Os bastidores da carta explosiva dos Cardeais.

E o que acontecerá agora com o Sínodo da Igreja. 

Por Antonio Socci, Libero, 14 de outubro de 2015 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com – A carta dos cardeais ao papa contra o amordaçamento do Sínodo e contra as teses dos modernistas bergoglianos é um fato explosivo, mesmo por causa da autoridade das assinaturas. Mas o que aconteceu em seguida, para tentar desacreditar e jogar na sombra o seu conteúdo explosivo, deve ser recontado.

Antes de tudo, tentaram fazer com que a carta fosse vista como o sintoma de um clima de conspiração por parte dos chamados “conservadores” ou católicos.

Marco Tosatti, correspondente do Vaticano sério e independente, justamente observou que uma carta privada ao papa, assinada com os nomes completos, é a coisa mais transparente, leal e corajosa que se pode ver nesses últimos tempos no Vaticano (considerando que o próprio Bergoglio – em suas palavras — pede franqueza).

Ou seja, é o exato oposto de uma conspiração. Mas — como diz Tosatti — “ele forneceu uma oportunidade de ouro para os seus muitos bajuladores gritarem “afronta e complô”.

Enquanto vamos tomando conhecimento – através do jornal alemão Tagespost — que, se tem alguma coisa que diz respeito a coisas escondidas, trata-se do próprio fato do Papa Bergoglio realizar em Santa Marta um “Sínodo paralelo” e reservado para manipular o Sínodo oficial.

O elemento que desencadeou a confusão foi o desmentido por parte de quatro dos treze cardeais signatários. Mas o que aconteceu?

O MISTÉRIO DOS NOMES

O Cardeal Pell, um dos signatários, segunda-feira à noite, através de um porta-voz, confirmou que a carta foi assinada por ele e outros cardeais, e ainda acrescentou que era uma carta privada que não foi divulgada por parte de nenhum deles. Além disso também explicou que no texto da carta tornada pública por Magister há “erros tanto de conteúdo como na lista de signatários.”

Segunda-feira à noite, ficamos sabendo então, que a revista dos jesuítas dos Estados Unidos, “América”, de orientação progressista, confirmou que a carta foi realmente assinada por treze cardeais, todos eles padres sinodais, e ainda fornece uma lista com quatro novos nomes, justamente os nomes corretos, ao invés dos quatro nomes errados os quais haviam negado a participação. Assim, a revista dos jesuítas confirma o texto publicado por Magister e o mesmo faz o jornal “La Nación” de Buenos Aires com um artigo de Elizabeth Piqué, que é a biógrafa pessoal e amiga do Papa Bergoglio e que tem acesso a fontes muito confiáveis.

Ontem à noite, portanto, Magister assinou um novo artigo onde — citando essas confirmações de peso — reitera que são treze os cardeais signatários (reconstrói a lista correta, mas parece que um foi removido) e o texto é aquele mesmo publicado por ele, ainda que na carta entregue ao papa possa haver alguma variação mínima. “De forma, mas não de substância”.

A NOTÍCIA

Com o alarido que se levantou na mídia, acabamos por perder de vista o essencial: o caráter excepcional de um documento assinado por cardeais influentes, representando muitos Padres sinodais, com o qual se destrói o Instrumentum laboris (aquele mesmo onde Bergoglio havia inserido pontos que não tinham sido aprovados pelo Sínodo de 2014 e que eram os mais controversos).

Na Carta dos Cardeais, em seguida, são criticados os novos procedimentos que amordaçam (e tentam manipular) o Sínodo em curso e se expressa preocupação porque a Comissão que deverá escrever a “Relatio” final não foi eleita pelos padres, mas nomeada inteiramente por Bergoglio (todos pessoas de seu gosto pessoal).

Além disso, a carta expressa sua preocupação com um sínodo que tinha sido convocado por Bento XVI para a defesa da família e que depois acabou se embaralhando com comunhão para divorciados recasados e que, se fosse aceita, iria pôr em colapso toda a doutrina do matrimônio e dos demais sacramentos.

No final da carta há um lembrete dramático que – embora com linguagem respeitosa – soa o alarme, dizendo que, no final da estrada tomada por Bergoglio, à imitação das igrejas protestantes da Europa, há o “colapso” ou seja, o fim a Igreja.

MAIORIA CATÓLICA

O Cardeal Pell, na declaração de anteontem, deu outras duas notícias importantes sobre o que está acontecendo. A primeira corresponde exatamente ao que, no último domingo, escrevíamos nesta coluna, ou seja, que a linha adotada pela dobradinha Kasper/Bergoglio é a minoria.

De fato, Pell diz: “Há um consenso generalizado sobre a maioria dos pontos, mas, obviamente, há alguma discordância porque uma minoria de elementos quer mudar o ensinamento da Igreja sobre as disposições necessárias para a recepção da Comunhão. Naturalmente, não existe uma possibilidade de mudança da doutrina”.

A outra notícia dada por Pell, ainda que em linguagem sutil, é esta: “persistem as preocupações dos Padres Sinodais relativas à composição do conselho de redação do relatório final e sobre o processo através do qual será apresentado aos Padres sinodais e votado.”

A polêmica agora gira em torno de tudo isso. A razão é simples, ainda que nunca dita. A intenção que agora se torna clara, é que Bergoglio está empurrando o Sínodo para as conclusões que ele quer, visando obter legitimidade para introduzir na Igreja as idéias de Kasper, ainda que de forma camuflada, como o divórcio introduzido com o Motu Proprio.

Para isto, Bergoglio, nos últimos dias – ao  descobrir que o Sínodo permanece com maioria católica — incrivelmente colocou em dúvida [a elaboração d]o “Relatório Final”, que também foi previsto em todos os programas oficiais, como resultado do Sínodo.

Dada a confusão que causou a mudança das regras do Sínodo em curso, anteontem, através do Padre Lombardi, declarou que o “Relatório Final” vai sair, mas será o próprio Bergoglio que vai decidir o que fazer e se será publicado.

Mais tarde ficamos sabendo que não será uma “Relatio” semelhante ao dos outros sínodos onde se votam proposições individuais, mas um texto vago para ser votado em bloco, no estilo pegar ou largar.

Ou seja, um modo de colocar a parte católica contra o muro, fazendo uma referência genérica à “misericórdia”, que, em seguida, poderia ser interpretada como um sinal verde para a “revolução”.

O PAPA NÃO É DEUS

Na realidade, seria necessário recordar que — a menos que se queira cair em heresia e assim decadência — nenhum papa tem o poder de derrubar a Lei de Deus e a Doutrina Católica.

Antes, como já foi explicado por um cardeal de peso para o Sínodo de 2014, essas questões sobre as quais hoje estão discutindo – já foram solenemente definidas pela Igreja, com base na Sagrada Escritura – e não poderiam e nem deveriam sequer ser colocadas em discussão.

Porque – ao contrário do que muitos acreditam – o Papa não pode fazer o que ele quer. Como disse Bento XVI na homilia da missa inaugural como Bispo de Roma na Basílica de São João de Latrão:

“O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo. (…) O Papa tem a consciência de que está, nas suas grandes decisões, ligado à grande comunidade da fé de todos os tempos, às interpretações vinculantes que cresceram ao longo do caminho peregrinante da Igreja. Assim, o seu poder não é superior, mas está a serviço da Palavra de Deus, e sobre ele recai a responsabilidade de fazer com que esta Palavra continue a estar presente na sua grandeza e a ressoar na sua pureza, de modo que não seja fragmentada pelas contínuas mudanças das modas”.

Esta é a interpretação correta do “poder de ligar e desligar” que Cristo deu a Pedro, versículo do Evangelho que nos últimos dias tem sido indevidamente invocado pelo partido bergogliano, quase como para dizer que ao papa argentino é permitido fazer o que ele quiser.

O Venerável Pio Brunone Lanteri, que era um grande defensor do papado, explicou claramente em seu livro: “Mas me dirá que o Santo Padre pode tudo, ‘solveris quodcumque, quodcumque ligaveris etc.” É verdade, mas não pode nada contra a constituição divina da Igreja. Ele é o vigário de Deus, mas não é Deus, nem pode destruir a obra de Deus”.

Publicado no Líbero, 14 de outubro de 2015

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14 Comentários to “Os bastidores da carta explosiva dos Cardeais.”

  1. Quanto ao dogma de infabilidade papal, a história já mostrou os absurdos cometidos, infelizmente, para atender interesses pessoais, e não da Madre Igreja!
    No passado, já houveram resistências a esse dogma, que acabou causando inclusive cismas na Igreja.
    Por conta de decisões papais, até mesmo uma parcela da comunidade separou-se da Igreja Original, para fundarem novas Igrejas, como por exemplo, na Inglaterra!
    Se bergoglio não rever suas posições progressistas, que ferem e afrontam os demais Dogmas, prevejo mais um cisma, na nossa Igreja Católica!
    Os fiéis devem deixar claro suas posições, sem mêdo!
    Caso contrário, os progressistas vão destruir todas nossas tradições e crenças mais caras!

    • E o Papa não goza do carisma da impecabilidade. Só a Sempre Virgem Maria Santíssima foi dado este augusto privilégio.

      E o bom Deus nos providenciou o dogma da infalibilidade papal na Constituição Dogmática Pastor Aeternus, já sabendo que iriamos passar por estes tempos terríveis. Pense se não houvesse o Papa Pio IX promulgado esse dogma em 1870. Hoje estaríamos a discurtir quem é o papa dentre um monte se arrogando papa, posando de Mitra. Isso é a Santa Igreja de Deus, Única e Verdadeira.

  2. Perfeito. A quadrilha está sendo desmantelada em público. Louvado seja Deus!

  3. Perdoem-me o anonimato. Hoje, nos dias que somos obrigados a viver ninguém mais tem segurança em dizer nada…
    Em minha Diocese, tenho ensinado e continuarei a ensinar a doutrina certa.
    Mas agora sim, a confusão vai se impor.

    http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/15/s%C3%ADnodo_acompanhar,_amar_e_perdoar_recasados/1179448

  4. Sintomático para compreender um pouco mais sobre o autor do texto que este não tenha se referido uma só vez ao Papa como “Francisco”, senão tão somente enquanto Bergoglio – e a variações como “modernistas bergoglianos” e “partido bergogliano” – ao passo que todas as menções feitas a Ratzinger utilizaram o onomástico “Bento XVI”…

  5. A situação acima se pareceria com dois contendores numa troca de farpas, em que um dos lados está perdendo, e quer evocar a si o direito de colocar um outro árbitro que o favoreça para reverter eventual derrota à vista, não se parece?
    Pelo andar da carruagem, parece que o final desse Sínodo das Familias seria:
    A – Deixar tudo em suspense, inconclusivo, acusando os conservadores de intromissão, por isso não poderem tomar decisões por inviabilizarem o relatório final.
    B – Optar pela flexibilização, tal como desejariam os aliados do Cardeal Kasper, incluindo-se o papa Francisco, já que não o contesta nem os que o apoiam, embora essa opção acho que seja a menos provável.
    O “ideal” seria mesmo a primeira pois, deixando sem uma decisão final ou em termos ambíguos ou vagos, daria mais guarida às investidas dos pretendentes de lançarem mais confusão no seio da Igreja e facilitarem os católicos serem cooptados por seitas, ou mesmo, quem sabe, aderirem ao islamismo para o qual haveriam “conversões”, o que não é de duvidar, pois pessoas alienadas e relativizadas à Igreja são presas fáceis de ideologias, ainda que travestidas de religiões, caso do islamismo!
    Não seria a opção pelo “quanto mais nebuloso”, melhor?

  6. Vai sair um texto tão ambíguo e vago que quando começarem as barbaridades alguém vai dizer : Ah , mas é uma questão de “hermenêutica” ! …..aquela nossa velha conhecida…..

  7. Sintomático por que? Entre as muitas novidades desse “Pontífice em exercício”, a que mais choca até quem é tradicionalista é seu total desprezo não apenas pelas insígnias do cargo como os títulos. Uma vez que o título representa o ofício que algém representa, tudo leva a crer, como ele já deixou subentendido em várias entrevistas, que Bergoglio não compartilha o mesmo conceito tradicional do Papa como Supremo Pontífice, ao contrário vê o título como algo supérfluo, uma remanescência de uma mentalidade medieveal que ainda persiste e ele quer erradicar com um novo modelo de pontificado.
    Portanto não ache que você vai cair nas graças de Bergoglio chamando-o “Summus Pontifex Ecclesiae Universalis” ou apenas referindo-se a ele como Soberano Pontífice, em latim, Summus Pontifex. Ele já disse que prefere ser chamado Bispo de Roma, só o primeiro entre os iguais.
    Referir-se a ele com o tradicional título de “Sua Santidade” seria o mínimo em termos de respeito para com o chefe da Igreja Católica. Mas até isso ele dispensou.
    Segundo José María del Corral, diretor da Escuela de Vicinos” em Buenos Aires e convidado especial para sua Missa inaugural, ao encontrar com o Pontífice no elevador, perguntou-lhe como deveria chamá-lo dali pra frente. Ao que Bergoglio respondeu:
    _ Chame-me Jorge. De que mais deveria chamar-me?
    Segundo Corral, isso o levou às lágrimas ao ver tanta humildade.
    http://traditioninaction.org/religious/d025_Jorge.htm
    Para nós que amamos a Sé de Pedro e tudo o que ela representa, isso nos leva às lágrimas por outro motivo. Depois da saída desse homem, o Papado nunca mais será a mesma coisa. Depois de terem destruído a Missa, adulterado fórmulas dos Sacramentos, introduzido toda sorte de idéias heréticas através de teologias humanistas, a última pedra a ser derrubada é o Papado. E tal façanha só poderia se dar com um deles sentado no trono de São Pedro.

    • Sinceramente? Você me emocionou!
      Disse tudo o que eu penso e sinto, como católico!
      Não sou mehlor do que ninguém, sou pecador, tenho falhas.
      Minha única esperança, e a fé que tenho em Deus, em Sua Sagrada palavra, e na Salvação que nos foi prometida por Êle!
      Minha vida sempre foi vivida, tendo em vista que, nesta terra, temos um Guia, o Papa, nosso Líder, O Pontífice, Sua Santidade!
      Esse homem, esse argentinho, esse bergoglio, ele quer destruir tudo? Ele quer tirar de mim, aquilo que é minha vida? Meu conforto?

  8. Dhttp://br.radiovaticana.va/news/2015/10/15/s%C3%ADnodo_acompanhar,_amar_e_perdoar_recasados/1179448
    Texto tirado do acima com observações entre parênteses de “Um bispo do Brasil” do site Vatican.va:
    “De modo especial, o debate foi norteado na questão da admissão aos sacramentos da reconciliação e da Eucaristia para os divorciados recasados. Em alguns casos, foi dito que os sacramentos poderiam ser concedidos a quem tem consciência de que vive no pecado e tem vontade de não pecar mais. Esta concessão pode ocorrer segundo três critérios: discernimento caso por caso {{ imagine pois a critério de consciências deformadas…}}; comportamento exemplar dos fiéis (segundo o ‘caminho penitencial’) {{impõe-se uma penitenciazinha e os autoriza após isso a pecarem}}; aproximação aos sacramentos somente nos casos de celebrações particularmente importantes {{em especial para não passarem vergonha, não pode de forma alguma discriminar um alto político, milionário…}}. Em outros casos, foi reiterado que a Igreja não exclui ninguém e que Cristo não veio para os saudáveis, mas para os doentes {{Em outras palavras, mantenham-se no pecado e se curem pela S Eucaristia, sem restrições}}. Consequentemente, os divorciados recasados devem ser acompanhados, amados e perdoados, porque fazem parte da Igreja e são membros do Corpo de Cristo. Portanto, é natural que possam receber a Eucaristia. {{Também acho que um liberô geral é mais conveniente; afinal, eles merecem, não devem ser discriminados, homofobia, atitudes de Idade Media…}!
    Ufa, cansei!

  9. “Chorei ao ver tanta humildade”. Só pode ser brincadeira. Sempre desconfiei de muita humildade e nunca me enganei. De fato, o poder cega qualquer humilde, e a arrogância despreza a busca pela Verdade. Queria ver tanta humildade submeter-se ao Magistério da Igreja, e aceitar que está errado.

    Agora o ponto é saber se a resistência vai reagir, ou se vai deixar os socialistas tomarem a cátedra de Pedro. A culpada é a humilde irmã Lúcia que obedeceu o papa e não fez uma segunda cópia do segredo. Claro que é uma ironia, mas o contraste entre esses humildes é bem evidente.

  10. Infelizmente Sua Santidade o Papa Francisco vive aquilo que Sua Santidade Papa Emérito Bento XVI de quem sou fã e tenho muita saudade em sua primeira homilia nos exortou tanto “A ditadura do relatvismo”. O Pa Francisco gosta de agradar e agrade infelizmento aos homens. Com respeito a ele e perdão de Deus, que esse pontificado seja breve para o bem da Igreja.

  11. Temos que confiar em Deus , ter FÉ de que tudo isto está sob o Seu controle , sob o Seu domínio . Não percamos o foco dos nossos 2.000 anos de existência , onde ao longo desta história , a arma infalível que Ele dotou a Igreja e através da qual os hereges SEMPRE saíram derrotados em suas investidas letais , é a virtude da OBEDIÊNCIA .

  12. “Com respeito a ele e perdão de Deus, que esse pontificado seja breve para o bem da Igreja.”

    AMÉM!!!!