isso com a certeza de corresponder aos desejos do Magistério, eu não encontro meio melhor do que trazer à mente esta passagem de um recente discurso do Papa Francisco: a eclesialidade é “uma das dimensões constitutivas da vida consagrada, dimensão que deve ser constantemente retomada e aprofundada. A vossa vocação é um carisma fundamental para o caminho da Igreja, e não é possível que uma consagrada e um consagrado não «sintam» com a Igreja. Um «sentir» com a Igreja, que nos gerou no Batismo; um «sentir» com a Igreja que encontra uma sua expressão filial na fidelidade ao Magistério, na comunhão com os Pastores e com o Sucessor de Pedro, Bispo de Roma, sinal visível da unidade. O anúncio e o testemunho do Evangelho, para cada cristão, nunca são um ato isolado. Isto é importante, o anúncio e o testemunho do Evangelho para cada cristão nunca são um ato isolado ou de grupo, e nenhum evangelizador age, como recorda muito bem Paulo VI, «sob uma inspiração pessoal, mas em união com a missão da Igreja e em nome dela» (cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 80). […] Senti vós a responsabilidade que tendes de cuidar da formação dos vossos Institutos na doutrina sadia da Igreja, no amor à Igreja e no espírito eclesial.” (Discurso do Papa Francisco às religiosas participantes na Assembleia Plenária da União Internacional das Superioras-gerais; quarta-feira, 8 de Maio de 2013)

Eu acredito que nada eu precise acrescentar a um tão claro e urgente pensamento do Papa Francisco, o qual concerne justamente a si o «sentir com a Igreja», haja vista que somente dessa maneira pode a Vida Consagrada corresponder ao que a Igreja espera dela e se tornar, deste modo, a Luz da Boa-Nova no mundo para os fiéis que precisam conhecer e seguir a verdade que Cristo nos revelou. No espírito daquela obediência pedida por Nosso Santo Padre Francisco na Carta a um Ministro, eu vos saúdo fraternalmente em Cristo.

Fr. Fidenzio Volpi

Comissário Apostólico

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10 Responses to “Uma nota sobre o caso dos Franciscanos da Imaculada. O Decreto e a Carta do Comissário Apostólico.”

  1. Nesse texto
    (e em muitas outras manifestações pós-conciliares do Clero):
    “Sentir com a Igreja” =
    diminuição da segurança jurídica, com prevalecimento do
    arbítrio e a vontade do mais forte, como disse
    Roberto de Mattei.

    A verdade é que, quando um modernista fala
    em “sentir com a Igreja” (leia-se: com os homens da Igreja),
    é só pra sentir mesmo, não é pra pensar, entender, rezar, confiar…

  2. Se não é perseguição à Missa, me mostra o que é realmente, porque é somente isso que enxergo!

  3. Meus caros amigos, Nosso Senhor está dando uma oportunidade a esses frades e a essas religiosas de verem que a Igreja está ocupada. É preciso resistir as autoridades. O problema dos católicos atuais com as autoridades nasce da profissão autêntica da fé.

    O católico que quiser guardar íntegra e inviolada a fé católica ganhará em consequência de sua fidelidade prêmios como: suspensões, excomunhões e etc.

    A obediência é uma virtude moral sempre relativa a matéria obedecida e ao agente da ordem. A virtude da fé é teologal, nunca está relativa.

    Pode-se pecar por excesso de obediência mas não por excesso de Fé.

    Se há uma forma de ajudar o papa é resistindo publicamente a ele.

    FFI, acordem! resistam! sejam fiéis a Nosso Senhor. Pela conversão das autoridades atuais. Pela restauração do Reinado de Nosso Senhor, pelo triunfo do Coração da Sempre Virgem Maria.

  4. Tem gente esperando que o papa assine uma declaração dizendo que ele é totalmente contra a missa antiga! Essas declarações não são o suficiente??

  5. Muito interessante toda a sofistica empregada a fim de disfarçar a perseguição contra o catolicismo tradicional; agora o “cum Ecclesia” parece ser justamente “contra Ecclesiam”; Nesses momentos sentimos toda o amargor gerado pela “Sacrossanctum Concilium” naquelas célebres passagens que falam sobre a “permanência do culto tradicional, em latim”; o que se viu em seguida foi a destruição sistemática do rito tridentino. Nossa única tábua de sobrevivência é mesmo Êcone; busquemo-la, portanto, com o maior empenho possível.

  6. Queiram desculpar mas na minha ignorancia eu nao percebo todo este vosso alvoroco e sobretudo essa vontade de combater contra um suposto inimigo.

    Ha problemas dentro dos Fraciscanos da Imaculada. Ha divisoes interiores que estao a provocar que hajam denuncias, desgaste de energias em coisas fora do contexto missionario e de descentrar do que e importante, Jesus.

    O motivo de divisao do Instituto aparenta ser a questao liturgica. Se e este o caso eu pergunto-vos, o que fariam voces? Suspender a liturgia na sua forma ordinária do Rito Romano?

    Para alem disso o proprio decreto diz que o uso da forma extraordinária (Vetus Ordo) deverá ser explicitamente autorizado pelas autoridades competentes para cada religioso e/ou comunidade que lhes solicitar. Sei de pelo menos um exemplo (http://absoluteprimacyofchrist.org/pope-francis-franciscans-of-the-immaculate-vetus-ordo/) em que a o pedido ja foi enviado.

    Paz e bem

  7. É o que escrevi num comentário ao post anterior sobre o caso (A ruína dos Franciscanos da Imaculada):

    Ecumenismo não existe para nós, os adeptos da Sagrada Tradição e da Missa Tridentina; só mesmo para “ortodoxos, protestantes, pentecostais, RC”C”, judeus, muçulmanos, hinduístas, budistas, xintoístas, macumbeiros, espíritas, satanistas, liberais, comunistas, modernistas, seicho no ie, sikhismo, bahai, jainismo, ateus, rosas-cruzes, confucionistas, taoístas, positivistas (e negativistas; se existirem, a Santa Sé cria um órgão para eles), zoroatristas, esótericos, nova era, xamanistas, tarot, santo daime, Hare Krishna, cientologistas, Yoga…

    Para nós, ficam como restos (literalmente) aquela “comissãozinha”, de nome farisáico, surgida daquele Motu Proprio de igual nome e que reflete a cegueira dos quais Cristo atacou dizendo “filtrais um mosquito e engolis o camelo” (São Mateus XXIII, 24).

    Pela observação do Professor Roberto de Mattei, ecumenismo e diálogo existe até com as feministas, abortistas e pró-pederastia irmãs americanas.

    “…Por fim, Meu Imaculado Coração triunfará”.

  8. Favor, substituir o comentário
    às 17h39 por este:

    Hugo,

    a “estratégia” dos progressistas é a mesma dos Marxistas:
    Eles esculhambam com tudo a fim de impor seu ritmo e sua visão
    das coisas, nem que seja fazendo uso de arbitrariedade e tirania.
    Daí, quando qualquer coisa dá errado:
    “a culpa é dos Conservadores”.
    E a solução:
    “Mais Progressismo” ou
    “Menos Conservadorismo”.

    Nesse caso, ficaram com a segunda opção.
    É o que cogito.

    Mas isso não é um caso isolado..
    Recentemente, por exemplo, aconteceu
    algo muito parecido com Frei Tiago de São José,
    basta verificar.

    Situações assim ocorrem abundantemente. Por isso
    mesmo é necessário “combater o bom combate”
    [Timóteo 4, 7].
    Não se trata de simples “alvoroço”.

  9. É preciso estarmos sempre vigilante, que os inimigos não dormem. Uma das características dos maus é nunca desistir do seu fim satânico. Ou seja, implantar o erro, custe o que custar. Eles usam mil tramoias para realizar as suas malícias, contra Deus e a Santa Igreja. Eles atualmente usam esta “arma” muito atual para o mundo de hoje. Chamada “obediência”. Nunca em favor da doutrina infalível da Santa Igreja, dos mandamentos da Mesma, do Magistério Vivo da Igreja, dos Concílios dogmáticos, da Tradição de vinte séculos de cristianismos… Para estes dogmas, eles não sabem o que é obediência. Parece que uma nuvem negra ofuscou as suas mentes.
    Na realidade, estes inimigos tem um plano satânico para desenvolver aqui na terra. Trabalhar dia e noite para apunhalar o “Coração” da Esposa de Cristo. Vejamos o exemplo da perseguição a verdadeira Missa. São Pio V. Este, deu um indulto perpétuo para qualquer padre, bispo, cardeal, papa celebrar esta Missa até o fim do mundo. Ninguém precisa ter escruto de consciência ao celebra-La. Isto é divino, faz parte do Magistério da Igreja. Esta missa nunca será abolida da face da terra. Na Fraternidade São Pio X. Mais de quinhentos padres só celebra a Missa tradicional. Sem contar com centenas de outros padres que também celebram.
    Aqui em Campos dos Goytacazes. Os padres que outrora só celebravam esta missa. Infelizmente o Bispo que foi sagrado para guardar a Tradição, está forçando os padres a celebrarem também a missa nova. Se a missa nova é boa, por quê não celebra só ela?
    Joelson Ribeiro Ramos.

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