Um Papa que caiu em heresia: João XXII e a visão beatífica dos justos depois da morte.

Por Roberto de Mattei | Tradução: Fratres in Unum.com – Entre as verdades mais belas e misteriosas de nossa fé está o dogma da visão beatífica das almas no Céu. A visão beatífica consiste na contemplação imediata e intuitiva de Deus, reservada às almas chegadas à outra via em estado de graça e completamente purificadas de toda imperfeição. Esta verdade de fé, enunciada na Sagrada Escritura e confirmada nos séculos pela Tradição, é um dogma irreformável da Igreja Católica.

O Novo catecismo o confirma no n.o 1023: “Os que morrem na graça e na amizade de Deus e estão perfeitamente purificados, vivem para sempre com Cristo. São para sempre semelhantes a Deus, porque o veem ‘tal qual é’ (1Jn 3, 2), ‘face a face’ (cf. 1 Co 13, 12)”.

No começo do século XIV, um Papa, João XXII, impugnou esta tese em seu magistério ordinário e caiu na heterodoxia. Os católicos mais zelosos de sua época reprovaram-no publicamente. João XXII – escreveu o cardeal Schuster – “tem graves responsabilidades ante o tribunal da história (…)”, porque “ofereceu à Igreja inteira o espetáculo humilhante dos príncipes, do clero e das universidades que voltaram a colocar o Papa no reto caminho da tradição teológica católica, pondo-o na dura condição de ter que se desdizer” (Ildefonso Schuster, O.S.B., Gesù Cristo nella storia. Lezioni di storia eclesiastica. Benedictina Editrice, Roma, 1996, pp. 116-117).

João XXII, aliás Jacques Duèze, foi eleito ao sólio pontifício em Lyon, no dia 7 de agosto de 1316, após dois anos de sede vacante, depois da morte de Clemente XV. João XXII teve que viver em uma época atormentada da história da Igreja, entre a espada do Rei da França, Felipe IV, o Belo, e a parede do Imperador Luís IV, da Baviera, ambos inimigos do Primado de Roma. Para reconfirmar a supremacia do Romano Pontífice contra os impulsos galicanos e laicistas que serpenteavam, o teólogo agostiniano Agostinho Triunfo (1243-1328) compôs, por encargo do Papa, entre 1324 e 1328, sua Summa de ecclesiastica potestate. Mas João XXII entrou em choque com a tradição da Igreja em um ponto de primordial importância.

Em três sermões pronunciados na Catedral de Avignon, entre 1o de novembro de 1331 e 5 de janeiro de 1332, ele sustentou a opinião segundo a qual as almas dos justos, inclusive depois de sua perfeita purificação no purgatório, não gozam da visão beatífica de Deus. Só depois da ressurreição da carne e do Juízo Final é que elas seriam elevadas por Deus à visão da divindade. Colocadas “sob o altar” (Ap. 6. 9), as almas dos santos seriam consoladas e protegidas pela humanidade de Cristo, mas a visão beatífica seria adiada até a ressurreição dos corpos e o Juízo Final (Marc Dykmans em Les sermons de XXII sur la visión béatifique,  Universidade Gregoriana, Roma, 1973, publicou os textos integrais pronunciados por João XXII; cfr. Também Christian Trottman, La vision béatifique. Des disputes scolastiques à sa définition par Benoît XII, Ecole Française de Rome, Roma, 1995, pp. 417-739).

O erro segundo o qual a visão beatífica da Divindade seria concedida às almas não depois do juízo particular, mas somente após a ressurreição da carne, era antigo e já no século XIII havia sido refutado por São Tomás de Aquino, sobretudo no De veritate (q. 8 ad 1) e na Summa Theologica (I. q. 12, ad 1). Quando João XXII voltou a propor este erro, foi abertamente criticado por muitos teólogos. Entre os que intervieram no debate estavam Guillaume Durand de Saint Pourcain, bispo de Méaux (1270-1334), que acusou o Papa de recuperar as heresias dos cátaros; o dominicano inglês Thomas Waleys (1318-1349), que por sua resistência pública sofreu julgamento e reclusão; o franciscano Nicolás de Lira (1270-1349) e o Cardeal Jacques Fournier (1280-1342), teólogo pontifício, autor do tratado De statu animarum ante generale iudicium.

Quando o Papa tentou impor esta doutrina errônea na Faculdade de Teologia de Paris, o Rei da França, Felipe VI de Valois, proibiu que a mesma fosse ensinada e, segundo conta Jean Gerson, chanceler da Sorbonne, chegou a ameaçar João XXII com a fogueira caso ele não se retratasse. Os sermões de João XXII totus mundum christianum turbaverunt [conturbaram todo o mundo cristão], disse Tomás de Estrasburgo, Mestre dos Eremitas de Santo Agostinho (cf. Dykmans, op. cit., p.10).

Na véspera de sua morte, João XXII disse que se pronunciou apenas como teólogo privado, sem impor o magistério que ostentava. Giovanni Villani transcreve em sua Crônica uma retratação da controvertida tese feita pelo Papa em 3 de dezembro de 1334, um dia antes de sua morte, pressionado pelo Cardeal Dal Poggetto, seu sobrinho, e por outros parentes. No dia 20 de dezembro de 1334 foi eleito Papa o Cardeal Fournier, que adotou o nome de Bento XII (1335-1342).

O novo pontífice quis encerrar a questão com uma definição dogmática, a constituição Benedictus Deus de 29 de janeiro de 1336, que assim reza: “Com nossa apostólica autoridade definimos que, por disposição geral de Deus, as almas de todos os Santos (…) inclusive antes da re-assunção  de seus corpos e do juízo final, estiveram, estão e estarão no Céu (…) e que estas almas vieram e veem a essência divina com uma visão intuitiva e, mais ainda, face a face, sem a mediação de criatura alguma” (Denz-H, no. 1000). Este artigo de fé foi reafirmado em 6 de julho de 1439 pela bula Laetentur coeli do Concílio de Florença (Denz-H, no. 1305)

Após essas decisões doutrinárias, a tese mantida por João XXII deve ser considerada formalmente herética, embora na época em que o Papa a negou ela não tivesse ainda sido definida como dogma de fé. São Roberto Berlamino, que se ocupou amplamente do caso em seu De Romano Pontifice (Opera omnia, Venetiis 1599, Lib. IV, cap. 14, coll. 841-844), escreve que João XXII propugnou uma tese herética com a intenção de impô-la como verdade aos fiéis, mas morreu antes de ter podido defini-la como dogma, e portanto sem minar com a sua atitude o princípio da infalibilidade pontifícia.

O ensinamento heterodoxo de João XXII era certamente um ato de magistério ordinário concernente à fé da Igreja, mas não infalível, porque carente de caráter definitório. Se a Instrução Donum Veritatis, de 24 de maio de 1990, fosse aplicada ao pé da letra, este magistério autêntico de João XXII, apesar de falho, deveria, segundo alguns, ter sido acolhido pelos fiéis da época como um ensinamento dado por Pastores que, na sucessão apostólica, falam com o “carisma da verdade” (Dei Verbum, no. 8), “revestidos com a autoridade de Cristo” (Lumen gentium, no. 25), “à luz do Espírito Santo” (ibidem). Essa tese errônea teria requerido o grau de adesão denominado “obséquio religioso da vontade e do intelecto, enraizado na confiança na assistência divina ao magistério”, e por isso “na lógica e sob o empuxe da obediência da fé” (Mons. Fernando Ocariz, “Osservatore Romano”, 2 de dezembro de 2011). Portanto, em vez de resistirem abertamente às doutrinas heréticas do Papa, os defensores da ortodoxia católica  deveriam ter-se dobrado diante de seu “magistério vivo”, e Bento XII não deveria ter oposto à doutrina de seu predecessor o dogma de fé que nos assegura que as almas dos justos, depois da morte, gozam da Essência divina com uma visão intuitiva e direta.

Mas, graças a Deus, alguns bons teólogos e prelados da época, movidos pelo seu sensus fidei, recusaram publicamente seu assentimento à suprema autoridade. Uma importante verdade de nossa fé pôde assim ser conservada, transmitida e definida. (Roberto de Mattei)

Tags:

36 Responses to “Um Papa que caiu em heresia: João XXII e a visão beatífica dos justos depois da morte.”

  1. Gostaria de tirar aqui uma dúvida séria. Vocês não acham que existe muita confusão em torno da infalibilidade papal? O Vaticano emitiu uma ‘Nota doutrinal’ explicando três situações distintas no exercício do Magistério papal:

    1) quando o Papa define com um juízo solene [ex cathedra] uma doutrina: magistério extraordinário infalível;

    2) quando o Papa propõe como definitiva uma doutrina, ainda que sem um ato definitório solene (“declarando explicitamente que a mesma pertence ao ensinamento do Magistério ordinário e universal como verdade divinamente revelada ou como verdade da doutrina católica”): magistério ordinário infalível;

    3) quando o Papa “apresenta como verdadeira ou, ao menos, como segura” alguma doutrina: magistério ordinário, porém falível, mas que exige “religioso obséquio da vontade e da inteligência”.

    Percebe-se que a diferença entre essas situações é sutil. Na prática, como saber se o Papa apenas “apresentou como verdadeira” (ou “segura”) em vez de “propor como definitiva”? A maioria dos pronunciamentos papais foram emitidos antes dessas teorias acerca do Magistério sequer existirem. E por isso vemos que os teólogos discutem o status a ser reconhecido em diversos pronunciamentos papais. E o que dizer então de pronunciamentos falíveis, mas que merecem o tal “religioso obséquio da vontade e da inteligência”? O que significa isso quando estamos diante de algo manifestamente errôneo?

    Para complicar ainda mais, os teólogos (mesmo anteriores ao Vaticano II) discutem a existência de uma “infalibilidade negativa”. Consiste no fato de que os ritos aprovados pelo Papa para uso na Igreja latina inteira são acobertados por uma infalibilidade de menor grau, pela qual eles não podem conter nada de “danoso à fé e à piedade” (vejam o documento ‘Auctorem Fidei’). Sendo assim, como criticar o rito de Paulo VI como danoso à fé? Dizem ainda que essa infalibilidade acoberta a aprovação de congregações e ordens religiosas, impedindo que estas possam conter algo de intrinsecamente prejudicial à fé. Sendo assim, a aprovação dos recentes Papas à RCC implica que o “falar em línguas estranhas” não tem nada de prejudicial à fé? E no entanto, essa dita infalibilidade negativa é ensinada com certeza pela Suma de la Sagrada Teología Escolástica dos padres jesuítas, por Ludwig Ott, Pe. Jesus Bujanda e outros teólogos pré-CVII.

    Junte-se a isso a discussão entre o prof. de Mattei e outros teólogos sobre a infalibilidade do magistério ordinário e universal ser entendida em sentido “sincrônico de uma extensão no espaço num período histórico específico”, ou se deve ser entendido no sentido “diacrônico de uma continuidade do tempo, para exprimir um consenso que abraça todas as épocas da Igreja”. No primeiro caso, o ensinamento do Vaticano II sobre a liberdade religiosa seria infalíveis, e é esta a doutrina mais autorizada pelos teólogos pré-CVII.

    Todas essas questões eu já tentei levantar com católicos que conhecem bem a teologia tradicional. Minha impressão é que existe uma confusão generalizada sobre o assunto. Na prática, cada um diz o que é infalível e falível por si mesmo.

    • Realmente existe uma confusão muito grande. O pe. Calderón tenta resolver e explicar. Parece-me a explicação mais plausível até hoje encontrada: tudo o que você citou está correto (tirando a ordinariedade do propor como definitiva uma doutrina, aqui, segundo o pe. Calderón, o ato magisterial é de per se extraordinário), porém nada disso aplicar-se-ia à Igreja que o cardeal Martini, de infelicíssima memória, chama de Conciliar. Ainda segundo o pe. Calderón, o liberalismo assumido publica e manifestamente desde os aubores do Concílio impede que os Sumos Pontífices exerçam verdadeiro Magistério Autoritativo ou Autêntico (ao qual todos devemos assentir), mas somente um magistério de doutores privados (ao qual podemos, e até devemos, julgar da prudência, doutrina etc. segundo as nossas capacidades).
      Recomendo a leitura, árdua mas frutuosa, de “A Candeia debaixo do Alqueire” do Pe. Alvaro Calderón, FSSPX.

  2. Respondendo sua pergunta: sim, existe muita confusão. Os Católicos estão desequilibrados não somente sobre a infalibilidade do Papa, mas sobre o próprio magistério.

    A situação é tão delicada que os Sedevacantistas o são sobretudo por isso: A Igreja é tão Infalível que um Papa Católico não pode fazer e falar o que se fala desde Paulo VI. E eles são pessoas muito bem instruídas.

    Do meu lado, eu busco a simplicidade do evangelho que “esconde essas coisas dos sábios e entendidos e revela aos humildes”. No dia em que ser Católico fiel precisar de um concurso público de teologia, a fé perde o sentido.

  3. Também gostaria de saber, me sinto confusa com estes assuntos.

  4. Eu só gostaria de tirar aqui uma dúvida séria em torno da infalibilidade papal: esse é outro “dogma” que vai evoluir ou vão deixá-lo intacto visando usá-lo pra promover “a evolução” dos outros dogmas da Igreja?
    Afinal, se os ensinamentos que vieram diretamente de Nosso Senhor Jesus Cristo podem evoluir, podem ser mudados e adaptados por um Sínodo de Bispos com o aval do próprio Pontífice, por que não a Doutrina da Sucessão Apostólica?
    Se é pra adaptar a Doutrina de Cristo ao espírito do mundo moderno, a hierarquia da Igreja teria que ser a primeira a ir para o ralo, já que ela não faz o menor sentido num mundo que promove a “igualdade”. E por outro lado, também deixou de fazer sentido quando decidiram não mais transmitir e preservar a Doutrina transmitida pelos Apóstolos.
    Pra dizer a verdade, eu vejo a instituição do Papado no momento atual como um carro desgovernado conduzido por um motorista louco a caminho do precipício. Como num daqueles filmes em que antes do carro ser lançado contra o precipício, o motorista louco salta fora.
    Como Bergoglio já disse que renunciaria seguindo o exemplo de Ratzinger, vamos rezar para que Deus abrevie esse tempo e que a instituição do Papado seja salva e preservada da destruição pela Providência Divina.

  5. Ricardo,

    Não podemos nos esquecer que, muito embora
    o Papa seja infalível (em situações específicas),
    os teólogos não o são.

    Se até o Doutor Angelical cometeu
    alguns equívocos em seus escritos,
    que diremos dos demais teólogos?

    Portanto, a única fonte 100% segura
    para se amparar nesse tema, ao menos
    nos aspectos mais “espinhosos”
    é o próprio Concílio Vaticano I, que definiu:

    “ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado
    que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra,
    isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor de
    todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica
    alguma doutrina referente à fé e à moral para toda a Igreja,
    em virtude da assistência divina prometida a ele na pessoa de São Pedro,
    goza daquela infalibilidade com a qual Cristo quis munir a sua Igreja
    quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e que,
    portanto, tais declarações do Romano Pontífice são por si mesmas,
    e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis”.

    Isso está no nº 1839.

    Veja que o Concílio fala claramente
    “em virtude da assistência divina prometida a ele
    na pessoa de São Pedro”.
    Ou seja: o Papa tem que querer e cooperar
    com a Graça a ele disponível. Ele não é obrigado
    a nada, e portanto a infalibilidade tem por condição
    essa vontade (cooperação com a Graça) do Papa.

    Pergunto-lhe:
    Como alguém que não acredita na própria infalibilidade,
    ou que acredita na “evolução do dogma” pode
    estar cooperando (ao menos nesse aspecto)
    com a Graça a ele conferida?

    Ademais (e mais importante),
    se observar bem, todos os parágrafos anteriores
    do Capítulo IV (CVI), onde ele trata
    da Infalibilidade,
    verá que o Concílio foi recorrente e inciso em afirmar
    que a infalibilidade papal tem por finalidade
    principal uma só coisa, sintetizada
    no seguinte trecho:

    “o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores
    de S. Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo,
    pregassem uma nova doutrina,
    mas para que, com a sua assistência,
    conservassem santamente e
    expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja,
    a revelação herdada dos Apóstolos”. (CVI, Capítulo IV, nº 1836).

    Portanto,
    toda e qualquer inovação doutrinária está,
    por definição, excluída da infalibilidade papal,
    que não pode contradizer a si mesma.

    Quanto a isso,
    note que as definições dogmáticas da Igreja
    (portanto, infalíveis) têm sempre algo em comum:

    O Papa define uma Doutrina como infalível e,
    ao mesmo tempo, condena com anátema
    a sua negação.

    Por óbvio, esse anátema não pode contradizer
    uma doutrina anteriormente definida como infalível.

    Por isso, no caso relatado acima,
    o Papa Bento XII preocupou-se em,
    imediatamente, definir dogmaticamente
    a visão beatífica dos justos:
    A partir daquele momento,
    ninguém, nem mesmo outro Papa,
    poderia contradize-lo, sob
    pena de anátema.

    Portanto,
    se não se pode dizer
    com toda a certeza e fundamento,
    que nenhum dos ensinamentos
    do CVII seja infalível,
    uma coisa pode-se afirmar com
    a mais cristalina certeza:

    Nenhuma de suas
    contraditórias novidades está
    assistida pela infalibilidade.

    Isto por definição da própria infalibilidade.

    E isso se aplica especialmente
    no caso da liberdade religiosa:
    É dogma de fé que “fora da Igreja
    não há Salvação”. Como qualquer
    pessoa em perfeita sanidade mental
    concorda que “o pecado não pode ter direitos”
    e nem pode ser incentivado pelas autoridades,
    a conclusão lógica de tudo isso
    é que as outras religiões devem ser toleradas
    (Doutrina de Sempre), em vista de um
    bem maior (Imitação de Cristo, Capítulo 15)
    e em virtude não se poder “forçar” as
    pessoas a crerem em Deus (Sto Tomás).

    Por outro lado (negação = anátema),
    as outras religiões não devem ser
    aceitas e incentivadas (o que é,
    de FATO, um dos frutos podres do CVII
    e da falibilíssima doutrina
    da Liberdade Religiosa, certo?).

    Creio que muito da confusão
    gerada em torno
    da infalibilidade papal
    parece ser gerada voluntariamente
    por “cripto-guevaristas” que amam
    a confusão e a contradição.

    • A infalibilidade da Igreja não pode estar sujeita ao nosso exame. Seria como dizer: “o Papa é infalível, exceto quando ele erra”. Ou é infalível ou não é.

      Pois bem, no caso da liberdade religiosa, ocorre que um Concílio Ecumênico a ensinou – com toda clareza – e afirmou que ela deriva “da revelação”. Não apenas o Papa de então concordou, mas uma sucessão de Papas posteriores (entre eles um santo canonizado) concordou e confirmou o ensinamento. Depois de estudar cuidadosamente o assunto, parece-me que este é um caso de infalibilidade do “magistério ordinário e universal”. No entanto, teólogos da FSSPX (e outros tradicionalistas) negam isso. O prof. de Mattei nega isso. Daí a minha perplexidade: se nem mesmo teólogos do nível de um Roberto de Mattei conseguem concordar sobre quando há infalibilidade, como um simples fiel se orientará?

      Já no caso da infalibilidade negativa das disciplinas gerais, lendo a ‘Auctorem Fidei’, quem não concluiria que o rito de Paulo VI simplesmente não pode ser danoso à fé? Mas D. Marcel Lefebvre ensinava exatamente isto: que o rito é danoso à fé e à piedade. Neste caso a infalibilidade negativa não se aplica, segundo os tradicionalistas. Como saber então quando ela se aplica?

      O problema, a meu ver, é que a infalibilidade é apresentada de forma muito técnica, mecânica. E isso torna complexo demais distinguir o valor dos documentos e atos do magistério.

  6. Veja Ricardo,

    Vc começa afirmando que “a infalibilidade
    da Igreja não pode estar sujeita a nosso exame”
    (“nós” quem?)
    e em seguida
    chega à conclusão de que Dom Lefebvre
    e todos os “Tradicionalistas”, juntamente
    com um sem número de teólogos estão errados.

    Isso tudo porque, segundo seu exame
    e seu estudo cuidadoso, chegou
    à conclusão de que a Doutrina
    da Liberdade Religiosa é infalível
    (porque vc não está incluído no “nós”,
    e eu e todos os “Tradicionalistas” –
    juntamente com Marcel Lefebvre – estamos?).

    Vc me acusa de criar um sofisma,
    mas não consegui enxergar essa tautologia:
    o que eu disse foi que uma Doutrina Infalível
    não pode contrariar uma outra, se não
    estará flagrantemente errada e, por
    simples constatação dessa contradição,
    veremos que não se trata de Doutrina
    Infalível..

    Isso porque o Papa é infalível apenas
    quando atendidas determinadas condições..

    É claro que é sempre bom e necessário
    analisar o contexto em que
    se inserem as coisas
    (por isso citei o contexto do CVI:
    e ele está falando insistentemente
    em “Guardar o Depósito da Fé”).

    Isso tudo é um tanto lógico, não é?

    Por favor,
    cite suas fontes e suas primícias para
    que seja possível analisar se
    tem ou não fundamentação.

    Vi que citou, por exemplo
    a Auctorem Fidei:
    Vc diz aquela que condenou as ambiguidades
    e malícia que existiu num determinado Concílio local?
    Auctorem Fidei de Pio VI?
    Com base em qual parte?
    Está dentro do contexto?
    Pode citá-la e explicar?

    • Duarte, obrigado pelo seus comentários.

      O que estou tentando dizer é o seguinte: o Papa é infalível sob certas condições. Se essas condições são atendidas, então não cabe a ninguém mais dizer que ele contrariou a doutrina tradicional. Pois, se as condições de infalibilidade foram atendidas e ele contrariou a doutrina tradicional, então é porque não é infalível naquelas condições. Se as condições para a infalibilidade negativa das disciplinas gerais foram atendidas, e mesmo assim o Papa promulgou um rito danoso à fé e à piedade, então é porque não há essa infalibilidade. Parece óbvio, não?

      A confusão é tão grande que vejo gente defendendo até a mais contraditória das posições: “o Papa é realmente infalível na promulgação de disciplinas gerais e ritos; no entanto, no caso específico do rito de Paulo VI, sabemos que ele errou feio; logo, neste caso específico não foi uma decisão infalível” (???!!!).

      Isso equivale a dizer: o Papa é infalível sob certas condições, a menos que (mesmo atendidas essas condições) ele erre.

      Eu não disse que os tradicionalistas estão errados, mas sim que me deixa perplexo ver a variedade de opiniões.

  7. Pois acho que estes tempos é exatamente o modo como a Providência Divina arranjou de:
    – punir o mundo e os católicos pelos nossos pecados;
    – ensinar a verdade católica por absurdo.
    – expulsar da “Igreja” (ou seja, do corpo de membros visíveis) a fumaça de Satanás (modernismo, liberalismo, naturalismo e outras heresias).

    Todos vêem claramente que se está diante de um (ou vários) paradoxo, muito bem colocado acima: “o Papa é infalível, exceto quando ele erra”. Ou é infalível ou não é.

    Obedecer ao Papa está na definição de Católico – vide o Catecismo de São Pio X

    Prezado Ricardo Ribeiro, você tem alguma dúvida séria quanto a algum dos 3 pontos muito bem colocados por você acima? Porque a dúvida séria quanto a se achamos que reina a confusão já foi respondida pelo Heitor Souza. No seu texto, em seguida aos 3 pontos, você coloca dificuldades. Dou-lhe os parabéns por citar o Pe. Bujanda, pois é dos poucos Manuais de Teologia que cheguei a estudar, extrapolando minha obrigação estrita de saber o Catecismo por ser um simples pai de família grande.
    E o livro do Pe. Bujanda é pouquíssimo comentado nos meios tradicionalistas, embora seja sereno testemunho do espírito e mentalidade de antes do CVII. Por exemplo, a Igreja é infalível na canonização de um santo, doutrina comuníssima e o oposto é no mínimo “temerário, falso, injuriosa dos Santos e da Igreja, favorecedor dos hereges e ofensiva a ouvidos pios” (cito de memória, Bento XIV). O sr. Roberto de Mattei, como se sabe, é favorável da tese oposta.

    Em se tratando de doutrina comum, e comentando oque foi dito por Duarte:
    “Se até o Doutor Angelical cometeu
    alguns equívocos em seus escritos,
    que diremos dos demais teólogos?”
    o referido livro do Pe. Bujanda também diz, e é a doutrina comum, que o consenso dos teólogos em determinado tema é garantia infalível da verdade………… citando outro post: contagem regressiva para os tradicionalistas esbravejarem…

    Desculpe relembrar o óbvio e ululante, mas o sr. Roberto de Mattei não está incluso entre “os teólogos”. É historiador, e pelo jeito não muito bom quando se trata de assuntos caros à sua teologia.

    Muito maior contribuição ao tema, vinda de um não-teólogo, são as traduções inéditas trazidas pelo Felipe Coelho, estas sim de verdadeiros teólogos. Não vou colocar aqui os links, mas quem quiser aprofundar o tema, procurem no Acies Ordinata, aliás, citado no rodapé da página nos “tradbacks”.

    Eu queria tentar contribuir um pouco com este assunto, mas estou quase absolutamente sem tempo.
    Como podem ver pela hora, é mais proveitoso agora rezar.

    Abraços.
    Em Cristo.
    Flávio Mamede

  8. Puxa! Gente, vamos estudar os documentos oficiais do Concílio Vaticano I. Lá encontramos as palavras do Papa. De uma maneira muito taxativa. Quando o Papa é infalível; e as condições para um papa definir uma verdade para ser crida por todos os católicos. Ele tem que falar como doutor da Igreja, definir esta verdade usando de uma maneira infalível, para toda à Igreja. Esta tem que está relacionada com a fé e a moral. Uma vez definida. Não existe possibilidade de erro. Como o caso do Dogma da Imaculada Conceição, Assunção de Nossa Senhora ao Céu, Maternidade Divina… Os Dogmas não mais se discute. Aceita como verdade infalível. É Deus que fala. De uma maneira geral, todos nós devemos ser dócil ao ensinamentos do Papa. Mesmo quando ele nos ensina algo em geral. Mas… Atualmente, nós estamos atravessando um “mar em tormenta”. O Papa na maioria das vezes, não está nos dando uma doutrina sólida, sedimentada na Tradição infalível. Então, vamos recorrer a doutrina infalível da Santa Igreja. Sempre ensinada e por todos cridas. Nossa Senhora falou em Salete: “Roma perderá a fé… Roma será a sede do anti-Cristo…É a própria Mãe de Deus, que vem nos alertar desde grande perigo, que estamos atravessando. Esta provação, Nosso Senhor permitiu. Só depois de termos em mão. Uma Tradição de vinte séculos de cristianismo.
    Joelson Ribeiro Ramos.

  9. Ricardo Ribeiro e Andrea Machado, vocês não leram o artigo? Nele Roberto de Mattei, que é grande historiador, deixa claro que um Papa em três homilias, exercendo portanto seu magistério ordinário, ensinou à Igreja uma heresia completamente oposta à ortodoxia católica, e foi por isso repreendido por diversos católicos valorosos, incluindo um futuro Papa.

    Tenha sido João XXII pertinaz ou não no erro, ele errou e ensinou erro em homilias na Catedral. Logo, fica patente que ele ou não foi assistido pelo Espírito Santo ou simplesmente desprezou a assistência, e sendo Papa errou em matéria de fé, mais tarde tornada definitiva como heresia. Mas por graça de Deus houve quem se levantou contra a falha do Papa e até quem foi punido por tal atitude correta (o dominicano inglês Thomas Waleys).

    A infalibilidade não é absoluta e também não é revelação ou inspiração divina. O que manteve a infalibilidade da Igreja foi Deus mesmo, que não permitiu que João XXII quisesse declarar como verdade definitiva uma heresia, ainda que seja perfeitamente possível um Papa fazer cair em heresia, apesar de não ter efeito como infalível, mas usurpador.

    E o que eu digo não é que a infalibilidade seja sujeita à mente de qualquer católico, porque todo católico deve aceitar com boa vontade e como certo tudo que o Papa apresenta à Igreja, exceto se for manifestamente contrário às verdades sempre acreditadas pelas Igreja – é o que ensina São Roberto Belarmino, louvando a obediência cega ao condenar os teólogos de Veneza: “Não chego a dizer que seja pecado por vezes examinar o preceito do superior, mas digo que não é pecado não o examinar, bem como que a obediência é mais perfeita e mais agrada a Deus quando se obedece simplesmente, sem examinar a ordem, não cuidando de saber por que o superior ordena, bastando-lhe saber que ordena; sempre, porém, excetuando quando a ordem contenha pecado manifesto, pois aí não há ocasião de examinar, devendo-se obedecer antes a Deus do que aos homens”.

    • Caro sr. José Carneiro e amigos do Frates, muito bom dia e

      Salve Maria.

      Em atenção à Verdade da Santa e amada Igreja e, também, com vistas ao enriquecimento intelectual e espiritual de todos ( o que convergirá para a maior Glória de Deus ), peço a publicação do seguinte comentário.

      Dirijo-me a todos em tom cordial e cavalheiresco: não sou dado a querelas inúteis e, ao contrário, em atenção aos questionamentos aqui colocados, tento ajudar.

      Mãos á obra.

      A grande questão do sedevacantismo se nos põe porque o próprio Concílio Vaticano I definiu como dogma de Fé que o Papa, além de ser infalível de maneira solene, como vem na Constituição Pastor Aeternus, §§ 12-17, estabeleceu, também de maneira infalível, que o Magistério eclesiástico autêntico é infalível ordinariamente: ora, se assim não o fosse, como a Igreja poderia, ordinariamente, confirmar-nos na Fé ou encaminhar-nos ao porto seguro da salvação? somente nos momentos solenes indicaria o caminho da salvação, como na proclamação dos dogmas? se, ordinariamente, a Igreja nos propõe a Doutrina Infalível de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, participa ordinariamente de sua infalibilidade.

      A infalibilidade do magistério ordinário da Igreja vem explicitado na Constituição Dei Filius § 18, como segue: “Por outro lado, com Fé Divina e Católica, deve-se crer em tudo aquilo que está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida e que a Igreja propõe para crer como divinamente revelado, seja por meio de um juízo solene, seja por seu magistério ordinário e universal.”

      Fim de discussão.

      Agora, por incrível que pareça, o exemplo que coloca Di Mattei não serve como uma espécie de tranquilizante das consciências pois à época de João XXII a questão não estava encerrada ( o que vem insinuado no texto acima publicado ) e, portanto, era passível de discussão; o que o papa João XXII propôs foi o como se daria a visão beatífica ( não negou a Verdade da visão beatífica ):

      1- o próprio João XXII canonizou São Tomás de Aquino que, por sua vez, discordava do Papa nesse ponto;

      2- o próprio João XXII ordenou o Cardeal Blanc que investigasse o assunto e escrevesse um tratado sobre a questão, o que serviu para a posterior manifestação infalível de Bento XIII

      3- a opinião do então Papa não implicava que o mesmo duvidasse que as almas dos justos estivessem no Céu ( o que se patenteia pela Bula de canonização de São Luis, bispo de Touluse )

      4- nesse ponto, com Mgr Fèvre, protonotário apostólico, em sua magnífica ‘História Apologética do Papado’, de 1879, discordo de Di Mattei quando esse diz que houve uma tentativa de imposição ao universo católico: o Papa João XXII jamais tentou ensinar ou definir algo contrário à Fé, como teólogo ou do sumo da Sé Apostólica ( coisa que foi largamente comprovada à época ).

      5- por último e não menos importante, essa lenda de que João XXII teria ensinado ou tentado impor algo contrário à Fé Católica partiu, historicamente, justamente de Calvino, um herege: ora, um herege quer ensinar aos Católicos algo sobre Sua Fé? é regra de discernimento da Verdade? ora, vamos dar então ouvidos ao Silas Malafaia…

      Por que, então, o exemplo do Di Mattei não serve para tranquilizar-nos diante da questão do sedevacantismo? Porque Paulo VI, no uso de sua autoridade, empenha a mesma para garantir que o ensinamento do cvii é de Fé Divina, como segue:

      “(…) No necessário, unidade; no duvidoso, liberdade; em tudo, caridade. Primeiro que tudo, a unidade é necessária em GUARDAR RELIGIOSAMENTE TODA A DOUTRINA TRANSMITIDA PELO CONCÍLIO a qual, ESTANDO APROVADA PELA AUTORIDADE de um Sínodo Ecumênico, PERTENCE JÁ AO MAGISTÉRIO DA IGREJA; e, ademais, no que diz respeito à FÉ E MORAL, ELA CONSTITUI UMA REGRA PRÓXIMA E UNIVERSAL DE VERDADE, DA QUAL NUNCA É PERMITIDO AOS TEÓLOGOS DIVERGIR NO PROSSEGUIMENTO DE SEUS ESTUDOS. Quanto à avaliação e a interpretação dessa doutrina, há que cuidar-se de NÃO DISSOCIÁ-LA DO RESTANTE DO PATRIMÔNIO SAGRADO DA DOUTRINA DA IGREJA, COMO SE PUDESSE HAVER QUALQUER DIFERENÇA OU OPOSIÇÃO ENTRE OS DOIS. Pelo contrário, TUDO O QUE É ENSINADO pelo Concílio Vaticano II forma um todo FORTEMENTE LIGADO COM O MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO DE ANTES, do qual ele representa a continuação, a explicação e o desenvolvimento” – PAULO VI – Carta Apostólica Cum Iam – dirigida ao Cardeal Pizzardo por ocasião do “Congresso Internacional de Teologia do Concílio Vaticano II” ocorrido em 21 de setembro de 1966 – publicado em: AAS 58 (1966), 879.

      Impossível é não ver que o ensinamento proposto pelo cvii ( liberdade religiosa e ecumenismo, principalmente ) contradiz todo o magistério anterior, na letra ou no espírito, seja na encíclica Auctorem Fidei ( Pio VI ), seja na Mirari Vos ( Gregório XVI ), na Quanta Cura e no Syllabus ( Pio IX ), Humanus Genus ( Leão XIII ), na Pascendi ( São Pio X ), na Mortalium Animos e Quanta Cura ( Pio XI ) ou Humani Generi e Sacramentum Ordinis ( Pio XII ).

      Se nos basearmos somente na Doutrina Católica, veremos que:

      1- se por um lado João XXII agiu realmente como doutor privado e, suscitando toda aquela discussão em seu tempo, com todos aqueles que se lhe opuseram,

      2- o contrário ocorre agora: a partir do cvii há uma clara tentativa de imposição do mesmo que, no plano filosófico, tenta fazer-nos esquecer de nosso passado, enquanto que no plano moral, age claramente negando a ‘Igreja de antes’, a ‘Igreja pré-conciliar’.

      3- diferentemente dos papas do pós-concílio, João XXII, nem de longe, poderia ser classificado de pertinaz, pois desculpou-se ao final da vida, convencido que estava da razoabilidade da argumentação contrária à sua ( e isso, antes da definição de Bento XIII ).

      4- há claramente um processo de infiltração da Igreja, por maçons, filo-maçons e afins.

      Em conclusão, desde o pós-concílio os papas tentam claramente atribuir um grau de autoridade máximo ( ao menos ordinário, o que implicaria em dizer que foi inequívoca, atual e eficientemente assistido pelo Espírito Santo ) ao cvii, enquanto que, por outro lado, muitos tradicionalistas, tentando argumentar que o mesmo cvii tenha uma autoridade meramente pastoral, agem ignorando seus ‘ensinamentos’ ( o que é impossível diante daqueles que dizem eles mesmos deterem a autoridade, a hierarquia ).

      A esperteza dos modernistas, parece-me, está justamente em, intencionalmente, gerar o equívoco entre os termos pastoral e ordinário: como se ordinariamente a Igreja não pastoreasse seus fiéis…

      O cerne da questão parece-me justamente esse: a autoridade; os papas do cvii, que são propugnadores de uma doutrina que se pretende o grau máximo de autoridade ordinária representam, de fato e de direito, a vontade inequívoca de Deus ( ainda mais quando comparada com o Magistério anterior, com a Tradição anterior )?

      Se sim, devemos obediência irrestrita, pois implicaria em dizer que atual e moralmente a autoridade eclesiástica goza inequivocamente da assistência da assistência eficiente do Espírito Santo; se não, o erro manifesto é resultado da ausência da assistência que, por sua vez, é fruto de um óbice, a adesão interna a heresia, que por vezes pode se manifestar por palavras ou atos

      Nunca é demais lembrar que para São Pio X, o simples fato de um teólogo ou eclesiástico se distanciar da teologia tomista já bastaria para ser suspeito de heresia.

      Criticar a hierarquia e ao mesmo tempo reconhece-la como gozando da assistência atual, inequívoca e eficiente do espírito Santo é impossível: a Igreja não pode, através de seus membros vivos, dar pedra em lugar de pão; se constatamos tal coisa, precisamos perscrutar aquilo que lhe é consequente e nos perguntar: como esses atuais membros da hierarquia podem ser propugnadores da heresia ( como o liberalismo e o modernismo )?.

      Att.,
      Um grande abraço a todos,
      Conforme o exemplo de S José,
      Nos SS Corações de Jesus e Maria

  10. Senhor Ricardo Ribeiro, Roberto de Mattei constata no artigo que se fosse para tomar tudo que o Vaticano escreve ao pé da letra, todos os católicos deviam tomar como verdade todo o erro que o Papa João XXII ensinou sobre a visão beatífica. Hoje, não me surpreenderia se um neoconservador brigasse com o Cardeal Fournier, porque segundo a papolatria, ninguém pode discordar em matéria doutrinal do Papa. De acordo com a vigente papolatria, que condena como cismático todo mundo que não lambe o chão que o Papa pisa, o Cardeal que depois virou o Papa Bento XII seria um cismático, até herege, e portanto não seria um Papa verdadeiro… O senhor acredita nisso?

    Sobre a liberdade religiosa que o senhor também levantou, Leão XIII e todos os Papas de antes do Vaticano II, incluindo São Pedro, desmentem Paulo VI e os seus sucessores:

    46. Efetivamente, se a Igreja julga não ser lícito por os diversos cultos no mesmo pé legal que a verdadeira religião, nem por isso condena os chefes de Estado que, em vista de um bem a alcançar ou de um mal a impedir, toleram na prática que esses diversos cultos tenham cada um seu lugar no Estado.

    47. É, aliás, costume da Igreja velar com o maior cuidado por que ninguém seja forçado a abraçar a fé católica contra sua vontade, porquanto, como observa sabiamente Santo Agostinho, “o homem não pode crer senão querendo” (tract. XXVI in Ioan., n. 2).

    48. Pela mesma razão, não pode a Igreja aprovar uma liberdade que gera o desgosto das mais santas leis de Deus e sacode a obediência devida à autoridade legítima. Isso é mais uma licença do que uma liberdade, e Santo Agostinho lhe chama mui justamente “uma liberdade de perdição” (Epist. CV, ad Donatistas, cap. II, n. 9) e o Apóstolo S. Pedro “um véu de maldade” (1 Ped 2, 16). Muito mais: sendo oposta à razão, essa pretensa liberdade é uma verdadeira escravidão. “Aquele que comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34). (Immortale Dei)

    Não pode, de modo algum, ser revelação divina a liberdade religiosa do Vaticano II, quando São Pedro, Apóstolo e testemunha que ouviu do Redentor a Doutrina, segundo Leão XIII chama de véu de maldade o que o Vaticano II chama de “direito da pessoa humana”.

    Pio XII é ainda mais cabal: fala da imoralidade até da tolerância, fala que ela é usada apenas como meio inevitável por circunstâncias concretas, e nunca como direito, porque “o que não corresponde à verdade e à norma moral, não tem objetivamente nenhum direito nem à existência, nem à propaganda, nem à ação.” (Alocução Ci Riesce)

    Porém o Vaticano II vai além da tolerância – já seria erro dizê-la como direito – e diz que a liberdade religiosa é direito humano. Contradição demasiadamente clara com o ensinamento constante da Igreja.

    Acho oportuno repetir o que Dom Antônio de Castro Mayer escreveu sobre o caso, pois toca o mesmo ponto que o artigo de Roberto de Mattei sobre o erro de João XXII:

    1. Como se declarou oficialmente, o Concílio Vaticano II não teve intenção de fazer novas definições solenes. Portanto, também a Declaração “Dignitatis Humanae” não está chancelada com o carisma da infalibilidade inerente às definições solenes;

    2. Não obstante, uma resolução tomada pela maioria do Episcopado reunido em Concílio e aprovada pelo Sumo Pontífice obriga a todos os fiéis, embora não venha com a chancela da infalibilidade;

    3. Essa obrigação, no entanto, cessa, como acontece com a “Dignitatis Humanae”, quando se verificam, no mesmo caso, as duas condições seguintes:

    a) é manifesto que o Episcopado universal não teve a intenção de vincular de maneira definitiva às consciências, e, ademais,

    b) é também claro que semelhante documento do Episcopado universal está em desacordo com uma doutrina já imposta como certa pelo magistério ordinário de uma longa série de Papas.

    (Transcrito de “Heri et Hodie” no. 6 — Campos. Republicado em PERMANÊNCIA no. 182-183)

  11. Não se pode tomar também a Bula Auctorem Fidei como verdade absoluta em cada letra. Se ela diz que é “FALSA, TEMERÁRIA, ESCANDALOSA, PERNICIOSA, OFENSIVA AOS OUVIDOS PIOS, INJURIOSA À IGREJA E AO ESPÍRITO DE DEUS, PELO QUAL A IGREJA É CONDUZIDA; PELO MENOS ERRÔNEA” a proposição de dizer que a Igreja pode estabelecer uma disciplina danosa, então o excelente Bispo Dom Athanasius Schneider é falso, temerário, pernicioso, ofensivo e etc. quando diz que a Comunhão na mão “contribui gradualmente para a perda da fé católica na Presença Real e na transubstanciação” e que a crise eucarística tão evidente é devida ao uso moderno da Comunhão na mão, disciplina estabelecida pela Igreja (do Vaticano II).

    Se a Auctorem Fidei deve ser seguida ao pé da letra, também deverá ser a Bula Quo Primum Tempore, que proíbe a qualquer um modificar o Missal de 1570 ou proibi-lo. Porém, o Missal de São Pio V foi modificado pela última vez por João XXIII quando acrescentou o nome de São José no cânon, e a Missa que a Quo Primum Tempore dá indulto perpétuo para ser celebrada onde e quando o sacerdote quiser foi proibida desde 1970 e hoje só em uma ínfima minoria de paróquias é permitida, já que na maioria o motu proprio Summorum Pontificum é igualmente letra morta ignorada.

    No entanto, a realidade não permite negar que o rito de Paulo VI causou grande dano à fé do povo católico. Nega a realidade, não a falibilidade da Igreja, quem diz o contrário. A Igreja é infalível, mas o Papa não é em suas argumentações, ações pastorais e aprovação de obras não definitivas, e menos ainda, ou nunca, na aprovação de obras maçônicas.

    Certamente Pio VI ao escrever a Auctorem Fidei não tinha a intenção de estendê-la a todas as coisas aprovadas pelo Papa, mas tinha a intenção de condenar o sínodo herético de Pistoia, o qual prescrevia ser necessário examinar sempre tudo que tivesse vindo da Igreja, distinguindo em cada coisa o que é essencial à fé do que é apenas disciplina, e se fosse disciplina, distinguindo esta se útil para manter os fiéis ou se inútil ou demasiado peso para os fiéis. Exatamente o que a CNBB e muitas conferências episcopais fazem hoje destruindo as devoções e práticas católicas, chamando-as de superstição ou coisas que não são mais úteis, acontecendo de ninguém que usa a Bula de Pio VI fora do contexto para assustar os tradicionalistas dizer nada.

    Aqui está a parte que usam da Bula Auctorem Fidei:

    LXXVIII. La prescrizione del Sinodo circa l’ordine di trattare le cose nelle conferenze, secondo la quale, dopo aver premesso che si deve distinguere “in ciascun articolo ciò che appartiene alla Fede ed all’essenziale della Religione da ciò che è materia di disciplina”, soggiunge “che in questa stessa (disciplina) si distinguerà ciò che è necessario o utile per mantenere i fedeli nello spirito da ciò che è inutile e tendente a gravare i fedeli medesimi di un peso che non conviene alla libertà dei figliuoli della nuova alleanza; e molto più da ciò che è pericoloso o nocivo, perché inducente alla superstizione e al materialismo”;

    In quanto per la generalità delle parole comprenda e assoggetti all’esame prescritto anche la disciplina costituita e approvata dalla Chiesa, quasi che la Chiesa, la quale è retta dallo spirito di Dio, potesse stabilire una disciplina non solamente inutile e più gravosa di quello che comporti la libertà cristiana, ma addirittura pericolosa, nociva, inducente nella superstizione e nel materialismo;

    FALSA, TEMERARIA, SCANDALOSA, PERNICIOSA, OFFENSIVA DELLE PIE ORECCHIE, INGIURIOSA ALLA CHIESA E ALLO SPIRITO DI DIO, DAL QUALE LA CHIESA STESSA È REGOLATA; PER LO MENO ERRONEA.

    Ademais, foi desse mesmo conciliábulo de Pistoia que surgiu o chamado arqueologismo litúrgico condenado por Pio XII, que desgraçadamente Paulo VI seguiu no rito novo.

    De tudo isto só constatamos que os que usam a Auctorem Fidei para fazer medo nos tradicionalistas, deveriam na verdade usá-la para desmentir Paulo VI, afinal a Bula de Pio VI condena o sínodo de Pistoia, junto com a Encíclica Mediator Dei de Pio XII que condena o arqueologismo litúrgico desse sínodo, tudo que Paulo VI aprovou causando grande dano.

    • Veja o que ensina a ‘Suma de la Sagrada Teología Escolástica’:

      “Sostenemos que el objeto de la infalibilidad… son: […] 3) los decretos disciplinarios en general; 4) el edicto solemne de canonización de los santos; 5) la definitiva y suprema aprobación de las Ordenes Religiosas”.

      Ou seja, estão incluídos na infalibilidade da Igreja: decretos disciplinares gerais, canonização dos santos e aprovação definitiva de Ordens religiosas.

      Então a ‘Suma’ prossegue explicando o erro do Sínodo de Pistóia:

      “En contra de esta tesis […]: Los Pistorienses, los cuales no quieren admitir como definitivos los decretos disciplinarios de la Iglesia conexionados con la fe o con las costumbres, y los cuales afirman que tales decretos pueden ser nocivos e inducir a error, y rechazan el modo de vivir de los Religiosos aprobado definitivamente por los Sumos Pontífices; D 1578, 1580-92.”

      Ou seja, o erro dos pistorienses era “afirmar que tais decretos [disciplinares] podem ser nocivos e induzir a erro”. É difícil ver diferença entre os pistorienses dizendo que os decretos disciplinares “podem ser nocivos e induzir a erro” e os tradicionalistas de hoje dizendo que o Concílio Vaticano II e o novo rito (oficialmente promulgados e celebrados por sucessivos Papas) são nocivos e induzem a erro. Afinal de contas, ou os decretos PODEM ser nocivos ou NÃO PODEM ser nocivos. Será demais pedir essa clareza aqui?

      A mesma coisa é ensinada no ‘Manual de Teología Dogmática’ (1957), do Pe. Jesus Bujanda:

      “Casos em que el Papa es infalible:

      e) Cuando dicta normas generales para la Iglesia es infalible, al menos en juzgar que nada contienen contrario a la fe y las buenas costumbres. La razón es que, si no lo fuera, equivaldría prácticamente a poder enseñar doctrina contraria a la de Cristo, y ser con ello, no base de la Iglesia, sino elemento destructor.”

      Existe uma enorme lista de teólogos (todos pré-Vaticano II) que ensinavam a mesma coisa e sempre deixavam claro que a infalibilidade negativa abarca: disciplinas para toda a Igreja latina (não precisa abranger os orientais para ser infalível), mesmo que com mera permissão (não precisa ser uma ordem obrigatória). Minha conclusão é que, pela teologia tradicional, o rito de Paulo VI simplesmente não pode ser danoso à fé e à piedade. Ele pode ser inferior ao rito tradicional. Pode ter sido uma má decisão promulgá-lo naquele momento, mas não poderia ser mau em si mesmo, heretizante em si mesmo.

      Se o rito de Paulo VI é, de fato, heretizante em si mesmo, danoso à fé e à piedade, então só restam duas alternativas: 1) sedevacantismo ou 2) o Papa Pio VI e aqueles teólogos todos estavam errando por exagerar a infalibilidade papal.

      P.S.: Não sou sedevacantista e rejeito completamente essa solução.

    • Caros José e Ricardo, muito bom dia e

      Salve Maria.

      A Auctorem Fidei é infalível, no conteúdo e na forma; a Igreja, divina como é, não pode errar ( ensinar o erro ) através de seus membros atuais se Nosso Senhor lha garante uma assistência certa, infalível e perpétua, salvo se essa mesma assistência não fosse eficiente e, daí, meu questionamento acima:

      “O cerne da questão parece-me justamente esse: a autoridade; os papas do cvii, que são propugnadores de uma doutrina que se pretende o grau máximo de autoridade ordinária representam, de fato e de direito, a vontade inequívoca de Deus ( ainda mais quando comparada com o Magistério anterior, com a Tradição anterior )?

      Se sim, devemos obediência irrestrita, pois implicaria em dizer que atual e moralmente a autoridade eclesiástica goza inequivocamente da assistência eficiente do Espírito Santo; se não, o erro manifesto é resultado da ausência da assistência que, por sua vez, é fruto de um óbice, a adesão interna a heresia, que por vezes pode se manifestar por palavras ou atos

      Nunca é demais lembrar que para São Pio X, o simples fato de um teólogo ou eclesiástico se distanciar da teologia tomista já bastaria para ser suspeito de heresia.

      Criticar a hierarquia e ao mesmo tempo reconhece-la como gozando da assistência atual, inequívoca e eficiente do espírito Santo é impossível: a Igreja não pode, através de seus membros vivos, dar pedra em lugar de pão; se constatamos tal coisa, precisamos perscrutar aquilo que lhe é consequente e nos perguntar: como esses atuais membros da hierarquia podem ser propugnadores da heresia ( como o liberalismo e o modernismo )?.”

      Aprioristicamente, a mesma assistência que deveria ter Paulo VI, teve também Pio VI e todos os Papas de antes do cvii estabeleceram alguma doutrina como de Fé, seja de maneira solene ou ordinária.

      Att.,
      Um grande abraço,
      Salve Maria.

  12. Creio que a infalibilidade nunca inclui a oportunidade, isto é, o momento em que tal doutrina é promulgada, o qual pode perfeitamente não ser o mais adequado.

    Assim, pode-se perfeitamente argumentar que o Vaticano II, mesmo que não contenha erros em seus textos, foi convocado e realizado num péssimo momento histórico, dando azo a uma enorme crise.

    Pode-se também dizer que a missa nova não é em si mesma danosa à Fé (ou seja, não contém erros), mas o momento em que foi divulgada, anos 60-70, foi inoportuno (ou seja, não foi adequada à psicologia social da época), causando enorme confusão entre os fiéis.

    (De Mattei é um grande historiador, mas não é teólogo.)

  13. Os longos e bons comentários até então sobre esse tema só comprovam que existe sim uma confusão no entendimento dos fiéis. E o interessante é que quem mais procurar simplificar, termina complicando.

    Que Deus sopre essa grande fumaça de Satanás na Igreja e que possamos respirar bons ares em um futuro próximo.

  14. Além dessa questão da relação do papa com a doutrina, vale lembrar também que, em termos de disciplina, a história da Igreja registrou casos dramáticos de quedas morais de papas: por exemplo, em sua obra “Iota Unum”, Romano Amério refere o caso da ameaça formal de excomunhão que Alexandre VI fez a uma de suas concubinas, caso ela não quisesse mais pecar com ele… No século XVIII, um outro papa, Clemente XIV, cedendo às ímpias pressões das cortes europeias iluministas, aceitou dissolver injustamente a Companhia de Jesus, trancafiando no cárcere, inclusive, o superior geral desta, que protestava contra a injustiça por sua Ordem sofrida.
    E vários outros casos históricos de falha papal em matéria de disciplina e de administração da Igreja. Infalibilidade dogmática não deve ser confundida com impecabilidade, nem com competência ou probidade administrativa.

  15. “Essa” moda……pegou!!!! INFELIZMENTE!

    Temos uma nova “versão” desse tipo de ….”pontífice”!!!!

    DEUS nos acuda!
    SALVE MARIA!!!! Socorro SAO JOSE! SAO MIGUEL ARCANJO defendei-nos nos combates!!!
    MARANATHA!

  16. Penso,que se o Papa pecar particularmente em sua vida pessoal,…é/ e seria( e foi!!) medonho isso, pelo mau exemplo e contra-testemunho que ( foi dado) que dá, que daria….Claro! Seria…será,(foi!) um tremendo CHOQUE!

    Mas, agora…ENSINAR ERRADO?….ensinar sandices teologicas..? falar bobagens, pensando que todos somos bobos?… ir contra a DOUTRINA?…voluntariamente?…… aplaudir Pecados?…incentivar o ERRO?…..
    Ah!…isso, é tenebroso…TERRIVEL, pois levará (levou!!) muiita gente ao ERRO e talvez…para um “lugar” aonde não desejaram ir…!
    TÈTRICO!!
    DEUS nos livre de tão grande desgraceira!
    SALVE MARIA!
    MARANATHA , SENHOR JESUS!!! …urgente!!!

  17. Quando eu era criança, e mamãe levava-me para um VELORIO de algum falecido , amigo de nossa família,para rezarmos por sua Alma….eu,olhava para o morto (a) sem medos!

    E, pensava; “…Nossa! a esta hora…ele (ela) já viu, DEUS!!!!!!”

    Eu ficava impressionada, com o fato da pessoa ver DEUS…estar frente à Frente com ELE….a Morte em si, não me deixava espantada, admirada, não…!
    Eu só não sabia que, ainda criança…eu estava certa!

  18. Ricardo Ribeiro, há um excelente texto escrito pelo Padre Élcio Murucci, que foi publicado nesse site: https://fratresinunum.com/2011/12/13/a-infalibilidade-decretos-disciplinares-e-as-leis-liturgicas/

    Boa leitura a você e a todos que estão em dúvida sobre a Infalibilidade Pontifícia!

  19. Agradeço ao comentário de Alexandre V. e deixo claro que eu em momento algum chamei João XXII de herege ou que a infalibilidade da Igreja foi colocada em causa por ele. O que eu disse foi que ele de fato errou em matéria de fé e ensinou esse erro como verdade em homilias públicas, como parte de seu magistério ordinário, mas Deus o impediu de declará-lo solenemente e suscitou um outro Papa que esclarecesse de forma definitiva a questão, respaldando a Doutrina Apostólica.

    O texto do professor de Mattei também não visa confortar as mentes que acham que caminham para o sedevacantismo, mas, eu acredito, pretende ilustrar que uma oposição a determinadas atitudes dos Papas, a fim de corrigi-los fraternalmente, é possível e legítima tanto na Doutrina, como muitos Santos e Doutores ensinaram, como na prática, na história, como relatado no artigo.

  20. A infalibilidade do Papa depende da relação entre o que ele diz e a Revelação Divina, a qual não se modifica, não evolui, e foi dada de uma vez para sempre à Igreja. Se o conteúdo das declarações do Papa estiver de acordo com a Revelação e com aquilo que a Igreja sempre ensinou, será infalível. Se não estiver, não será infalível.
    Vem disso a seguinte distinção ou classificação:
    1) Magisterio Extraordinario: exercido pelo Papa sozinho ou por um Concilio a quem o Papa deu esse poder. Consiste na proclamação de dogmas de Fe’ e moral ja contidos na Revelação Divina – e’ sempre infalivel
    2) Magisterio Ordinario: não proclama dogmas de fe’ e moral, embora possa tratar deles – pode ser ou não infalivel. Sera’ infalivel se estiver de acordo com a Revelação Divina e o ensinamento constante da Igreja. Se não estiver de acordo com a Fe’ constante da Igreja, não sera’ infalivel.
    3) Magisterio Prudencial: encontra-se num nivel mais modesto – a mesma coisa do anterior.
    Os pronunciamentos do Papa João XXII sobre a visão beatífica dos justos após a morte estavam em desacordo com a Revelação Divina e com o que a Igreja já tinha ensinado. Evidentemente, ainda não se tinha a doutrina da infalibilidade pontificia, que só seria definida séculos depois, no Concílio Vaticano Primeiro. Mas, já se tinha a Sagrada Escritura, já se tinha o catecismo, havia os ensinos dos Santos Padres, os ensinamentos da Igreja. A Parabola do Rico e do pobre Lazaro apresenta este depois da morte junto a Abraão. Sao Paulo, vendo aproximar-se seu martirio, diz em uma carta que recebera’ a coroa da Gloria. Assim, ja estava tudo la.
    E, sobretudo, sabia-se que ninguém, nem mesmo o Papa, tem poder para modificar uma vírgula da Revelação. Pois ele é guardião e não senhor dela. Os próprios Pontífices faziam juramento no dia da sua coroação, prometendo e obrigando-se, sob anátema, a manter e guardar a doutrina que receberam por tradição através dos seus predecessores (juramento que também foi feito por Paulo VI).
    No Concílio Vaticano I a vinculação da infalibilidade papal ao conteúdo da Revelação está bem clara, quando se diz que a infalibilidade não foi dada ao Papa para que ele invente uma doutrina nova.
    Ora, se o documento diz isso, e’ porque admite implicitamente que pode acontecer de um Papa querer formular uma doutrina nova e impo-la aos fiéis.
    E caso isso venha a acontecer, os fiéis devem estar precavidos, não devendo aderir a ensinamentos falsos emanados de Papas que queiram impor novidades doutrinais, ou que queiram destruir a Igreja. O assunto, aliás, não é novo, pois São Vicente de Lerins se ocupou dele séculos antes.
    Não só a possibilidade existe, como já aconteceu no caso de João XXII.
    O artigo do Prof. De Mattei não coloca a questão do que teria acontecido se João XXII tivesse tido tempo de proclamar como dogma de fé a doutrina de que os justos só gozariam da visão beatífica depois do juízo final. Mas, isso não nos impede de perguntar mesmo assim: o que teria acontecido? É simples. Tal definição seria nula. Não teria efeito algum. Pois tendo como conteúdo um erro, o Espírito Santo jamais teria algo a ver com ela. E, assim, não obrigaria os fiéis a prestar sua adesão ao erro.
    É o que aconteceria se hoje o Papa chegasse e dissesse que engaja toda a sua autoridade apostólica para proclamar solenemente, no campo moral, que a sodomia não é mais pecado grave. Seria um absurdo. Mas, se se chegasse a tanto, tal proclamação, além de herética e escandalosa, nem seria capaz de mudar a Revelação Divina, nem teria poder de obrigar os fiéis a aceitá-la. Estes ficariam, isto sim, obrigados a lutar contra ela e a denuncia-la.
    Duas lições podemos tirar do episódio de João XXII:
    – Pode acontecer de um Papa tentar impor como legítimo um ensinamento falso.
    – Em tal caso, o Papa não perde o pontificado. João XXII não foi considerado anti-papa por ter defendido um ensinamento herético. Assim, a heresia (mesmo se for publica) não tira de um Papa validamente eleito o caráter de Papa, de chefe da Igreja.
    Crer que o Papa e’ infalivel por si mesmo, em todas as circunstancias e em tudo o que ele ensina, gera dois erros opostos e igualmente perniciosos:
    – O primeiro e’ aceitar os erros e novidades se estes forem aprovados pelo Pontifice, considerando-os infaliveis, mesmo sabendo que são contrarios ‘a Revelacao Divina e ao ensino constante da Igreja.
    – O segundo e’ o sedevacantismo. Vendo que o Papa defende coisas que a Igreja sempre condenou, sustentar que ele não e’ Papa verdadeiro.
    Essa e’ a crise que estamos vivendo desde 1965.
    Alias, o Sedevacantismo e’ uma posicao ‘a qual e’ facil de chegar, mas dificil de sair. Facil de chegar porque basta que o Pontifice diga ou aja diferentemente da Tradição para que se diga “não e’ Papa verdadeiro.” Porem, uma vez que se chega a essa solução, como fazer para sair dela? Em outras palavras: como escolher um Papa verdadeiro? Quem vai escolher? Por quais meios? Pois se o ultimo Papa autentico foi Pio XII (como sustentam os sedevacantistas), então o colegio de Cardeais existente hoje, cujos membros foram escolhidos por Joao Paulo II, Bento XVI e Francisco (que na visao deles seriam anti-papas) não e’ um colegio apostolico verdadeiro e, assim sendo, não tem poder para escolher o Papa.

    • Caro J Marques, muito bom dia e

      Salve Maria.

      Primeiramente, considerando que a forma de comunicação que usamos aqui não deixa transparecer a entonação de nossas vozes, gostaria de deixar claro para às pessoas que sempre me dirijo a elas em tom cordial e cavalheiresco, em espírito de Caridade, respeitando-as.

      Assim me dirijo a você agora.

      Peço para que leia o texto com tranquilidade de espírito, para que faça dele uma leitura atenta.

      Identifico em vosso texto alguns problemas que gostaria de comentar, pensando sempre que o consenso doutrinário é algo fundamental em tempos de crise como os de hoje; penso, também, que respondendo a você, possa responder a muitos.

      Vou apenas apontar as questões que necessitariam de correções, sem contudo aprofundar as mesmas ( creio que o espaço do FIU não seja para isso ).

      Vamos a elas:

      1- no primeiro parágrafo, colocado como está, pode surgir dele um silogismo perigoso: obviamente, a infalibilidade deve estar conectada com a Revelação mas, pergunto, quais são esses objetos conectados com a mesma? ora, a Igreja, ao menos desde o Vaticano I já tem um consenso claríssimo sobre eles ( os objetos sobre os quais a Igreja exerce seu magistério infalível, ordinário e extraordinário ); da forma como está, lendo-o em associação com o item 2) de vosso texto, a regra próxima da distinção da falibilidade/ infalibilidade recairia em última análise sobre um particular qualquer, substituindo o papel próprio do Magistério, o que é inadmissível:infelizmente, essa forma equivocada de raciocinar é muito parecida com a que se veicula em meios como a FSSPX.

      Contrariamente do que poderíamos imaginar, o magistério autêntico do cvii já se manifestou sobre si mesmo ao declarar Paulo VI:

      “(…) No necessário, unidade; no duvidoso, liberdade; em tudo, caridade. Primeiro que tudo, a unidade é necessária em GUARDAR RELIGIOSAMENTE TODA A DOUTRINA TRANSMITIDA PELO CONCÍLIO a qual, ESTANDO APROVADA PELA AUTORIDADE de um Sínodo Ecumênico, PERTENCE JÁ AO MAGISTÉRIO DA IGREJA; e, ademais, no que diz respeito à FÉ E MORAL, ELA CONSTITUI UMA REGRA PRÓXIMA E UNIVERSAL DE VERDADE, DA QUAL NUNCA É PERMITIDO AOS TEÓLOGOS DIVERGIR NO PROSSEGUIMENTO DE SEUS ESTUDOS. Quanto à avaliação e a interpretação dessa doutrina, há que cuidar-se de NÃO DISSOCIÁ-LA DO RESTANTE DO PATRIMÔNIO SAGRADO DA DOUTRINA DA IGREJA, COMO SE PUDESSE HAVER QUALQUER DIFERENÇA OU OPOSIÇÃO ENTRE OS DOIS. Pelo contrário, TUDO O QUE É ENSINADO pelo Concílio Vaticano II forma um todo FORTEMENTE LIGADO COM O MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO DE ANTES, do qual ele representa a continuação, a explicação e o desenvolvimento” – PAULO VI – Carta Apostólica Cum Iam – dirigida ao Cardeal Pizzardo por ocasião do “Congresso Internacional de Teologia do Concílio Vaticano II” ocorrido em 21 de setembro de 1966 – publicado em: AAS 58 (1966), 879.

      Obviamente que não quero dizer com isso que não devamos mais raciocinar, usar da faculdades que Deus nos deu ( o que seria até mesmo contrário ao ato de Fé ) mas, até nesse ponto, a forma de elucidarmos a questão que vamos tratando, nos vem do próprio Magistério autêntico da Igreja, ou seja, a solução pede regras anteriores no plano do raciocínio e que já estão dadas.

      2- o objeto do Magistério ordinário da Igreja se dá justamente, e dentre outras coisas, em relação à Liturgia ( e nesse ponto, patenteia-se o vosso equívoco – por favor, não tome tal coisa como ofensa pessoal, absolutamente ): ora, como não pode ser infalível algo que a Igreja diz ser infalível, como a proclamação de uma lei litúrgica? e isso, aprioristicamente? obviamente, o texto de Paulo VI sobre o Novus Ordo não contem notas solenes como a Quo Primum mas, ao menos no plano ordinário, subsume-se à regra da infalibilidade por se tratar de uma lei litúrgica e, justamente por isso, não pede que intrinsecamente contenha algum termo que explicite seu caráter cogente.

      3- essa forma de raciocinar denota outra dificuldade pois você mesmo coloca em vosso texto: a) que João XXII tentou impor uma heresia ( o que está incorreto pois ele agiu em um nível muito inferior ao de um magistério prudencial: João XXII agiu de fato como doutor privado ao inquirir e especular sobre a forma de como se daria a visão beatífica; ele, por exemplo, não redigiu uma encíclica sobre isso ou fez alguma recomendação pastoral sobre o assunto… ); e, b) que o erro, não tendo conexão com a Verdade Revelada é nulo e que, portanto, os fiéis não devem acatamento ao erro; respeitosamente pergunto, para que possamos avançar:

      Se algo está claramente posto ou no campo moral ou no doutrinal como errôneo e, portanto, não tem conexão com a Revelação, é o que? que definição poderíamos dar a algo que é contrário ao que Nosso Senhor Jesus Cristo revelou? qual o caráter disso que não é Católico, não é infalível? heresia?!… você mesmo fala dela em seu texto em alguns momentos mas, da forma como está, surge o quarto e derradeiro ponto que gostaria de tratar aqui, para a maior glória de Deus, por Maria.

      4- a Igreja é Divina e , portanto, não se rege de maneira racionalista; tem regras divinas próprias e dentre elas, a seguinte: ‘a infalibilidade está para à inerrância’, ou seja, Nosso Senhor deu à assistência do Espírito Santo à Sua Igreja, previamente, de maneira que esta sendo constantemente infalível, nunca errasse, daí Suas promessas e, dentre elas, as de que as portas do inferno não prevaleceriam.

      Em uma perspectiva mais filosófica, não se trata aqui de escrutinizarmos de maneira habitual o que vem do magistério, o que vem de cima, para na sequência sabermos e dizermos nós, os fiéis, se devemos ou não obediência mas, sim, de constatarmos, no plano do raciocínio que, a partir das promessas mesmas de Nosso Senhor, a Igreja seria perpetuamente, através de seus membros atuais, coluna e firmamento da Verdade ( o que é, está de acordo com a Doutrina Católica, portanto… );

      5-Poderíamos objetar genericamente: ‘poxa, mas em realidade, isso não acontece, não hoje!’

      Então Nosso Senhor falhou?!… impossível, isso é blasfêmia!

      O que pensar, então?! Aqui, retomo de modo mais completo um questionamento que já coloquei acima:

      O cerne da questão parece-me justamente esse: a autoridade; os papas do cvii, que são propugnadores de uma doutrina nova e que se pretende o grau máximo de autoridade ordinária representam, de fato e de direito, a vontade inequívoca de Deus ( ainda mais quando comparada com o Magistério anterior, com a Tradição anterior; ainda mais no concernente ao ecumenismo, liberdade religiosa e leis litúrgicas e disciplinares )?

      Se sim, devemos obediência irrestrita, pois implicaria em dizer que atual e moralmente a autoridade eclesiástica goza inequivocamente da assistência eficiente do Espírito Santo e é, portanto, infalível; se não, o erro manifesto é resultado da ausência da assistência eficiente que, por sua vez, é fruto de um óbice, a adesão interna à heresia, que por vezes pode se manifestar por palavras ou atos.

      Nunca é demais lembrar que para São Pio X, o simples fato de um teólogo ou eclesiástico se distanciar em suas palavras da teologia tomista já bastaria para ser suspeito de heresia.

      Criticar a hierarquia e ao mesmo tempo reconhece-la como gozando da assistência atual, inequívoca e eficiente do espírito Santo, ou seja, mantendo a autoridade, é impossível: a Igreja não pode, através de seus membros vivos, dar pedra em lugar de pão; se constatamos tal coisa, precisamos perscrutar de maneira coerente aquilo que lhe é consequente e nos perguntar: como esses atuais membros da hierarquia podem ser propugnadores da heresia ( como o liberalismo e o modernismo )?.

      Aprioristicamente, a mesma assistência que deveria ter Paulo VI, teve também Pio VI e todos os Papas de antes do cvii que estabeleceram alguma doutrina como de Fé, seja de maneira solene ou ordinária, ainda mais quando, comparativamente e dentro dos pressupostos inequívocos que a mesma Igreja nos deu, estão em sentido contrário aos ensinamentos atuais.

      O Católico deve raciocinar, deve distinguir, mas a partir dos pressupostos, das balizas dadas pela Igreja mesma, ou seja, a partir do bojo de seu Magistério: e aqui não há meio termo pois o que é bom é bom, e o ruim, ruim; tudo o que é bom, é bom porque anteriormente é de Nosso Senhor e nos foi dado inequivocamente pela Igreja.

      O Espírito Santo não tem língua dupla, não se confunde, não diz hoje o contrário do que disse antes.

      6- ainda, é Doutrina Católica que um propugnador de heresias decai de sua autoridade e de seu ofício eclesiástico pois autoridade é participação em um domínio divino na medida em que Nosso Senhor identifica-Se ele mesmo com a Verdade: tem, goza de autoridade quem cumpre e faz cumprir a vontade de Deus; ora, Nosso Senhor instituiu uma hierarquia divina para que cumprisse Sua vontade tanto no seio da Igreja quanto na sociedade civil: o que ocorreria se essa mesma hierarquia deixasse de cumpri-la, a Sua vontade?! decairia da autoridade e estaria inapta para exercer seu múnus…

      7- sobre o sedevacantismo mais propriamente, como você o coloca, parece até que se trata de um posicionamento um tanto quanto pueril ou imprudente de quem o assume: concordo contigo que tal posicionamento possa atrair ( e atrai! ) a atenção de radicalistas incautos mas a tese em si mesma é perfeitamente factível e consequente com a Doutrina Católica; essas dificuldades que aponta ( somente a título de informação ) foram enfrentadas já no final dos anos 70 do século XX, ou seja, quase quarenta anos atrás e sempre consideraram o triunfo do Imaculado Coração de Maria e a conversão dos apostatas como meio.

      Muito obrigado por toda a atenção,
      Com a Graça de Deus, espero ter ajudado.
      Conforme o exemplo de S José,
      Nos SS Corações de Jesus e Maria, sempre!

      Att.,
      Alexandre V.

  21. “o Papa é realmente infalível na promulgação de disciplinas
    gerais e ritos; no entanto, no caso específico do rito de
    Paulo VI, sabemos que ele errou feio; logo, neste caso
    específico não foi uma decisão infalível”

    Ricardo,

    Atendo-se apenas à questão da infalibilidade nesse ponto:

    O Papa Paulo VI não foi infalível quando
    instituiu o Novus Ordo Missae por uma simples
    razão: Não houve a intenção de impor
    DEFINITIVAMENTE (impor “para sempre”)
    nada para os fiéis (Veja a Sacrosanctum
    Concilium n. 1, 34 e 37 a 40),
    nem de anatemizar aquele que guardasse reservas
    quanto ao Novo Rito (Ibidem, n. 37).

    Por outro lado,
    veja que com o Rito de São Pio V foi
    exatamente isso que aconteceu:
    Ele definiu o Rito Tridentino
    como Rito da Igreja para sempre:

    “E a fim de que todos, e em todos os lugares,
    adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana,
    Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos
    que a Missa, NO FUTURO E PARA SEMPRE, não seja cantada
    nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal
    publicado por Nós, em todas as Igrejas…”
    (Bula Quo Primum Tempore, n. 6 –
    à frente ele trará pouquíssimas exceções a esse Decreto)

    Ademais, ele anatemizou a tese oposta:

    “8 – Além disso, EM VIRTUDE DE NOSSA AUTORIDADE Apostólica,
    pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto
    seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa
    em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir
    este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e
    licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e
    sem que se possa encorrer em nenhuma pena, sentença
    e censura, E ISTO PARA SEMPRE”.

    Note que este Decreto de São Pio V, sim,
    traz expressa e explicitamente
    todos os requisitos da infalibilidade.

    O que é bem diferente do Decreto de Paulo VI…

    Com isso, não estou negando validade ao Novus Ordo,
    mas tão somente demonstrando que ele
    não preenche os requisitos da infalibilidade.

  22. “Ou seja, o erro dos pistorienses era “afirmar que tais
    decretos [disciplinares] podem ser nocivos e induzir a erro”.
    É difícil ver diferença entre os pistorienses dizendo que os
    decretos disciplinares “podem ser nocivos e induzir a erro” e
    os tradicionalistas de hoje dizendo que o Concílio Vaticano II
    e o novo rito (oficialmente promulgados e celebrados
    por sucessivos Papas) são nocivos e induzem a erro.
    Afinal de contas, ou os decretos PODEM ser nocivos
    ou NÃO PODEM ser nocivos.
    Será demais pedir essa clareza aqui?”

    Creio que esteja incorrendo novamente em um
    erro conceitual:

    Vejamos o que diz a própria
    Suma da Sagrada Teologia Escolástica:

    Ela coloca como OBJEÇÃO (à infalibilidade da Igreja):

    “3. Si la Iglesia es infalible acerca de lo revelado
    «per se», podrá con un acto infalible establecer nuevos dogmas;
    es así que esto después de los Apóstoles es imposible;
    luego la Iglesia no es infalible acerca de lo revelado
    «per se»”
    (Suma da Sagrada Teologia Escolástica, Livro II,
    Capítulo III, n. 697)

    [Se a Igreja é infalível acerca do revelado <>,
    poderá com um ato infalível estabelecer
    novos dogmas; e isso é impossível depois dos Apóstolos;
    logo, a Igreja não é infalível acerca do revelado <>]

    Em seguida, a RESPOSTA (à objeção acima):

    “Respuesta. Distinga la mayor. La Iglesia con un acto infalible,
    esto es fundamentado en la sola asistencia, podrá establecer
    dogmas totalmente nuevos, niego; podrá proponer nuevos dogmas,
    subdistingo: nuevos en cuanto a nosotros, esto es declarando
    o explicándonos lo que está contenido en el depósito de la Fe
    recibido de los Apóstoles, concedo; nuevos en cuanto a los
    dogmas mismos, esto introduciendo otros, que no estén
    contenidos objetivamente en tal depósito, niego y hecha
    la contradistinción de la menor niego el consiguiente y
    la consecuencia”. (Ibidem)

    [(…) A Igreja com um ato infalível, isto é, fundamentado
    na única assistência, poderá estabelecer
    dogmas totalmente novos: NEGO.
    Poderá propor novos dogmas: subdistingo:
    novos quanto aos outros, isto é, declarando ou
    explicando o que está contido no Depósito da Fé
    recebida dos Apóstolos: CONCEDO.
    Novos quanto aos dogmas mesmo, isto é,
    introduzindo outros que não estão contidos
    objetivamente em tal depósito: NEGO (…)]

    Portanto, um dogma totalmente novo,
    hipoteticamente introduzido pela Igreja,
    e que não esteja objetivamente contido
    no Depósito da Fé (ou seja,
    um dogma que fosse contrário à Tradição)
    não pode estar assistido pela infalibilidade
    (seria o caso de um dogma que fizesse mais que
    explicar e desenvolver o que está contido
    no Depósito da Fé recebida dos Apóstolos
    ou seja: uma novidade).

    Portanto, a novidade, enquanto tal,
    não pode ser legitimamente
    “dogmatizada” pela Igreja. Razão pela qual nenhum
    dos documentos inovadores do CVII podem estar
    assistidos pela infalibilidade, e nem podem constituir
    dogmas. Como havia dito:
    Isso tudo por definição da própria infalibilidade.

    Ademais, quanto aos Decretos Disciplinares
    e demais “objetos secundários”, note que eles também
    (e com mais razão), devem preencher
    os requisitos de infalibilidade existentes para
    as definições dogmáticas.

    Portanto, além de não poderem ser contrários
    ao “Depósito da Fé”, tais documentos
    necessitam ser DEFINIDOS solene
    e definitivamente (conforme
    dito acima quanto ao Vetus Ordo);
    devem ser editados sob a autoridade das Chaves
    e, sobretudo, especificamente no caso deles:

    ” la finalidad del Magisterio infalible exige
    la infalibilidad acerca de los decretos disciplinarios
    en general, los cuales están conexionados en cuanto a
    su finalidad con las verdades reveladas.”
    (Suma da Sagrada Teologia Escolástica, Livro II,
    Capítulo III, n. 722)

    [A finalidade do Magistério INFALÍVEL exige
    a infalibilidade acerca dos Decretos Disciplinares
    em Geral, os quais estão conectados, quanto
    à sua finalidade, com as verdades reveladas].

    Portanto, os Decretos Disciplinares
    só são infalíveis quando e na medida em que derivados
    do Magistério INFALÍVEL
    (Portanto:
    Decretos Disciplinares
    derivados do Magistério falível
    são também falíveis… certo?).

    Uma vez que está exaustivamente demonstrado
    que a Reforma Litúrgica, introduzida pelo CVII,
    NAO GOZA DE INFALIBILIDADE,
    (dado que nenhum de seus documentos o faz),
    portanto, os Decretos Disciplinares
    dele decorrentes também não podem sê-lo
    (não podem ser infalíveis).

    Ademais, LOGO APÓS esse paragrafo que você
    quis aplicar aos “tradicionalistas de hoje”,
    a Suma diz o seguinte:

    “Los actuales partidarias de novedades, cuyas opiniones
    expone PIO XII en la Encíclica «Humana generís»
    con estas palabras: «No les está permitido a Teólogas
    y a los Filósofos católicos el desconocer ni el dejar de preocuparse
    por las opiniones más o menos equivocadas que se
    apartan del camino recto,- Sin embargo Nos consta que no
    faltan hoy quienes dedicados más de la cuenta a las novedades,..
    (…)
    «Se añade el que, según afirman, el dogma puede ser
    expresado también con las nociones de la filosofía moderna,
    bien sea el Immanentismo, bien el Idealismo, bien
    el Existencialismo u otro sistema. Y algunos más
    osados afirman que esto incluso puede
    y debe hacerse, puesto que se atreven a decir que
    los misterios de la fe
    nunca pueden ser indicados con nociones
    adecuadamente verdaderas,
    sino solamente con nociones aproximativas,
    según las llaman, y siempre mudables
    (…)
    Y piensan que no es absurdo, sino que es totalmente
    necesario el que la. Teología según las diversas
    filosofías emplee nuevas nociones en substitución
    de las antiguas, de forma que con modos certamente
    diversos, e incluso de alguna
    manera opuestas, pero que, según dicen, tienen
    el mismo valor, transmita a la manera humana las
    mismas verdades divinas».

    Após ler tudo isso,
    diga-nos, por favor:

    Em qual tipo de filosofia estão amparadas
    as inovadoras teses do CVII e seus
    (incansáveis, contraditórios e malabaristas)
    ‘teólogos’ defensores?
    Seria nas Filosofias Antigas?

  23. Amigos, salve Maria.

    Basta uma simples frase do Papa João XXII para sabermos que ele não caiu em heresia, porque a questão não estava definida e ainda era passível de debate:

    “Digo com Agostinho que se eu estiver enganado sobre este ponto, que alguém que saiba melhor me corrija. A mim, não me parece ser de outro modo, A NÃO SER QUE A IGREJA VENHA A DECLARÁ-LO com uma declaração contrária [nisi ostenderetur determinatio ecclesie contraria] ou a não ser que autoridades sobre a Sagrada Escritura o expressem mais claramente do que eu disse acima” (Le Bachelet, DTC 2:662).

    Ou seja, é tão evidente que o papa está participando como um doutor particular a respeito de um tema ainda aberto (definido posteriormente, inclusive graças a este debate levantado por João XXII) que eu não compreendo como pessoas do naipe de um De Mattei possam levantar contra a própria Igreja as acusações feitas pelos protestantes.

    Pô, vamos estudar um pouquinho mais antes de sair escrevendo qualquer coisa, não?

    Abraços a todos,

    Sandro de Pontes

  24. Sandro, permita-me perguntar-lhe: quer dizer que uma pessoa que negue uma verdade de Fé contida na Revelação só será herege depois que essa doutrina tiver sido definida pelo Papa? Antes disso não há heresia?
    Tomemos como exemplo a Virgindade Perpétua de Nossa Senhora. Que eu saiba, ela ainda não foi solenemente definida, apesar de estar contida na Divina Revelação (Bíblia, Tradição e Magistério da Igreja). Inclusive no cânon da Missa Tradicional se lê “Sempre Virgem Maria.” Pois bem: alguém que negue hoje essa verdade de Fé não é herege?
    A Virgindade Perpétua de Maria Santíssima estaria aberta a debate hoje, pelo fato de não ter ainda sido solenemente definida pelo Papa?
    Outro exemplo: uma pessoa que antes de 1950 negasse a veracidade da Assunção de Nossa Senhora ao céu também não seria herege, pelo simples fato do Papa ainda não ter feito a definição solene desse dogma?
    Grato.

  25. As ameaças de ser condenado á fogueira, por parte de Felipe VI, revelam que o Papa João XXII, por conta das declarações controversas, teria sofrido uma fortíssima pressão que o impediria de expressar-se e explicar-se. Parece que não deixaram o Papa nem mesmo expor suas teses, tão grande era a inibição que sofria. Essas ameaças provam que o Papa não gozou de liberdade de expressão, começou a falar uma coisa que não conseguiu terminar de dizer. Como naquelas situações em que uma pessoa não consegue, numa disputa, terminar de concluir sua frase, sendo ouvido apenas ás meias por seus opositores. Portanto, me parece que este Papa começou a falar mas não deixaram ele terminar de falar, então ele se calou. Sendo assim não é possível acreditar que seja possível que ele realmente tenha caído em heresia. Tocou um assunto não concluído sob as ameaças da fogueira. Teria ele realmente defendido as teses de que é acusado??? Sim, porque hoje o Papa Francisco ao defender a família numerosa é acusado exatamente do contrário do que realmente disse???!!!

  26. Papa João XXII deixa claro sua posição de Doutor Pessoal não como Magistério: “Digo com Agostinho que se eu estiver enganado sobre este ponto, que alguém que saiba melhor me corrija. A mim, não me parece ser de outro modo, a não ser que a Igreja venha a declará-lo com uma declaração contrária [nisi ostenderetur determinatio ecclesie contraria] ou a não ser que autoridades sobre a Sagrada Escritura o expressem mais claramente do que eu disse acima.” (Le Bachelet, DTC 2:662.)

  27. Caro Alexandre, Salve Maria!

    Agradeço a você pelo comentário. Não fiquei ofendido por sua crítica a afirmações minhas. Pelo contrário, apreciei a maneira cordial e gentil como se dirigiu a mim, procurando com isso ajudar-me, e também a outros, nessa que é das questões mais espinhosas da crise atual.
    Porém, vejo que abraça a solução sedevacantista, da qual discordo totalmente.
    Gostaria de começar pela pergunta que você faz no início:
    “…obviamente, a infalibilidade deve estar conectada com a Revelação mas, pergunto, quais são esses objetos conectados com a mesma?”
    Respondo: a infalibilidade se conecta com todos os pontos de doutrina de Fé e Moral que o Magistério da Igreja já se pronunciou como sendo “de Fé”. O nosso Credo, por exemplo (desde o Credo Apostólico e o de Nicéia). A infalibilidade abrange também, como é evidente, diversas declarações dogmáticas, por exemplo: as duas naturezas de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Unidade e Trindade de Deus, a Maternidade Divina de Maria Santíssima, Sua Imaculada Conceição e Assunção ao Céu, a explicitação dos dogmas católicos feita pelo Concílio de Trento, e as próprias condições da infalibilidade, dadas, como se sabe, no Primeiro Concílio do Vaticano…
    Nesses pontos acredito estarmos de acordo.
    O problema, a partir do Vaticano II, é o seguinte: o Magistério da Igreja, após ter, por longa série de Papas, desde o século XIX, mas também no Século XX, condenado determinadas doutrinas modernas como erros perigosos, esse mesmo Magistério veio mais tarde, em pleno século XX, através do Concílio, dizer que essas mesmas doutrinas eram boas, devendo, daquele momento em diante, ser praticadas pelos católicos. Refiro-me ao ecumenismo, à liberdade religiosa, à liberdade de consciência e à colegialidade, vitoriosos no último Concílio.
    Jean Guitton, o amigo de Paulo VI, chegou a confessar sua surpresa, pois aqueles coisas, aqueles ensinamentos que haviam sido condenados por São Pio X passaram a ser considerados como o caminho, o método a ser abraçado e seguido pela Igreja a partir da década de 60 do século passado.
    Em quem acreditar agora? A quem seguir?
    Eis a raíz da crise.
    Você citou um discurso de Paulo VI no qual ele diz que essas novidades fazem agora parte do Magistério da Igreja e que os estudos teológicos não podem mais se apartar delas. Poderia um verdadeiro Pontífice impor tais coisas? Creio que a opinião e o desejo do Papa expressos nesses discursos não podem ser considerados infalíveis. Expressam o desejo de Paulo VI, sua ordem, mas, em si mesmos não obrigam.
    Tanto é assim que houve quem no episcopado discordasse do Papa. Diante da perplexidade de vários padres conciliares, o Secretário do Concílio, Monsenhor Péricles Felice declarou que os católicos só estavam obrigados a acolher as doutrinas que o Concílio abertamente dissesse que eram de Fé, e guardassem as devidas reservas para com as novidades, as quais, evidentemente, não eram e não são de Fé. Os católicos não estão obrigados a abraçá-las.
    Outra voz discordante do pronunciamento de Paulo VI foi a do então Cardeal Ratzinger, que, tempos depois, afirmou em discurso ter o Concílio querido ficar num nível bem mais modesto em relação aos anteriores.
    Mas, a porta da confusão estava aberta. O Papa disse uma coisa, enquanto o Card. Felice e o Card. Ratzinger disseram outra. Os fiéis, então, ficaram desorientados. E essa desorientação perdura até hoje.
    Dom Boaventura Kloppenburg, na sua introdução ao livro “Compêndio do Vaticano II”, ao analisar vários discursos de Paulo VI, chegou à conclusão de que o Concílio Vaticano II teve a intenção de ensinar infalivelmente. Como não encontrasse nos textos dos próprios documentos conciliares os sinais característicos de infalibilidade (os anátemas, por exemplo), Dom Boaventura voltou-se para os discursos de Paulo VI, de onde extraiu citações que ele interpretou como tendo a intenção de infalibilidade, embora ausente no corpo dos documentos.
    As novidades do Vaticano II seriam, portanto, no desejo do Papa e na opinião de Dom Kloppenburg, infalíveis, obrigando os católicos a aceitarem-nas.
    Mas, como pode ser isso? Eis o nó complicado. Eis a situação difícil de se entender.
    Antes, aquelas doutrinas eram difundidas pelos inimigos da Igreja. Os Papas do passado se opunham fortemente a elas. Eles defendiam a Igreja, vigiando para que tais erros não entrassem nela e não contaminassem os fiéis.
    Como poderiam ser vitoriosas em um Concílio e, assim, aprovadas pelo Papa? E o Papa disse, em discurso, que tais novidades são, de agora em diante, parte do Magistério da Igreja.
    Mas… que dizer, então, dos documentos dos Papas que antes as condenavam? Não valem mais?
    Desnecessário dizer que a maior parte da Hierarquia da Igreja hoje fala e age como se aqueles documentos nunca tivessem existido.
    No entanto, para nós, que os conhecemos, importa perguntar: a condenação daquelas novidades pelos Papas do passado foi ou não infalível? O “Syllabus” é infalível? A “Immortale Dei” é infalível? A “Pascendi” e a “Mortalium Animos” são infalíveis? Essas encíclicas condenam a conciliação da Igreja com o mundo moderno. Condenam a modernidade, o relativismo religioso, a colegialidade, a liberdade religiosa, a heresia do modernismo, o ecumenismo.
    Que grau de autoridade os Pontífices que as redigiram quiseram dar-lhes? E que grau de aceitação dos católicos foi exigido por esses Pontífices na época da redação desses documentos?
    É difícil acreditar que os Papas não tenham feito esses documentos com todo o peso da sua autoridade, dado não somente o tom dos mesmos e sua continuidade com o ensino constante da Igreja, mas também a gravidade representada pelas novidades combatidas.
    Sendo documentos do Magistério Ordinário, a condição de sua infalibilidade, segundo a opinião de alguns, está no fato de repetirem a mesma doutrina por um longo tempo. Além, é claro, da sua total concordância com a Tradição.

    Creio que até aqui você estará de acordo comigo. Divergimos quando nos deparamos com a seguinte questão:
    Como pode o Magistério Ordinário do Papa aprovar hoje o que foi denunciado, combatido e condenado por esse mesmo Magistério no passado? Como pode desdizer hoje o que disse antes? Não é o mesmo Magistério? Como explicar isso?
    Diante desse problema há os que acreditam na infalibilidade irrestrita, total do Papa ao ensinar. (apesar da Igreja jamais ensinar isso na definição da infalibilidade).
    E essa mesma posição leva a duas outras, opostas entre si. A primeira fica com o Papa e abraça o erro, caso o Papa o aprove. A segunda, rejeita o erro, mas rejeita também o Papa. A primeira é a dos que aceitam as novidades. A segunda é a dos sedevacantistas.
    Os adeptos dessas duas posições contrárias (apesar de partirem de um ponto comum) sustentam que se um Papa chegar a ensinar o erro aos fiéis, então a promessa de Cristo será mentirosa, porque Nosso Senhor disse que as portas do inferno nunca prevaleceriam contra a Igreja. Os que abraçam as novidades tiram daí a conclusão lógica. Eles dizerm: “o Papa não erra, então abraçamos as novidades do Concílio”. Enquanto os sedevacantistas dizem: “o Papa não erra, e se agora ele aprova o erro, é porque não é mais Papa.”
    Mas, esquecem que Cristo apenas disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja. Ele nunca disse que elas não tentariam destrui-la. E nunca disse que o inferno não combateria a Igreja a partir do seu interior, a partir de uma infiltração muito bem orquestrada. Foi o que São Pio X quem deu o sinal de alarme e denunciou os inimigos da Igreja dentro dela.
    Pois bem: entre essas duas posições, prefiro abraçar uma terceira, que procura se equilibrar entre as mesmas, o que não é nada fácil. Ela explica a aprovação dos erros do Concílio pelo simples fato do Papa não ter querido engajar sua infalibilidade – pois é preciso que o Papa queira. Ele pode ou não querer. Abraço, assim, a solução dada pelo Prof. Arnaldo Xavier da Silveira, num trabalho, aliás, muito bem redigido e muito bem fundamentado.
    E isso faz sentido, pois, para começar, o Concílio Vaticano II não quis ser dogmático, isto é, não quis proclamar dogmas e nem quis fulminar os erros modernos. Ele quis ser pastoral. Essa intenção está clara no discurso de abertura, feito por João XXIII. E assim sendo, a porta estava aberta. O Concílio não seria infalível. Ele foi controlado por modernistas, que não acreditavam nos dogmas de Fé, e repudiavam aquelas encíclicas citadas antes (o Syllabus, a Pascendi, etc). Evidentemente, sabiam que depois do Concílio ter aprovado ensinamentos antes considerados errados, eles próprios poderiam dizer aos pobres fiéis que os mesmos eram infalíveis (já que os fiéis podiam ser enganados). Quanto aos textos ambíguos, os modernistas saberiam como interpretá-los.
    Essa é, na minha opinião, a solução mais lógica e mais segura para se compreender a crise atual e lidar com ela. Não é preciso pensar que o Papa perdeu o pontificado por ter favorecido e aprovado erros modernos.
    O próprio São Pedro, depois de proclamar, por Revelação Divina, que Cristo era o Filho de Deus, e ter recebido dEste o Primado e o poder das chaves do Reino dos Céus, sendo escolhido Papa naquele momento, logo em seguida cometeu o terrível erro de rejeitar a paixão e a morte salvadora que Cristo iria sofrer por nós. No primeiro caso, assistido pelo Espírito Santo, São Pedro foi infalível ao proclamar a filiação divina de Cristo; no segundo, ao repudiar o sacrifício redentor do Mestre (embora com a boa intenção de não querer vê-lo sofrer), falhou, chegando a ser chamado de Satanás por Nosso Senhor. Mais tarde, durante a Paixão de Cristo, o mesmo São Pedro, negou Cristo publicamente, dizendo não O conhecer. E apesar disso tudo, nunca perdeu o Pontificado, tendo sido confirmado como Papa depois da Ressurreição de Cristo, que lhe disse: “apascenta minhas ovelhas” e “apascenta meus cordeiros”.
    No exemplo dado no artigo do Prof. De Mattei, ainda que se discorde dele por não se ver a pertinácia em algumas das afirmativas do Papa João XXII – aqui apresentadas por alguns comentários (o que logicamente o excluiria do conceito de heresia) – fica claro que ele não foi infalível, ao menos como doutor privado. O Prof. De Mattei, no entanto, diz que o Papa proferiu discursos divulgando seu novo ensinamento, e se isso aconteceu, então o Pontífice tentou impor o erro publicamente. Já não teria, então, errado como doutor privado, mas como Pastor da Igreja, no seu Magistério de Papa. Em ambos os casos ele não foi infalível. E nem por isso João XXII foi retirado da lista dos verdadeiros Pontífices Romanos.
    Sabe-se também do Papa Libério, que aprovou um “Credo” favorecedor da heresia ariana. Esse ponto do seu Magistério não foi infalível, evidentemente, pois como pode ser infalível algo que favorece a heresia? Longe disso. Foi terrível erro. E erro público. Verdade que o Papa foi forçado e ameaçado de exílio. Cedendo às pressões dos hereges, aprovou o tal Credo ambíguo. Pois bem: apesar de favorecer a heresia, Libério também nunca foi considerado um anti-papa. Ele continua sendo considerado Papa verdadeiro, inclusive pelos sedevacantistas.
    Paulo VI, sem sombra de dúvida, favoreceu os modernistas no Concílio, tanto aprovando textos ambíguos como ensinamentos novos e, ao fazê-lo, não quis engajar a infalibilidade do cargo que exercia.
    Ao impor sua Missa nova, sua intenção – confessada ao seu amigo Jean Guitton – era aproximar a Missa católica da missa calvinista. Logo, o rito novo não é infalível, pois algo que se aproxima da heresia protestante não pode ser infalível. Além disso, Paulo VI não revogou o rito antigo da Missa.
    Portanto, atos e palavras do Papa que não envolvam infalibilidade, podendo ou não errar, não o destituem do cargo de Pontífice se resultarem em erro. É nisso que acredito.
    Claro que não é a situação normal. Mas, temos consciência de não estarmos em tempos de normalidade na Igreja.
    Por isso, não nos admira que Nossa Senhora tenha dito em Fátima que a grande apostasia dos membros da Igreja começaria no seu topo. Ora, quem está no topo da Igreja? O Papa e os Bispos. Na crise prevista por Nossa Senhora não se tem um falso Papa, pois se fosse falso, não poderia estar no topo da Igreja.
    São Pio de Pietrelcina, ao chamar Dom Luigi Villa para combater a maçonaria eclesiástica, disse-lhe: “coragem, coragem, a maçonaria já chegou aos chinelos do Papa.” Em seu apartamento, São Pio tinha uma fotografia do Papa reinante, que naquela época era Paulo VI.
    É verdade que hoje “Chiesa Viva”, depois do falecimento de seu fundador, o mesmo Dom Villa, sustenta que Francisco Bergoglio é anti-papa. Mas, não por causa das afirmações heréticas feitas por ele, e sim por considerar forçada a renúncia de Bento XVI, o que tornaria inválida a escolha de seu sucessor. “Chiesa Viva” não é sedevacantista. Ela continua acreditando que o Papa ainda é Bento XVI.
    Porém, não temos prova de que a renúncia de Bento XVI tenha sido forçada. Podemos até desconfiar, mas não temos prova. Existe uma história divulgada pelo Pe. Paul Krammer, sobre um acordo… É possível, mas não há provas.
    E, por isso, apesar dos pesares (isto é, apesar das Bergogliadas que somos obrigados a ouvir), temos de considerar Francisco (Jorge Mario Bergoglio) como Papa verdadeiro, como Papa autêntico. E é de nossa obrigação rezar por ele.
    Tenho sempre rejeitado a solução do sedevacantismo, não só porque, a meu ver, ela não se impõe logicamente, mas, sobretudo, pelo grande problema que ela traz. Pois não havendo verdadeiro Papa, também não há mais Bispos legítimos, já que um falso Papa não tem autoridade para nomear Bispos, embora tenha o dom de ordená-los transmitindo-lhes a ordem Sagrada do Episcopado. Um falso Papa nomearia Bispos ilegítimos, isto é, sem verdadeira autoridade sobre suas dioceses (ainda que validamente ordenados). Também não haveria mais como escolher o Papa, pois um Colégio Apostólico nomeado por um falso Pontífice seria igualmente falso e sem competência para sua máxima missão: a de prover a Igreja da sua cabeça visível. Em suma, desapareceria não só a cabeça visível da Igreja, mas também toda a legítima parte docente dela (os Bispos). E não haveria mais como recompô-la pelos meios habituais. Uma verdadeira tragédia. Um caos total.
    Essa é a razão pela qual não posso abraçar o sedevacantismo.
    Já me estendi demais nesta resposta. Teria mais coisas a dizer, mas creio ser o suficiente.

    Obrigado pela atenção. Desculpe-me por ter-me estandido demais. Fique com Deus.

Trackbacks