O Sínodo malogrado: todos derrotados, a começar pela moral católica.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: No dia seguinte ao XIV Sínodo sobre a família, todos parecem ter vencido: o Papa Francisco, porque conseguiu arquitetar um texto de compromisso entre as posições opostas; os progressistas, porque o texto aprovado admite os divorciados recasados à Eucaristia; os conservadores, porque o documento não contém uma referência explícita à comunhão para os divorciados e rejeita o “casamento homossexual” e a teoria de gênero.

A fim de se compreender melhor como as coisas realmente se passaram, cumpre começar pela noite de 22 de outubro, quando foi entregue aos Padres sinodais o relatório final elaborado por uma comissão ad hoc com base nas emendas (modi) ao Instrumentum laboris propostas pelos grupos de trabalho divididos por idiomas (circuli minores).

Para grande surpresa dos Padres sinodais, o texto entregue a eles nessa quinta-feira estava apenas em língua italiana, com proibição absoluta de comunicá-lo não somente à imprensa, mas também aos 51 auditores e aos outros participantes da assembleia. O texto não levava em nenhuma conta as 1355 emendas sugeridas ao longo das três semanas anteriores e substancialmente propunha de volta a validação do Instrumentum laboris, inclusive dos parágrafos que tinham suscitado as críticas mais fortes na aula sinodal: aquele sobre a homossexualidade e o dos divorciados recasados.

A discussão foi marcada para a manhã seguinte, com a possibilidade de preparar novas emendas apenas à noite, em um texto apresentado numa língua dominada apenas por uma parte dos Padres sinodais. Mas, na manhã de 23 de outubro o Papa Francisco, que sempre acompanhou de perto os trabalhos, viu-se confrontado a uma inesperada rejeição do documento elaborado pela comissão. Nada menos que 51 Padres sinodais intervieram no debate, a maioria deles contra o texto aprovado pelo Santo Padre. Entre estes estavam os cardeais Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos; Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana; Jorge Urosa, arcebispo de Caracas; e Carlo Caffara, arcebispo de Bolonha; os arcebispos Joseph Edward Kurtz, presidente da Conferência Episcopal norte-americana; Stanislaw Gadecki, presidente da Conferência Episcopal polonesa; Ignace Stankevics, arcebispo de Riga; Tadeusz Kondrusiewicz, arcebispo de Minsk-Mohilev; e Henryk Hoser, arcebispo-bispo de Varsóvia-Praga; os bispos Ignace Bessi Dogbo, de Katiola (Costa do Marfim), HLib Borys Sviatoslav Lonchyna, bispo da eparquia ucraniana da Sagrada Família de Londres, e muitos outros, todos expressando, em diferentes tons, o seu desacordo com o texto.

O mesmo documento não podia obviamente ser apresentado de novo na aula sinodal no dia seguinte, pois arriscava não obter a maioria e produzir um forte racha. A solução de compromisso foi encontrada seguindo o caminho delineado pelos teólogos do “Gemanicus”, o círculo que incluía o cardeal Kasper, ícone do progressismo, e o cardeal Müller, prefeito da Congregação da Fé. Entre sexta à tarde e sábado de manhã a comissão elaborou um novo texto, que foi lido na aula na manhã de sábado 24, e em seguida votado no período da tarde, obtendo para cada um dos seus 94 parágrafos a maioria qualificada de dois terços, que era de 177 votos entre os 265 Padres sinodais presentes.

Na coletiva de sábado, o cardeal Schönborn havia antecipado o teor do texto no ponto mais controvertido, o dos divorciados recasados: “Fala-se disso. Fala-se disso com grande atenção, mas a palavra-chave é ‘discernimento’, e convido todos a pensar que [nesse assunto] não há um branco ou preto, um simples sim ou não; é preciso discernir, e este é precisamente o ensinamento de S. João Paulo II na Familiaris consortio: a obrigação de exercer um discernimento, porque as situações são diferentes e o Papa Francisco, bom jesuíta, aprendeu a necessidade desse discernimento quando jovem: discernimento é tentar descobrir qual é a situação de tal casal ou de tal pessoa.”

Discernimento e integração é o título dos números 84, 85 e 86. O parágrafo mais controverso, o nº 85, que fundamenta a abertura aos divorciados recasados e a possibilidade de eles receberem os sacramentos – embora sem mencionar explicitamente a comunhão –, foi aprovado por 178 votos a favor, 80 contrários e sete abstenções. Só um voto acima do quórum de dois terços.

A imagem do Papa Francisco não saiu reforçada, mas empanada e enfraquecida no fim da assembleia dos bispos. O documento que ele havia aprovado foi de fato abertamente rejeitado pela maioria dos Padres sinodais na manhã do dia 23, o seu “dia negro”. O discurso de encerramento do Papa Bergoglio não manifestou nenhum entusiasmo pela Relatio final, mas uma reiterada repreensão aos padres sinodais que tinham defendido as posições tradicionais. Por isso, entre outras coisas, disse o Papa na noite de sábado: “Encerrar este Sínodo (…) significa também que espoliamos os corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas. (…) Significa que procuramos abrir os horizontes para superar toda a hermenêutica conspiradora ou perspectiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem de uma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível.” Palavras duras, que exprimem amargura e insatisfação: certamente não as de um vencedor.

Também foram derrotados os progressistas, não apenas por ter sido removida toda referência positiva à homossexualidade, mas porque a abertura aos divorciados recasados é muito menos explícita do que eles teriam desejado. Mas os conservadores não podem cantar vitória. Se 80 padres sinodais, um terço da assembleia, votaram contra o parágrafo 85, isso significa que ele não era satisfatório. E o fato de esse parágrafo ter passado por um voto não elimina o veneno que ele contém.

De acordo com a Relatio finale, a participação dos divorciados recasados na vida da Igreja pode expressar-se em “serviços diversos”: deve-se, portanto, “discernir quais das diversas formas de exclusão atualmente praticadas no âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional podem ser superadas. Eles não estão e não devem sentir-se excomungados e podem viver e crescer como membros vivos da Igreja” (nº 84); “o percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis a serem conscientes da sua situação perante Deus. O diálogo com o sacerdote, no foro interno, concorre para a formação de um julgamento correto acerca do que obstaculiza a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favorecê-la e fazê-la crescer” (nº 86).

Mas o que significa ser “membros vivos” da Igreja, senão encontrar-se em estado de graça e receber a Sagrada Comunhão? E a “participação mais plena na vida da Igreja” não inclui, para um leigo, a participação no sacramento da Eucaristia? Diz-se que as formas de exclusão atualmente praticadas no âmbito litúrgico, pastoral, educacional e institucional podem ser superadas “caso por caso”, seguindo uma “via discretionis”. Pode ser superada a exclusão da comunhão sacramental? O texto não o afirma, mas não o exclui. A porta não está escancarada, mas entreaberta, e, portanto, não há como negar que esteja aberta.

A Relatio não postula um direito dos divorciados recasados de ​​receber a Comunhão (e, portanto, um direito ao adultério), mas nega de fato à Igreja o direito de definir publicamente como adultério a situação objetiva dos divorciados recasados, deixando a responsabilidade dessa avaliação à consciência dos pastores e dos próprios divorciados recasados. Para retomar a linguagem da Dignitatis Humanae, não se trata de um direito “afirmativo” ao adultério, mas de um direito “negativo” de não ser impedido de praticá-lo, ou de um direito à “imunidade de coerção em matérias morais”.  Como na Dignitatis Humanae, é cancelada a distinção fundamental entre o “foro interno”, que diz respeito à salvação eterna dos fiéis, e o “foro externo”, relativo ao bem público da comunidade dos fiéis. A comunhão na verdade não é apenas um ato individual, mas um ato público perante a comunidade dos fiéis. A Igreja, sem entrar no foro interno, sempre proibiu a comunhão dos divorciados recasados, por tratar-se de pecado público, cometido no fórum externo. A lei moral fica absorvida pela consciência que se torna um novo locus, não só teológico e moral, mas canônico. A Relatio finalis integra-se bem, sob este aspecto, nos dois motu proprio do Papa Francisco, cujo significado o historiador da escola de Bolonha [NdT.: Alberto Melloni] salientou no Corriere della Sera de 23 de outubro: “Restituindo aos bispos o julgamento sobre a nulidade, Bergoglio não mudou o status dos divorciados, mas fez um enorme ato de reforma do papado”.

A atribuição ao bispo diocesano da faculdade, como único juiz, de instruir discricionariamente um processo sumário e de chegar à sentença definitiva é análoga à atribuição ao bispo do discernimento sobre a condição moral do divorciados recasados. Se o bispo local considerar que chegou ao termo o caminho de crescimento e de aprofundamento espiritual de uma pessoa que vive em uma nova união, esta poderá receber a comunhão.

O discurso do Papa Francisco de 17 de outubro ao Sínodo indica na “decentralização” a projeção eclesiológica da moral do “caso por caso”. O Papa afirmou depois, em 24 de outubro, que, “sem entrar nas questões dogmáticas, bem definidas pelo Magistério da Igreja – que aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser só confusão. Na realidade, as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral – como disse, as questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja – cada princípio geral, se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”.

A moral da inculturação, que é a do “caso por caso”, relativiza e dissolve a lei moral, que é por definição absoluta e universal. Não existe nenhuma boa intenção ou circunstância atenuante capaz de transformar um ato mau em bom. A moral católica não admite exceções: ou é absoluta e universal, ou não é uma lei moral. Portanto, não estão errados os jornais que apresentaram a Relatio finale com este título: “Cai a proibição absoluta da comunhão para os divorciados recasados”.

A conclusão é que estamos lidando com um documento ambíguo e contraditório, que permite a todos cantar vitória, embora ninguém tenha vencido. Todos foram derrotados, a começar pela moral católica, que sai profundamente humilhada do Sínodo sobre a família concluído em 24 de outubro (Roberto de Mattei).

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19 Responses to “O Sínodo malogrado: todos derrotados, a começar pela moral católica.”

  1. Como sabemos que este Sínodo foi um “jogo de cartas marcadas”, a derrota dos conservadores dos quais me incluo, se deveu por não termos reiterado em nosso meio os pedidos de Nossa Senhora em Fátima, pendido a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

    É claro que o clero, em sua heresia modernista, iria tratar deixar o assunto finalizado em forma ambígua. São Pio X já os desmascarou que é assim que agem. Terminada a batalha, vemos que os progressistas ganharam enormemente, avançaram naquilo que queriam avançar, ganharam muito terreno no campo da guerra psicológica revolucionária e se continuar assim o comunismo chegará a sua vitória final com a autodemolição da Igreja e a destruição do que ainda resta de civilização cristã.

  2. Quanto mais rezamos pela a Santa Igreja, mais testemunhamos a desgraça. Que vamos fazer? Nos desesperar, chorar…? Não! Existe uma grande esperança nos corações dos cristãos piedosos: Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, virá e triunfará sobre todo o mal, todos os seus inimigos serão postos debaixo de seus pés.
    Nessa hora, ai de quem tiver pregado a mentira como se fosse a verdade. Se vemos a injustiça, não devíamos esperar NAQUELE QUE É o verdadeiro Juiz? Meu Jesus, vinde logo acabar com a farra de satanás! Vinde Senhor Jesus! Viva Cristo Rei! Viva Nossa Senhora Rainha!

  3. “Credo romanos victuros esse cartaginienses” – a conclusão do Sínodo que deveria ter sido apenas da defesa da familia não teria tido a duplicidade do entre parênteses?
    Conseguiram agradar a gregos e a troianos, como se diz, embora os conservadores se considerem os maiores perdedores por detestarem e combaterem falsas doutrinas!
    Enquanto isso, os modernistas têm brechas para se embrenharem e argumentarem que o Sínodo não emitiu condenações formais, deixou a cargo de sacerdotes que examinassem caso a caso e dessem o veredito final – que ótimo para os modernistas e adeptos de ideologias dentro da Igreja – doravante estarão a mil!
    Dessa forma, por dar asas á ambiguidade, a um tipo de linguagem e a comportamentos oferentes de opções doutrinarias a critérios pessoais – facilitaram a imersão das pessoas na alienação e no relativismo característicos do relativismo de nosso tempo!
    Certas proposições abordadas acima, como a inculturação é um serio convite ao sincretismo religioso, como já temos aqui nas celebrações litúrgicas das supostas “Missa Conga”, dos “Excluídos”, “Sertaneja” e tantas inúmeras aberrações, demonstradoras de profanação de Jesus na Eucaristia!
    As comunhões aos recasados a critérios dos bispos ou sacerdotes são como acima, outra porta aberta às profanações!
    Acresçam-se junto às conclusões a oportunização doutras deformações na doutrina da Igreja!

  4. “A moral da inculturação, que é a do “caso por caso”, relativiza e dissolve a lei moral, que é por definição absoluta e universal.”

    Bingo! Desde a segunda guerra mundial há uma heresia de “inauguração” (derivada do relativismo cultural, moral, filosófico, geral) que está espalhada por toda a parte. Neste pensamento, a Igreja tem que mudar para se adaptar a mundo, pois a verdade é relativa, e carece de inculturação:
    1. A Igreja tem que tirar o latim e se adaptar.
    2. A Igreja tem que respeitar as outras religiões pois não há uma única verdade.
    3. A Igreja tem que adaptar os sacramentos aos fiéis.
    4. Não há hierarquia pois ninguém é mais que ninguém.
    5. A Igreja é apenas uma ponte para a felicidade aqui na terra, e por isso tem que se adaptar ao tempo.

    Há um problema que passou despercebido pelos olhos dos papas conciliares, que não era simplesmente o modernismo, mas sim o RELATIVISMO. Esse é o câncer na Igreja HOJE. Absolutamente QUASE TUDO o que está acontecendo com a Igreja relaciona-se do relativismo, que por sua vez origina-se da PERCA DA ESSÊNCIA DO SER. Mais da metade dos bispos parecem não saber o que é Igreja no mundo, pois se soubessem não iriam deixar um documento malfeito desses ser elaborado.

    Não há dúvidas que teremos muito trabalho a fazer quando proclamarem o 2 Concílio de Trento,

  5. Vamos lá…

    Não sou tão pessimista quanto o autor do artigo e irei explicar minhas razões.

    A Providência Divina tem intervido em favor da Igreja. Antes do sínodo ninguém poderia imaginar um relatório como esse, obviamente que a expectativa era pior, sejamos sinceros. Vivemos um tempo estranho, confuso. Todo o pré-sínodo, o texto de referência, as pessoas responsáveis por relatar, tudo indicava um futuro mais nebuloso que o atual. Mas Deus agiu, e “agindo Deus, quem impedirá?”

    Repito um recente comentário meu aqui no Fratres: em nenhum parágrafo do relatório final se vê alguma menção a admissão à Sagrada Comunhão aos que vivem em adultério.

    A doutrina bi milenar da Igreja se mantém. Houve mudanças cosméticas nesse caso específico. Poderão fazer leituras nas Missas? É possível. Poderão participar da música litúrgica? Provável. Serão aceitos como padrinhos de casamentos e de batismos? Sim. Aquilo que muitos padres já faziam como ás escuras, o farão agora com chancela. Mas em nada isso toca as questões doutrinais. São situações que podem sim gerar desconforto na comunidade, não nego, mas não passam daí.

    Quanto ao acompanhamento dos Sacerdotes, obviamente que não se trata do Sacramento da Penitência, uma vez que este exige arrependimento e mudança de atitude. Não podemos confundir acompanhamento, orientação, com Confissão Sacramental, são coisas diferentes.

    Mas existe alguma forma dessas pessoas se aproximarem da Sagrada Comunhão? Sim, desde que se mantenham castas e vivam como irmãos em prol dos filhos, conforme o indicado por São João Paulo II no seu magnífico documento sobre a família, Familiaris Consortio. É a isso que o documento sinodal se referia. Muitos podem agora se aproximar de um padre e perguntar: ” Padre, tenho uma vida de Igreja, tenho Fé, sinto necessidade da Eucaristia, o que eu devo fazer?” Aí o Sacerdote apresenta esse caminho penitencial de castidade e lhe abre uma porta até então provavelmente desconhecida.

    É essa a interpretação adequada do documento pois é a única em consonância com os ensinamentos perenes da Igreja. O resto é ruptura.

    Que chegue logo a hora em que a Igreja fale novamente de forma clara e firme. Até lá, rezemos.

  6. Análise precisa… concordo plenamente com Roberto De Mattei.

  7. Parabéns ao Fratres pelo excelente conteúdo que publicou a respeito do Sínodo. Foram diversas matérias, de diferentes fontes, permitindo ao leitor formar uma boa idéia do que lá se passou.
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    O que é mais difícil de se conhecer são os bastidores. Entretanto algumas matérias publicadas trouxeram elementos valiosos quanto a esse quesito.
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    Com efeito, o artigo “Sínodo: um consenso na ambigüidade”, de um redator do Instituto Humanitas – Unisinos, traz uma impressionante revelação. O grupo de discussão de língua alemã chegou a um acordo por unanimidade sobre o seu próprio relatório. Dessa inspiração alemã nasceu o relatório final, votado e aprovado pelos Padres sinodais. E depois foi usado o prestígio do Cardeal Muller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, para convencer os bispos que estavam indecisos. “Como o Concílio Vaticano II, o Sínodo alcançou um consenso através da ambigüidade”. O Sínodo não conseguiu aprovar tudo o que os progressistas radicais queriam, mas conseguiu, sendo ambíguo, sossegar a consciência dos conservadores e deixar a porta aberta para uma leitura mais avançada na posterior elaboração da prática pastoral.
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    Outro artigo, de Marco Ansaldo, publicado no La Repubblica, fez revelação não menos surpreendente. O acordo no Sínodo saiu depois de um almoço entre Ratzinger-Schönborn. Com efeito, um almoço, entre o Papa Emérito e o cardeal-arcebispo de Viena, Christoph Schoenborn, que teve lugar no mosteiro Mater Ecclesiae dentro do Vaticano, esteve “por detrás do acordo alcançado pelo círculo Germanicus e que serviu de modelo para outros grupos encontrarem um ponto comum entre reformistas e conservadores antes da nota final”. Além disso, o Papa Emérito, “que tem um cérebro mais do que lúcido”, seguiu com atenção – de longe – todas as fases do debate, e foi mencionado várias vezes nos textos. Depois Müller estendeu a mão aos cardeais liberais Schoenborn, Marx e Kasper. E os Padres sinodais, felizes e exaustos por três semanas de trabalho, se abraçaram novamente.
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    Por fim, o artigo de Roberto de Mattei, “O Sínodo malogrado: todos derrotados, a começar pela moral católica”. Por ele sabemos que um texto aprovado por Francisco foi encaminhado para os Padres sinodais e sofreu forte repulsa. A solução de consenso foi alcançada pelos teólogos do Germanicus. O novo texto alemão obteve a maioria regulamentar em todos os seus 94 parágrafos. Como o primeiro documento, aprovado pelo Papa Bergoglio, tinha sido rejeitado, o prof. De Mattei considera que o Pontífice não saiu como vencedor e teve a sua imagem empanada.

    CONCLUSÃO:
    1) Quem governa a igreja ainda são os teólogos de língua alemã do Reno. A mesma técnica usada para fazer a maioria aprovar os documentos progressistas no Concílio, foi repetida para fazer a maioria sinodal aprovar o documento final, ou seja, o uso da ambiguidade.
    2) Desse seleto grupo faz parte o Papa Emérito. Não apenas desempenhou grande papel o cardeal Müller para convencer a maioria. A participação do Emérito foi decisiva para encontrar a fórmula ambígua consensual.
    3) São “bombas” recentes e gravíssimas que explodiram em Roma: os dois motu proprios que favorecem um “divórcio católico”; a comunhão dos divorciados recasados pelo Sínodo, a cargo do bispo ou do confessor; o discurso papal de 17 de outubro sobre a nova igreja sinodal ou descentralização, com a proposta de “devolução” para as conferências da autoridade doutrinal e o ofuscamento da autoridade petrina; no dia 24 de outubro, e a defesa papal da moral da inculturação, que relativiza os princípios morais.
    4) Aparentemente foram derrotados os progressistas? Não! Eles foram os grandes vencedores, usaram da tática da ambiguidade e os conservadores mais uma vez entregaram os pontos. Mas, anestesistas, voluntários ou involuntários, é o que não falta, para dizer que não foi tão ruim assim, que todos foram perdedores, ou outra resposta qualquer que jogue areia nos olhos e esfrie a justa indignação.

  8. A Moral Católica foi a grande derrotada ao término do Sínodo, e agora, a exemplo do Concílio Vaticano II, no qual, o que os liberais não conseguiram nas Aulas conciliares, conseguiram e ainda estão conseguindo através das ambiguidades que ficaram no bojo dos documentos escritos. Se o moral católica já foi derrotada ao término do Sínodo, vamos ver com tristeza os frutos maus e podres na prática. As portinholas dos confessionários (que na verdade estavam tornando-se raridade) agora serão abertas e em grande número. Só que antes eram abertas para perdoar pecados e os diálogos, só de Deus conhecidos, eram para levar os pecadores a não mais pecar. Agora, infelizmente, tudo indica que estas portinholas da verdadeira misericórdia, serão franqueadas numa pseudo-misericórdia, isto é, para tranquilizar as consciências no pecado e nos sacrilégios inclusive. Deus permita que não! Que este profeta de desgraças queime a língua!!! Aguardemos. Por causa do maior segredo que existe no mundo, o do confessionário, nunca saberemos o que se passará neles, mas, pelos frutos poderemos conhecer a árvore. O grande “FRATRES IN UNUM” estará sempre alerta para mostrar ao mundo as maquinações iníquas dos modernistas dentro da Santa Madre Igreja. Só não verão, os que, enfiando as cabeças na areia, acham que a Igreja nunca esteve tão bem, e são cegos voluntários. Ou melhor dizendo, sendo modernistas, estão bem. Se na elaboração dos documentos finais, não foram lá tão bem sucedidos assim como almejavam, no entanto, minaram-nos com bombas-relógios. Este é o trabalho de sapa dos modernistas.
    Caríssimos, as minhas péssimas previsões, não são profecias. Qual o verdadeiro católico, sobretudo entre os mais idosos, que não constata com tristeza que a maioria do clero, dá maus conselhos. É claro que, mesmo entre o que não são propriamente tradicionalistas, há-os que dão bons conselhos. Mas, (oxalá, eu esteja, errado), são relativamente poucos. Podemos julgar pelos bispos.

  9. Luciano,

    Acho que ninguém seriamente esperava que o Sínodo aprovasse algo literalmente como “Os divorciados e recasados já podem comungar”.

    Os conservadores votaram CONTRA os parágrafos polêmicos, os quais mesmo assim foram aprovados no documento final.

    Não foi uma goleada dos progressistas, mas eles ganharam essa e vão ganhar a Exortação Apostólica.

  10. V conhece o que é BOMBA DE EFEITO RETARDADO? É aquela que apesar de explosiva, não detonará de imediato, mas na hora certa!
    Até o velho IHU da esquerdista TL foi claro em reconhecer a ferrada dos conservadores!
    Os antiprogressistas caíram na arapuca da ambiguidade: quem aprecia isso – bom demais – são os modernistas que com isso deitarão e rolarão: até que enfim as decisões ficarão a nosso cargo, não houve condenações formais, ao máximo recomendações: deixem conosco!
    Se é que o papa Bento XVI sugeriu os caminhos de ambos saírem satisfeitos, seria para amenizar a derrota imensa dos conservadores que pelo visto, como anteriormente, sairiam sufocados desse Sínodo – ao menos atrasou a derrota para mais adiante.
    O trabalho macabro de minar a Igreja prossegue avante – os asseclas do diabo conspiram por apenas 24 horas – mas como pudermos, desafiemos eles!
    Os modernistas são iguais aos componentes dos partidos comunistas, como do PT – nunca se dão por derrotados – só quando pisarem na cabeça deles!

  11. Pe. Elcio Murici, mas esse “caminho penitencial” e esse “discernimento de acordo com a consciência” de cada um já não é uma cacetada no Sacramento da Confissão?
    O único “caminho penitencial” que eu conhecia era aquele do Filho Pródigo que depois de constatar que a vida de esbórnia longe da Casa do Pai só lhe trouxe sofrimento, ruína e decadência, ele toma uma resolução:
    _Eu me porei a caminho e voltarei para meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados’.
    Nessa parábola Jesus traça o caminho penitencial que a Igreja sempre propôs: reconhecer o pecado e suas consequências tendo como base os mandamentos da lei divina, arrepender-se, confessar-se e demonstrar genuina contrição ao propor evitar ocasiões próximas de pecado.
    Eu sinceramente duvido que agora as portinholas dos confessionários serão abertas e em grande número, mesmo porque o pecador empedernido e agora confirmado no seu pecado por Bispos e um Pontífice liberal, continuará achando, segundo a sua consciência, que a vida de adultério e sodomia que ele leva tem atenuantes.
    Cairá portanto na presunção de salvar-se sem merecimento, afinal como foi dito pelo próprio Bergoglio, ” o verdadeiro Deus, não nos trata segundo os nossos méritos nem segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem limites da sua Misericórdia”.
    A mensagem é clara e bem no estilo de Lutero: “pequem à vontade, mas pequem de verdade porque o que vai lhes salvar não é joelho no chão, penitência e oração e sim a misericórdia. Se você tiver fé na “misericórdia” já está salvo”.
    E agora eu vou mexer num vespeiro, mas o motivo pelo qual o Santo Ofício sob a direção de homens fiéis à Sã Doutrina como os cardeais Giuseppe Pizzardo e Alfredo Ottaviani, censuraram em 6 de março de1959 a obra e a devoção da Divina Misericórdia de Irmã Faustina é porque ela contêm erros teológicos semelhantes.
    Irmã Faustina alegava que Jesus havia prometido-lhe a completa remissão dos pecados através de algumas devoções em particular, algo que só os Sacramentos instituídos pelo próprio Cristo tem o poder de conferir:

    “Não posso castigar a aquele que, ainda que sendo grande pecador, e o pior de todos, se confia a minha bondade; o justificarei em minha insondável e imensa misericórdia”.

    “As graças da Minha misericórdia coIhem-se com o único vaso, que é a confiança.
    Quanto mais a alma confiar, tanto mais receberá”

    “A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e das penas. Nesse dia, estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças”.

    “Recita, sem cessar, este Terço que te ensinei. Todo aquele que o recitar alcançará grande misericórdia na hora da sua morte. Os sacerdotes o recomendarão aos pecadores como a última tábua de salvação. Ainda que o pecador seja o mais endurecido, se recitar este Terço uma só vez, alcançará a graça da Minha infinita misericórdia”

    “Pela recitação deste Terço agrada-Me dar tudo o que Me peçam. Quando os pecadores empedernidos o recitarem, encherei de paz as suas almas, e a hora da morte deles será feliz”.

    Se examinamos por exemplo, a devoção ao Sagrado Coração que o mesmo Jesus ensinou a Santa Maria Margarida Alacoque, não encontramos algo parecido.
    Jesus poderia fazer isso como fez com o bom ladrão na cruz? Remissão total dos pecados e das penas temporais? Claro que sim, mas segundo os oficiais do Santo Ofício daquela época, o problema é que as promessas dessa devoção omitem a necessidade de uma perfeita contrição e mudança de vida. Recitou um tercinho ( que pra muitos virou substitutivo do Santo Rosário) e pode ser o pecador mais empedernido que na hora da morte terão a certeza da salvação.
    Teria sido esse o gancho que os modernistas encontraram para espalhar heresia na Igreja sob o manto de uma pseudo-misericórdia? O terreno já vinha sendo preparado e Satanás não brinca em serviço ha hora de espalhar a cizânia em meio ao trigo.

  12. Será que a ordem doravante discretamente será: PECCA FORTE ET CREDE FORTIUS?
    Deixar a cargo das consciências as tomadas de decisões se foi ou não pecado é um EUFEMISMO de “siga o que v achar certo, o resto de nada vale” ou então: seja um “Politicamente correto e membro honorário da Ditadura do Relativismo” – isso camufladamente, sem contar as intenções de levarem o coitado para Sodoma e Gomorra – mas fingindo encaminhá–lo ao Cèu, com as bênçãos e agua benta dos progressistas de Roma e de alhures!
    Só se for pro ceu da boca da onça!
    2017 do Lutero vem aí, gente!

  13. Não entendo porque muitos estão indignados. Minha diocese é relativamente conservadora, sem grandes abusos litúrgicos, de um Bispo conservador que usa a internet muito bem, e aqui os divorciados recebem a Comunhão tranquilamente em Missas públicas. Sei de divorciadas que se confessam tambem e sao absolvidas dos seus pecados – como não conheçoa Lei da Igreja a fundo, pergunto: é possível? Enfim, se aqui acontece isso, porque em dioceses piores que a minha, não acontecem coisas piores?

    • Ricardo,

      O problema não são exatamente os divorciados. O problema são os casados na Igreja e REcasados no civil (com outra pessoa, claro). Estes últimos estão em estado de pecado e não podem comungar.

      O divórcio civil é muitas vezes necessário para evitar humilhações e maus tratos de um conjugue por parte de outro.

      Por exemplo, uma mulher repetidamente traída pelo marido tem o direito de recusar-se a compartilhar seu leito com ele e pode pedir na justiça civil uma pensão para si e para seus filhos. Essa mulher divorciada não cometeu nenhum pecado e poderá comungar desde que se mantenha fiel ao seu casamento na igreja.

      Suponho que os casos que você relata sejam desse tipo.

    • Para o JB:
      Divorciada que não recasou no civil, mas namora outro homem – pode comungar?

  14. Caríssima Sra. Dona Gercione LIma, quero tranquilizá-la assim como os leitores de seu comentário que, pela graça de Deus, por não ter falado no tal “caminho penitencial” e “discernimento de acordo com a consciência de cada um”, isto não significa que eu não os reconheça como um grande golpe no sacramento da confissão. Depois, ainda não li a “Relatio finale”.
    Pelo menos aqui na Diocese de Campos já sei de vários casos de pessoas que estão dizendo que agora vão procurar o confessionário, porque o próprio Papa abriu mais uma porta de esperança. Este o perigo que eu quis ressaltar no meu comentário, Só isto, Fique tranquila e reze por mim para que até o fim de minha vida lute contra o Modernismo. Sou padre há quase 41 anos, e muitos de meus fiéis e ex-paroquianos estranharam o seu comentário, porque me conhecem. Reserve sua verve contra os Modernistas.

  15. Caro Padre Elcio, de modo algum meu comentário foi uma crítica ao que o senhor escreveu. Apenas tentei corroborar com o que o senhor havia dito a respeito do Sacramento da Confissão, que pelo visto, sofreu um grande golpe nesse Sínodo.
    O alvo da minha crítica foi o tal “caminho penitencial” e “discernimento de acordo com a consciência de cada um” que por si só invalidam a necessidade de confissão. Eis porque não vejo uma futura corrida aos confessionários como o senhor prevê.

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