Sínodo. Votos invertidos.

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.comRecebemos uma carta de uma pessoa especialista em números, matemática, percentagem, e na sua leitura, que nos oferece uma interpretação interessante da recente votação sobre o Relatório Final do Sínodo dos bispos. É interessante porque oferece uma interpretação completamente diferente daquela até agora confirmada sobre quem votou pró e/ou contra, e por quê. E a imagem que deles emerge é profundamente diferente do panorama atual. E que transfere maior interesse sobre o tema dos divorciados recasados em relação àquele das uniões homossexuais e da ideologia de gênero, a respeito dos quais o texto é muito límpido, com ampla maioria de consenso.

O autor, que como dissemos é um especialista nesses assuntos, refere-se aos resultados publicados no sítio oficial da Santa Sé.

Mas eis o texto:

“Se se analisa o voto por parágrafos, nota-se que, indubitavelmente, os padres sinodais que se opuseram às formulas não foram poucos (o máximo são os 31% de ‘não’ do parágrafo 85). No entanto, estamos muito longe do desacordo que os meios de comunicação mencionam, quando afirmam que sobre o tema dos divorciados recasados o texto passou por um só voto. Bem, o que significa que menos de um terço dos padres tenham votado ‘não’? Que o grupo vitorioso do ‘sim’ seja precisamente aquele dos ‘conservadores’, ou seja, daqueles que quiseram um texto que não dissesse precisamente nada de novo em relação ao magistério (foi justamente recordada a ‘Familiaris consortio’, que veio a ser reproposta nos parágrafos 84 e 85). (N.D.R. E talvez na mesma linha possa ser lida a declaração do Cardeal Pell, o que é significativo de que no texto não se fala absolutamente de comunhão).

Que a ala da ‘descontinuidade’ tenha saído derrotada e tenha, descontente, votado ‘não’, podemos deduzir se observarmos quais são os outros parágrafos a respeito dos quais o dissenso é alto e supera os 10%. Trata-se, principalmente, do parágrafo 76, que colocou uma pesada pedra de túmulo na ‘via eclesial’ à ideologia de gênero e na hipotética abertura da Igreja à ideologia gay.

Dado que é um parágrafo lapidar e radical, é matemático que aqueles 14% de ‘não’ tenham vindo todos da ala “aberturista”. Podemos, desse modo, concluir que os 31% de ‘não’ no parágrafo 85 e os 27% de ‘não’ no parágrafo 84 tenham sido constituídos por cerca da metade do dissenso manifestado por aqueles que não tinham digerido o paragrafo 76. A metade restante é feita em parte, mais uma vez, pelos “aberturistas iludidos” e em menor parte por aqueles padres conservadores que, embora aprovando a substância dos parágrafos 84 e 85, desaprovaram, porém, o fato que o seu sentido não tivesse sido mais claramente explicitado, a fim de evitar que alguém os possa, maliciosa ou involuntariamente, interpretá-lo em seu sentido contrário.

Como posso afirmá-lo? Posso fazê-lo analisando o voto relativo ao parágrafo 86. O parágrafo 86, de fato, é a chave para ler corretamente o n. 84 e o n. 85, ali se prescreve que “…uma vez que na lei não há gradualidade…” então ocorre que “…o discernimento não possa prescindir da exigência de verdade e de caridade do Evangelho…”. Trata-se de doutrina tradicional em estado puro, que os mais preocupados com o efeito midiático, dentre os conservadores, queriam que fosse inserida no corpo do n. 85, para evitar que aqueles que, na era do Twitter, não leem mais do que 10 linhas por vez, não caíssem no equívoco ou não “marchassem sobre nós” [n.d.t.: no sentido de: repisar um argumento, repetindo-o continuamente a fim de fixá-lo], como dizemos em Roma.

E então, o voto negativo sobre o n. 86 é substancialmente, mais uma vez, um dissenso dos “inovadores”. Recapitulando, então, a situação da “Relatio Finalis” sobre os temas da moral mais seguidos pelo vasto público, é razoável supor que seja esta seguinte:

a) a posição sobre a disciplina dos sacramentos para os divorciados recasados está em consonância com a doutrina precedente, e foi apoiada pela maioria larguíssima (estimo que 75%) dos padres sinodais. Um voto na esteira da continuidade e, nesse sentido, um voto de larga prevalência conservadora;

b) a posição foi contestada por uma minoria (estimo que 25%) de “aberturistas” ou “inovadores”. Trata-se de uma percentagem fisiológica, não patológica;

c) a posição foi contrariada por uma pequeníssima minoria de padres conservadores (5%) que, embora estando em desacordo sobre a substância, hesitaram quanto à forma.

Depois, há o fechamento sobre o tema gay, que é quase o do Concílio Ecumênico e restará na história da Igreja. É o verdadeiro evento que, silencioso como uma grande estrela que explode longe do dia, mas que se pode perceber quando é noite, confirma que a Igreja é o sinal de contradição de sempre e que, na tempestade, mantém sempre o seu curso”.

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11 Comentários to “Sínodo. Votos invertidos.”

  1. Desculpem-me, mas isso é puro nonsense e não tem menor base factual.

    Da maneira como a votação ocorre no sínodo, não há necessidade de aprovar um parágrafo mais ou menos para evitar um pior, pois o texto já vem pronto. Um parágrafo rejeitado não é substituído por outro.

    Como é óbvio, a grande vitória dos conservadores teria sido evitar a aprovação dos parágrafos 84 a 86, que abrem a brecha para a comunhão dos divorciados. Sugerir que Pell, Sarah e Napier tenham **gostado** desses parágrafos é um insulto a esses valentes cardeais.

    Conforme está amplamente noticiado, a proposta aprovada partiu do campo liberal alemão (Schonborn) ao ver que não conseguiriam mais que isso. Se forçassem a barra, os liberais corriam o risco de não atingir os 2/3 necessário o que implicaria numa humilhação para Francisco. Os conservadores votaram contra, mas não conseguiram os votos necessários.

  2. Gente, desde o princípio tive essa impressão. Os inovadores foram sim os maiores derrotados e quiseram no briefing e com o apoio da imprensa passar a ideia contrária. Tudo se anunciava muito pior no início do sínodo. Eles perderam, mas querem sair como vencedores. Já que não ganharam, querem ganhar com a ajuda da mídia no tapetão. Ou seja, querem forçar a interpretação. Assim como aconteceu com o Concílio Vaticano II, existe um sínodo real e um sínodo virtual, midiático. Não partilho do pessimismo reinante pós-sínodo. O documento poderia ser muito melhor, poderia. Mas dada a circunstância, não devemos deixar de agradecer a Deus por ter impedido uma catástrofe. Mais uma vez repito, só houve mudanças cosméticas, nada de essencial. Qualquer alteração pastoral em relação a Comunhão e Confissão para divorciados é forçação de barra. Não é o Igreja mandou fazer, não oficialmente.

    Lutemos sim irmãos, rezemos e confiemos. Porque Deus não está longe e nos ouve.

    Bendito seja o Senhor.

  3. Bingo!!! Os liberais com o apoio da mídia quiseram se apropriar de uma vitória que não tiveram. Graças a ação do Espírito Santo tivemos os danos minimizados. Eles se surpreenderam e quiseram posar de vencedores. Pensem comigo: se um texto da Igreja quer indicar mudança de posição, ele precisa indicar mudança de posição claramente. E o texto do sínodo, meio que choveu no molhado frustrando os inovadores que posam de vencedores , mas que no fundo foram os maiores derrotados. Planejaram tudo, mas Deus frustrou-lhes.

    • Se o texto do sínodo tivesse chovido no molhado, teria (i) condenado o homossexualismo, (ii) proibido categoricamente a comunhão dos divorciados-recasados, e (iii) denunciado os métodos anticonceptivos artificiais de forma enfática.

      O texto do sínodo é inovador não pelo que ele contém, mas por aquilo que não contém mas se esperava que contivesse em se tratado de recomendações pastorais a famílias católicas

  4. Se tal fato sucedeu, o procedimento de desmerecer a vitoria do oponente, quer falsificando números ou por meio doutros artifícios ardilosos sempre em detrimento dele, caso aconteça, é a mesma tática usada pelos hostes socialistas para mostrarem que a vantagem obtida pelo oponente sobre ele não teria sido tão vantajosa assim!
    São tão peçonhentos a ponto de hipotetizarem que teriam havido fraudes – como são realmente matreiros os inimigos da Igreja – entendendo como ninguém de minimizarem ou mesmo “chantagearem” as vitórias alheias!
    Nesse caso, como perderam, enaltecem-se ter sido por diferença mínima, praticamente empate, insinuando para o público que da próxima vez vencerão, seria o intento – ainda que fosse por meios duvidosos – parecendo que, como os socialistas, ludibriam o quanto possam, vivem do “oportunismo” e “todos os meios justificam os fins”!

  5. Enquanto houver por parte dos Bispos essa atitude: “é preferível crucificar novamente CRISTO ( A verdade) do que humilhar Bergoglio, os liberais sempre poderão cantar vitória no final. Hereges precisam ser combatidos, expostos e envergonhados para que voltem pra debaixo das pedras de onde jamais deveriam ter saído.
    Por isso parabenizo todos os Católicos conscientes que não pouparam tempo e nem recursos pra expor em seus blogs, sites e outras mídias os nomes e os ardis desses impostores.

  6. Eu acho que é um método errado de ver o resultado. O autor esquece do pessoal do “meio” (ver cardeais brasileiros).

    Os autores do texto final sabiam que nenhuma das pequenas comissões havia aprovado a eucaristia para recasados. Assim, eles sabiam que não passaria um texto dissenso, mesmo com a inclusão dos 45 membros do sínodo indicados pelo Papa.

    Assim, fizeram um texto escorregadio que apoia as palavras em termos gerais (“criterio complessio”, no original) de JPII para a família mas libera que os padres sejam senhores da decisão.

    Isso fez com que os do “meio termo” aprovassem o texto.

    Os reais conservadores tentaram reprova-lo. O cardeal Pell disse justamente que o texto não passaria se não fossem os 45 do Papa.

    Então, os conservadores e os do “meio termo” não aprovaram o que queriam os kasperitos nas comissões, mas os textos dos parágrafos estavam escorregadios o bastante para apoio dos do meio.

    Mas o autor fez uma análise interessante.

  7. Se tiverem estômago dêem uma lida nisso: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/le-monde/2015/10/29/e-deus-desprezou-a-mulher-jornalista-relata-os-bastidores-do-sinodo-no-vaticano.htm
    Agora eu pergunto: uma pessoa dessa foi CONVIDADA a participar do Sínodo? É isso mesmo? E prelados como Burke, Schneider e Fellay não são chamados nem como ouvintes?
    Não é mais a fumaça de satanás, é a fogueira toda…

  8. https://it.wikipedia.org/wiki/Lucetta_Scaraffia
    A Wikipedia não mente – nunca!
    Tá que a DitaCuja é colaboradora do Observatório Romano…
    Isto é que é “fogo amigo”!!!!!

  9. Robson, eis porque Hilaire Belloc explica com muita propriedade as consequencias da introdução da heresia em um corpo de Doutrina:

    “[A religião cristã] “tem como uma parte essencial (apesar de ser uma parte apenas) a afirmação de que a alma individual é imortal – a consciência pessoal sobrevive à morte física. Se as pessoas acreditam nisso, olham para o mundo e para si mesmas de certa maneira, agem de determinada forma e são pessoas de certo tipo. Se não acreditam nisso (se elas excluem ou se omitem [d]essa crença), há um corte nessa doutrina. Elas podem continuar a manter todas as outras crenças, mas o sistema é modificado, o tipo de vida, caráter e o resto se tornam muito diferente. O homem que está certo de que morrerá para sempre pode muito bem acreditar que Jesus de Nazaré era o Deus de Deus, que Deus é trino, que a Encarnação foi acompanhada de um nascimento virginal, que o pão e o vinho são transformados de uma forma particular; pode recitar um grande número de preces cristãs e admirar e imitar certos cristãos, mas será um homem muito diferente daquele que considera verdadeira a imortalidade.”

    Muitos Católicos acreditam que são católicos por receberem comunhão, irem às missas, casarem-se na Igreja…etc, mas ao perderem a fé nos Novíssimos conservarão essas práticas apenas como meros rituais dos quais não podem ser excluídos por uma simples questão de “justiça social”.