Pe. Garrigou-Lagrange: Misericórdia para o pecador ou para o pecado?

Fonte: FSSPX Itália – Tradução: Dominus Est

Propomos a leitura de um texto do Pe. Garrigou Lagrange, que foi um dos maiores católicos tomistas contemporâneos, retirado de seu tratado de espiritualidade As três idades da vida interior (T I – cap. VIII). É de uma realidade singular e recorda que a verdadeira caridade deve levar a sermos misericordiosos com o pecador, mas não com o pecado.

“Existe uma falsa caridade, uma espécie de indulgência culpável e de debilidade, como a doçura daqueles que não ofendem ninguém, porque tem medo de todos. Há também uma suposta caridade, espécie de sentimentalismo humanitário que busca admitir a verdade e que, muitas vezes, por seu contato, a contamina.

Um dos principais conflitos desse momento é aquele que surge entre a verdadeira e a falsa caridade. Esta última nos faz pensar nos falsos cristos de que fala o Evangelho; eles são mais perigosos antes de serem desmascarados do que quando se fazem conhecer como verdadeiros inimigos da Igreja.

“Optima corruptio pessima”, a pior degradação é aquela que nos atrai para o que há de melhor, até a mais alta virtude teologal. O bem aparente que atrai o pecador é, de fato, ainda mais perigoso porque é o simulacro (a representação) de um bem maior; como por exemplo o ideal dos “pan-cristãos” que buscam a união das igrejas em detrimento da fé que essa união supõe.

Se, então, por estupidez ou covardia daqueles que deveriam representar a verdadeira caridade, aprovam alguma coisa que se afirma ser falso, pode-se resultar em um dano incalculável, às vezes até maior do que daqueles que se fazem perseguidores declarados, com o qual mostram que não se pode ter nada em comum”.

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3 Comentários to “Pe. Garrigou-Lagrange: Misericórdia para o pecador ou para o pecado?”

  1. Muito boa tarde a todos e

    Salve Maria.

    Leão XIII em Satis Cognitum:

    “Todos devem obediência ao magistério da Igreja.

    20. Evidente é, pois, consoante tudo o que acaba de ser dito, que Jesus Cristo instituiu na Igreja um magistério vivo, autêntico e, ademais, perpétuo, o qual ele investiu da sua própria autoridade, revestiu do espírito de verdade, confirmou por milagres, e quis e severissimamente ordenou que os ensinamentos doutrinais desse magistério fossem recebidos como os seus próprios.

    Todas as vezes, pois, que a palavra desse magistério declara que essa ou aquela verdade faz parte do conjunto da doutrina divinamente revelada, deve cada um crer com certeza que isso é verdade; porque, se de algum modo isso pudesse ser falso, daí se seguiria, o que evidentemente é absurdo, que o próprio Deus seria o autor do erro dos homens. “Senhor, se estamos no erro, fostes vós mesmo que nos enganastes” (Richardus de S. Victore, De Trin., lib. I, cap. 2). Afastado assim todo motivo de dúvida, pode então ser lícito a quem quer que seja repelir alguma dessas verdades, sem se precipitar abertamente na heresia, sem se separar da Igreja, e sem repudiar em bloco toda a doutrina cristã?

    Porque a natureza da fé é tal, que nada é mais impossível do que crer isto e rejeitar aquilo. Com efeito, a Igreja professa que a fé é “uma virtude sobrenatural pela qual, sob a inspiração e com o socorro da graça de Deus, nós cremos que aquilo que por ele nos foi revelado é verdadeiro; cremo-lo não por causa da verdade intrínseca das coisas vista na luz natural da nossa razão, mas por causa da autoridade do próprio Deus, que nos revela essas verdades, e que não pode nem se enganar nem nos enganar” (Conc. Vat., sess. III, cap. 3). Se há, pois, um ponto que evidentemente tenha sido revelado por Deus e que nós recusamos crer, não cremos absolutamente nada com fé divina. Porquanto o juízo que S. Tiago (2, 10) emite a respeito das faltas na ordem moral, cumpre aplicá-lo aos erros de pensamento na ordem da fé. “Quem quer que se torne culpado só num ponto, torna-se transgressor de todos”. Isso é mesmo muito mais verdadeiro dos erros do pensamento. Com efeito, não é no sentido mais próprio que se pode chamar transgressor de toda a lei aquele que cometeu uma falta moral; porque, se ele pode parecer ter desprezado a majestade de Deus, autor de toda a lei, esse desprezo só aparece por uma espécie de interpretação da vontade do pecador. Ao contrário, aquele que, mesmo num só ponto, recusa o seu assentimento às verdades divinamente reveladas, realissimamente abdica por completo a fé, visto recusar-se submeter-se a Deus enquanto suma verdade e motivo próprio da fé. “Em muitos pontos eles estão comigo, em alguns apenas não estão comigo; mas, por causa desses alguns pontos em que eles se separam de mim, de nada lhes serve estar comigo em tudo o mais” (S. Augustinus, in Psalm. LIV, n. 19). Nada mais justo: porque aqueles que só tomam da doutrina cristã o que querem, apoiam-se no seu próprio juízo e não na fé; e, recusando “reduzir à servidão toda inteligência sob a obediência de Cristo” (2 Cor 10, 5), na realidade obedecem a si mesmos antes que a Deus. “Vós que no Evangelho credes o que vos apraz e recusais crer o que vos desagrada, vós credes em vós mesmos muito mais do que no Evangelho” (S. Augustinus, lib. XVII, Contra Faustum Manichaeum, cap. 3).

    21. Os Padres do Concílio do Vaticano nada, pois, decretaram de novo, mas apenas fizeram conformar-se com a instituição divina, com a antiga e constante doutrina da Igreja e com a própria natureza da fé, quando formularam este decreto: “Devem-se crer, de fé divina e católica, todas as verdades que estão contidas na palavra de Deus escrita ou transmitida pela tradição, e que a Igreja, quer por um juízo solene, quer pelo seu magistério ordinário e universal, propõe como divinamente reveladas” (Sess. III, c. 3). Para concluir, já que é evidente querer Deus absolutamente na sua Igreja a unidade de fé, já que ficou demonstrado de que natureza quis ele fosse essa unidade e por que princípio decretou assegurar-lhe a conservação, lícito nos seja dirigir-nos a todos aqueles que não resolveram fechar os ouvidos à verdade e dizer-lhes com Santo Agostinho: “Já que vemos nisso um tão grande socorro de Deus, tanto proveito e utilidade, hesitaremos em lançar-nos no seio dessa Igreja, que, pela confissão do gênero humano inteiro, deriva da sé apostólica e pela sucessão dos seus bispos tem conservado a autoridade suprema, a despeito do clamor dos hereges que a assediam e que têm sido condenados, ora pelo juízo do povo, ora pelas solenes decisões dos Concílios, ora pela majestade dos milagres? Não querer dar-lhe o primeiro lugar é certamente fruto ou de uma suma impiedade ou de uma arrogância desesperada. E, se toda ciência, mesmo a mais humilde e a mais fácil, para ser adquirida exige o socorro de um doutor ou de um mestre, pode-se, quando se trata dos livros dos divinos mistérios, imaginar orgulho mais temerário do que recusar receber-lhes o conhecimento da boca dos seus intérpretes, e, sem os conhecer, querer condená-los?” (De utilitate credendi, cap. XVII, n. 35).”

    Conforme o exemplo de São José,
    Nos SS Corações de Jesus e Maria.

  2. No meio de toda esta confusão da misericórdia, os nossos irmãos do Leste têm sido aqueles que se referem à doutrina de forma mais clara e destemida, sem relativismo e jogos de linguagem. Penso que essa é que é a verdadeira maneira de falar de Deus, tudo o que vai para além do “sim” e do “não” é trabalho do demónio. Mais uma vez, e de uma forma tão clara como a água, o líder da Igreja mártir da Ucrânia vai contra a corrente diabólica que domina o Sínodo:

    http://risu.org.ua/en/index/all_news/catholics/ugcc/61463/

    Eu estou profundamente convencido de que Deus tem grandes planos reservados para este jovem arcebispo de Kiev, nascido no meio da tribulação comunista, com formação académica em teologia moral e com um passado pastoral na Argentina contemporâneo ao do Cardeal Bergóglio.

    Para quem se interessa por Malachi Martin, aconselho a revisitar as suas mais enigmáticas palavras sobre a importância da Ucrânia e de Kiev na “solução final” para o “problema” (a conversa inseria-se no contexto da mensagem de Fátima). Será essa “solução final” o Triunfo do Imaculado Coração de Maria profetizado em Fátima? Eu penso que sim, mas é só a minha opinião.

  3. Ao vivermos num tempo de total inversão de valores, bem acomodando-se ao: “Ai de vós que ao mal chamais bem e ao bem mal, que tendes as trevas por luz e a luz por trevas, e tomais o amargo por doce e o doce por amargo” Is 5,20, passarem a defender o pecado numa hipócrita defesa do pecador, parece ser uma tônica atual quase generalizada, justificando-se a interpelação do Pe Garrigou .
    Assim, questionar essa nova concepção errônea mais se torna necessaria ao existirem altos dignitarios eclesiásticos apologizando procedimentos contrários à doutrina católica, como recepção a homossexuais em práticas sodõmicas e recasados vinculados a uniões anteriores a plenos direitos dentro da Igreja em nome de falsarias misericórdia, acolhimento tolerância e afins!
    Note-se que os acima se configuram como alienadores de pessoas à fé católica de sempre, mas induzindo-as a aceitarem um cristianismo reelaborado em laboratórios de engenharia social, por as alienarem à fé, facilitando serem subvertidas e cooptadas por ideologias.
    A pior escuridão é aquela ao irreconhecermos os males advindos dos pecados como ao sermos potenciais pecadores, e não sermos seriamente admoestados pelos pastores das penas aos impenitentes, que nesse caso não são mencionadas, portanto escamoteadas!
    Há uma seria reflexão no coração dos desejosos a servirem a Jesus, a começar dos pastores: a misericórdia tão entronizada e incensada no momento tem se se adequar compulsoriamente ao: ”Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu, também, não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais” Jo 8, 10-11.
    Excluindo-se o “de agora em diante não peques mais”, é condução dos incautos para o doutrinario da “Ditadura do Relativismo”!