Uma aula de Tolkien em tempos de Sínodo sobre a Família.

Por Bruno M. – InfoCatólica | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.comPara variar um pouco, em vez de falar de bispos e teólogos, hoje eu trago ao blog e à série intitulada “Polêmicas Matrimonais” algumas palavras de JRR Tolkien. Trata-se de uma carta enviada ao seu filho Michael Tolkien, na qual o velho Tolkien partilha suas opiniões e experiências sobre o casamento e as relações entre homens e mulheres.

Na minha opinião, precisamente o fato de não serem palavras para o povão, mas sim o conselho sincero e de coração de um pai para o seu filho, é que dá um valor especial ao texto. Além disso, esta carta poderá nos ajudar a entender melhor os livros de Tolkien, ao vislumbrar como o autor entendia o amor, a lealdade, o sacrifício e o compromisso que são questões fundamentais em seus escritos.

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“Os homens não são [monogâmicos]. Não adianta fingir o contrário. Simplesmente não o são, pelo menos não de acordo com sua natureza animal. Para nós, a monogamia (embora há muito tempo fundamental para as idéias que herdamos) é um elemento de ética, revelada de acordo com a fé e não com a carne. […] Esse é um mundo decaído onde não há harmonia entre os nossos corpos, nossas mentes e nossas almas. A essência de um mundo decaído consiste no fato de que o melhor não pode ser conquistado através da diversão livre ou do que é muitas vezes chamado de “auto-realização” (que geralmente não passa de um bom nome para a complacência e que é absolutamente contrária à realização do próximo), mas sim quando se recusa a si mesmo, sofrendo. A fidelidade no matrimônio cristão implica precisamente nisso: uma grande mortificação.

Para um cristão, não há escapatória. O matrimônio pode ajudar a santificar e direcionar ao seu objeto adequado seus desejos sexuais, e sua graça de (estado) pode ajudá-lo no combate, porém, o combate permanece, continua lá. O casamento não o saciará, naquele sentido em que comer regularmente satisfaz a fome, mas lhe proporcionará tanto dificuldades como facilidades para habilitá-lo a viver a pureza própria do estado matrimonial.

Nenhum homem, por mais que tenha amado a sua eleita e noiva de sua juventude, conseguiu permanecer fiel de corpo e alma quando ela se tornou sua esposa, sem um exercício consciente e deliberado da vontade, ou seja, sem negar a si mesmo. Poucos são os que sabem disso, mesmo os educados dentro da Igreja. E os que estão fora dela não parecem sequer ter ouvido falar nisso.

Quando o encanto desaparece, ou simplesmente se desvanece um pouco, eles acreditam que cometeram um erro de pessoa e que ainda não encontraram sua verdadeira alma gêmea. Então, a “verdadeira alma gêmea” geralmente passará a ser a próxima pessoa sexualmente atraente com a qual se encontrar, alguém com quem poderiam muito muito bem ter se casado, se não fosse por… Daí o divórcio, para proporcionar o “se não fosse por” ou segunda chance.

E, é claro, eles geralmente tem razão: cometeram um erro. Apenas um homem muito sábio, já no final de sua vida, poderia realmente tomar uma decisão sensata sobre com qual mulher, entre todas as possíveis, ele deveria ter se casado. Quase todos os casamentos, inclusive os mais felizes, são erros, no sentido de que certamente (em um mundo mais perfeito ou com um pouco mais de esforço neste mundo tão imperfeito) ambos os cônjuges poderiam ter encontrado um marido ou esposa mais compatível. No entanto, sua “verdadeira alma gêmea” é aquela com a qual você está realmente casado. Na verdade, a pessoa tem pouca escolha: a vida e as circunstâncias quase sempre intervêm em tudo (muito embora, quando se trata de Deus, a vida e as circunstâncias se tornam seus instrumentos ou intervenções). […] Neste mundo decaído, os nossos únicos guias são a prudência e a sabedoria (raras na juventude e tardias demais na velhice), um coração puro e fidelidade da vontade… “

 (Retirado das Cartas de J.R.R. Tolkien)

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Já ouço alguns clamando aos céus: Mortificação? Negar-se a si mesmo? Um mundo decaído? Isso é obscurantismo medieval já superado! Sabemos agora que a vida deve ser desfrutada ao máximo. Como é que a minha verdadeira alma gêmea é aquela com a qual estou casado e não posso me divorciar e refazer minha vida com outra? Isso seria ser insensível, intolerante, fundamentalista e politicamente incorreto! Isso poderia até valer para os tempos antigos, quando a expectativa de vida era menor, mas não agora. A bíblia diz que Deus deseja que todos os homens sejam felizes, então ninguém tem o direito de proibir o que me faz feliz! É uma maneira de pensar desumana e inaceitável para o homem moderno. Esse Tolkien parece quase um católico tradicionalista!

O Casamento de Arwen e Aragorn. 

Todavia, é exatamente essa mentalidade que podemos encontrar refletida nas obras de Tolkien. Como Elizabeth Kantor diz: “Aragorn deve ser o personagem masculino mais monogâmico de toda a literatura moderna: ele se apaixona por Arwen quando tinha apenas 20 anos de idade; espera, trabalha e ganha um reino para ela. Em suas andanças, encontra outra bela mulher que se apaixona por ele como um perfeito cavalheiro, a tal ponto que o irmão da mulher chegou a dizer: “você não tem culpa alguma nesta matéria”. Finalmente, casa-se com Arwen 68 anos depois de ter se apaixonado por ela e desfruta 122 anos de um casamento feliz e fiel”.

E o que não dizer então de Beren e Lúthien? É uma história épica, mas também a de um amor fiel, de quem sabe sacrificar-se pela pessoa amada. O pai da bela e imortal donzela elfa Luthien encomenda a Beren uma quase impossível missão como condição para se casar com sua filha: a recuperação de um dos três lendários Silmarils. Beren e seus companheiros partem em busca, sabendo que provavelmente morreriam, e, na verdade, são feitos prisioneiros pelos orcos, encarcerados e executados um por um, até que só Beren permanece. Luthien decide, então, partir em busca de Beren e também é capturada, mas, finalmente, consegue libertar o seu amado com a ajuda de um cão prodigioso. Beren quer continuar a odisséia sozinho, mas Luthien o acompanha e ambos conseguem chegar à fortaleza do Lorde das Trevas. Lá, as coisas acabam mal e Beren acaba perdendo uma mão que é devorada por um grande lobo, o qual também traga um dos Simarils. Mais tarde, tentando capturar a besta, eles sofrem ferimentos tão graves que causam a morte de Beren, e Luthien também acabada morrendo, abalada pela perda de seu amado. Finalmente, por algum milagre, ambos retornam à vida e vivem juntos como marido e mulher até a morte, que havia sido assumida pela elfa como uma condição necessária para se casar com um ser humano mortal.

Esta idéia de aceitar a própria morte como o preço do amor, algo que se repete na história da Arwen e Aragorn, é profundamente cristã. Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que amamos. O amor, de fato, é dar a vida. Por isso, os esposos cristãos são chamados a amar com o amor de Cristo: amar até mesmos os inimigos, amor que não se irrita, não deseja o mal; amor até a morte, amor que não termina, mas que tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Conforme indicado por vários de seus escritos, Tolkien viu na história de Beren e Luthien um reflexo de seu amor por sua esposa. Embora ele jamais tenha necessitado lutar contra orcos e lobos, ainda assim, ele teve que superar dificuldades para se casar com o grande amor de sua vida. Ele se apaixonou por Edith aos 18 anos, mas, como era órfão, seu guardião legal, que era um sacerdote, ao descobrir seu namoro o proibiu de voltar a ter qualquer contato com Edith até que completasse 21 anos de idade. Ele então obedeceu e por quase três anos não a viu ou escreveu-lhe. No dia de seu vigésimo primeiro aniversário, todavia, escreveu-lhe uma carta pedindo-a em casamento. Embora Tolkien estivesse desempregado, ela prontamente aceitou sua proposta e permaneceram  casados por  55 anos, até a morte de Edith, dois anos antes da morte do próprio Tolkien. Eles foram sepultados lado a lado e, embaixo de seus nomes, a inscrição na lápide simplesmente diz: “Luthien” e “Beren”.

Por que os livros de alguém com essas idéias tidas como tão reacionárias e ultrapassadas conseguem atrair tantos jovens? Precisamente porque eles percebem nesses livros o eco de algo maior, algo que não está presente na cultura secularizada que os rodeia, obcecada com “auto-realização” e a satisfação imediata e sem amarras de seus desejos. Na verdade, dificilmente eles encontrarão algo parecido com Tolkien na dieta do materialismo vulgar e hiper-sexualizado e bem mastigado que a televisão lhes empurra goela abaixo ou certos amigos que se encontram provavelmente tão confusos e sem esperança como eles mesmos.

How I Met Your mother 

Em uma das séries de TV tão comuns atualmente, um Aragorn alérgico a mortificação e a negar seus desejos imediatos teria tido um breve caso com Éowyn para logo em seguida dar-lhe um chute, dizendo: “Não é você, sou eu. Eu pensei que você fosse única, porque o amor é eterno enquanto dura, mas agora (depois de ter me divertido passando alguns dias com você) eu vejo que não somos compatíveis. Espero que possamos ser amigos”.

Uma Luthien moderna exclamaria exasperada: “Lá vai você de novo se deixando ser capturado por orcos e lobisomens! Todos os dias a mesma coisa! Olha, Beren, desculpe, mas temos que terminar tudo. Queremos coisas diferentes: você quer que te resgatem das masmorras de Tol Gaurhoth, onde sofres terríveis torturas, e o que eu quero é sair com minhas amigas, me divertir e me realizar profissionalmente, satisfazer-me no meu trabalho como assistente de sub-assistente do ajudante do conselho da minha empresa”. Ou, pior ainda, bem no estilo das propostas do Cardeal Kasper, poderia ainda dizer: “escuta, Beren, eu sei que nos casamos e tudo mais e eu te amo, mas constatamos que com o passar dos anos, você se tornou um velho que me dá nojo e eu ainda sou jovem e bonita. E pra piorar, você só tem uma mão… Eca! Enfim, o que podemos fazer? Eu me apaixonei por um anão que também é jovem e bonito, como no filme do Hobbit. Não procurei, mas aconteceu e agora temos uma relação irreversível, pois como eu poderia voltar para um velho como você? Você tem que entender que eu não poderia esperar até que você morra. Afinal de contas, eu tenho o direito de ser feliz. ” Em suma, tédio, tédio e tédio.

Em uma modernidade cada vez mais decadente e enfastiada de tudo, que já fede a túmulo e decomposição, os livros de Tolkien são como uma lufada de ar fresco, porque as suas páginas são agitadas pelo mesmo vento que soprava no topo Montecassino quando alguns loucos lá se estabeleceram, ou que fazia tremular as bandeiras em Lepanto, que soprava como rajadas tempestuosas do Mar da Galileia ou como a brisa suave de Elias, o Espírito que pairava sobre as águas antes da criação do mundo e o último suspiro de um Deus crucificado. Estes livros não mencionam Cristo, mas de alguma forma não falam de outra coisa.

Em sua carta, Tolkien recorda com simplicidade a sabedoria cristã que inspirou tanto sua vida como seus livros, começando por uma verdade de primeira comunhão que todos nós sabemos, mas parecemos não recordar: este mundo é um mundo decaído por causa do pecado original, de modo, portanto, que amar não é fácil, mas exige um esforço. Mais importante ainda, amor verdadeiro significa dar a vida, morrer, negar a si mesmo. Todos aqueles que tentam por todos os meios que a Igreja aprove o divórcio, sexo antes do casamento, a gradualidade da lei, casais do mesmo sexo ou que se dê a comunhão aos que se recusam abandonar o pecado mortal, estão negando que amar significa dar a vida e falsamente propõem um amor light, superficial, que não exige um autêntico sacrifício.

A outra grande verdade que Tolkien recorda a seu filho é que a sua “verdadeira alma gêmea” é aquela com a qual você está realmente casado. Isto é, Deus estava certo com a sua vida, que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus. Esta verdade é que faz do casamento uma aventura e não uma armadilha, uma obra de arte e não um absurdo aleatório, um desígnio de amor e não um erro terrível.

Se os Padres do Sínodo da Família querem saber o segredo do grande apelo de Tolkien entre os jovens, saibam que não se trata de “aggiornamiento” a qualquer preço ou dizer às pessoas que elas devem fazer o que elas querem, sem se preocupar com mais nada. Seu segredo é muito simples: “viver segundo a fé e não a carne.” Ou, dito de outra forma por Tolkien na mesma carta:

“Desde a obscuridade da minha vida, com tantas frustrações, eu ponho diante de ti o único, verdadeiramente grande e digno de amor nessa terra: o Santíssimo Sacramento… Nele encontrarás romance, glória, honra, lealdade e o verdadeiro caminho de todos os seus amores nesse mundo e, mais ainda, na morte. Por um paradoxo divino, a morte põe fim à vida e exige a rendição de todos, porém, só ao prová-la (ou pregustá-la), aquilo que buscas nos relacionamentos (amor, fidelidade, alegria) poderá se manter ou adquirir esse aspecto de realidade e duração eterna que deseja e busca o coração de cada homem”.

Os cristãos podem amar dando a vida, porque nosso destino é o céu. E não há um ser humano no mundo que não deseje o céu. Esse é o segredo.

28 Comentários to “Uma aula de Tolkien em tempos de Sínodo sobre a Família.”

  1. No Brasil, as pessoas conhecem mais “O Senhor dos Anéis” pelos filmes dirigidos por Peter Jackson, mas a saga que saiu da pena de J. R. R. Tolkien é algo muito maior que isso. Reflete, em meio às aventuras de elfos, hobbits e outros seres fantásticos, a alma de um verdadeiro católico.

    https://padrepauloricardo.org/episodios/o-senhor-dos-aneis

    Youtube. Padre Paulo Ricardo fala sobre o livro “O Senhor dos Anéis”

  2. O fato é que na história das raças humana (eldain) e élfica (eldar), quando os primeiros morriam, seus espíritos migravam para fora dos círculos do mundo, indo habitar as mansões de Ilúvatar; enquanto que os espíritos dos segundos iam habitar a Fortaleza de Mandos, em Amam, dentro dos círculos do mundo. No entanto, por conta dos seus feitos prodigiosos que desafiaram a autoridade de Morgoth na Terra-Média, Ilúvatar concedeu-lhes a opção de desfrutar a eternidade juntos, caso Luthien renunciasse à imortalidade da sua raça. Assim ela o fez. Nesse sentido, quando morreram, puderam ir habitar juntos as mansões de Ilúvatar, fora dos círculos do mundo, separando-se ela dos demais da sua raça. Mais tarde, no entanto, a silmaril recuperada provocaria a destruição de um das últimas fortalezas resistentes ao avanço de Morgoth no mundo: Doriath. Mas, além de Luthien e Beren, há mais desgraças no mundo do que vitórias, como no caso da trágica história de Túrin Turambar e Finduilas Faelivrin. É um mistério, como a impiedade e a malícia de Morgoth, foram toleradas por Ilúvatar por tanto tempo, como no nosso mundo real.

  3. “Os homens não são [monogâmicos]. Não adianta fingir o contrário. Simplesmente não o são, pelo menos não de acordo com sua natureza animal.”

    Sinceramente, quase vomitei.

  4. Que me desculpe Tolkien, mas a frase “Quase todos os casamentos, inclusive os mais felizes, são erros, no sentido de que certamente (em um mundo mais perfeito ou com um pouco mais de esforço neste mundo tão imperfeito) ambos os cônjuges poderiam ter encontrado um marido ou esposa mais compatível.” revela uma total falta de confiança na Providência Divina, que nos guia.

    • Laura, eu também pensei isso, mas acho que não foi esse o sentido que ele quis dar. Penso isto tanto pelo que conheço do autor e pelo texto que está mais a frente na carta “(muito embora, quando se trata de Deus, a vida e as circunstâncias se tornam seus instrumentos ou intervenções)”.

      Acho que o que Tolkien tentava exprimir era que, dada a compatibilidade natural apenas, você certamente poderia procurar uma pessoa mais em sintonia com você mesmo. Mas isso não é tão importante quanto a possibilidade de amar a pessoa com quem você se casou de maneira Cristã.

  5. Eu entendi perfeitamente o contexto da carta de Tolkien. Primeiramente é bom que fique claro que ele estava escrevendo uma carta pessoal ao seu filho, aconselhando-o em seus problemas matrimoniais.
    Quando ele fala da natureza masculina, ele acertou em cheio.
    Deixe um homem solto, guiado por seus próprios instintos, sem as rédeas da moral e da fé e já sabemos no que vai dar: infidelidade a torto e a direito, alimentada pelo vício da pornografia e pela promiscuidade.
    O casamento consegue até domar a alguns, enquanto o objeto de sua afeição ainda lhe é atraente e lhe proporciona certas vantagens, mas quando tudo isso deixa de existir, se não houver outros fatores de ordem moral ou espiritual para o segurar, sua natureza nômade o leva a procurar outras pastagens.
    A monogamia, ou seja, o ato de ser fiel de corpo e mente a uma só companheira, requer sacrifício e mortificação. E o mesmo se dá com o homem que escolhe o celibato sacerdotal. Ser fiel à promessa matrimonial ou sacerdotal requer mortificação constante e tanto num caso como outro, não conheço um sacerdote ou marido que conseguiu ser fiel ao compromisso assumido, sem mortificação e sacrifício.
    Quanto ao que Tolkien diz sobre a maioria dos casamentos serem um “erro” , no contexto em é dito também é outra verdade. Dificilmente alguém chega ao final da vida e diz que seu companheiro era sua alma gêmea. Diante da primeira dificuldade já se pensa que escolheu mal: “não sei onde eu estava com a cabeça quando fui casar com você”!
    E na verdade, muitas vezes são as circunstâncias da vida que nos impulsionam a fazer escolhas das quais mais tarde nos arrependemos. Mas quando se trata do casamento cristão, até mesmo das nossas más escolhas Deus pode tirar um grande bem se deixamos nos guiar por sua Divina Providência, pois como disse o próprio Jesus, seu jugo é suave e seu peso é leve. A graça de Deus nunca nos desampara.
    Deus é fiel.

    • “Quano ele fala da natureza masculina, ele acertou em cheio”. Vc está quadradamente errada, beirando a heresia. E não insista.

    • “Quando ele fala da natureza masculina, ele acertou em cheio” Essa tese da corrupção absoluta da natureza depois do pecado original é luterana e foi anatematizada pelo Concílio de Trento. Leia os decretos.

    • Fratres: esse texto é escandaloso, é um lixo. Vão mantê-lo no ar? Que decepção!

    • Caro Santiago. Faça a gentileza de refutar o erro e publicaremos com gosto. Não adianta somente retirar do ar, é preciso corrigir FRATERNALMENTE o que eventualmente está errado.

    • Infelizmente voce fez um comentario infeliz e ofensivo sobre a natureza masculina Gercione porque generalizou: ” Quando ele fala da natureza masculina, ele acertou em cheio. Deixe um homem solto, guiado por seus próprios instintos, sem as rédeas da moral e da fé e já sabemos no que vai dar: infidelidade a torto e a direito, alimentada pelo vício da pornografia e pela promiscuidade.” Existem pessoas e pessoas. Existem homens que nao sao o que voce falou que por uma honestidade que lhes eh natural nao se rebaixam a este ponto mesmo nao tendo fe. Nao se pode generalizar sobre pessoas por ignorarmos a variedade humana ou pelas nossas proprias experiencias.

  6. Bom dia a todos.

    Gostaria de contribuir com o “debate” sobre a família. Nos sites católicos vejo a doutrina da Igreja ser repetida ad nauseam e por que os recasados estão excluídos, estão em pecado mortal, estão, inclusive, no inferno para muitos.

    Adianto que entendo e concordo com a posição da Igreja, defensora maior da família no mundo quando faz todas as restrições, como mãe que quer proteger seus filhos.

    Ocorre que, grosso modo, há 3 gerações, temos o divórcio como epidemia social, pelo menos no Brasil. Essa epidemia ejeta do casamento uma legião de pessoas que, sem culpa, com imensos esforços e com muito sofrimento, viram seu casamento ser destruído pelo seu cônjuge. Essas pessoas são inocentes e, pelas regras atuais da Igreja, ouvem que devem se manter castas para sempre. Ora, isso corresponde a tirar dessas pessoas sua principal vocação, a tirar delas sua principal fonte de alegria e de estabilidade emocional, seu instrumento de serviço a Deus e aos irmãos. Não pelo sexo, mas pela vocação de pais e mães de família. Vocação forte, irresistível muitas vezes, e tão mais forte quanto foi a inocência dessas pessoas e seu sofrimento ao verem seu casamento destruído apesar de seus esforços.

    Há também o risco muito real às almas (e à saúde física) dessas pessoas que ficam expostas a uma liberdade da qual já haviam abdicado, para a qual muitas vezes, não estão preparadas, e que, agora, se apresenta muito convidativa, ainda mais em um momento de fragilidade. É muito fácil, no mundo de hoje, com internet e infinitos recursos, encontrar outras pessoas e cair em uma vida desregrada.

    Isso não é novidade para a Igreja e os tribunais eclesiásticos existem para julgar a real validade dos casamentos (dentre outras funções, claro). O problema é que, hoje em dia, os tribunais estão entulhados de trabalho e chegam a demorar 3, 4 anos para dar uma sentença em primeira instância. Provavelmente, essa estrutura era satisfatória há algumas décadas, onde havia menos demanda. Faz tempo, não é mais.

    Na minha visão, se duas pessoas inocentes da destruição de seus casamentos se juntam e, dos escombros de duas famílias, conseguem compor uma família nova e cristã, isso é evidentemente, do ponto de vista social, positivo e, do ponto de vista sobrenatural, me parece ser também um mal menor.

    Dizem aqueles cujo casamento é estável (Deus os conserve sempre assim) que Deus haverá de dar a graça necessária a essas pessoas. Deus dá a graça que ele quer a quem ele quer. Conheço pessoas cuja graça de Deus foi fazer com que encontrassem outra e que pudessem recomeçar com dignidade, que puderam escapar de doenças do corpo e da alma, que hoje podem viver como pais e mães de família de primeira categoria, dando exemplo de vida cristã a muitos casais “regulares”.

    Creio que a intenção do Papa seja atender melhor a essas pessoas. Ele tem autoridade para isso e peço que, aqueles que repetem como papagaios a doutrina pública e conhecida da Igreja, que não rasguem as vestes mas que sejam mais irmãos e mais solidários com as pessoas cujo sofrimento não podem ver nem medir e cuja fé, só Deus conhece.

  7. “Na minha visão, se duas pessoas inocentes da destruição de seus casamentos se juntam e, dos escombros de duas famílias, conseguem compor uma família nova e cristã, isso é evidentemente, do ponto de vista social, positivo e, do ponto de vista sobrenatural, me parece ser também um mal menor”.

    Essa sua posição é anti-Católica, anti-cristã e foi condenada pelo próprio Papa João Paulo II tanto em sua Carta às Famílias como na Veritatis Splendor:

    “Sem dúvida, contrário à civilização do amor é o chamado « amor livre », tanto mais perigoso por ser habitualmente proposto como fruto de um sentimento «verdadeiro», quando efectivamente destrói o amor. Quantas famílias levadas à ruína precisamente pelo «amor livre»! Seguir em qualquer caso o «verdadeiro» impulso afectivo, em nome de um «amor» livre de condicionamentos, na realidade significa tornar o homem escravo daqueles instintos humanos, que S. Tomás chama «paixões da alma» (passiones animae). O «amor livre» explora as fraquezas humanas, conferindo-lhes uma certa «moldura» de nobreza com a ajuda da sedução e com o favor da opinião pública. Procura-se assim «tranquilizar» a consciência, criando um «álibi moral». Mas não se tomam em consideração todas as consequências que daí derivam, especialmente quando a pagá-las são, para além do cônjuge, os filhos, privados do pai ou da mãe e condenados a serem, de facto, órfãos de pais vivos.
    Na base do utilitarismo ético, está, como se sabe, a procura desenfreada do «máximo» de felicidade: mas de uma «felicidade utilitarista », vista apenas como prazer, como imediata satisfação e vantagem exclusiva do próprio indivíduo, fora das exigências objectivas do verdadeiro bem ou mesmo contra elas.
    http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1994/documents/hf_jp-ii_let_02021994_families.html

    A Veritatis Splendor, citada várias vezes nesse primeiro documento, é ainda mais contundente contra essa sua posição de construir sobre os escombros de um casamento fracassado, geralmente pelo egoísmo de ambos, o edifício do adultério e ainda dizer que do ponto de vista social é algo positivo e do ponto de vista sobrenatural é só um mal menor que não vai custar a salvação eterna dos envolvidos:

    “Ao ensinar a existência de atos intrinsecamente maus, a Igreja cinge-se à doutrina da Sagrada Escritura. O apóstolo Paulo afirma categoricamente: «Não vos enganeis: Nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem maldizentes, nem os que se dão à embriaguez, nem salteadores possuirão o Reino de Deus» (1 Cor 6, 9-10).
    Se os atos são intrinsecamente maus, uma intenção boa ou circunstâncias particulares podem atenuar a sua malícia, mas não suprimi-la: são atos «irremediavelmente» maus, que por si e em si mesmos não são ordenáveis a Deus e ao bem da pessoa: «Quanto aos atos que, por si mesmos, são pecados (cum iam opera ipsa peccata sunt) — escreve S. Agostinho — como o furto, a fornicação, a blasfémia ou outros atos semelhantes, quem ousaria afirmar que, realizando-os por boas razões (causis bonis), já não seriam pecados ou, conclusão ainda mais absurda, que seriam pecados justificados?». [134]
    Por isso, as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objecto, num ato «subjectivamente» honesto ou defensível como opção.
    82. De resto, a intenção é boa quando visa o verdadeiro bem da pessoa na perspectiva do seu fim último. Mas os atos, cujo objeto é «não ordenável» a Deus e «indigno da pessoa humana», opõem-se sempre e em qualquer caso a este bem. Neste sentido, o respeito das normas que proíbem tais atos e que obrigam semper et pro semper, ou seja, sem nenhuma excepção, não só não limita a boa intenção, mas constitui mesmo a sua expressão fundamental.[…]

    102. Mesmo nas situações mais difíceis, o homem deve observar a norma moral para ser obediente ao santo mandamento de Deus e coerente com a própria dignidade pessoal. Certamente a harmonia entre liberdade e verdade pede, por vezes, sacrifícios extraordinários, sendo conquistada por alto preço: pode comportar inclusive o martírio. Mas, como demonstra a experiência universal e quotidiana, o homem sente-se tentado a romper essa harmonia: «Não faço aquilo que quero, mas sim aquilo que aborreço (…) O bem que eu quero não o faço, mas o mal que não quero» (Rm 7, 15. 19).
    Mas donde provém, em última análise, esta cisão interior do homem? Este começa a sua história de pecado, quando deixa de reconhecer o Senhor como seu Criador e quer ser ele mesmo a decidir, com total independência, o que é bem e o que é mal. «Sereis como Deus, e ficareis a conhecer o bem e o mal» (Gn 3, 5): esta é a primeira tentação, e dela fazem eco todas as outras tentações, às quais o homem está mais facilmente inclinado a ceder por causa das feridas da queda original.
    Mas as tentações podem ser vencidas, os pecados podem ser evitados, porque, com os mandamentos, o Senhor nos dá a possibilidade de observá-los: «Os olhos do Senhor estão sobre os que O temem, Ele conhece as ações de cada um. Ele a ninguém deu ordem para fazer o mal e a ninguém deu permissão de pecar (Sir 15, 19-20). A observância da lei de Deus, em determinadas situações, pode ser difícil, até dificílima: nunca, porém, impossível. Este é um ensinamento constante da tradição da Igreja, assim expresso pelo Concílio de Trento: «Ninguém pois, mesmo justificado, se deve considerar livre da observância dos mandamentos; ninguém se deve apropriar daquela expressão temerária e já condenada com a excomunhão pelos Padres, segundo a qual é impossível ao homem justificado observar os mandamentos de Deus. De facto, Deus não manda coisas impossíveis, mas ao ordená-las exorta-te a fazeres tudo o que podes, e a pedires o que não podes, ajudando-te para que possas; com efeito, “os mandamentos de Deus não são pesados” (cf. 1 Jo 5, 3) e “o Seu jugo é suave e o Seu fardo leve” (cf. Mt 11, 30)». [162]
    http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_06081993_veritatis-splendor.html

    • Complementando…

      Algumas pessoas são chamadas por Deus a serem “almas vítimas”, ou seja, pessoas que são chamadas por Cristo a participar mais intensamente de sua paixão e cruz.

      Nesta categoria encontram-se doentes crônicos de males físicos e mentais (como depressão crônica) e também aquelas que, por suas circunstâncias, encontram-se em situações de grande sofrimento contínuo ou permanente. Aí se incluem, portanto, pessoas com tendências homossexuais ou outros desejos desordenados, e também as pessoas em situação de matrimônio desfeito. A todas essas, Cristo pede “que bebam do cálice que ele bebe”, ou seja, que vivam em completa continência, o que, certamente, para muitos, será como um martírio em vida. Mas em qualquer caso, nunca se pode duvidar das Graças que Deus dá a essas pessoas.

      É verdade que a Igreja precisa ser mais “pastoral” com esses grupos de pessoas, mas não do jeito que os kasperitas propõem. A Igreja precisa acolher com amor e educar essas pessoas, para que se reconciliem com Cristo e vivam como ele pede, acompanhando-as continuamente em suas dificuldades.

      Que a Igreja está longe de fazer um bom trabalho neste sentido os papas João Paulo e Bento já o disseram, e é bastante óbvio. No “país de empreendedores”, os EUA, há pouquíssimos movimentos e pastorais dedicados a esses grupos (como o “Courage” e o “Divorced Catholic”), mas pelo menos existem. Aqui no Brasil, eu nunca vi ou ouvi falar de nenhuma “Pastoral dos Descasados”. Existe “Pastoral Gay” mas quase sempre se trata de gente querendo mudar a doutrina da Igreja. Algo como o “Courage” eu nunca vi. Essas pastorais são necessárias e urgentes.

  8. Gercione Lima: outro papagaio que repete a doutrina da Igreja e a Bíblia ad nauseam, O trecho que você cita da Veritatis Splendor fala do “amor livre”. Em nenhum momento eu falei em favor do “amor livre”. A situação a que me refiro é de fidelidade, seja no primeiro casamento destruído, seja no segundo. Nota-se que não leu nem entendeu o que escrevi. Tomara que o Papa e os bispos não mudem uma vírgula na forma como a Igreja trata essa situação por que, senão, pessoas como você, que gostam de impor aos outros uma carga de um peso que provavelmente não suportariam (e que têm a falta de caridade de achar que os casamentos se desfazem “geralmente pelo egoísmo de ambos”) ficarão escandalizados demais para se manterem católicos. Que a Igreja possa ir em socorro dessas pessoas inocentes, que sofrem, com mais eficiência (como bem disse o José Tomás aqui nos comentários). Encerro por aqui.

  9. CG,

    Toda vez que se repete a Doutrina da Igreja, a Sagrada Escritura, a Tradição, os escritos dos Santos, o Magistério… se pode vislumbrar novos aspectos da riqueza de seu conteúdo e, em todas as oportunidades, é algo a rejubilar-se pela Verdade que expressam.

    Quem diz que a repetição solene dos Ensinamentos Sagrados é/causa “ad nauseam”, já está afastada do sentire cum ecclesia, ou não soube se expressar (é o que prefiro pensar).

    Ora, a questão é amar a Deus sobre todas as coisas; e ama a Deus quem cumpre seus mandamentos.

    Quanto a essa questão sinodal premente se pode falar na conveniência ou não duma maior celeridade nos processos de nulidade matrimonial, mas nunca se poderá desconsiderar ou obnubilar o estado de pecado mortal público que constitui a união adulterina… o mal menor já é a separação (nos casos em que a vivência do casal já é de tal modo ruim que se inviabiliza, como por agressões ou traições constantes), já a “segunda união” não é mal menor coisa nenhuma, é viver em adultério constante e cristalizado, público e notório… isso seria até mesmo “pior” que parcas e eventuais fornicações (não se assuste com essa argumentação a fortiori), no sentido de que é uma situação mais difícil de se desvencilhar por conta dos compromissos mútuos assumidos (isso você reconhece, CG, mas não percebe que isso, ao contrário de ser um argumento de defesa da segunda união, é algo que depõe ainda mais contra ela e que a torna ainda mais perniciosa, pois não se trata de um pecado aqui e ali, mas de um contínuo e que civilmente se institucionaliza).

    Viver a continência não é um castigo, viver a fidelidade a Cristo é uma grande Graça, a maior… e ela é possível, então a própria discussão sobre mal maior ou menor fica sem sentido… só haveria sentido nisso se um dos dois males fossem inevitáveis (e mesmo nesse caso, há controvérsias, salvo na causa de duplo efeito).

    Enfim, é muito mimimi dos divorcistas, tal qual também fazem noutras áreas da Moral e da Fé os especuladores limítrofes e hereges materiais. É lamentável que você venha aqui repetir ad nauseam esses argumentos que nem de perto tocam no aspecto principal do problema, assim se parece com os defensores da legalização do aborto que falam das dificuldades econômicas da mãe, ou da imaturidade dela para criar uma criança, ou de outros elementos secundários da questão, sem se dar conta de que nada disso é mais grave ou justifica o assassinato de um inocente… mutatis mutandi, toda a dificuldade de uma pessoa separada não justifica – se ela é católica – a desobedecer um mandamento e ordem moral clara.

    Peço que repense em tudo isso, CG, e espero ter repetido (sem desvios, ou jeitinhos adaptativos) a Doutrina da Igreja, mas não “ad nauseam”, pois a Sã Revelação só causa náuseas aos réprobos; mas sim Ad Maiorem Dei Gloriam.

  10. Ao referir-se à concupiscência como algo da “natureza” masculina animal, Tolkien errou mesmo o termo utilizado, pois o que ele retrata é a condição humana após o pecado… os efeitos do pecado original na carne.

    Essa imprecisão terminológica é mitigada pelo complemento da expressão, com a palavra “animal”, já que a natureza humana em sentido próprio não é puramente animal e nem sequer divisível na sua animalidade, disso – sob caridade interpretativa – se pode supor que o autor tenha se valido de uma figura de linguagem e não que considera a natureza em si corrompida in totum (em todo caso trata-se de expressão estranha, equívoca e mal empregada, é verdade).

    É interessante notar ainda que os conselhos de Tolkien ao filho terminam por conclamá-lo à pureza e fidelidade matrimonial, o que a mim parece afastar a interpretação do Santiago de que ele adotou a tese luterana da corrupção total da natureza humana (que é pessimista quanto a possibilidade de realização dos ideais defendidos e combina mais com o “peca forte e crê mais forte”).

    Um detalhe complementar é o seguinte: a poligamia, nesse ínterim diferentemente da poliandria, não é contrária a ordem natural, embora seja contrária a ordem moral, de maneira que ao dizer – em geral – que os homens a ela tendem, por conta das marcas do pecado original (e aqui, repita-se, Tolkien errou ao usar a expressão “natureza masculina animal”) não é nada senão apresentar uma das consequências da corrupção (não total) que conformam a condição humana.

    Assim entendi o texto, embora eu não seja um conhecedor da obra de Tolkien (nem o li em seu livros, ou sequer assisti aos filmes sobre eles).

  11. Diogo, quando critico a repetição da doutrina da Igreja, o faço no contexto do debate, principalmente nos debates escritos, onde, ao invés de expormos nossas ideias, somente repetimos (CTRL+C, CTRL+V), como papagaios, o que já está pronto. Isso cansa e torna o debate muito pouco produtivo. Agradeço você não ter feito isso mas exposto seu ponto de vista. Não concordo quando você diz que repito argumentos de “divorcistas”. Nunca vi esse meu argumento antes. De qualquer forma, entendo sua posição. Só peço mais empatia, mais caridade com as pessoas inocentes (veja bem, não me refiro àqueles que desprezam a santidade do casamento). Creio que há uma maneira de a Igreja atender melhor a essas pessoas pois não adulteraram, não pecaram, sofreram muito e foram vítimas de outras pessoas. Me parece que simplesmente negá-las sua principal vocação é algo muito pesado e perigoso por que nem sempre as fornicações serão “parcas” ou “eventuais”. Um abraço.

  12. Eu não creio que Tolkien se refere à concupiscência como algo exclusivo da “natureza” masculina, mas sim ele fala da natureza sexual do homem como algo bem diferente da mulher, ao contrário do que pregam os arautos da paridade entre os sexos.
    Monogamia no sentido de fidelidade sexual é o que Tolkien está descrevendo em suas cartas, mas se alguns preferem sacar seus compêndios de teologia moral do bolso e rasgar vestes por não terem entendido bulufas, paciência! Eu entendi perfeitamente e concordo com o artigo.
    E só pra complementar o que o Diogo já disse ao defensor das idéias de Kasper, eu tenho algo a dizer ao CG:
    “o divórcio e a segunda união de qualquer mulher com outro homem enquanto seu marido esteja vivo, ou o casamento de qualquer homem com outra mulher enquanto sua esposa esteja viva, é ao mesmo tempo, uma blasfêmia contra Deus e uma situação de adultério continuado cometido por ambas as pessoas na nova união”.
    Caso haja separação entre marido e mulher, e essa é uma possibilidade e as vezes até uma necessidade em casos específicos, há somente duas opções:
    1-Fique sem casar; ou
    2-se reconcilie.
    Aos casados mando (não eu, mas o Senhor) que a mulher não se separe do marido.E, se ela estiver separada, que fique sem se casar, ou que se reconcilie com seu marido. Igualmente, o marido não repudie sua mulher.( I Coríntios 7-10)
    Portanto meu caro, CG, aqueles que insistem na justificativa do divórcio seguido de adultério, seja ele leigo, padre, Bispo ou até Papa, apenas está recorrendo a uma maneira sutil de chamar Deus de mentiroso.
    E vou continuar sim, a citar a doutrina da Igreja e a Bíblia ad nauseam, porque esse é o conselho paulino:

    “Eu te conjuro em presença de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, por sua aparição e por seu Reino: prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir. Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si.Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas”.
    2 Timóteo 4:1-4

  13. O texto não é escandaloso e muito menos um Lixo! Pelo contrário, é uma preciosidade! Bendito seja Deus, pelas verdades presentes neste escrito! O problema é que nos esquecemos de que sem a graça de Deus nós somos terríveis. Heresia é crer que possamos ser santos sem o poder Divino. Que o texto permaneça! É uma bênção!

    • Exato, Cesar Primo!

      Alguns aqui parecem ter problemas ou de interpretação de texto ou de proximidade ao Pelagianismo…

  14. Obrigado, José Tomás. Quando esquecemos ou não sabemos que somos pó, corremos um grave risco de nos orgulhar ou nos desesperar. Realmente o que o grande Tolkien diz nesta carta é a pura verdade. Somos inclinados ao mal. O que nos detém e o poder de Deus. Os que procuram o Bem serão conduzidos à Verdade, os que se obstinam no mal serão parados por Deus. E é bom para nós sabermos que diante dos exércitos que se lançam contra a Instituição Familiar há o Senhor dos exércitos que com sua Destra exterminará não só os inimigos de fora mas também os de dentro que são nossas próprias fraquezas. Sou casado, que Deus não me permita esquecer que sou fraco e inclinado ao mal mas que sob sua Graça posso ser fiel ao matrimônio sagrado ao qual me entreguei. Mais uma vez: Esse texto é uma preciosidade! Bendito seja Deus!

  15. Eu entendi perfeitamente o que Tolkien expressa em sua carta, mesmo não sendo preciso em suas terminologias filosóficas. Quando se trata de julgar um texto, sem olhar seu contexto, desconsiderando a pessoa, o tempo e a circunstância, dá nisso. Acabam por esperar de uma carta do Sr. Tolkien (de quem eu pouco ouvi falar) uma Suma Teológica. Paciência!

  16. A) Primeiro e antes de tudo, os vícios não se atribuem à natureza, mas aos indivíduos;
    B) O pecado original não corrompeu de modo absoluto a natureza humana; o Luteranismo sustenta que sim.
    C) Mesmo os pagãos são capazes de realizar atos moralmente bons segundo a Lei Natural;
    D) À Lei Natural repugna a poligamia e a multiplicidade de parceiras sexuais;
    E) A monogamia não é um artigo de luxo, uma excentricidade do Cristianismo: é algo perfeitamente conforme à razão e ao direito natural.
    F) Repugna não só à moral revelada, mas à simples razão natural dizer que o ser humano de sexo masculino tenda à multiplicidade de “parceiras” ou à promiscuidade sexual.
    G) Dizer que o ser humano do sexo masculino tende à promiscuidade sexual é, no mais das vezes, um argumento comum na boca de liberais e inimigos da Igreja;
    H) Se o pecado capital de Tolkien era a luxúria, isso só dizia respeito a ele e ao seu confessor. Talvez nem fosse o problema de seu filho a quem ele pretende, grotescamente, aconselhar.
    I) Dizer que as mulheres são necessariamente mais castas que os homens é puro argumento a priori: Aliás, “corruptio optimi, pessima”.
    J) A generalização gratuita de ver nos seres humanos de sexo masculino um bando de faunos insaciáveis fere gravemente a justiça e lança injúria sobre uma incalculável multidão de homens, de todas as gerações, perfeitamente viris, aos quais repugna semelhante comportamento.

  17. Há um excelente texto do Carlos Ramalhete sobre sexualidade humana que ajuda na compreensão dessa carta de Tolkien.
    http://www.hsjonline.com/2011/02/sexualidade-humana-e-tentacao.html
    Aqui vai um trecho pra reflexão:

    “Uma bela mulher andando em trajes sumários faz com que os homens, de maneira puramente instintiva, sintam desejo sexual. É necessário que façam um esforço consciente para não segui-la pelas ruas. Basta ver, por exemplo, como é comum que um homem perca o fio do seu raciocínio quando uma mulher belíssima adentra o recinto, coisa que dificilmente aconteceria com uma mulher, visto que ela estaria, pelo próprio fato de estar argumentando, “com a cabeça em outra coisa”.
    É mais que evidente que isso não justifica nem poderia justificar um crime tão asqueroso quanto um estupro. Mas é necessário que percebamos que no homem é necessário um esforço da vontade orientada pela consciência educada para que ele não proceda como um animal, enquanto que na mulher a situação é totalmente outra.
    É por isso que é tão mais comum (mas não menos condenável, é óbvio) o adultério masculino, que ocorre mesmo quando o homem está apaixonado pela mulher, enquanto que a mulher só comete adultério quando já há um problema em sua relação conjugal.
    Outro fator que causa enorme estranheza mútua entre os sexos é a maneira masculina de ver o corpo “aos pedaços”: seios, pernas, traseiro… Uma mulher pode ser considerada quase que uma união de pedaços de carne unidos entre si, para a maioria dos homens (isso sempre, lembremos, no plano do desejo, não da consideração da mulher como ser humano). Isso leva porém a algo que para as mulheres é especialmente odioso: a impressão de que o homem não se preocupa com elas, que ele não as vê sequer como pessoa (o que é assustador para alguém que vê o sexo como o auge da intimidade entre duas pessoas).

    Os dois primeiros fatores levam a uma tremenda incompreensão de parte a parte (antes da Queda, dizia Adão “carne de minha carne”, ao referir-se a Eva; depois da Queda, ela se tornou “a mulher que pusestes ao meu lado”), piorada ainda por um pretenso feminismo que na verdade busca impingir às mulheres uma visão masculina da sexualidade.

    Assim, chegamos ao ponto mais prático deste longo e cansativo devaneio: o que podem fazer os homens e as mulheres para evitar que sejam levados pela tentação?

    Além evidentemente do auxílio da Graça de Deus, conferida e aumentada pelos sacramentos, e das graças pedidas em oração e recebidas do Espírito Santo, há também o lado do homem. Costumo falar, a respeito da colaboração do homem com a graça de Deus, das bolhas do pé de Abraão. Abraão recebeu a Promessa, mas não ficou sentado esperando que Deus mandasse anjos ou um tapete mágico para levá-lo à Terra Prometida; ele andou, e andou muito. Provavelmente houve momentos em que parecia que não chegaria ao próximo oásis, que dirá à terra Prometida; seus pés certamente ardiam em bolhas, e mesmo assim ele andava.

    Devemos portanto nos mirar no exemplo deste Santo e fazer a nossa parte. Ela consiste principalmente, como colocou nosso irmão Ewerton, em procurar desviar o olhar da fonte de tentação. Sabendo que é pelos olhos que a tentação penetra no homem (ao contrário da mulher, em que ela é um fenômeno muito mais psicológico que visual), o homem deve procurar resguardar o pudor de seus olhos.

    Isto é especialmente difícil em uma sociedade hipersexuada como a nossa, em que somos expostos de todas as formas a corpos nus de mulheres. Mas é necessário, pois quanto mais eles forem vistos, mais fraca fica a nossa vontade e mais forte é a tentação. Alguns poderiam dizer que uma exacerbação de pornografia tem efeito contrário, diminuindo a excitação, mas isso não é verdade; o que realmente ocorre é uma perversão ainda maior da vontade, e uma degeneração moral ainda maior. Realmente pode cessar o desejo sexual normal, e surgirem desejos sexuais mais pervertidos e contrários à natureza (não digo homossexualismo, pois a gênese deste distúrbio é outra, mas outras taras antinaturais heterossexuais), mas a exposição à pornografia, por mais que seja extensa, nunca terá como feito a castidade.

    Assim, em termos práticos, se deve evitar olhar para moças bonitas, evitar contato físico (inclusive Pai Nosso de mãos dadas, por exemplo…), evitar o máximo possível assistir TV, a não ser em canais que não ofereçam pornografia (o que é raro hoje em dia), evitar gravuras de mulheres nuas ou seminuas (presentes hoje em dia até nos jornais e revistas de grande circulação), tapando as gravuras no caso de ser este o único meio de informação…

    Em suma: para que o homem possa melhor combater a tentação da carne, ele deve evitar que ela penetre pelos olhos.

    Pensamentos desordenados também devem ser evitados; medidas higiênicas (banhos frios, passeios, mortificação física) são de grande valia para ajudar a combater os maus pensamentos, além é claro da oração.

    A mulher pode ajudar dando-se conta de que seu corpo é fonte de tentação. Saias amplas, camisas sem decote, véus na igreja, tudo isso são auxílios que a mulher pode dar sem grandes esforços e que ajudam muito a diminuir a tentação dos homens, tão fracos que somos”.

  18. Eu nem vou me dar ao trabalho de rebater essas falácias. Deixo pra alguém que tem muito mais autoridade do que eu e está muito longe de ser considerado um “Luterano”! São Luis Maria Grignon de Montfort em seu Tratado da Verdadeira Devoção.

    “C) Mesmo os pagãos são capazes de realizar atos moralmente bons segundo a Lei Natural”.

    78. Terceira verdade. – Nossas melhores ações são ordinariamente manchadas e corrompidas pelo fundo de maldade que há em nós.
    Quando se despeja água limpa e clara em uma vasilha suja, que cheira mal, ou quando se põe vinho em uma pipa cujo interior está azedado por outro vinho que aí antes se depositara, a água límpida e o vinho bom adquirem facilmente o mau cheiro e o azedume dos recipientes. Do mesmo modo, quando Deus põe no vaso de nossa alma, corrompido pelo pecado original e pelo pecado atual, suas graças e orvalhos celestiais ou o vinho delicioso de seu amor, estes dons divinos ficam ordinariamente estragados ou manchados pelo mau germe e mau fundo que o pecado deixou em nós; nossas ações, até as mais sublimes virtudes, disto se ressentem.
    É, portanto, de grande importância, para adquirir a perfeição, que só se consegue pela união com Jesus Cristo, despojar-nos de tudo que de mau existe em nós. Do contrário, Nosso Senhor, que é infinitamente puro e odeia infinitamente a menor mancha na alma, nos repelirá e de modo algum se unirá a nós.

    B) O pecado original não corrompeu de modo absoluto a natureza humana; o Luteranismo sustenta que sim.

    79. Para despojar-nos de nós mesmos, é preciso conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniqüidade em todo lugar. O pecado de nossos primeiros pais NOS ESTRAGOU COMPLETAMENTE, nos azedou, inchou e corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a massa em que é posto. Os pecados atuais que cometemos, sejam mortais ou veniais, perdoados que estejam, aumentam em nós a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e a corrupção, deixando maus traços em nossa alma.
    Nosso corpo é tão corrompido, que o Espírito Santo (Rom 6, 6; Sl 50, 7) o chama corpo do pecado, concebido no pecado, nutrido no pecado, e só apto para o pecado, corpo sujeito a mil e mil males, que se corrompe sempre mais cada dia, e que só engendra a doença, os vermes, a corrupção.

    A) Primeiro e antes de tudo, os vícios não se atribuem à natureza, mas aos indivíduos;

    Nossa alma, unida ao corpo, tornou-se tão carnal, que é chamada carne: “Toda a carne tinha corrompido o seu caminho” (Gn 6, 12). Toda a nossa herança é orgulho e cegueira no espírito, endurecimento no coração, fraqueza e inconstância na alma, concupiscência, paixões revoltadas e doenças no corpo.
    Somos, NATURALMENTE, mais orgulhosos que os pavões, mais apegados à terra que os sapos, mais feios que os bodes, mais invejosos que as serpentes, mais glutões que os porcos, mais coléricos que os tigres e mais preguiçosos que as tartarugas; mais fracos que os caniços, e mais inconstantes do que um catavento. Tudo que temos em nosso íntimo é nada e pecado, e só merecemos a ira de Deus e o inferno eterno.37
    37) S. Luís Maria fala de nosso nada e de nossa impotência na ordem sobrenatural, sem o socorro da graça (v. com efeito, mais adiante o n. 83: Nosso íntimo…, tão corrompido, se nós apoiamos em nossos próprios trabalhos… para chegar a Deus…).

    O resto nem vale à pena comentar porque cai no terreno da “achologia” e opinião é igual boca, cada um tem a sua.

  19. Irretocável à adição do professor Carlos Ramalhete. Esse texto de Tolkien é um farol esplêndido para entender nossas limitações depois do pecado original. Que má vontade polemizar com um texto tão dócil e animador de um pai para o filho!

    Isso explica como é congelante a caridade no tempo atual. Parece tudo ferido de morte e cegueira. Nossa Mãe Santíssima e o seu amoroso coração triunfe sobre tudo e todos.

    Obrigado D. Gercione. Não sou de comentar com frequência: admiro seu trabalho e amor por Deus. Por favor, continua!