Qual é a verdade sobre o Cardeal Murphy-O’Connor e o “TimeBergoglio”?

Por Damian Thompson – The Spectator, 25 de novembro de 2014 | Tradução: Fabiano Rollim – Fratres in Unum.com: John Bingham, o excelente editor de assuntos religiosos de The Telegraph, há alguns dias trouxe uma história em primeira mão que só agora está sendo absorvida. Espero que ele me perdoe, mas me pergunto se teria se dado conta da importância da mesma. Assim escreveu:

Cardeal Murphy O'Connor

Cardeal Murphy O’Connor

O Cardeal Cormac Murphy-O’Connor, ex-líder da Igreja Católica na Inglaterra e País de Gales, ajudou a orquestrar a campanha por trás dos bastidores que levou à eleição do Papa Francisco, assim diz uma nova biografia… [O livro,] a ser publicado no próximo mês, revela que houve uma campanha discreta, mas altamente organizada, de um grupo de cardeais europeus em apoio ao Cardeal Bergoglio.

The Great Reformer (O Grande Reformador), do escritor católico inglês Austen Ivereigh, apelida o grupo de “TimeBergoglio” e diz que seus membros realizaram jantares particulares e outros encontros de cardeais nos dias que precederam o conclave, onde apresentaram silenciosamente sua causa. 

‘Percebendo que era a hora, os reformadores europeus que em 2005 já haviam apoiado Bergoglio abraçaram a iniciativa’, explica Ivereigh no livro, ele que já trabalhou como secretário de imprensa do Cardeal Murphy-O’Connor. 

Ele diz que o Cardeal, então com 80 anos e sem direito a voto no conclave, uniu-se ao cardeal alemão Walter Kasper, cujo pedido controverso para que divorciados recasados pudessem ser admitidos à Comunhão foi um dos principais pontos de divisão no sínodo que o Papa Francisco realizou em Roma neste ano. 

O papel do Cardeal Murphy-O’Connor incluiu a formação de um lobby com seus colegas Norte-Americanos e o estabelecimento de uma ponte com outros cardeais de língua inglesa. 

‘Eles tinham aprendido a lição de 2005’, explica Ivereigh. ‘Primeiro garantiram que Bergoglio concordaria. Perguntado se estava disposto, disse acreditar que neste tempo de crise para a Igreja nenhum cardeal poderia recusar se fosse solicitado’. 

‘Murphy-O’Connor inteligentemente alertou-o para “ser cuidadoso” e disse que era a sua vez agora, tendo recebido um “capisco” — “entendo”— como resposta. 

‘Assim partiram para o trabalho, organizando os jantares com cardeais para promoverem seu homem, argumentando que sua idade — 76 anos— não deveria mais ser considerada um obstáculo, já que papas podem renunciar. Tendo compreendido em 2005 as dinâmicas de um conclave, sabiam que votos se dirigiam àqueles que tinham uma forte presença do lado de fora’.

Todas as eleições papais são acompanhadas por tais campanhas: os amigos de Ratzinger teriam sondado discretamente apoiadores antes do conclave de 2005. Todavia, um lobby organizado do tipo que Ivereigh alega ter ocorrido é perigoso, por ser fortemente desencorajado pelas regras da Igreja. Dr. Ivereigh, como gosta de ser chamado, é amigo do Cardeal Cormac e um grande admirador do Papa Francisco. Ele também ajuda a dirigir uma ufanista companhia chamada CatholicVoices, que busca preencher o vácuo criado pelos inúteis escritórios de mídia católicos. Assim, sua ingenuidade ao recontar essa história — que pode ou não ser verdadeira — é um tanto surpreendente. O Cardeal Murphy-O’Connor respondeu ao The Telegraph com uma carta escrita por sua secretária de imprensa, Maggie Doherty, que diz:

O Cardeal Murphy-O’Connor gostaria de desfazer qualquer desentendimento que surja do livro de Austen Ivereigh sobre o Papa Francisco. Ele gostaria de deixar claro que nenhuma aproximação ao então Cardeal Bergoglio nos dias que precederam o Conclave foi feita por ele ou, até onde sabe, por qualquer outro cardeal para buscar sua concordância em se tornar um candidato ao papado.

O que ocorreu durante o Conclave, o qual não incluiu o Cardeal Murphy-O’Connor por já ter mais de 80 anos, é selado por segredo.

A carta é breve e cuidadosamente redigida, ainda que distintamente vaga (‘nos dias que precederam o Conclave’). E está sendo usada por alguns dos inimigos de Francisco, que dizem que qualquer conluio entre cardeais invalidaria sua eleição. Em minha opinião, uma bobagem. Mas um blog, ‘FromRome’, se dedicou bastante à história de The Telegraphe e cita as palavras severas de João Paulo II na Constituição Apostólica de 1996:

Os Cardeais eleitores abstenham-se, além disso, de todas as formas de pactuação, convenção, promessa, ou outros compromissos de qualquer gênero, que os possam obrigar a dar ou a negar o voto a um ou a alguns. Se isto, realmente, se tivesse verificado, mesmo que fosse sob juramento, decreto que tal compromisso é nulo e inválido e que ninguém está obrigado a observá-lo; e, desde já, imponho a pena de excomunhão lataesententiae para os transgressores desta proibição. Todavia, não é meu intento proibir que, durante o período de Sé vacante, possa haver troca de ideias acerca da eleição.

De igual modo, proíbo aos Cardeais fazerem, antes da eleição, capitulações, ou seja, tomarem compromissos de comum acordo, obrigando-se a pô-los em prática no caso de um deles vir a ser elevado ao Pontificado. Também estas promessas, se porventura fossem realmente feitas, mesmo sob juramento, declaro-as nulas e inválidas.

Não estou sugerindo que o Cardeal Murphy-O’Connor tenha violado aquela constituição. Mas poderíamos dizer que a história de Ivereigh tem tudo para gerar más interpretações.

Ainda, a história de que Murphy-O’Connor teria se “unido” ao Cardeal Kasper para garantir a eleição de Francisco será usada por católicos conservadores que ainda se perguntam por que foi permitido a uma figura tão divisora como Kasper pautar a agenda para o Sínodo sobre a Família no mês passado. Aquela agenda — que incluía a Comunhão para divorciados recasados (a causa de estimação de Kasper) e reconhecimento dos relacionamentos gays — irritou bispos conservadores africanos. Ontem, no que pareceu ser um ato de controle de danos, o Papa indicou o bastante conservador Cardeal Robert Sarah, da Guiné, para o posto de Prefeito da Congregação para o Culto Divino (leia o post do Pe. Alexander Lucie-Smith no blog Catholic Herald aqui). Agora, graças a Ivereigh, ele tem algum dano a mais para controlar.

17 Comentários to “Qual é a verdade sobre o Cardeal Murphy-O’Connor e o “TimeBergoglio”?”

  1. Meu Senhor, parece coisa de novela!! Que bomba!

  2. Se é verdade ou não, não dá para dizer. Mas a existência deste “TimeBergoglio” explica tantos pontos obscuros (desde a sua rápida e surpreendente eleição até o protagonismo esdrúxulo de Kasper no Sínodo deste ano), que a verossimilhança da estória é de todo evidente.

    Mas um capítulo vergonhoso dos tristes tempo que vivemos…

  3. Pois é. Se é verdade ou não, eu não sei, mas que é verossímil, isto é.

  4. Il Mastino escreveu misteriosamente no seu último artigo que “um rei da Cúria, uma velha raposa de cardeal”, disse num colóquio com o cardeal Ruini: “in effetti durante il conclave ci sono stati pasticci”. “Pasticci” no Conclave portanto, admitido por um que dele participou. Nota: Ruini não participou pois tem mais de 80 anos.

    E agora Rorate-Caeli publica um post também misterioso dizendo que Ratzinger só renunciou porque um ou mais cardeais, grande(s) amigo(s) dele, garantiram que seria eleito um substituto que continuasse o seu trabalho. Só que esse(s) cardeal(is) fazia(m) parte secretamente do TimeBergoglio. Ou seja, traidor(es). É mais um elemento que torna a renúncia de Ratzinger ainda mais questionável.

    E as informações vão aparecendo…

  5. Por favor, alguém acha mesmo que não existe candidaturas organizadas para o conclave. Quanta ingenuidade! é de conhecimento público por exemplo os jantares organizados para conseguir apoio ao então cardeal Ratzinger em 2005. Pra mim estão fazendo tempestade em copo dágua. Existem coisas mais importantes para se dedicar e se preocupar. Não adianta querer anular a eleição do cardeal Bergoglio.

  6. Puxa, demorou para surgir Teoria da Conspiração com o Papa Francisco. Na época de Bento, essa velha história de lobby despontou num instante.

  7. Eis o ovo da Serpente. Mais óbvio, impossível. Valha-nos, Deus Nosso Senhor!

  8. Qual é a verdade sobre o Cardeal Murphy-O’Connor e o “Time-Bergoglio”? A verdade que está na Parábola do Administrador Infiel:
    _ Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha.
    Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas. (Lucas 16:3-4)
    Esses senhores há muito tempo perderam a fé nas verdades sobrenaturais. Se é que algum dia a tiveram. Se tornaram apenas burocratas de batina, com muito dinheiro no bolso, prestígio e um poder que usurpam para manter fiéis ingênuos sob o seu jugo e para massacrar dissidentes e desafetos.
    Jesus disse aos seus discípulos e sucessores:
    _Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e ser pisado.
    Esses homens abraçaram o sacerdócio e o celibato, mas abriram mão da fé sem a qual é impossível ser fiel a ambos. Com o passar do tempo tanto o sacerdócio como o celibato passaram a ser um fardo e para contrabalançar o fardo, muitos dele se entregaram a toda sorte de vício e corrupção.
    Um cardeal com 80 anos e sem direito a voto no conclave, deveria estar com terço na mão e joelho no chão, se a artrite permitir, pois lhe resta pouco tempo de vida nesse mundo. Não deveria estar fazendo lobby contra Jesus Cristo e sua Doutrina. Isso só mostra o estado de podridão dessas almas que hoje governam a Igreja.
    São cegos e guias de cegos.

  9. Além de poder ser declarado como um papa ilegítimo em virtude dos erros doutrinais e das heresias que comete, sua própria eleição está cheia de movimentos suspeitos.

    Já imaginaram se isso tivesse se dado com um papa ortodoxo?

    Que tempos! Que tempos!

  10. Concedendo — argumentum tantum — que a narrativa corresponda aos fatos, aquele que nega ser um ”príncipe renascentista” quando oferece as costas a concertos de música clássica católica, ou ao recusar paramentos litúrgicos herdados de dois mil anos de fé cristã; logo ele, percebam a ironia, ter-se-ia eleito segundo métodos, diríamos, bastante pré-conciliares. Precedentes ao Concílio de Trento, isso é.

  11. Onde está a dúvida que houve um pacto entre Bergoglio e os seus com-pinchas incluindo o cardial kasper?
    No seu primeiro Angelus (Domingo, 17 de Março de 2013) o papa faz um elogio da teologia da “misericórdia” de Kasper, à laia de agradecimento;
    “Nestes dias, pude ler o livro de um Cardeal – o Cardeal Kasper, um teólogo estupendo, um bom teólogo – sobre a misericórdia. Aquele livro fez-me muito bem. (Não julgueis que estou a fazer publicidade dos livros dos meus Cardeais, porque não é isso…!) É que [o livro] me fez mesmo bem, muito bem… O Cardeal Kasper dizia que a melhor sensação que podemos ter é sentir misericórdia: esta palavra muda tudo, muda o mundo. Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo.”
    Eu lavo as tuas costas e lavas as minhas.
    http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2013/documents/papa-rancesco_angelus_20130317.html

  12. Fratres, uma dúvida:

    Caso isso corresponda aos fatos, como fica a ação do Espírito Santo?

    • Saulo, aos olhos do Espírito Santo, pouco importa quem seja eleito. O Espírito Santo deve garantir que o Papa nunca vai atentar contra os fundamentos da nossa fé. A assistência do Espírito Santo impede que o Papa promova a apostasia na Igreja. E ainda que isso pareça estar acontecendo, devemos ter esperança (= virtude teologal) que Deus agirá no tempo oportuno para salvar as almas.
      A verdade é que estamos em tempos de uma crise só comparável aos tempos do arianismo. Nem com Lutero, a Igreja se viu tão confusa e desorientada como hoje.

      ATO DE ESPERANÇA:
      “Eu espero meu Deus, com firme confiança, que me dareis a vossa graça neste mundo, e, se observar os Vossos mandamentos, a Vossa Glória no outro. Porque me tendes prometido e Sois fiel a Vossas promessas. Amém.”

  13. Neste “mar” de dúvidas, de incertezas deste pontificado tão misterioso. Só uma coisa podemos ter certeza. Que este atual Papa, nunca provocou tanto escândalo na Igreja com suas atitudes. As quais, são pavorosas. Será que ele ainda lembra dos principais artigos da nossa fé? Será que ele está lembrando, que mais um “pouco de tempo”. Terá que comparecer diante do tribunal de Deus. Nenhum papa até agora, foi tão longe apoiando, ou incentivando esta parte que fere a moral da Igreja. Isto faz-me tremer de medo e pavor da responsabilidade de um Sumo Pontífice. Vamos redobrar as nossas orações, para que possamos ser sempre fiéis; os Mandamentos da Lei de Deus e da Santa Igreja.
    Joelson Ribeiro Ramos.