Bento XVI desautoriza Kasper.

Sua Santidade Bento XVI, papa emérito, redigiu novamente as conclusões de um artigo que escreveu em 1972 e que o cardeal Kasper havia citado em apoio a suas próprias teses sobre a comunhão dos divorciados recasados. Dessa maneira, desautoriza ao cardeal alemão que pretendia usar sua figura para sustentar uma postura contrária ao magistério da Igreja, que Joseph Ratzinger defendeu como cardeal e como Papa.

Por Sandro Magister/Chiesa.espresso/InfoCatólica | Tradução: Airton Vieira de Souza – Fratres in Unum.com: Na Opera Omnia, Ratzinger está voltando a publicar – com a ajuda do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller – todos seus escritos teológicos, agrupados por tema. No último dos nove volumes publicados até agora em alemão, de quase 1000 páginas e intitulado «Introdução ao cristianismo. Profissão, batismo, seguimento» encontra-se um artigo de 1972 sobre a questão da indissolubilidade do matrimônio, publicado esse ano na Alemanha em um livro escrito por vários autores sobre matrimônio e divórcio.

Esse artigo de Ratzinger de 1972 foi desempoeirado no mês de fevereiro passado pelo cardeal Walter Kasper no informe com o que introduziu o consistório dos cardeais convocado pelo papa Francisco para debater sobre o tema da família, em vista do sínodo dos bispos programado para outubro.

Apoiando a admissão à comunhão eucarística dos divorciados que se recasam, Kasper disse:

«A Igreja das origens nos dá uma indicação que pode servir, à que já fez menção o professor Joseph Ratzinger em 1972. […] Ratzinger sugeriu retomar de maneira nova a posição de Basílio. Pareceria uma solução apropriada, que está também na base de minhas reflexões». Efetivamente, nesse artigo de 1972, o então professor de teologia de Ratisbona, que contava quarenta e cinco anos de idade, sustentava que dar a comunhão aos divorciados recasados, em condições particulares, parecia estar «plenamente em linha com a tradição da Igreja» e em particular com «esse tipo de indulgência que surge em Basílio onde, depois de um período contínuo de penitência, ao ‘bigamus’ (isto é, a quem vive em um segundo matrimônio) se lhe concede a comunhão sem a anulação do segundo matrimônio: com a confiança na misericórdia de Deus, que não deixa sem resposta a penitência».

Defendeu a fé da Igreja como cardeal e Papa

Nesse artigo de 1972 foi a primeira e a última vez que Ratzinger se «abriu» à comunhão aos divorciados e recasados. De fato, seguidamente não só aderiu plenamente à posição de proibição da comunhão, reafirmada pelo magistério da Igreja durante o pontificado de são João Paulo II, senão que contribuiu de maneira determinante, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, também à argumentação de dita proibição.

Contribuiu sobretudo assinando a carta aos bispos em 14 de setembro de 1994, com a qual a Santa Sé rejeitava as teses favoráveis à comunhão aos divorciados recasados sustentadas nos anos precedentes por alguns bispos alemães, entre eles Kasper.

E, seguidamente, com un texto de 1998 publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé e tornado a publicar pelo «L’Osservatore Romano» em 30 de novembro de 2011: A pastoral do matrimônio deve fundar-se na verdade.

Sem contar que sucessivamente, como Papa, tornou a confirmar e motivou várias vezes a proibição da comunhão no marco da pastoral para os divorciados recasados.

Desautorização ao cardeal Kasper

Por conseguinte, não é causa de assombro que Ratzinger tenha considerado inapropiada a citação que de seu artigo de 1972 fez em fevereiro passado o cardeal Kasper para apoiar suas teses, como se nada houvesse sucedido depois desse ano.

Daí a decisão tomada por Ratzinger, ao tornar a publicar seu artigo de 1972 na Opera Omnia, de reescrever e ampliar a parte final do mesmo, alinhando-a com seu pensamento sucessivo e atual.

Abaixo, pode-se ler a tradução da nova parte final do artigo, tal como aparece no volume da Opera Omnia, há pouco nas livrarias, entregue à imprensa pelo Papa emérito Bento XVI em março de 2014. Na reedição de 2014, precisa-se que «a contribuição foi totalmente revisada pelo autor».

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Novo final do artigo de 1972, redigido novamente por Joseph Ratzinger em 2014

A Igreja é A Igreja da Nova Aliança, mas vive em um mundo no qual segue existindo imutável essa «dureza do […] coração» (Mt 19, 8) que empurrou a Moisés a legislar. Portanto, que pode fazer concretamente, sobretudo em um tempo em que a fé se dilui sempre mais, até o interior da Igreja, e no que as «coisas das que se preocupam os pagãos», contra as quais o Senhor alerta aos discípulos (cfr. Mt 6, 32), ameaçam com converter-se cada vez mais na norma?

Primeiro de tudo, e essencialmente, deve anunciar de maneira convincente e compreensível a mensagem da fé, tentando abrir espaços onde possa ser vivida verdadeiramente. A cura da «dureza do coração» só pode chegar da fé e só onde ela está viva é possível viver o que o Criador havia destinado ao homem antes do pecado. Por isso, o principal e verdadeiramente fundamental é que a Igreja faça que a fé seja viva e forte.

Ao mesmo tempo, a Igreja deve seguir tentando sondar os confins e a amplitude das palavras de Jesus. Deve permanecer fiel ao mandato do Senhor e tampouco pode ampliá-lo demais. Parece-me que as denominadas «cláusulas da fornicação» que Mateus acrescentou às palavras do Senhor transmitidas por Marcos refletem já dito esforço. Se menciona um caso que as palavras de Jesus não tocam.

Este esforço há continuado no arco de toda a história. A Igreja do Ocidente, sob a guia do sucessor de Pedro, não há podido seguir o caminho da Igreja do império bizantino, que se há acercado cada vez mais ao direito temporal, debilitando assim a especificidade da vida na fé. Não obstante, a sua maneira há sacado à luz os confins da pertinência das palavras do Senhor, definindo assim de maneira mais concreta seu alcance. Hão surgido, sobretudo, dois âmbitos que estão abertos a uma solução particular por parte da autoridade eclesiástica.

  1. Em 1 Cor 7, 12-16, São Paulo – como indicação pessoal que não provém do Senhor, mas a que sabe estar autorizado – diz aos Coríntios, e através deles à Igreja de todos os tempos, que no caso de matrimônio entre um cristão e um não cristão este pode ser dissolvido sempre que o não cristão obstaculize ao cristão em sua fé. Disso a Igreja há derivado o denominado «privilegium paulinum», que continua sendo interpretado em sua tradição jurídica (cfr. CIC, can. 1143-1150).

Das palavras de São Paulo a tradição da Igreja há deduzido que só o matrimônio entre dois batizados é um sacramento autêntico e, por conseguinte, absolutamente indissolúvel. Os matrimônios entre um não cristão e um cristão sim que são matrimônios segundo a ordem da criação e, portanto, definitivos de por si. Não obstante, podem ser dissolvidos em favor da fé e de um matrimônio sacramental.

Ao final, a tradição há ampliado este «privilégio paulino», convertendo-o em «privilegium petrinum». Isto significa que o sucessor de Pedro tem o mandato de decidir, no âmbito dos matrimônios não sacramentais, quando está justificada a separação. Entretanto, este denominado «privilégio petrino» não há sido acolhido no novo Código, como era em câmbio a intenção inicial.

O motivo há sido o dissenso entre dois grupos de expertos. O primeiro há sublinhado que o fim de todo o direito da Igreja, seu metro interior, é a salvação das almas. Disso se deduz que a Igreja pode e está autorizada a fazer o que serve para conseguir este fim. O outro grupo, ao contrário, defende a ideia de que os mandatos do ministério petrino não devem ampliar-se demais e que é necessário permanecer dentro dos limites reconhecidos pela fé da Igreja.

Devido à falta de acordo entre estes dois grupos, o Papa João Paulo II decidiu não acolher no Código esta parte dos costumes jurídicos da Igreja e seguiu confiando-a à congregação para a doutrina da fé que, junto com a práxis concreta, deve examinar continuamente as bases e los limites do mandato da Igreja neste âmbito.

  1. No tempo se há desenvolvido de maneira cada vez mais clara a consciência de que um matrimônio contraído aparentemente de maneira válida, a causa de vícios jurídicos ou efetivos pode não haver-se concretizado realmente e, portanto, pode ser nulo. Na medida em que a Igreja há desenvolvido o próprio direito matrimonial, ela há elaborado também de maneira detalhada as condições para a validez e os motivos de (uma) possível nulidade.

A nulidade do matrimônio pode derivar de erros na forma jurídica, mas também, e, sobretudo de uma insuficiente consciência. Com respeito à realidade do matrimônio, a Igreja mui pronto reconheceu que o matrimônio se constitui como tal mediante o consentimento dos dois cônjuges, que deve expressar-se também publicamente em uma forma definida pelo direito (CIC, can. 1057 § 1). O conteúdo desta decisão comum é o dom recíproco através de um vínculo irrevogável (CIC, can. 1057 § 2; can. 1096 § 1). O direito canônico pressupõe que as pessoas adultas saibam elas somente, partindo de sua natureza, que é o matrimônio e, por conseguinte, que saibam também que é definitivo; o contrário deveria ser demonstrado expressamente (CIC, can. 1096 § 1 e § 2).

Sobre este ponto, nos últimos decênios hão nascido novos interrogantes. Se pode presumir hoje que as pessoas saibam «por natureza» sobre o definitivo e a indissolubilidade do matrimônio, assentindo com seu sim? Ou acaso não se há verificado na sociedade atual, ao menos nos países ocidentais, um câmbio na consciência que faz presumir mais bem o contrário? Se pode dar por descontada a vontade do sim definitivo ou não se deve mais bem esperar o contrário, isto é, que já desde antes se está predisposto ao divórcio? Ali onde o aspecto definitivo seja excluído conscientemente não se levaria a cabo realmente o matrimônio no sentido da vontade do Criador e da interpretação de Cristo. Disto se percebe a importância que tem hoje uma correta preparação ao sacramento.

A Igreja não conhece o divórcio. Não obstante, depois do apenas indicado, ela não pode excluir a possibilidade de matrimônios nulos. Os processos de anulação devem ser levados em duas direções e com grande atenção: não devem converter-se em um divórcio camuflado. Seria desonesto e contrário à seriedade do sacramento. Por outra parte, devem examinar com a necessária retidão as problemáticas da possível nulidade e, ali onde haja motivos justos em favor da anulação, expressar a sentença correspondente, abrindo assim a estas pessoas uma nova porta.

Em nosso tempo hão surgido novos aspectos do problema da validez. Já hei indicado antes que a consciência natural sobre a indissolubilidade do matrimônio é agora problemática e que disso derivam novas tarefas para o procedimento processual. Quisera indicar brevemente outros dois novos elementos:

  1. O can. 1095 n. 3 há inscrito a problemática moderna no direito canônico ali donde diz que não são capazes de contrair matrimônio as pessoas que «não podem assumir as obrigações essenciais do matrimônio por causas de natureza psíquica». Hoje, os problemas psíquicos das pessoas, precisamente ante uma realidade tão grande como o matrimônio, se percebem mais claramente que no passado. Não obstante, é bom pôr em guarda sobre edificar a nulidade, de maneira imprudente, a partir dos problemas psíquicos; fazendo isto se estaria pronunciando facilmente um divórcio sob a aparência da nulidade.
  2. Hoje se impõe, com grande seriedade, outra pergunta. Atualmente há cada vez mais pagãos batizados, ou seja, pessoas que se convertem em cristãs por meio do batismo, mas que não creem e que nunca hão conhecido a fé. Trata-se de uma situação paradoxal: o batismo faz que a pessoa seja cristã, mas sem fé esta é só, apesar de tudo, um pagão batizado. O can. 1055 § 2 diz que «entre batizados, não pode haver contrato matrimonial válido que não seja por isso mesmo sacramento». Mas, que sucede se um batizado não crente não conhece para nada o sacramento? Poderia também ter a vontade da indissolubilidade, mas não vê a novidade da fé cristã. O aspecto trágico desta situação se faz evidente, sobretudo quando batizados pagãos se convertem à fé e iniciam uma vida totalmente nova. Surgem aqui perguntas para as quais não temos, todavia uma resposta. É, portanto, mais urgente ainda aprofundar sobre elas.
  3. De quanto dito até agora surge que a Igreja do Ocidente – A Igreja católica –, sob a guia do sucessor de Pedro, por um lado sabe que está estreitamente vinculada à palavra do Senhor sobre a indissolubilidade do matrimônio; não obstante, por outro há tentado também reconhecer os limites desta indicação para não impor às pessoas mais do que é necessário.

Assim, partindo da sugestão do apóstolo Paulo e apoiando-se ao mesmo tempo na autoridade do ministério petrino, para os matrimônios não sacramentais há elaborado ulteriormente a possibilidade do divórcio em favor da fé. Da mesma maneira, há examinado em todos os aspectos a nulidade de um matrimônio.

A exortação apostólica «Famíliaris consortio» de João Paulo II, de 1981, há levado a cabo um passo ulterior. No número 84 está escrito: «Em união com o Sínodo exorto vivamente aos pastores e a toda a comunidade dos fiéis para que ajudem aos divorciados, procurando com solícita caridade que não se considerem separados da Igreja […]. A Igreja reze por eles, os anime, se apresente como mãe misericordiosa e assim os sustente na fé e na esperança».

Com isto, à pastoral se lhe confia uma tarefa importante, que talvez não há sido suficientemente transposta na vida cotidiana da Igreja. Alguns detalhes estão indicados na própria exortação. Diz-se que estas pessoas, enquanto batizadas, podem participar na vida da Igreja, que inclusive devem fazê-lo. Enumeram-se as atividades cristãs que para eles são possíveis e necessárias. Entretanto, talvez fosse necessário sublinhar com maior claridade que podem fazer os pastores e os irmãos na fé para que elas possam sentir de verdade o amor da Igreja. Penso que seria necessário reconhecer-le a possibilidade de comprometer-se nas associações eclesiais e também que aceitem ser padrinhos ou madrinhas, algo que por agora não está previsto pelo direito.

Há outro ponto de vista que se difunde. A impossibilidade de receber a santa eucaristia é percebida de uma maneira tão dolorosa, sobretudo porque, atualmente, quase todos os que participam na missa se acercam também à mesa do Senhor. Assim, as pessoas afetadas aparecem também publicamente desqualificadas como cristãs.

Considero que a advertência de São Paulo a auto-examinar-se e à reflexão sobre o fato de que se trata do Corpo do Senhor deveria tomar-se outra vez a sério: «Examine-se, pois, cada qual, e coma assim o pão e beba da copa. Pois quem come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe seu próprio castigo» (1 Cor 11, 28 s.) Um exame sério de si mesmo, que pode também levar a renunciar à comunhão, nos faria ademais sentir de maneira nova a grandeza do dom da eucaristia e, por acréscimo, representaria uma forma de solidariedade com as pessoas divorciadas que se casam novamente.

Quisera acrescentar outra sugestão prática. Em muitos países se há convertido em um costume que as pessoas que não podem comungar (por exemplo, as pessoas pertencentes a outras confissões) se acerquem ao altar, mas mantenham as mãos sobre o peito, fazendo entender deste modo que não recebem o Santíssimo Sacramento, mas que pedem uma benção, que se lhes dá como sinal do amor de Cristo e da Igreja. Esta forma certamente poderia ser eleita também pelas pessoas que vivem em um segundo matrimônio e que por isso não estão admitidas à mesa do Senhor. O fato que isto faça possível uma comunhão espiritual intensa com o Senhor, com todo seu Corpo, com a Igreja, poderia ser para eles uma experiência espiritual que lhes reforce e lhes ajude.

12 Comentários to “Bento XVI desautoriza Kasper.”

  1. Com sua devida autorização, reproduzo aqui no comentário uma reflexão que fiz a respeito desta “reedição” do artigo de 1972 do professor Ratzinger pelo agora Papa emérito Bento XVI nos conduz a uma importante reflexão.

    Antes de qualquer coisa é importante ressaltar que já se passaram mais de 4 décadas da publicação do artigo original, e que durante todo este tempo foram travados importantes debates teológicos, e dos quais, muitos deles foram levantados ou enriquecidos pela relevante presença de Bento XVI, seja ainda quando cardeal ou posteriormente como papa.

    Nesta revisão da parte final de seu artigo, Bento XVI começa pelo alerta da relativização moral e da fé que atinge até mesmo a Igreja em seu interior. As vãs preocupações parecem se tornarem agora a regra. As coisas das quais se preocupam os pagãos, aqueles que não creem e não respeitam a fé e a doutrina, parecem tomar o centro das atenções e dos caminhos que deve seguir a Igreja. E diante disso lança a pergunta: O que pode ser feito?

    Bento XVI não ignora os problemas, mas também não ignora a verdade e a fé para tratar de tais problemas. Antes de tudo, demonstra que a fé deve ser comunicada de maneira compreensível, a fim de que possa ocupar espaços onde possa ser vivida de maneira verdadeira. A fé deve ser colocada não só no interior da Igreja, mas à serviço dela e fora dela, para favorecer o homem, em seu contexto histórico-cultural, a viver conforme Deus o tinha destinado antes do pecado.

    Ao tratar sobre a autoridade eclesiástica e o papel da Igreja, destaca que a Igreja, sobretudo o sucessor de Pedro, através do “privilegium petrinum”, tem a missão de assegurar a verdade do ensino evangélico mantendo-se fiel ao ensinamento do Senhor, e que também no exercício de seu múnus de ensinar, santificar e governar com autoridade o povo de Deus há de se ter um profundo cuidado pastoral para que a Igreja não coloque seus filhos em um estado de sofrimento.

    Bento XVI reconhece os direitos do Vigário de Cristo, e indica que ao empregá-los para o serviço de toda a Igreja e para a salvação das almas, deve-se ter a consciência de que tal poder deve ser exercido de acordo com a vontade de Cristo, a fim de que não seja desrespeitado, diminuído ou como indica explicitamente, aumentado em excesso e em conflito com os mandamentos de Cristo.

    Nisto, me parece haver uma séria preocupação de que a Santa Sé e aqueles que a presidem, não se tornem causa da perda da fé das pessoas, de um possível cisma ou de que no exercício de sua função façam um ordenamento contrário à vontade de Cristo.

    Ao tratar das condições de validade e as razões de nulidade do casamento à luz do Código do Direito Canônico é apontado um importante problema a ser tratado: a consciência insuficiente.

    Bento XVI não se prende à nulidade derivada dos vícios jurídicos, mas se detém, sobretudo nesta questão da consciência, ou melhor, da inconsciência de que o matrimônio é permanente e indissolúvel.

    A lei eclesiástica como comando geral é dirigida a todos os batizados na Igreja católica ou nela recebidos, que gozem de suficiente uso da razão, e, a não ser que outra coisa expressamente se estabeleça no direito, tenham completado sete anos de idade (conf.CDC can.11). A partir de então, ninguém pode escusar-se de cumprir a lei alegando que a desconhece. É fato, que tanto diante da lei eclesiástica e do Código de Direito Canônico quanto do nosso próprio Código Civil, apesar de todos terem a obrigação de cumprir a lei não se deve ignorar o fato de que nem todos a conhecem.

    Diante disto, Bento XVI aponta a teoria da presunção legal, em que presume-se que a lei depois de publicada e tendo entrado em vigor é conhecida de todos, portanto obrigatória. Contrapondo a esta teoria, atenta para um importante fato: Tendo se passado mais de 3 décadas da promulgação do Código de Direito Canônico ainda é prudente presumir que as pessoas saibam do caráter permanente e indissolúvel do matrimônio? Ele alerta não só ao fato de não se conhecer o Código de Direito Canônico, mas sobretudo, de pela própria natureza verificar-se na cultura moderna uma mudança na consciência a respeito do matrimônio, como se celebrado fosse já com a predisposição ao divórcio. Desta forma ele indica que a consciência natural da indissolubilidade do casamento é agora problemática.

    É fato que o Código de Direito Canônico não prevê que alguém possa se beneficiar da alegação de desconhecimento da lei. Diante disto ele até cita que o Código inseriu em seus cânones a problemática dos problemas psíquicos, e que estes hoje, mais precisamente perante uma realidade tão grande como a do casamento, são percebidos mais claramente do que no passado. E que utilizar-se de má fé desta possibilidade de basear a nulidade em problemas psíquicos, é pronunciar um divórcio (que a Igreja não reconhece) sobre o pretexto de nulidade.

    Embora ninguém possa beneficiar-se da alegação de desconhecimento da lei para não cumpri-la, Bento XVI parece sinalizar o reconhecimento do erro de direito, isto é, do falso conhecimento da lei. A inversão dos valores da sociedade moderna tem criado uma prática costumeira do divórcio em relação ao matrimônio. Este costume é composto de dois elementos: um material e outro psicológico. O elemento material constitui-se do uso e da prática reiterada do divórcio na sociedade. Já o elemento psicológico é a convicção desde antes do momento da celebração do casamento, da possibilidade deste divórcio.

    O que erroneamente estabeleceu-se é que este costume é um direito não escrito, e agora há uma corrente a fim de consolidar no direito estes costumes. Vejamos que juridicamente falando, em relação à lei há três espécies de costume: o costume segundo a lei, em que a lei prevê a sua aplicação; o costume como instrumento de integração da lei, quando a lei é omissa; e o costume contra a lei, em geral não aceito.

    A doutrina e o Direito Canônico não podem aceitar a existência do costume do divórcio, pois o Código existe em princípio para regular e permitir que ocorram todas as circunstâncias e não pode ser atacado, uma vez que tais costumes não são previstos e não há ausência ou omissão da lei.

    O costume do divórcio é um veículo que leva ao conflito e não ao consenso e muito menos ao respeito às práticas da Lei e da Doutrina. Não se pode deixar que as ideias dos costumes impregnados no mundo sejam reivindicadas perante a Igreja, e que se torne assim um instrumento de escândalo, cisma e rompimento com a fé e os ensinamentos de Cristo.

    Para isto, devemos romper os costumes, e nisso encaixa-se o que no início fala Bento XVI que “a cura da “dureza do coração” só pode vir da fé e somente onde ela está viva é possível viver o que o Criador tinha destinado ao homem antes do pecado. Portanto, o principal e verdadeiramente fundamental é que a Igreja faça com que a fé seja viva e forte.” e posteriormente acrescenta que por tais costumes “hoje é percebida a importância de uma preparação adequada para o sacramento.”

    A formação dos noivos é essencial para a compreensão do sacramento do matrimônio. Se nossos cursos de noivos fossem sérios e comprometidos com a verdade, certamente alguns noivos deixariam estes cursos sabendo que ainda não é o momento oportuno de se casarem.

    Infelizmente, abalados pela cultura moderna, já praticamente não contamos mais com uma “preparação remota” para o sacramento do matrimônio. Nossas crianças e adolescentes muitas das vezes não encontram nas famílias e muitos menos nas escolas, os auxílios válidos, sejam eles espirituais e catequéticos, ou pessoais e sociais.

    O Conselho Pontifício para a Família, na “Preparação para o Sacramento do Matrimônio”, de 1996, destaca que “A preparação para o matrimónio, para a vida conjugal e familiar, é de importância relevante para o bem da Igreja. De facto, o sacramento do Matrimónio tem um grande valor para toda a comunidade cristã e, em primeiro lugar, para os esposos, cuja decisão é tal que não poderia ser sujeita à improvisação ou a escolhas apressadas. Em outras épocas, tal preparação podia contar com o apoio da sociedade, a qual reconhecia os valores e os benefícios do matrimónio. A Igreja, sem obstáculos ou dúvidas, tutelava a sua santidade, sabedora do facto que o sacramento do Matrimónio representava uma garantia eclesial, qual célula vital do Povo de Deus. O apoio eclesial era, pelo menos nas comunidades realmente evangelizadas, firme, unitário, compacto. Eram raras, em geral, as separações e falências dos matrimónios, e o divórcio era considerado uma “chaga” social (cf. Gaudium et Spes = GS 47).

    Hoje, ao contrário, em não poucos casos, assiste-se a um acentuado deterioramento da família e a uma certa corrupção dos valores do matrimónio. Em numerosas nações, sobretudo economicamente desenvolvidas, o índice de casamentos é reduzido. Costuma-se contrair matrimónio numa idade mais avançada e aumenta o número dos divórcios e das separações, até mesmo nos primeiros anos de vida conjugal. Tudo isto leva inevitavelmente a uma inquietação pastoral, mil vezes reforçada: Quem contrai matrimónio está realmente preparado para isso? O problema da preparação para o sacramento do Matrimónio, e para a vida que se lhe segue, emerge como uma grande necessidade pastoral antes de mais para o bem dos esposos, para toda a comunidade cristã e para a sociedade.”

    Nossos cursos e encontros de formação de noivos tem que preparar os noivos para que antes mesmo de subir ao altar, ao se perguntarem: “Estou realmente preparado para contrair o matrimônio?” Possa, com reta consciência responder sim ou não. Sem que nos surpreendamos caso alguém diga não.

    Comprometido com a verdade do princípio da permanência e indissolubilidade do matrimônio, Bento XVI propõe a prática pastoral de acolher com caridade as pessoas que, apesar de divorciadas, como batizadas podem e devem fazer parte da vida da Igreja. Para isso, cita a exortação apostólica “Familiaris Consortio” de São João Paulo II, em que exorta “vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja […]. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança.”

    Sem se aprofundar em detalhes, ele destaca a necessidade de se deixar claro o que podem fazer os pastores e os irmãos, para que estas pessoas realmente sintam o amor da Igreja, e timidamente fala sobre a oportunidade de participarem de associações eclesiais e toca em um tema até então controverso, sobre serem aceitos como padrinhos e madrinhas, o que por enquanto não está previsto pelo direito.

    Sobre a impossibilidade de receber a sagrada comunhão, Bento XVI faz uma advertência não diretamente ligada aos divorciados e recasados que estão impedidos da comunhão sacramental, mas a todos aqueles que se aproximam da mesa do Senhor. “Eu acredito que a advertência de São Paulo ao auto-exame e reflexão sobre o fato de que é o Corpo do Senhor deva ser levada a sério outra vez: “Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação.”(1 Cor 11, 28 s.), diz ele.

    Bento XVI apesar de ter consciência do pleno direito e dever de negar a comunhão “aos excomungados e os interditos, e aos que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”, conforme disposto no Canon 915 do Código de Direito Canônico, ao tratar deste assunto em relação aos divorciados recasados, o faz sobre uma ótica diferente. Trata-o não pelo ponto de vista do ministro que nega, mas do fiel que renuncia. Cabe a cada um o exame sério de si mesmo, e este exame pode também nos levar a renunciar a comunhão. São João Crisóstomo clama para que não nos aproximássemos da “Mesa sagrada com uma consciência manchada e corrompida. De fato, uma tal aproximação nunca poderá chamar-se comunhão, ainda que toquemos mil vezes o corpo do Senhor, mas condenação, tormento e redobrados castigos”.

    Renunciar a Eucaristia quando não estamos em estado de graça é um sinal de amor. Bento XVI parece sintetizar neste ato uma prática concreta dos dois grandes mandamentos da Lei de Deus: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O que nos levaria “sentir de uma maneira nova a grandeza do dom da Eucaristia e, por outro lado, representaria uma forma de solidariedade para com as pessoas que estão divorciadas e novamente casadas.”

    Por último, acrescenta uma sugestão simples e prática, habitual em alguns países por pessoas pertencentes a outras confissões, e que poderia ser adotada pelas pessoas impedidas de comungar pelo fato de serem divorciadas recasadas, que consiste aproximar-se do altar, mantendo as mãos sobre o peito, indicando, assim, que não recebem o Santíssimo Sacramento, e pedindo uma bênção dada a eles como um sinal do amor de Cristo e da Igreja.

    As sábias palavras de Bento XVI nos mostram o compromisso pastoral e com a caridade, sem renunciar verdades inegociáveis, mas também sem renunciar a possibilidade de uma intensa comunhão espiritual com o Senhor e com todo o seu corpo, a Igreja, a fim de auxiliar estas pessoas a terem uma experiência espiritual que as fortaleçam e ajudem.

  2. Para a igreja modernista que domina a Cátedra de Pedro, qualquer orientação pastoral que exija do crente o reconhecimento dos próprios pecados é atitude “inquisidora”, “cruel”, “arrogante”, própria de uma igreja que a chamam de ultrapassada, que não responde aos “sinais dos tempos”.
    O caminho proposto por esta igreja é o caminho da licenciosidade, da excessiva tolerância para com o pecado disfarçado com a máscara de misericórdia.

  3. Curioso ver a mudança do teólogo Ratzinger para o Cardeal Ratzinger…

  4. A pergunta que não que calar: se Ratzinger podia pensar e explanar suas idéias em 1972 sem ser incomodado por que hoje Kasper não poderia fazer o mesmo? Por que em 1972 Ratzinger não era herege ao escrever o que escreveu e hoje Kasper é herege por defender o mesmo?

    • O que ele não pode é citar uma ideia de alguém em 1972 e se esquecer de tudo que ela falou nesses 42 anos depois.

    • Ratzinger não era um príncipe da Igreja…

    • E quem está dizendo que ele não fosse herege?

      Mas como grande teólogo, cardeal e papa que foi, Ratzinger percebeu o erro e retomou o reto caminho.

    • Conversão é possível, mesmo no alto clero ou entre quem sabe muito. Creiam ou não os orgulhosos sedevacantistas… Mais não digo.

  5. Sandro, não é mistério para muitos que Joseph Ratzinger antes do Conciílio, durante e um pouco depois, era um teólogo liberal. Ele foi discípulo de Karl Rahner. Todavia, ele percebeu que aquele caminho se afastava da fé católica e o deixou. Ratzinger tornou-se um neoconservador, o que não significa que seja um tradicionalista. Dom Fellay disse que o coração de Bento XVI é tradicional mas sua mente ainda pende ao moderno.

  6. Excelente posicionamento do Santo Padre Bento XVI. Ele mandou o seu recado. Sinceramente, não entendo pq Kasper et caterva insistem tanto nessa questão dos divorciados. É simples: o erro não produz direitos. Toda a tradição é unânime em sustentar esse princípio, desde particularmente Santo Agostinho, passando pelos medievais e a escolástica tardia do século XVI (e mais além). À época da Revolução Francesa, o Magistério condenou expressamente aquilo que chamou de “liberdades de perdição” (no âmbito da legislação civil), sendo o assunto pontualmente retomado, conforme a toada dos liberais exigia, pelos Papas do século XIX até que Leão XIII deu uma exposição mais ampla sobre o legítimo uso liberdade etc etc etc. Não há liberdade para o erro; o erro não tem e não produz direitos. Não adianta tergiversar, entrar na casuística e multiplicar os casos particulares.

  7. Acho que não entendi bem o texto, porque o título é “Bento XVI desautoriza Kasper” e eu tive a nítida impressão que foi o contrário.

  8. Isso não quer dizer nada, a não ser que Ratzinger não concorda em mudar o que hoje está na lei da Igreja e que, se mudarem tal lei, permitindo dar a Comunhão aos recasados, ele não se levantaria contra uma decisão aprovada pelo papa. Porque Bento XVI renunciou, não é mais papa, enquanto Francisco é papa, abusa de seu poder quando lhe convém e ninguém muda o que ele quer.

    Foi noticiado o seguinte e até agora não encontrei nenhuma refutação: http://www.g1.globo.com/mundo/noticia/2014/10/bento-xvi-nao-quis-se-posicionar-contra-francisco-em-sinodo-diz-jornal.html

    Bento XVI, infelizmente, sou obrigado a admitir, não se distancia da revolução do Vaticano II. É mais moderado porém aprova toda mudança e vê com bons olhos tudo que os papas do concílio fizeram e mudaram na Igreja. É menos ruim seguir sua linha que seguir a de Francisco, mas a diferença é somente a velocidade que se chega à confusão.

    Tenho até medo de dizer, mas digo mesmo assim e quem puder me corrigir caso esteja errado, agradeço: O Summorum Pontificum se transformou num verdadeiro bolsa família, um “bolsa tradição”. Usam-no apenas para manter o controle sobre os que lamentam muito se perdem a Missa Tradicional, tal como o governo do PT usa o bolsa família para conseguir o voto dos pobres. O PT usa a pobreza e ignorância do povo, que cairia na miséria sem o bolsa família, para se manter no poder, e a Igreja conciliar usa o Summorum Pontificum para atingir a vaidade de quem vê a crise na Igreja e, transformando-se a graça de ter a Missa Tridentina em puro gosto pessoal, não vê necessidade mais de lutar contra os erros que se espalham pelo mundo. Desse jeito fazem a Tradição virar um dinheiro que só compra satisfação pessoal, e desprezam a necessidade que todos têm da Tradição, do Magistério perene e das Escrituras.

    Há muitos que frequentam por necessidade as Missas do Summorum Pontificum e que são autênticos católicos, que em suas possibilidades lutam contra o mal e não acham que tudo está bem na Igreja; estes devem ser ressalvados, como os pobres que também recebem o bolsa família por precisão e não votam no PT ao constatarem a tragédia que está se tornando o Brasil nas mãos dos marxistas. No entanto, ao mesmo tempo muitos que se valem do Motu proprio o fazem somente por vaidade, não enxergam crise e acham uma afronta e um cisma não concordar e falar contra as decisões erradas dos papas do pós-Vaticano II, e usam o Summorum Pontificum para enganar e não perder os fiéis que desejam resistir à revolução, iguais aos terroristas do PT que enganam os que além de pobres são ignorantes.

    Por isso não aumenta minha esperança saber o que Bento XVI pensa mas não vai lutar contra quem faz o que é errado. A desautorização de Kasper usar os escritos para promover a Comunhão aos adúlteros só alivia a consciência e a obra de Ratzinger da culpa direta no que pode vir a agravar ainda mais o estado da Igreja, porém não milita contra.

    O que eu quis dizer foi qui nossa salvação está em Cristo, com a ajuda de Nossa Senhora, e não em Ratzinger.