Dinheiro e Sacramentos?

Caro Papa Bergolgio, proteste contra as decisões desconcertantes dos Bispos alemães (como bem fez Ratzinger) ao invés de denegrir nossos párocos. Aqueles sim que são uma vergonha! 

Por Antonio Socci, 21 de novembro de 2014 | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: A denúncia de hoje do Papa Bergoglio contra “o escândalo do comércio” no templo suscitou clamor:

“Eu penso no escândalo que podemos provocar nas pessoas com o nosso comportamento – enfatizou o Papa Francisco – com os nossos hábitos não sacerdotais no templo: quantas vezes ao entrarmos numa igreja, ainda hoje, deparamos ali com uma lista de preços, ‘para batismo, para a bênção,  para as intenções da missa’. E o povo fica escandalizado.”

Eu não sei se isso existe na Argentina, mas francamente na Itália eu nunca vi uma igreja com uma lista de preços.

E o cardeal Bagnasco rebateu com propriedade durante a tarde, que os sacramentos não são vendidos, que nas igrejas italianas não existem tabelas de preços e que as ofertas livres dos fiéis são utilizadas para sustentar materialmente a Igreja, como é justo que se faça.

É claro que a denúncia do Papa sublinha uma questão verdadeira (a da gratuidade da graça e, portanto, dos sacramentos), mas nos termos que foram usados, corre-se o risco de soar como uma difamação dos pobres párocos …

Ao invés disso, eu gostaria de indicar ao Papa Bergoglio um caso muito mais desconcertante de mau relacionamento entre dinheiro e sacramentos que diz respeito à Igreja na Alemanha.

Na época de Bento XVI, a Santa Sé se opôs às decisões dos bispos alemães [ndr: não respaldando a decisão da Conferência Episcopal Alemã de não admitir aos sacramentos aqueles que oficialmente deixam a Igreja a fim de não pagar o “imposto religioso”, descontado de seus salários para sustentar a Igreja à qual o cidadão alemão pertence]. Creio que seria o caso do Papa Bergoglio se ocupar desse problema, ao invés de expor ao constrangimento nossos pobres párocos .

Além disso, ele conhece bem o Episcopado alemão, porque foram exatamente esses bispos muito progressistas seus principais aliados no Conclave e os maiores defensores das teses de Kasper durante o Sínodo.

Eis aqui, em uma página do meu livro ““NON E’ FRANCESCO”,  um relato do que acontece na Alemanha:

Com todo o respeito à  tão aclamada “Igreja dos pobres”, eu diria que a Igreja na Alemanha é uma verdadeira potência econômica, pois usufrui de enormes receitas do governo, devidas à Kirchensteuer, ou seja, o imposto ou taxa eclesiástica, que só no ano de 2012 canalizou 5,9 milhões de Euros para os seus cofres.

Para entender melhor isso, é uma cifra seis vezes maior do que os “oito para cada mil” que recebe a Igreja italiana, muito embora a Igreja alemã seja composta apenas por 24,3 milhões católicos (menos da metade da Itália).

Até o o mecanismo é diferente. Na Alemanha – apesar da tão decantada separação entre Igreja e estado pelos progressistas — a Kirchensteuer é uma taxa real que é imposta àqueles que se declaram como Católicos (como ocorre também com os Protestantes em benefício da igreja Evangélica).

Justiça e respeito pela liberdade aconteceria se fosse um imposto ao qual o fiel livremente se propõe a pagar, mas ao contrário,  se tornou quase uma espécie de “super-sacramento”, superior até mesmo ao batismo, porque o imposto e a pertença à Igreja se tornaram sinônimos e só é possível se eximir do imposto se a pessoa decidir sair da Igreja com a gravíssima consequência de ser declarado como apóstata e ser excluído dos sacramentos (incluindo até mesmo o funeral na igreja).

“Um decreto da Conferência dos Bispos da Alemanha estabeleceu que a recusa em pagar a  Kirchensteuer  implica para o fiel em sua exclusão da pertença à Igreja”.

Esta posição inédita foi contestada pela Santa Sé  (pelo menos nos tempos de  Ratzinger) e é particularmente desconcertante, porque isso ocorre  “ao mesmo tempo que a maioria do Episcopado alemão está pressionando por uma igreja ‘misericordiosa’ e ‘aberta ao mundo’, reinvindicando comunhão para divorciados novamente casados, abolição do celibato sacerdotal,  afrouxamento das ‘restrições’ com relação à ética sexual etc … “

O filósofo Robert Spaemann, amigo de Joseph Ratzinger, observou que na Alemanha “homens que negam a ressurreição de Cristo permanecem como professores de teologia católica e podem pregar como Católicos durante as missas. Já aqueles fiéis que se recusam a pagar a taxa para o culto são expulsos da Igreja. Há algo de muito errado com isso”.
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17 Comentários to “Dinheiro e Sacramentos?”

  1. Cardeal Bagnasco enfrentou de novo o Papa. Isso é bom!

  2. Há um dado errado na matéria. A arrecadação do “Kirchensteuer” (literalmente, “imposto da Igreja”) na Alemanha em 2012 não foi de cerca de 5,9 milhões de euros (o que não seria muito), mas sim de 5,9 bilhões de euros (o que sim é bastante dinheiro). Sei disso pois tive de pesquisar o Kirchensteuer para um artigo acadêmico que escrevi, não só na Alemanha, mas em outros países como Áustria e países escandinavos. Em todos eles, a arrecadação do Kirchensteuer alcança valores consideráveis, mas nada comparado com a Alemanha, que chega a quase 6 bilhões de euros anuais (uma pequenina parte fica com o Estado alemão, pelos custos de arrecadação e cobrança judicial – os fiéis inadimplentes terão de pagar em juízo, mediante um processo de execução fiscal). Na Áustria, a situação é ainda mais constrangedora, pois é a Igreja que cobra diretamente, de modo que toda diocese tem um escritório da contribuição tributária eclesiástica (“Kirchenbeitrag”) para atender aos fiéis inadimplentes, para propor parcelamento da dívida etc…

  3. Só mais um esclarecimento, para que se entenda bem a matéria: o “oito para cada mil” (otto per mille) de que se falou sobre a Itália é um sistema também de financiamento da Igreja italiana por meio de recursos tributários. Funciona assim: o contribuinte pode destinar 0,8% do valor de seu imposto de renda pago para a religião de sua escolha (desde que essa religião tenha convênio com o Estado). No caso da Igreja Católica italiana, a maior beneficiária, esta recebeu, referente ao ano de 2012, o valor de 1,148 bilhão de euros.

  4. “homens que negam a ressurreição de Cristo permanecem como professores de teologia católica e podem pregar como Católicos durante as missas.”
    Que mais falta acontecer?
    Falou-se em “cisma” quando da possibilidade de aceitação do divórcio pela Igreja. No entando essa questão pode até ser discutida (embora não aprovada) pois Jesus abriu um precedente (” quem deixar sua mulher e se unir a outra, exceto em caso de ..”) que ninguem sabe ao certo o que é, mas a questão da ressurreição é algo muito mais importante, pois “se Jesus não ressuscitou é vã a nossa fé, comamos e bebamos pois amanhã morreremos”. Discutir isso é inconcebível! Sei que o cardeal Kasper fala de “mito da ressurreição”, mas pensei que era só um delírio dele que só eu ouvi, só que se isso tá se tornando assim tão difundido, se o papa sabe e nada faz, é o fim, vai haver um cisma, não pela tese dos apóstatas, mas pela inércia dos responsáveis.

  5. Bergolio não perde uma oportunidade de desconstruir a Igreja. Que Deus no ajude e tenha piedade dele.

  6. Bem, falo oela minha experiência aqui em SP. Não que se pague, mas nunca os padres estão disponíveis para realizar os sacramentos extra-missa.

  7. Como se sabe, o clero alemão, salvo raríssimas exceções, há muito apostatou. E, por conseguinte, já não são mais católicos. Por que Bergoglio não excomunga os padrecos apóstatas? E mais: os valores pagos pelos batizados, casamentos, intenções da missa, dentre outros, é para a manutenção da Igreja.

  8. Novamente os ” católicos” mais para protestantes do que Católicos agitando a Igreja Católica. Mas pelo jeito, eles terão que se virar pois o número de Católicos tende a cair ano após ano lá, assim como na Áustria já cai abruptamente. Talvez seja até bom isso, para esses “religiosos católicos” mais para protestantes do que Católicos nesses perderem a sua força financeira e, consequentemente, exercerem menos influência na Igreja Católica como um todo.

  9. Espero q tradicionalistas sejam favoráveis ao Direito da Igreja cobrar impostos e ao Estado Confessional e nunca contrários!…

  10. Diferentemente do que é colocado na matéria ocorre sim a cobrança de taxas em diversas igrejas italianas. Em Assis e em Loreto por exemplo é assim… Para bênção de objetos e intenções para a santa missa a cobrança é bastante clara…

  11. “Eu penso no escândalo que podemos provocar nas pessoas com o nosso comportamento – enfatizou o Papa Francisco – com os nossos hábitos não sacerdotais no templo” será que Francisco, o humilde, percebe que por uma infinidade de motivos essa frase se aplica perfeitamente a ele, Francisco, o bom…?

  12. Teresa, essa questão já foi mais do que discutida e a Igreja já bateu o martelo encima dela há muito tempo atrás. Não existe possibilidade da aceitação do divórcio pela Igreja porque isso seria contrariar as palavras de Nosso Senhor que deixou claro que Moisés havia permitido o divórcio, não por mandamento divino, mas devido à dureza daqueles corações, pois que no início ELE, sendo Deus não o fez assim, portanto o que Deus uniu que o homem não separe. Quanto ao precedente que você cita, a Igreja sabe sim do que se trata:

    “O matrimônio, por sua índole mesma, é indissolúvel; quem o contrai, deve sabê-lo de antemão; Jesus mesmo diz: “O que Deus uniu, o homem não o deve separar” (Mt 19,6)

    Acontece, porém, que no texto de Mt 5,32s e Mt 19,9 Jesus parece admitir urna exceção, a saber:..- no caso em que haja pornéia. Como entender esta palavra?
    Notemos que os textos de Mc, Lc e 1 Cor são peremptórios e, além disto, são anteriores ao de Mateus (Mateus grego que hoje temos deve datar de 80 aproximadamente, o que é posterior a Mc, Lc e 1 Cor), disto se segue que é pouco provável que os três tenham eliminado uma cláusula restritiva de Jesus; é mais verossímil que o tradutor do Evangelho de Mateus aramaico para o grego tenha acrescentado a cláusula.. Ele o terá feito em vista de uma problemática oriunda em comunidades de maioria judeo-cristã (como eram as comunidades às quais se destina o Evangelho segundo Mateus). Qual terá sido essa problemática? Deve-se depreender do sentido da palavra grega pornéia.

    1) Há quem a traduza por fornicação ou adultério; em conseqüência estaria dissolvido o casamento desde que uma das duas partes incorresse em adultério. É assim que pensam e ensinam as comunidades cristãs ortodoxas orientais e as protestantes. Todavia observe-se que fornicação ou adultério suporia, em grego, moichéia e não pornéia.
    2) Mais acertado é dizer que pornéia corresponde ao aramaico zenut, que tinha o sentido de prostituição ou união ilegítima. Os rabinos chamavam zenut todo tipo de união incestuosa devida a um grau de parentesco tornado ilícito pela Lei de Moisés. Com efeito, o capítulo 18 do Levítico enumera, entre outros, os seguintes impedimentos matrimoniais: “Não descobrirás a nudez da mulher do teu irmão, pois é a própria nudez de teu irmão” (Lv 18, 16). Isto é: o viúvo não se case com uma cunhada solteira. “Não descobrirás a nudez de uma mulher e de sua filha, não tomarás a filha do seu filho, nem a filha de sua filha, para lhes descobrir a nudez- Elas são a tua própria carne; isto seria um incesto” (Lv 18, 17).

    Uniões desse tipo e outras enumeradas em Lv 18 podiam ser legalmente contraídas entre pagãos anteriormente à sua conversão ao Cristianismo- Uma vez feitos cristãos, tais fiéis de origem grega deviam suscitar dificuldades aos judeo-cristãos legalistas de suas comunidades cristãs- Daí a cláusula de Mt 5, 32s e 19, 9, que permitia dissolver tais uniões que a Lei de Moisés considerava ilegítimas. Essa cláusula terá correspondido a uma decisão de comunidades compostas, em maioria, por judeo-cristãos, a fim de preservar a boa paz entre eles e os cristãos provenientes do paganismo- Deve ter tido vigência geográfica e cronologicamente limitada (enquanto houvesse tais judeo-cristãos legalistas na Igreja); assemelha-se às cláusulas de Tiago adotadas em caráter provisório pelo Concílio de Jerusalém em 49; cf. At 15, 23-29-
    Esta explicação de Mt 5, 32s e 19, 9, como se vê, não afeta o caráter indissolúvel do matrimônio tal como proposto por Jesus em Mc, Lc e 1 Cor.
    (fonte: http://www.clerus.org/clerus/dati/2007-11/23-13/01Casamentos.html)

    • Certo, Gercione. Muito boa sua explicação.

      Mas quando eu disse que se pode discutir (e reforcei: “mas não aprovar”) era exatamente no sentido de discutir para esclarecer melhor essa questão. Como voce fez agora, por exemplo.
      Discutir para deixar mais claro para os leigos que lendo as palavras do evangelho podem – ainda que obedeçam a tradição da Igreja – achar que talvez possa haver uma exceção não compreendida.

      Falei isso apenas para enfatizar o quanto a mais sutil negação da ressurreição – que não é polêmica mas é o fundamento da nossa fé – constitui um absurdo sem precedentes, sem comparação, inadmissível num cristão, e menos num teólogo ou clérigo.
      Discutir os milagres, discutir sobre a natureza da Eucaristia, discutir sobre os dogmas, por mais absurdo que seja, poderia ser aceito se comparado a discutir a ressurreição.

      Mas valeu pelo seu esclarecimento quanto a questão do divórcio. Eu não sabia todos esses detalhes e as vezes me perguntava se Jesus não usou essa palavra (pornéia) de confusa tradução, exatamente pra deixar um espaço pro agir e adaptar da Igreja no decorrer dos tempos.

      Eu também, como Moisés, posso achar que a proibição do divórcio é dura demais, mas rendo-me a Vontade do Mestre, na visão bi-milenar da Igreja. Sem dúvida.

    • Depois que se bate o martelo, nada mais há a ser discutido. Ensinar fielmente, pregar, é diferente de discutir.

  13. UMA IGREJA evangelizada deve viver do dízimo EXPONTÂNEO pago pelos seu fiéis e não por festas, rifas e taxas para ministrar sacramentos. Você mede a burrice do Padre pelo tamanho da torre da Igreja. Quanto mais alta, mais burro é o Padre. Você mede o nível de espiritualidade de uma paróquia pelas taxas, QUANTO MAIS TAXAS, MAIS SE VÊ A FALTA DE CONSCIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE.