Os atos de governo do Papa podem ser questionados?

Por Roberto de Mattei | Tradução: FratresInUnum.com – Em penetrante artigo, Sandro Magister documentou o vulnus (a ferida) infligido ao matrimônio católico pelos dois Motu Proprio do Papa Francisco, o qual se acrescentou às observações de Antonio Socci no jornal “Libero”, de Paolo Pasqualucci no blog “Chiesa e postconcilio” e minhas no site da agência de imprensa “Corrispondenza Romana”.

Além disso, no dia 10 de setembro último, chegou-nos a confirmação da existência de um clima de séria preocupação no Vaticano, numa reportagem do jornal alemão Die Zeit a respeito do dossiê que ali circularia contra a reforma dos processos de nulidade matrimonial do Papa Francisco (cfr. aqui e aqui).

Um problema delicado se levanta para muitas consciências nesse particular. Seja qual for o juízo que se faça a respeito dos Motu Proprio, estes se apresentam como um ato pessoal e direto de governo do Sumo Pontífice. Surgem então as perguntas: Pode um Papa errar na promulgação de uma lei eclesiástica? E caso um fiel esteja em desacordo com essa lei, não ficaria ele obrigado a guardar silêncio? A resposta provém da doutrina e da história da Igreja.

Muitas vezes tem de fato ocorrido de os Papas errarem em seus atos políticos, pastorais e até magisteriais, sem que isso tenha prejudicado de nenhum modo a validade do dogma da infalibilidade pontifícia. A resistência dos fiéis a esses atos errôneos dos Sumos Pontífices, e em alguns casos até ilegítimos, tem sido sempre benéfica para a vida da Igreja.

Sem remontar demasiadamente no tempo, deter-me-ei num acontecimento que data de dois séculos atrás. O pontificado de Pio VII (Gregório Chiaramonti, que governou a Igreja entre 1800 e 1823), como o de seu predecessor Pio VI, conheceu momentos de dolorosa tensão e de áspera luta entre a Santa Sé e Napoleão Bonaparte, imperador dos franceses. Em 15 de julho de 1801, Pio VII assinou uma concordata com Napoleão, pensando com isso encerrar a época da Revolução Francesa.Mas Bonaparte demonstrou pouco depois que sua verdadeira intenção era de criar uma Igreja nacional a serviço de seu poder. Em 12 de dezembro de 1804, Napoleão coroou-se imperador com as próprias mãos (na presença do Papa) e, poucos anos mais tarde, invadiu novamente Roma, anexando os Estados Pontifícios à França. O Papa foi aprisionado, transferido para Grenoble e depois para Savona (1809-1812).

O embate tornou-se mais agudo por ocasião do segundo casamento do imperador. Napoleão tinha se casado com Josefina de Beauharnais no dia 2 de dezembro de 1804, na véspera da coroação,após a imperatriz ter-se jogado aos pés de Pio VII e confessado que estava unida ao imperador apenas por um casamento civil. O Papa fez então saber a Napoleão que não participaria da cerimônia de coroação senão depois de o casal estar regularmente unido pelos laços sagrados do matrimônio religioso. O casamento foi precipitadamente celebrado naquela noite pelo Cardeal Fesch, tio de Napoleão.

Josefina, porém, não deu herdeiros a Napoleão, e suas origens não eram suficientemente ilustres para um homem que queria governar a Europa e aparentar-se com seus soberanos. O imperador decidiu então fazer anular seu matrimônio, para poder casar-se com Maria Luísa de Áustria [irmã da Imperatriz Leopoldina – N. do T.], filha do mais importante soberano europeu.

Em 1810 um senatus consultus dissolveu o matrimônio civil, e imediatamente depois o tribunal diocesano de Paris sentenciou a nulidade do matrimônio religioso de Napoleão com Josefina. A Santa Sé não reconheceu essa declaração de nulidade, emanada de prelados complacentes, e quando, em 2 de abril de 1810, o imperador entrou na capela do Louvre para suas segundas núpcias com Maria Luísa, encontrou vazios os lugares de treze cardeais convidados à cerimônia.

Com seu gesto, esses cardeais tinham querido exprimir sua convicção de que a declaração de nulidade do matrimônio podia emanar unicamente do Papa. O imperador tratou-os como rebeldes e inimigos do Estado, e os condenou a depor imediatamente suas vestimentas e insígnias cardinalícias e a trajar-se como simples sacerdotes: daí eles ganharem o nome de “cardeais negros” ou “zelanti” (zelosos), em contraste com os “vermelhos”, ligados a Napoleão e favoráveis ao seu novo casamento.

Pio VII oscilou entre as duas tendências, mas em 25 de janeiro de 1813, abatido pela luta, firmou um Tratado entre a Santa Sé e o imperador, no qual subscreveu certas exigências incompatíveis com a doutrina católica. O documento, conhecido como “Concordata de Fontainebleau” (cfr. o texto em Enchiridion dei Concordati. Due secoli dei rapporti Chiesa-Stato, EDB, Bologna, 2003, nn. 44-55) aceitava de fato o princípio da submissão da Santa Sé às autoridades nacionais francesas, colocando a Igreja nas mãos do imperador.

Esse ato, no qual o Papa agia publicamente enquanto cabeça da Igreja Católica, foi imediatamente julgado pelos fiéis da época como catastrófico e ainda é considerado como tal pelos historiadores católicos. O Pe. Ilario Rinieri, que dedicou três volumes ao estudo das relações entre Pio VII e Napoleão, escreve que a Concordata de Fontainebleau “foi desastrosa como nunca para a soberania do Pontífice Romano e para a própria Sé apostólica” (Napoleone e Pio VII [1804-1813]. Relazioni storiche su documenti inediti dell’archivio vaticano, Unione Tipografico-Editrice, Torino, 1906, vol. III, p. 323), acrescentando: “Como o Santo Padre Pio VII foi capaz de deixar-se induzir a subscrever um tratado que continha condições tão desastrosas, é um desses fenômenos cuja explicação ultrapassa os direitos da história” (ibid., p. 325).

“Não é possível descrever a impressão sinistra e o péssimo efeito que a publicação dessa Concordata produziu”, lembra o Cardeal Bartolomeu Pacca (1756-1844) nas suas Memórias históricas (Ghiringhello e Vaccarino, Roma, 1836, vol. I, p. 190). Não faltaram os que  acolheram a Concordata com entusiasmo, nem aqueles que, criticando-a por debaixo do pano, não tinham ousado exprimir-se publicamente, por servilismo ou por uma formação teológica errada. O Cardeal Pacca, pro-Secretário de Estado de Pio VII, porém, pertencia àquela turma de cardeais que, após terem tentado em vão dissuadir o Papa de assinar o documento, declararam que “não havia outro remédio para o escândalo dado ao catolicismo e os gravíssimos males que a execução de tal Concordata acarretaria para a Igreja, senão uma imediata retratação e uma anulação geral de tudo por parte do Papa; e alegavam o exemplo de Pascoal II, conhecidíssimo na história eclesiástica” (Memórias históricas, vol II. p. 88).

A retratação veio. Diante das censuras dos cardeais “zelanti”, Pio VII, com muita humildade, deu-se conta do erro e, em 24 de março de 1813, assinou uma carta a Napoleão, na qual se leem as seguintes palavras: “Daquele documento, apesar de subscrito por Nós, diremos a Vossa Majestade o mesmo que teve a dizer nosso Predecessor Pascoal II no caso similar de um escrito por ele assinado que continha uma concessão a favor de Henrique V [imperador do Sacro Império Romano Germânico], da qual a sua consciência teve motivos para arrepender-se: ‘como reconhecemos tal escrito como mal feito, da mesma maneira como mal feito o confessamos, e com a ajuda do Senhor desejamos que imediatamente seja emendado, a fim de que dele não resulte nenhum dano para a Igreja e nenhum prejuízo para a Nossa alma’” (Enchiridion, cit. n° 45, pp. 16-21).

Na Itália, a retratação do Papa não foi conhecida logo em seguida, mas apenas a Concordata por ele assinada. O venerável Pio Brunone Lanteri (1759-1830), que dirigia o movimento das Amicizie Cattoliche (“Amizades Católicas”), compôs imediatamente um documento de firme crítica ao ato do Pontífice, escrevendo entre outras coisas o seguinte: “Mas objetar-se-á que o Santo Padre tudo pode: ’quodcumque solveris, quodcumque ligaveris etc.’ É verdade, mas ele não pode nada contra a divina constituição da Igreja; ele é Vigário de Deus, mas não é Deus, nem pode destruir a obra de Deus” (Scritti e documenti d’Archivio,II, “Polemici-Apologetici”,Edizione Lanteri, Roma-Fermo, 2002, p. 1024).

O venerável Lanteri, que era um incansável defensor dos direitos do Papado, admitia a possibilidade de resistir ao Pontífice em caso de erro, sabendo que o poder do Papa é supremo, mas não ilimitado nem arbitrário. O Papa deve, como todo fiel, respeitar as leis natural e divina, das quais ele é, por mandato divino, o guardião. Ele não pode mudar a regra da Fé nem a constituição divina da Igreja (por exemplo, os sete Sacramentos), da mesma forma como os soberanos temporais não podem mudar as leis fundamentais do reino, porque, como lembra Bossuet, violando-as “abalam-se todos os fundamentos da terra (Sl 81,5)” (Jacques-Benigne Bossuet, Politique tirée des propres paroles de l’Ecriture Sainte, Droz, Genebra, 1967, p. 28).

Ninguém poderia acusar o Cardeal Pacca de empregar uma linguagem excessivamente forte, nem o venerável Pio Brunone Lanteri de fraca adesão ao Papado. As Concordatas, como os Motu Proprio, as Constituições Apostólicas, as Encíclicas, as Bulas, os Breves, são atos magisteriais e legislativos que exprimem os ensinamentos e a vontade pontifícia, mas que não são infalíveis, a menos que o Pontífice, no ato de promulgá-los, manifeste a intenção clara de definir pontos de doutrina ou de moral de maneira vinculante para todos os católicos (cfr. R. Naz, “Lois ecclésiastiques”, in Dictionnaire de Théologie catholique, vol. VI, coll. 635-677).

O Motu Proprio do Papa Francisco sobre as declarações de nulidade matrimonial é um ato de governo que pode ser contraditado e revogado por um ato de governo sucessivo. O Motu Proprio Summorum Pontificum de Bento XVI sobre a liturgia tradicional, de 7 de julho de 2007, foi vigorosamente debatido e criticado (cfr. por exemplo a confrontação a duas vozes entre Andrea Grillo e Pietro De Marco, Ecclesia universa o introversa. Dibattito sul motu proprio Summorum Pontificum, Edizioni San Paolo, Cinisello Balsamo, 2013).

Até o próximo dia 8 de dezembro, o Motu Proprio do Papa Francisco – que foi até aqui o seu mais revolucionário ato de governo – ainda não terá entrado em vigor. Será ilegítimo solicitar ao Sínodo que discuta essa reforma matrimonial e que um grupo de cardeais “zelanti” requeira a sua revogação?

16 Comentários to “Os atos de governo do Papa podem ser questionados?”

  1. Os atos de governo do Papa podem ser questionados?

    R- Segundo os cleaners isso pode dar excomunhão.

  2. Quem sou eu para criticar o professor de Mattei, mas ele fez uma infeliz comparação entre um ato político (de Pio VII) e um ato doutrinal e moral (de Francisco). Obviamente, o Papa, quando merecido, recebe críticas e espera-se dele a atitude humilde, como a citada de Pio VII, afim de que volte atrás no erro e siga o caminho imutável quisto por Deus Nosso Senhor.

  3. O Papa deve ser o SERVUS DOMINI DEI SERVORUM, o 1º servidor, o que está à frente da Igreja, a qual é a extensão do Corpo de Cristo, conf. Cl 1 18 etc.
    Ele não serve a si mesmo, mas a Igreja, e se esforça para melhor servi-la, tendo muitas dezenas de exemplos irretocaveis de Santos Padres, exímios mestres da fé e de governo da Igreja, inclusive dando a vida por ela.
    Mas, se em meio aos 12 apóstolos existiu um que fraquejou, dentre esses também, mas nem por isso a essência da Igreja sofreu qualquer arranhão: ela é imune às eventuais fragilidades de seus dirigentes em todas as esferas!
    Enquanto isso, a infalibilidade papal nos quesitos em que se encerra, se mantém!
    Nas questões em que se atenta contra a doutrina da Igreja, contra as leis estabelecidas desde os apóstolos e aos Mandamentos apenas o Legislador, Jesus Cristo, tem autoridade suficiente para modificá-los!
    “Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema”. Gl 1,9.

  4. Texto absolutamente desastroso, que faz “A” parecer “B”. O pior é que os leitores irão acreditar…

  5. O próprio Divino Mestre disse que os “filhos das trevas” são mais prudentes em seus negócios que “filhos da luz” nos seus. Embora condenados por São Pio X, os Modernistas fizeram questão de permanecer na Igreja e até fingindo ter abaixado a cabeça, mas, como a serpente que esconde a sua para armar na hora certa o bote. Os modernistas viram no Concílio Vaticano II, a hora azada para preparar o bote. O mais certeiro seria conseguir um papa a seu favor, conscientemente ou não, não importa. Lamentaram, uns abertamente, outros nem tanto, que o finado Cardeal Martini de Milão não tenha sido papa e, pior, que tenha morrido. Estaria do lado do Cardeal Kasper neste Sínodo, com toda certeza. Mas com a renúncia de Bento XVI aflorou uma nova esperança para eles. E agora pensam que é o momento certo, propício e talvez único para muitos deles. Ou agora, ou, quiçá, nunca! É preciso mudar a Igreja: este é o único dogma dos modernistas, justamente porque pregam a evolução dos dogmas. Dizia São Pio X., que, se fosse possível, os modernistas seriam capazes de destruir a Igreja pelos fundamentos.
    Nosso Senhor Jesus Cristo já nos deu a garantia de que a Igreja é Sua, e portanto indefectível. Mas os modernistas são tentados pela serpente infernal, pai da mentira, que eles, os modernistas, “SERÃO COMO DEUSES”. O orgulho, tendo como pábulo o desejo de NOVIDADES, deixa a terreno modernista bem preparado para esta tentação poder prevalecer, crescer e se fortificar cada vez mais.
    “MAS AS PORTAS DO INFERNO NUNCA CONSEGUIRÃO PREVALECER SOBRE A IGREJA”.

  6. O artigo de Roberto de Mattei é um alento para todos os que lutam pela fé católica e sofrem com a crise da Igreja. Crise que, como está dito, provoca problemas de consciência: “caso um fiel esteja em desacordo com essa lei, não ficaria ele obrigado a guardar silêncio?”. De minha parte rezo para que membros da hierarquia levantem suas vozes e defendam a Santa Igreja. O cardeal Burke e mais alguns prelados, graças a Deus, já o fizeram. Jornais católicos americanos, como o “The Wanderer” e o “National Catholic Register” têm publicado artigos mostrando a possibilidade de um Cisma, o que a mídia brasileira, incluindo a católica, não tem nenhum interesse em registrar. Por isso mesmo, tal como tem feito meritoriamente o Fratres, pretendo postar nesta semana, em meu site http://www.claravalcister.com artigos, sobre o assunto.

  7. Se os atos do Papa podem ser questionados? Pergunte isso para os Bispos modernistas que jamais permitiram que o Indulto Ecclesia Dei fosse implementado em suas dioceses, que rasgaram suas casulas quando Bento XVI emitiu o Summorum Pontificum e continuam perseguindo e punindo padres que ousam celebrar a Missa Tradicional, sem que sofram nenhuma represália por isso.
    Obediência cega é coisa de católico tramontano, porque os modernistas, como bem denunciou São Pio X na Pascendi, estão pouco se importando para o que vem de Roma, exceto quando são medidas revolucionárias a seu favor.
    Qualquer Bispo que tem ainda um pingo de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e algum resquício de fé sobrenatural, tem por obrigação resistir a Bergoglio e suas medidas catastróficas para a Igreja. Aproveitem que o próprio “Indulto do Divórcio” dá poderes a cada Bispo individualmente e simplesmente não apliquem esse Indulto em suas Dioceses.

    • Cara Gercione Lima veja o que acontece em Portugal e as tácticas destes homens da modernidade.
      Na carta aos sacerdotes o Cardeal Dom Jóse Policarpo patriarca de Lisboa só coloca entraves à realização das Santas missas em latim. Vejam este exemplo; uma vez que “Infelizmente muitos sacerdotes da nossa Diocese já não sabem o latim. Esses sacerdotes devem considerar-se não idóneos para presidir à Missa segundo o Missal de 1962.”* Em vez de exigir mais Latim nos seus seminários para que saiam seminarista com habilitações de latim necessárias para a realização das mesmas, simplesmente lamenta-se como alguém que está de fora, esquecendo as suas responsabilidades .
      A história resume-se a isto; os progressistas primeiro destroem e depois lamentam o sucedido como se nada fosse com eles, e para piorar a situação criam entraves artificiais. Eles juram fidelidade ao papa e a Cristo mas depois fazem apenas aquilo que lhes convém. O que interessa é viver o ” ggiornamento” proposto pelo Concílio”, o resto são tolices, mesmo que venham de papas. Sei que neste momento são celebradas muitas missas em latim às escondidas em Fátima porque os sacerdotes sentem medo das represálias. Sinto-me enganado como Católico e Português nunca pensei ver tanta safadeza dentro da Igreja de Cristo.O Summorum Pontificum de Bento XVI é letra morta em Portugal
      *http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/documentos/d-jose-policarpo-escreve-aos-padres-sobre-o-motu-proprio/

  8. Parabéns, Anderson Serafim, pelo comentário certeiro. Realmente, Roberto de Mattei tratou erroneamente de equívocos políticos como se estes fossem desvios magisteriais, e você fez muito bem em apontar este fato.

    Lembrando que o Vaticano I definiu infalivelmente no parágrafo 1827 que o poder do papa é imediato e que devemos nos sujeitar a ele por “verdadeira obediência” nas coisas referentes à fé, aos costumes, à disciplina e ao regime da Igreja. E finaliza: “Esta é a doutrina católica, da qual ninguém pode se desviar, sob pena de perder a fé e a salvação”.

    E tem muitos e muitos estudos e documentos no depósito bi-milenar católico demonstrando que o Papa, seja ele qual for, bom ou mal, não pode se enganar e nem enganar os fiéis nem quando trata de dogmas e nem quando trata de matérias conexas com estes dogmas. Seria o caso aqui, pois se trata de matéria conexa com o sagramento do matrimônio.

    Abraços a todos,

    Sandro de Pontes

    .

    • Não sabiam, Sandro e Anderson, que submeter o poder pontificio nesse caso peculiar ao Estado, caso Napoleão, não seria rebaixar o governo da Igreja e a sua doutrina às ideias profanas do Imperador, e que perdurou até à retratação?…
      A atitude do papa incluiu ambos: correção, tanto da de governo como doutrinaria, essa implicitamente subtendida!

    • O referido parágrafo:

      “1827. Ensinamos, pois, e declaramos que a Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas, e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é imediato. E a ela [à Igreja Romana] devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo, de tal forma que, guardada a unidade de comunhão e de fé com o Romano Pontífice, a Igreja de Cristo seja um só redil com um só pastor. Esta é a doutrina católica, da qual ninguém pode se desviar, sob pena de perder a fé e a salvação.”

      Salve Maria.

  9. Geraldo, boa noite.

    “(…) a infalibilidade do magistério extraordinário e do magistério ordinário não se estende unicamente aos dogmas que Deus revelou, mas também às consequências que neles estão contidas, e em geral a tudo o que com eles é conexo, a tudo o que é indispensável para conservá-los intactos e protegê-los contra os ataques e as armadilhas do erro. Sem isso, Deus não teria tomado medidas suficientes para que os pastores sagrados estivessem em condições de preservar os fiéis contra as fontes envenenadas, Ele não os teria provido dos meios necessários para garantir eficazmente o depósito da fé que a eles foi confiado” – Rev. Pe. Matteo LIBERATORE, S.J. (1810-1892), Duas mentiras sobre a infalibilidade refutadas, 1888; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, set. 2015, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2zv – Fonte: R.P. Matteo Liberatore, S.J., Le Droit public de l’Église, Paris: Ed. Retaux-Bray, 1888, p. 113s; apud N.M., “Extrêmement rare ?”, 14 fev. 2009

    Tenha um santo domingo.

    Sandro de Pontes

  10. Pode-se criticar um pronunciamento do Papa?

    Bento XVI assim se exprimiu: “Doutra parte, é possível e até necessário criticar os pronunciamentos do papa, se não estiverem suficientemente baseados na Escritura e no Credo, ou seja, na fé da Igreja universal. Onde não houver, nem a unanimidade da Igreja universal, nem o claro testemunho das fontes, não pode também haver uma definição que obrigue a crer. Faltando as condições, poder-se-á também suspeitar da legitimidade [de um pronunciamento papal]”.

    (Joseph Ratzinger, Das Neue Volk Gottes – Enwürfe zur Ekkleseologie, Düsseldorf: Patmos-Verlag, 1969, trad. br. por Clemente Raphael Mahl: O Novo Povo de Deus, São Paulo: Paulinas, 1974, p. 140

     “Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o Papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica TRADIÇÂO e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor aqueles que pretendem fazer o que querem.” (Cardeal Ratzinger)

     “Deve-se resistir ao Papa que abertamente destrói a Igreja.” (São Caetano)

     “O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o mistério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à sua Palavra.” (Bento XVI)

     “É necessário obedecer um Papa em todas as coisas enquanto não vá contra os costumes universais da Igreja, mas se ele fosse contra os costumes da Igreja, ele não precisa ser seguido.” (Papa Inocêncio III)

     “Se um futuro Papa ensinar algo contrário à fé católica, não o sigam.” (Pio IX. Carta ao Bispo Brizen, Citado e, ‘In his name’. E. Chistopher Reyes, 2010.)

     “Pedro não tem necessidade de nossas mentiras e bajulações. Aqueles que cega e indiscriminadamente defender cada decisão do Sumo Pontífice são os mesmos que fazem minar a autoridade da Santa Sé – eles destroem em vez de reforçar os seus fundamentos.” (Bispo Melchior Cano OP – teólogo do Concílio de Trento)

    • Parece que o santo padre Bento XVI já PROFETIZAVA o que sucederia após “ser saído”, era clarividente!…
      E já ANTECIPADAMENTE alertava a todos que se precavissem contra o que um eventual próximo papa contradissesse de seu ensinamento tradicional…
      O papa Bento XVI é realmente ser angélico; será que desejaria nos comunicar que hoje incidiríamos no 2 Ts 2,7 – será?…
      Já notaram que o papa Francisco em seus documentos e falas seria liberal, tipo: se gostou, adote ou não, parecendo que definições de fé a altas cátedras não é com ele – não teria também boa cultura teológica – não acham?
      SANTO SUBITO!
      Aliás, segundo o portal esquerdista UOL, o papa Francisco teria presenteado Fidel Castro com uma obra do tal qual frei Betto: “Fidel e a religião”.
      Booooom!

  11. Napoleão debilitou ao máximo as forças de Pio VII, que cedendo a perseguição psicológica, acabou assinando o esboço de uma convenção, que o Imperador fez passar por concordata e ficou conhecida como a “Concordata de Fontainebleau”. Francisco exerce o seu governo em Roma, em plena liberdade e sem nenhuma perseguição psicológica, por isso, creio eu, não existe termo de comparação.

    O Professor Roberto de Mattei ainda diz:

    “O Cardeal Pacca, pro-Secretário de Estado de Pio VII, porém, pertencia àquela turma de cardeais que, após terem tentado em vão dissuadir o Papa de assinar o documento, declararam que…”

    Me pergunto: como o Cardeal Pacca pode ter tentado dissuadir o Papa a assinar o documento, se ele ficou preso na Fortaleza de Fenestrelle entre 1809 a 1813 e o documento foi assinado em 25 de janeiro de 1813? Napoleão permitiria a visita do Cardeal Pacca a Pio VII?

    Difícil saber como se deu essa comunicação, uma vez que, primeiro pelo questionamento acima e depois porque a comunicação papal era realizada exatamente pela Amicizia Cristiana do Padre Pio Brunone Lanteri de forma secreta. Se houve uma tentativa de persuasão de Pio VII, feita pelo Cardeal Pacca, essa só pode ter sido feita por escrito e através da Amicizia Cristiana: será que ninguém guardou uma cópia do documento?

  12. “Embora condenados por São Pio X, os Modernistas fizeram questão de permanecer na Igreja e até fingindo ter abaixado a cabeça, mas, como a serpente que esconde a sua para armar na hora certa o bote. Os modernistas viram no Concílio Vaticano II, a hora azada para preparar o bote. O mais certeiro seria conseguir um papa a seu favor, conscientemente ou não, não importa. Lamentaram, uns abertamente, outros nem tanto, que o finado Cardeal Martini de Milão não tenha sido papa e, pior, que tenha morrido.”

    Pio XI foi dissuadido a não convocar um Concílio, justamente, por temer essa esse desastre que os modernistas calados por Pio X, continuavam ativíssimos por debaixo dos panos, como um câncer que corrói sorrateiramente um organismo por dentro…

    E olhe que o cardeal Martini, apesar de ser opositor a candidatura de Ratzinger, não apoiava Bergóglio como candidato, e ele, como Bergóglio, era jesuíta… Se um liberal não apoiava um companheiro seu de linha de pensamento e irmão de congregação, boa coisa não devemos esperar de Bergóglio, ou melhor, já estamos sentindo e vendo a barafunda que está causando esse pontificado…