“Inaceitável”.

Por Xavier Rynne II – Catholic Herald, 4 de outubro de 2015 | Tradução: FratresInUnum.com – Como Robert Royal escreveu na 1ª edição de Cartas do Sínodo, questões de procedimento dúbio infestaram o Sínodo 2014. Em direção ao sínodo 2015, sérias preocupações foram manifestadas de que manipulações semelhantes infestariam o sínodo que começa seus trabalhos amanhã.

O controverso arcebispo Bruno Forte, ao centro, está na comissão para o relatório final do sínodo (CNS)

Essas preocupações foram agora significativamente amplificadas por relatos sobre os procedimentos que o secretariado geral para o sínodo planejaram para o sínodo 2015 – sem consulta do conselho geral do sínodo – e pela divulgação do rol de padres sinodais encarregados de compôr o relatório final do sínodo 2015.

Mais de um padre sinodal descreveu tanto os procedimentos quanto a comissão do relatório final como “inaceitáveis”. As razões para esse julgamento áspero não são difíceis de compreender.

Com relação aos procedimentos:

As discussões do sínodo, tanto em assembleia geral e em grupos de discussão separados por idioma, serão estruturadas pelo Instrumentum Laboris publicado alguns meses atrás – um documento que foi alvo de críticas em todo o mundo católico; um documento que é marcado pelo que pode ser chamado de um impressionante “déficit Cristológico”; um documento que muitos padres sinodais acreditam ser uma base totalmente inadequada para seu trabalho e para a reflexão da Igreja sobre o casamento e a família.

Os discursos (“intervenções”, no jargão do sínodo) à assembléia do sínodo serão limitados a três minutos de duração, isto é, em torno de 750 palavras – menos que o tamanho de um sermão típico de Missa. Essas intervenções, de acordo com os procedimento anunciados, são propriedade do sínodo e não serão publicadas.

O núcleo das discussões do Sínodo será conduzido em grupos de discussão separados por idioma (circuli minores), cujas conclusões não serão publicadas. Relatórios filtrados sobre o sínodo serão dados em conferências de imprensa diárias, sendo os porta-vozes escolhidos pelo secretariado geral do sínodo – presumivelmente, por sua confiabilidade em levar a mensagem que o Cardeal Lorenzo Baldisseri, o secretário geral do sínodo dos bispos, e o arcebispo Bruno Forte, querem que seja levada. (O Arcebispo Forte é o secretário especial do sínodo e o homem que se acredita que foi o autor principal do profundamente deficiente relatório intermediário que causou uma revolta em grande escala entre os padres do sínodo 2014).

Parece que não haverá “proposições” geradas pelos grupos de discussão, o que significa que não haverá votações de proposições, ou seja, os padres do sínodo não serão solicitados a expressar suas convicções publicamente a respeito de coisa alguma.

Com relação à comissão do relatório final:

Seus membros incluem homens sérios da igreja, mas como um padre do sínodo expressou, pouquíssimos membros da comissão foram defensores explícitos do ensinamento e da prática tradicional da Igreja quanto à Sagrada Comunhão para os divorciados e recasados civis. E mais, a comissão não inclui nenhum daqueles que mais abertamente defenderam essa doutrina como irreformável por ter base na Revelação Divina. Também é impressionante que nenhum dos padres sinodais americanos, canadenses, australianos ou poloneses eleitos sejam membros da comissão, aliás, como nenhum dos (“delegate-presidents”) são membros. Não obstante, a comissão inclui o Cardeal Baldisseri e o arcebispo Forte.

É tudo um tanto quanto… extraordinário.

Não há absolutamente nenhum precedente na história contemporânea da Igreja de um sínodo no qual não haja nem proposições nem votações – os principais instrumentos pelos quais os padres do sínodo tornam públicas as suas convicções.

A redução da discussão da assembléia geral a três minutos durante os quais os padres devem tratar de questões graves e complexas envolvidas na crise global contemporânea de castidade, casamento e da família, impede qualquer intercâmbio sério entre os padres do sínodo na assembléia geral. E, como muitos outros aspectos dos procedimentos anunciados pelo Cardeal Baldisseri em 2 de outubro (incluindo o embargo de textos das intervenções e a ausência de relatórios públicos dos grupos de discussão), essa restrição parece a muitos uma pura e simples contradição do chamado do Papa Francisco para o diálogo aberto sobre os assuntos graves que o sínodo está abordando. O povo da Igreja não tem o direito de saber o que seus pais em Cristo estão dizendo sobre temas que determinam a vida do Corpo como um todo, e mais especialmente seus membros leigos? É esse o tipo de processo que promove uma reflexão séria sobre a resposta católica à crise da castidade, do casamento e da família no século 21? 

Além disso, por que está pré-determinado que o Instrumentum Laboris, já criticado por muitos como grosseiramente inadequado (e em alguns casos dúbio doutrinalmente) irá servir de base para as discussões?

O jogo de cartas marcadas foi escancarado e portanto, desajeitado, no sínodo 2014. As cartas marcadas pioraram no entreato do sínodo 2015, notadamente na composição da comissão do relatório final. Será que uma maioria de padres sinodais concordará com alguns que já concluíram que essa comissão não pode ser arrumada por uma expansão (isto é, acrescentando membros), mas deve ser rejeitada pelo sínodo como um todo e uma nova lista de membros escolhida – seguindo, assim, o modelo pelo qual o cardeal Achille Lienart e outros mudaram o curso da primeira sessão do Concílio Vaticano II em seus dias de abertura? Será que os protestos contra esse jogo de cartas marcadas incluirá padres sinodais além da África e da anglosfera – italianos, poloneses, talvez bispos franceses e latino-americanos também?

Ao criar o sínodo dos bispos, o Beato Paulo VI voltava a um período nobre da Igreja, a era dos Padres, em que sínodos locais e concílios ecumênicos criavam a base doutrinal fundamental da ortodoxia católica através de um intercâmbio rigoroso (e às vezes dissonante) de visões. Contudo, revisitar alguns dos pontos altos daquele período é ver o quão inaceitáveis são os planos atuais para a condução do sínodo de 2015, mesmo considerando as diferenças entre um sínodo e um concilio ecumênico.

Imagine só, Atanásio em Nicéia I concordando em confinar a sua visão sobre o arianismo em uma “intervenção” de três minutos. (Ou se você quiser levar a sua imaginação para mais longe, visualize aquele primeiro concílio convidando simpatizantes de Ário para ajudar a elaborar o Credo Niceno). Imagine Cirilo de Alexandria no Concílio de Éfeso aceitando um “procedimento” que confinasse a sua crítica ao nestorianismo e sua defesa de Maria como Mãe de Deus (Theotokos) a três minutos, ou que eliminasse o presidente do concílio – ele próprio – do processo de elaborar os cânones do concílio. Imagine o Papa São Leão Magno concordando que o seu “Tomo”, que preparou a estrutura da doutrina do concílio de Calcedônia sobre a relação do divino com o humano em Jesus Cristo, fosse restrito a 750 palavras.

Imagine qualquer uma ou todas essas coisas, e veja o quanto os procedimentos para o sínodo 2015 traem a tradição dos Padres, um dos pontos altos da colegialidade episcopal na história da Igreja.

O sínodo 2014 alcançou o cume de sua crise no meio das suas três semanas de trabalho. O Sínodo 2015 provavelmente alcançará a sua primeira crise nos seus primeiros dias. O que for decidido nesses dias iniciais irá determinar se o Sínodo de 2015 é o “diálogo aberto” que o Santo Padre repetidamente convocou: um diálogo no qual a luz da Revelação pudesse ser lançada sobre um conjunto de problemas que estão causando imenso sofrimento em todo o mundo; um diálogo que de fato apaziguasse a questão, pelo menos para este momento da história, de se a Igreja Católica permanece uma Igreja fundada e em última instância governada pela divina Revelação.

O que, por sua vez, sugere que retornemos ao significado grego original de “crise”, lembrando que uma “crise” é um momento de grande oportunidade, bem como um momento de perigo considerável.

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7 Comentários to ““Inaceitável”.”

  1. Nós precisamos ser realistas:

    Foi Bergoglio que nomeou o cardeal italiano Francis Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, o cardeal que mais tarde se gabou publicamente sobre como ele iria manipular o Sínodo para fins nefastos.
    Foi Bergoglio que nomeou o resto da liderança do Sínodo, a liderança que produziu o desastroso e não-católico Instrumentem Laboris de 2014.
    Foi Bergoglio que aprovou esse desastroso Instrumentem Laboris.
    Foi Bergoglio, que analisou e aprovou a obscena e herética Relatio post disceptationem, um documento que foi justamente chamado pelo grupo Voice of the Family como “um dos piores documentos oficiais redigido em história da Igreja.”
    Foi Bergoglio, que permitiu a tentativa inicial pelo cardeal Baldisseri de evitar a reação contra esse documento por parte dos Padres sinodais quando esse foi publicado.
    Foi Bergoglio, que só por sua autoridade, ordenou a publicação dos parágrafos preocupantes e não-católicos rejeitados pelos Padres sinodais no documento final do Sínodo 2014.
    Foi Bergoglio, que aprovou o igualmente preocupante Instrumentem Laboris para o Sínodo em 2015.
    Foi Bergoglio que no mês passado ordenou mudanças no processo de anulação, mudanças que tem a forte oposição por parte de muitos Padres sinodais, e que sem dúvida, levará a abuso generalizado e o enfraquecimento da instituição do matrimônio.

    Inaceitável é tudo que Bergoglio vem fazendo por atos e palavras.
    Notem que o pseudo- sínodo nem acabou e suas medidas já estão sendo implementadas até nos capilares do Corpo de Cristo que é a Igreja:

    “Domingo na minha Diocese teve um encontro dos casais de segunda união. Teve a presença de 30 casais e eles querem caminhar na Igreja e construir uma vida nova. Foi falado muito sobre o perdão e que eles deveriam fazerem as pazes com o passado deles. Perdoar e pedir perdão pelos erros do passado. Foi lindo”.

    Isso vindo de uma mulher de 70 anos que se apresenta como freira! A essa altura somos obrigados a reconhecer como esse pseudo-sínodo tornam atuais as palavras de São Paulo aos Gálatas:

    Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho. O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.
    Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema.
    Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo.
    (Gálatas 1:6-10)

    O Sínodo ainda está no seu início e já tem freirinhas, padres e Bispos modernistas colocando em ação o que foi pré-determinado por esses homens maus: transtornar o Evangelho de Cristo, mudar a verdade de Deus em mentira, agradar os homens e não a Deus.
    E o fazem com a maior cara de pau e entusiasmo, afinal não foi Monsenhor Paglia que disse que o carro já está na estrada e não tem mais volta?
    Precisamos sim rezar e muito pelo destino da Igreja, mas Cristo não nos pediu apenas que orássemos. Vigiai e Orai foi a palavra de ordem. Precisamos estar atentos, vigilantes, de olho no que esses homens estão fazendo e denunciá-los abertamente, porque se nós nos calarmos, as pedras falarão.
    Não desanimemos, pois Deus nunca nos faltará. Ainda que Ele tenha perguntado:
    _ Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?
    Cabe a nós responder da mesma forma que Pedro respondeu ao ser indagado se O amava:
    _ “Senhor, TU SABES TODAS AS COISAS; tu sabes que te amo.” e com toda convicção, com a mais absoluta convicção, eu afirmo que Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua Gloriosa Vinda, achará sim a fé sobre essa Terra, em virtude de Ele mesmo ter rogado ao Pai, na sua perfeita e infalível oração, para que a nossa fé não desfaleça.(Lc.22:32)

  2. Alguém, em sã consciência, ainda tem alguma dúvida, quanto ao teor do relatório final?
    Será que nossa Igreja já teve algum outro déspota, deste nível?

  3. Sinto calafrios só de ouvir em intervenções e direcionamentos quando provindos e encabeçados por Cardeais como Bruno Forte, Baldisseri ou Kasper e similares incrustrados dentro de parte do controverso episcopado modernista alemão, em particular, pois têm garantia de endereço certo: batendo ás portas da DITADURA DO RELATIVISMO e sob a égide do POLITICAMENTE CORRETO!
    Que DIÁLOGO estranho esse, em que trazem as fórmulas prontas e os impõem em nome da “misericordia, acolhimento e tolerância etc”., mais se pareceriam com as falsarias propagandas de partidos socialistas prometendo aos pobres toda a felicidade e o ceu nesse mundo!
    O trio acima entre parênteses parece que nesse Sínodo vai dar pano prá manga!
    Teria sido o “Preparatorio” em 2014 para a concretização desse no mesmo rumo em 2015, sem causarem tantos traumas?
    Afinal, os espíritos não já teriam sido alertados para o desenlace doutrinario pelo “Preparatório” pelos sucessivos abrandamentos e concessões nesse intervalo aos grupos-alvos, recasados e sodomitas em prática?…

  4. Que rio está se lançando no Tibre desta vez?

  5. Uma das coisas que me dói mais, é que pessoas próximas a mim, que me são muito caras, não conseguem perceber um palmo na frente do nariz o que acontece na Igreja. O meio carismático em que pensam servir a Deus serve como uma prisão alienante. Só enxergam o que é passado pra elas enxergarem. Os fatos que nos chegam não alcançam essas pessoas. Muitos não têm sequer a chance de parar, de pensar, de raciocinar. Falo por experiência própria. Sem entender, vão sendo os braços armados na defesa dessa igreja revolucionária que tem o homem como o centro.

    • É verdade. Passei anos num grupo de oração da Paróquia aqui e nunca tinha ouvido falar de nada disso. Só ouvia o povo rezando em línguas e caindo no chão. Graças à Deus descobri a Tradição. Não sabia de nada, nem de Sínodo, nem de Concílio, nem de Missa Tridentina. Nada. Eles não falam nada. A primeira vez que eu vi um vídeo da Missa Tridentina eu logo pensei “Por que trocaram essa Missa linda por essa atual feia e sem graça? ”
      Agora, por graça de Deus, permaneço firme na fé de sempre.