Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem criou também os séculos…” (Hebreus, I, 1 e 2).

Deus, autor da Revelação, fez ouvir gradativamente sua palavra através dos patriarcas e dos profetas, mas depois quis manifestar-Se a si mesmo e os seus desígnios de salvação na pessoa, no ensinamento e na vida de seu próprio Filho. É por isso que Jesus Cristo é chamado “o resplendor ou irradiação” da glória do Pai. Jesus Cristo manifesta o Pai e faz conhecer o seu plano de salvação. O Pai, por sua vez, disse por ocasião da Transfiguração: “Este é meu Filho dileto em quem pus toda a  minha complacência: ouvi-O” (S. Mateus, XVII, 5). Sendo o Filho de Deus, “n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col. II, 9).  No Antigo Testamento, “tudo acontecia em figura” (Cf. I Cor. X, 11). Terminadas as figuras, agora no Novo Testamento, devemos olhar para o próprio figurado, Jesus Cristo que “fala com autoridade”.

Jesus, enquanto revestido da natureza humana, é herdeiro de todos os bens paternos, isto é, de todos os povos, segundo
o Salmo II, 8: “Pede-me, e eu te darei em herança os povos…”. Quanto à natureza divina, Jesus é o criador dos séculos, isto é, do mundo, de tudo enfim o que se desenvolve no tempo. Juntamente com o Pai, Jesus Cristo é “o nosso Rei antes dos séculos” (Salmo LXXIII, 12). Deus quer que a doutrina d’Ele emanada e pregada pelo seu próprio Filho feito Homem, chegue ao conhecimento de todos os povos, em todos os séculos: “Deus quer que todos os homens se salvem e que cheguem ao conhecimento da verdade” (I Tim  II, 4).

Se Moisés foi o servo fiel da casa de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus, é o dono da Casa de Deus, que é a Santa Igreja, que Ele fundou: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a MINHA Igreja” (Mt XVI, 18). Fundou, portanto, uma sociedade viva destinada a ser a continuadora de sua obra; encarregada de conservar, explicar e viver seus ensinamentos. Ele instituiu, pois, a sua Igreja com a missão de ensinar a sua doutrina a todos os povos e Jesus vela sempre para que ela não se deixe corromper pelo erro: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt XVI, 18); porque a Igreja tem que ser sempre “a coluna e fundamento da verdade” (I Tim III, 15). E não há dúvida que um dos pontos de apoio da Igreja para sustentar a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo é a Bíblia, escrita sob inspiração do Espírito Santo.  No entanto, sendo a Bíblia de difícil interpretação, mesmo antes do Protestantismo, em todos os tempos, os hereges se têm procurado apoiar nas Escrituras (pessimamente interpretadas) para sustentar os seus erros. De que serviria Deus deixar a sua Palavra consignada num grande livro, se os homens tivessem plena liberdade de falseá-la ou estivessem completamente desorientados para penetrar-lhe o verdadeiro sentido? Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito Homem, cheio de toda ciência e sabedoria, encarregou a sua Igreja para mostrar: quais os livros que são realmente inspirados, canônicos que formam a Bíblia; para garantir, outrossim, a interpretação legítima.

A Igreja vem desde o princípio, desde o tempo dos Apóstolos. E estes eram homens escolhidos e instruídos pelo próprio Jesus. Eram homens iluminados especialmente pelo Espírito Santo. Pouco antes de sua morte, Jesus declarou aos Apóstolos: “Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier Aquele Espírito de Verdade, Ele vos ensinará toda a Verdade” (Jo XVI, 12 e 13).  Por isto a Igreja sempre se firmou na Tradição Apostólica. Os Apóstolos já recomendaram isto no seu tempo como vimos no artigo anterior (I Tessal. II, 14). A Bíblia é infalível. O ensino dos Apóstolos também o era. Não pode haver contradição entre ambos. Além disto, no decorrer dos séculos, Deus tem suscitado homens profundamente sábios e santos que se têm entregue, com carinho e proficiência, no trabalho de nos desvendar, pela sua aguda inteligência, os segredos da Bíblia mantendo em torno dela uma interpretação segura. São os Santos Padres da Igreja. Eis alguns deles: S. Justino (+ 166); Sto. Irineu (+ 220); S. Cipriano (+ 258); alguns são do tempo dos Apóstolos e chamam-se PADRES APOSTÓLICOS: Sto. Inácio de Antioquia (+ 107); S. Policarpo (+ 167), etc. Os que viveram mais tarde são designados por DOUTORES DA IGREJA. São eles; Sto. Atanásio (+ 3730; S. Basílio (+ 378); S. Gregório de Nazianzo (+389); S. João Crisóstomo (+ 4070; Sto. Ambrósio (+ 397);  Sto. Agostinho (+ 430); S. Jerônimo (+ 420); S. Gregório Magno (+ 604); Sto. Anselmo (+ 1189); S. Bernardo (+ 1153); S. Tomás de Aquino (+ 1274); S. Boaventura (+ 1274);  S. Francisco de Sales (+ 1626); Sto. Afonso de Ligório (+ 1787).  Há ainda na Igreja sábios e célebres escritores que ela não os inclui entre os Santos Doutores e Padres, mas chama-os “Escritores Eclesiásticos”; isto porque em algum ponto ensinaram doutrina não aprovada pela Igreja. São eles: Orígenes (+ 254), e Tertuliano (+ 240).  Os Santos Padres  foram  mestres autorizados que iluminaram a Igreja com a sabedoria de seus escritos. E o fato de tantos homens santos e sábios aceitarem a interpretação católica, defendê-la nos seus livros, é sinal de que não existe na Igreja a adulteração da Palavra de Deus, mas sim um sincero amor à verdade.

Esta interpretação abalizada que vem desde o princípio, sempre firme em rejeitar e combater as heresias é o que se chama a interpretação tradicional. Mas é do Magistério autêntico, vivo, perene e infalível da Igreja, pela assistência do Espírito Santo, que recebemos com total segurança as verdades de nossa fé, contidas tanto na Sagrada Escritura como na Tradição Sagrada. É o que veremos no próximo artigo, se Deus assim o permitir.  Amém!.

3 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.”

  1. PREZADOS AMIGOS

    Vejam amigos a entrevista com esse Cardeal. Achei muito interessante. O que vocês acham?
    “Não podemos olhar para trás. Bergoglio nos pede coisas novas.” Entrevista com Reinhard Marx
    “O Sínodo é um caminho. Devemos dar passos à frente, mas não pode ser uma repetição, não podemos olhar para trás.”

    A opinião é do cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, presidente da Conferência Episcopal Alemã, e chefe do grupo de purpurados encarregados pelas reformas econômicas no Vaticano.

    A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 06-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    Eis a entrevista.

    Qual impressão o senhor teve do primeiro dia do Sínodo e da conferência que pareceu ser um pouco de fechamento do secretário-geral da assembleia, o cardeal Peter Erdö?

    Hoje houve uma primeira discussão ampla, mas o Sínodo durará três semanas. Teremos a oportunidade de discutir sobre tudo. E, no fim, o papa vai fazer aquilo que considerar certo para o seu pontificado.

    Mas qual foi a sua opinião?

    O Sínodo é um caminho. Devemos dar passos à frente, mas não pode ser uma repetição, não podemos olhar para trás.

    E quais são os objetivos que o senhor busca, qual a sua visão?

    A discussão segue em frente há mais de um ano. O papa dedicou a ela uma grande parte da sua catequese. E aqui estão discursos importantes sobre o tema da família. Depois, entre os dois Sínodos, o ordinário do ano passado e o que recém começou, aconteceram tantas outras coisas. Não devemos voltar atrás nas questões, isso diz a Igreja, e essa é a perspectiva pastoral na qual nos movemos.

    Mas sobre que pontos vocês discutiram?

    Falamos muito sobre a questão dos refugiados. Falamos da família neste mundo globalizado e de como é difícil manter uma família unida quando se foge do próprio país.

    Mas não há uma polarização dentro do Sínodo?

    Quem disse isso? Onde é que está descrita assim a situação do Sínodo? Isso é o que alguns gostariam.

    Essa não é a atmosfera dentro da assembleia?

    Essa é a posição da mídia. Eu tenho uma ideia minha, mas a base da discussão não é tão controversa. Em um contexto como esse, é normal que haja opiniões diferentes, mas não são necessariamente apenas contrastes.

    E sobre o tema da homossexualidade, como o senhor se posiciona diante das aberturas do cardeal Walter Kasper?

    A homossexualidade estará no centro de uma discussão específica, que inclui também pareceres científicos. É um tema importante sobre o qual, no ano passado, eu já falei.

    E como vocês abordam os diversos problemas?

    Discutiremos o Instrumentum laboris. Pessoalmente, também falei com amigos. Mas acho que no Sínodo também é preciso formular coisas novas. Sobretudo, é importante que não se vá para baixo do nível da discussão levantado pelo papa. Acho que devemos nos adequar ao que o papa nos pede. E devemos ser concretos.

    Houve esse caso do teólogo da Congregação para a Doutrina da Fé, que declarou a própria homossexualidade. Isso vai ter um papel na discussão?

    Eu não acho que isso possa determinar a discussão. Falou-se muito sobre isso, mas o caso realmente não diz respeito ao Sínodo.

    O senhor espera um documento importante?

    As expectativas são altas. O Sínodo redespertou o interesse. Acho que esse também é o desejo do papa. No fim, ele vai decidir, com o seu discernimento, assim como fez no fim do Sínodo do ano passado. Mas, até lá, devemos discutir. Sobre o que é discutido no início, caberá ao papa decidir o que permanecerá no fim.

    Voltemos para a polarização dos bispos. Diz-se que entre os cardeais falta comunicação. O senhor fala e discute com os cardeais Müller, Pell, Sarah [os chamados conservadores]?

    Com o cardeal Müller, por exemplo, eu discuti. Falamos, mas necessariamente nem tudo sai. Depois, durante o dia de estudo há alguns meses em Roma, na Universidade Gregoriana, com as Conferências Episcopais alemã, francesa e suíça, discutimos abertamente. Hoje também houve um diálogo aberto. Eu entendo que são publicados livros que levam a discutir e que há posições diferentes. Mas a falta de comunicação entre os cardeais deve se transformar em uma discussão organizada.

  2. A teologia moderna embarcou no engodo da crítica histórica, acreditando que tudo é fenômeno humano e negando direito ao sobrenatural de intervir na história do homem. Teoriza para substituir o evento sobrenatural e, dessa forma, ajunta ideologia humana à Revelação divina. Não devemos esquecer que Deus é todo-poderoso mesmo sutil e aparentemente escondido e que Cristo não apenas Se revelou mas nos dotou de uma Constituição para um governo universal, espiritual e temporal, tanto que delegou a Pedro como um governante delega a um ministro. Também não devemos esquecer que deu continuidade à Sua missão ao dizer que o Espírito Santo seria Sua principal Testemunha e que por meio dEle daria a Pedro e aos apóstolos “memória de tudo que havia dito e entendimento até das coisas futuras”, ou seja, o Magistério infalível tem seu dispositivo constitucional divino e está diretamente ligado à onipotência divina de uma tal forma que fazer crítica histórica da Revelação como fenômeno humano entregue ao materialismo histórico que não passa de uma versão ou ficção (fábula) revolucionária nada mais é do que oficializar na Igreja a Apostasia. E foi o que aconteceu e o que ainda se ensina nos seminários como se Deus pudesse ser manipulado e dominado pelos homens. “A mó de Deus moi devagar mas moi bem fino”. Vamos esperar para ver a lição do Sobrenatural que, porque “impossível de se agradar sem a Fé”, certamente castigará sem permitir abuso contra Sua Misericórdia.

  3. Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura. Caros Fratres, o Revdmo. Pe. Paulo Ricardo produz áudios semanais (cerca de 25 minutos cada) com reflexões sobre passagens dos Evangelhos. Gostaria de partilhar com vocês uma relação de mais de 260 (!!) desses áudios. São extremamente úteis. Por favor, vejam:
    http://www.respostacatolica.com.br/index.php?pag=46