«O Sínodo pan-ortodoxo não será como o Vaticano II, mas existe um grande desejo de unidade».

O teólogo e metropolita Ioanniz Zizioulas, que recebeu o doutorado «honoris causa» na Faculdade Teológica de Milão: os teólogos que no passado nos dividiram agora nos devem unir.

Por Andrea Tornielli – Vatican Insider | Tradução: Marcos Fleurer – Fratres in Unum.com«O Sínodo pan-ortodoxo será dedicado à solução de alguns problemas internos das Igrejas ortodoxas. A Igreja Católica, com o Concílio Vaticano II, tinha maiores ambições. Mas o desejo de unidade é muito forte».

Iohannis Zizioulas

Disse o metropolita Iohannis Zizioulas, um dos teólogos vivos mais importantes, dialogando com o Vatican Insider por ocasião da cerimônia na qual recebeu o doutorado «honoris causa» por parte da Universidade Católica de Milão, conferido pelo Cardeal Arcebispo da cidade, Angelo Scola, na qualidade de chanceler da Faculdade teológica. «É um privilégio poder presidir este solene ato acadêmico – disse Scola. Que seja uma expressão a mais do caminho comum em que estamos comprometidos. O gesto que estamos levando a cabo documenta a impossibilidade de estudar teologia sem a presença de mestres e de uma escola». Zizioulas pronunciou uma «lectio magistralis» dedicada ao valor da pessoa humana que deriva da Trindade. Foi uma conferência exemplar tanto por sua profundidade como pela claridade da exposição.

Eminência, pode explicar qual é o objetivo do Sínodo pan-ortodoxo que se celebrará em Istambul em 2016?

«O resultado mais importante, antes de tudo, é realizar este Sínodo. Porque durante mais de mil anos não temos realizado um Sínodo pan-ortodoxo. O evento em si mesmo é verdadeiramente importante. Em segundo lugar, devemos resolver alguns problemas internos: encontrar acordos sobre alguns problemas canônicos relacionados com nossas Igrejas, a autocefalia, a autonomia, etc… E, em terceiro lugar, teremos que nos expressar sobre o estado no qual se encontram as relações entre os cristãos e sobre os problemas do mundo moderno, relacionados, por exemplo, ao ser humano. Estamos preparando agora os documentos para o Sínodo de 2016. Este é o objetivo.»

É possível comparar o próximo Sínodo pan-ortodoxo com o Concílio Vaticano II, com tudo o que este último representou para a historia da Igreja Católica?

« O Concílio Vaticano II tinha ambições maiores em relação às nossas; nós temos objetivos muito mais modestos e não tomaremos decisões dogmáticas. O Vaticano II, pelo contrário, assumiu decisões dogmáticas. Nós nos limitaremos e concentraremos nisso: em resolver alguns problemas internos, específicos, que afetam as Igrejas ortodoxas, e também tomar uma posição frente a situação do mundo atual. E nada mais.»

Então, não se discutirá sobre o tema do primado do bispo de Roma…

«Esta é uma discussão ainda aberta no diálogo teológico oficial entre os católicos e os ortodoxos; estamos esperando os resultados deste diálogo, e o Sínodo não poderá dizer nada oficial a respeito. Mas, obviamente, o Sínodo animará a prossecução deste diálogo. Esperamos ter outro Sínodo pan-ortodoxo dedicado a este tema específico.»

Na recente viagem do Papa Francisco a Istambul, na visita ao Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, as palavras de ambos deixaram evidente o caminho percorrido e também o profundo desejo de unidade. Mas não faltaram algumas resistências internas…

«Creio que o desejo de caminhar a passos velozes para a unidade é verdadeiramente forte. Mas os teólogos nos dividiram no passado, e agora nos devem unir; não podemos seguir sem eles. Devemos esperar que os teólogos encontrem um acordo…»

Então, o senhor não concorda a brincadeira que fez o Patriarca Atenágoras a Paulo VI,  e que resgatou o Papa Francisco: «Ponhamos a todos os teólogos em uma ilha para que pensem. E nós seguiremos sozinhos em adiante»?

«Não é possível; devemos seguir estudando e dialogando, mas ao mesmo tempo seguir nos aproximando uns dos outros, para que nossos fiéis estejam unidos entre si antes que os teólogos, e isso já está acontecendo.

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14 Comentários to “«O Sínodo pan-ortodoxo não será como o Vaticano II, mas existe um grande desejo de unidade».”

  1. “O Vaticano II, pelo contrário, assumiu decisões dogmáticas.”
    Dogma do Vaticano II: aggiornamento. Tudo que é antigo não presta, condenem. Abram-se ao novo…

    Tristes tempos. Rogai por nós Santa Mãe de Deus para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

  2. Ou seja, diante de toda essa crise Romana, é melhor aguardar, e de longe ……

  3. « … não tomaremos decisões dogmáticas. … Nós nos limitaremos e concentraremos nisso: em resolver alguns problemas internos, específicos, que afetam as Igrejas ortodoxas, e também tomar uma posição frente a situação do mundo atual. E nada mais.» Irmãos ortodoxos, nós também já passamos por isso…

  4. …O Vaticano II, pelo contrário, assumiu decisões dogmáticas…

    Onde? Qual parte? Qual documento? Não foi pastoral?
    Se mexeram no dogma foi por mesquinharia… se mexeram no dogma estão excomungados.

  5. Se cuidem, pois foi em meio ao “ortodoxismo” cismático – nada ortodoxo – o berço em que a peste chamada comunismo achou terreno propicio para nascer e proliferar, e como deu muitíssimos frutos a nunca lembrada Inquisição Comunista!
    As igrejas oriundas desse cisma são independentes entre si – cada bispo é o papa em sua diocese – e o patriarca não passa de “unum inter pares”, ou seja, o relativismo corre leve e solto, sendo elas iguais ou piores que a infiltrada CNBB no Brasil, a qual apoiando tácita ou ostensivamente os vermelhos, como no presente Cirilo I da IOR, a mais influente, ex agente da KGB e amigo de Putin.
    Pelo visto, será um sínodo em que se tentaria colocar remendo em tecido deteriorado.

  6. As palavras de Nosso Senhor, são muitos claras: “Quem crê, e for batizado, será salvo”. Quem não crê será condenado. O Divino Mestre, sublinhou isto de uma maneira muito patente. É necessário que busque outras ovelhas; Para que haja, um só Pastor e um só rebanho. É interessante, a conversão dos hereges, cismáticos, de todas as falsas religiões. Para a única religião verdadeira. Ou seja: Católica Apostólica Romana. Isto que a Santa Igreja, sempre fez, e continuará a fazer por todos os tempos; que durará a Sua existência aqui na terra. Esta história de “salada de fruta”. Nunca foi querida por Deus. A maior ofensa que alguém poderá fazer uma esposa. É coloca-la em par de igualdade com a amante; no mesmo nível da esposa verdadeira. Isto para uma fiel esposa, jamais tolerá tamanha ingratidão. Nosso Divino Redentor. Tem um “ciúme” muito grande, com Sua Esposa Imaculada. Ou seja: A Sua Igreja. Ele não suporta que alguém vá coloca-La em par de igualdade com as demais falsas. Mas a sua “sede insaciável,” é trazer todos para Seu Reino.
    Joelson Ribeiro Ramos.

  7. Muito me admira que o teólogo e metropolita Ioanniz Zizioulas afirme que o Vaticano tomou decisões dogmáticas. Por esta afirmação é legitimo ajuizar a qualidade de teólogo que é.

  8. “…O Vaticano II, pelo contrário, assumiu decisões dogmáticas…”
    ONDE! Em que documento?
    Mas que inferno!
    Kyrie Eleyson!

  9. A Igreja Ortodoxa não aceita o dogma da Imaculada Conceição, o que constitui um erro de doutrina e uma ofensa à Nossa Senhora. Qualquer possibilidade de reaproximação tem de passar pela aceitação do dogma da Imaculada Conceição por parte dos ortodoxos.

    • Não, Francisco.
      Eles não aceitam a proclamação do dogma, mas crêem na Imaculada Conceição, assim como crêem no Purgatório (mas negam tb a proclamação deste dogma).
      Ambas – salvo meu engano – posteriores so cisma e ao fracassado Pacto de Florença (ruptura definitiva).
      Na mentalidade latina isso é absurdo, mas eles não são latinos e a teologia oriental é expressa diferentemente. Infelizmente este fato é utilizado para fomentar uma “resistência” a tudo o que é pós-cisma (ainda que seja uma verdade de Fé para eles próprios).
      Inclusive, as bases teológicas da Imaculada Conceição (assim como a da Trindade, da Divina Maternidade de Nossa Senhora, etc.) foram postas no Oriente.
      Afinal, como sempre digo a meus amigos: Nosso Senhor, Sua Mãe Santíssima, os Santos Apóstolos eram/são TODOS orientais.
      Não pretendo desagravar o ato deles, mas esclarecer que a questão como você colocou, estava imprecisa, senão errada.
      O obstáculo a ser vencido não está no campo teológico. É muito mais sutil que isso.

  10. Teólogos no controle do timão da barca. Mas quem são exatamente eles? O pessoal da “Novel Theology”; o pessoal do “reno” e seus prosélitos contemporâneos!

    A história é mais ou menos assim: Nos idos dos anos 1960, um Papa – que deu de ombros às gravíssimas advertências da Sempre Virgem Maria, que pediu, para que neste mesmo ano fosse tornado público o “3º Segredo de Fátima”, sob pena de se abater sobre a Igreja a calamidade – decidiu convocar um Concílio Ecumênico, porque, para ele, a Igreja estava “empoeirada”, parecendo um museu e precisando de um “toque especial” para “rejuvenescer” (sic). Sim, muito fechada, uma madrasta, no mau sentido. A coisa acontece e o tumor supura…infecção generalizada, septicemia, etc. O resto da história todos nós já sabemos…

    De fato, o pessoal do reno tem um apetite voraz e não descansará na tentativa de levar a termo a total destruição da Fé Católica e sua Doutrina Perene. Mas mal sabem eles que estão a lutar contra o próprio Deus. (Atos 5, 34-39)

    Sem pânico nem desesperança. Mas o quê fazer? Sim, perseverar até o fim, firmados na graça, porque já estávamos cientes. Ou será que Nosso Senhor não nos tinha já dado os detalhes? (Mat. 24, 7-13)

    Perdoem-me as analogias meio toscas, mas…

    A propósito do sínodo, alguém poderia dizer exatamente qual é escola(sic) teológica do Cardeal Scola?

    Síntese hegeliana a vista, mas sem dogmas, para não malograr a unidade que levará o mundo ao caos da religião única!

    Senhor Jesus, iluminai-nos!

  11. Mas o metropolita ,recém doutor ,diz que o Vaticano II foi dogmático?

    Parece que a crise no ensino também chegou a Milão.

  12. “E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela tua palavra hão de crer em mim;
    Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17:20-21).

    É preciso, inicialmente, unificar as datas da páscoa (Latina e Ortodoxa).
    Os dois lados deverão ceder:

    – Ortodoxos: aceitar o primado de Pedro;
    – Latinos: aceitar verdadeira data da páscoa dos Ortodoxos (a data dos latinos está equivocada).

    O resto, Deus fará a sua parte (o milagre da Unificação entre os católicos).

    Penso que a unificação está bastante próxima (quem sabe por volta dos anos 2017).

  13. Renato Assis, infelizmente a questão não é tão simples. O maior problema dos cismáticos russos não é de ordem teológica: é de ordem política.

    Eles, assim como os protestantes, são muito ligados à política e, se hoje ainda estão literalmente beijando a mão do comunista Putin, esse problema não está perto de ser finalizado.