A fé católica não é ofendida só com a heresia.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana, 13-01-2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comEm uma longa entrevista aparecida em 30 de dezembro no semanário alemão Die Zeit, o cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, levanta uma questão de crucial atualidade. Quando perguntado pela entrevistadora sobre o que pensa daqueles católicos que atacam o Papa, definindo-o de “herege”, ele responde: “Não só pelo meu ofício, mas pela convicção pessoal, devo dissentir. Herege na definição teológica é um católico que nega obstinadamente uma verdade revelada e proposta como tal pela Igreja para ser crida. Outra coisa é quando aqueles que são oficialmente encarregados de ensinar a fé se exprimem de forma talvez infeliz, enganosa ou vaga. O magistério do Papa e dos bispos não é superior à Palavra de Deus, mas a serve. (…) Pronunciamentos papais têm ademais um caráter vinculante diverso – desde uma decisão definitiva pronunciada ex cathedra até uma homilia que serve bastante para o aprofundamento espiritual.”

indifferentism-468x256Tende-se hoje a cair em uma dicotomia simplista entre heresia e ortodoxia. As palavras do cardeal Müller nos lembram que entre o branco (a plena ortodoxia) e o preto (a heresia aberta) há uma zona cinzenta que os teólogos têm explorado com precisão. Existem proposições doutrinárias que embora não sendo explicitamente heréticas, são reprovadas pela Igreja com qualificações teológicas proporcionais à gravidade e ao contraste com a doutrina católica. A oposição à verdade apresenta de fato diferentes graus, conforme seja direta ou indireta, imediata ou remota, aberta ou dissimulada, e assim por diante. As “censuras teológicas” (não confundir com as censuras ou penas eclesiásticas) expressam, como explica em seu clássico estudo o padre Sisto Cartechini, o julgamento negativo da Igreja sobre uma expressão, uma opinião ou toda uma doutrina teológica (Dall’ opinione al domma. Valore delle note teologiche, Edizioni “La Civiltà Cattolica”, Roma, 1953). Este julgamento pode ser privado, se for dado por um ou mais teólogos por conta própria, ou público e oficial, se promulgado pela autoridade eclesiástica.

O Dicionário de Teologia Dogmática do cardeal Pietro Parente e de monsenhor Antonio Piolanti resume a doutrina: “As fórmulas de censura são muitas, com uma gradação que vai do mínimo ao máximo. Elas podem ser agrupadas em três categorias: Primeira categoria: em relação ao conteúdo doutrinário uma proposição pode ser censurada como: a) herética, caso se oponha abertamente a uma verdade de fé definida como tal pela Igreja; segundo a maior ou menor oposição a proposição pode dizer-se próxima da heresia, de sabor herético; b) errônea na fé, caso se oponha a uma grave conclusão teológica derivada de uma verdade revelada e de um princípio da razão; a proposição é censurada como temerária caso se oponha a uma simples sentença comum entre os teólogos. Segunda categoria: em relação à forma defeituosa, pela qual a proposição é considerada equivocada, dúbia, capciosa, suspeita, mal soante etc. embora não contradizendo alguma verdade de fé sob o ponto de vista doutrinário. Terceira categoria: em relação aos efeitos que podem ser produzidos pelas circunstâncias particulares de tempo e de lugar, embora não sendo errônea no conteúdo e na forma. Em tal caso a proposição é censurada como perversa, viciosa, escandalosa, perigosa, sedutora dos simples” (Dizionario di teologia dogmatica, Studium, Roma 1943, pp. 45-46). Em todos esses casos a verdade católica é desprovida de integridade doutrinária ou expressa de maneira carente e imprópria.

Esta precisão na qualificação dos erros se desenvolveu sobretudo entre os séculos XVII e XVIII, quando a Igreja se confrontou com a primeira heresia que lutou para permanecer interna: o jansenismo. A estratégia dos jansenistas, como mais tarde a dos modernistas, era de continuar a autoproclamar sua plena ortodoxia, apesar das reiteradas condenações. Para evitar a acusação de heresia, eles se empenharam em encontrar fórmulas de fé e de moral ambíguas e equivocadas, que não se opunham frontalmente à fé católica e lhes permitiam permanecer na Igreja. Com igual precisão e determinação os teólogos ortodoxos especificaram os erros dos jansenistas, rotulando-os segundo as suas características específicas.

O Papa Clemente XI, na bula Unigenitus Dei filius, de 8 de setembro de 1713, censurou 101 proposições do livro Réflexions morales do teólogo jansenista Pasquier Quesnel como, entre outras coisas, “falsas, capciosas, mal soantes, ofensivas aos ouvidos pios, escandalosas, perniciosas, temerárias, ofensivas à Igreja e às suas práticas, suspeitas de heresia, com cheiro de heresia, aptas a favorecer os hereges, as heresias e o cisma, errôneas e próximas da heresia” (Denz.-H, nº 2502).

Pio VI, na bula Auctorem fidei de 28 de agosto de 1794, condenou por sua vez oitenta e cinco proposições extraídas das atas do Sínodo jansenista de Pistoia (1786). Algumas dessas proposições do Sínodo são expressamente qualificadas como heréticas, enquanto outras são definidas, segundo o caso, de cismáticas, suspeitas de heresia, indutoras da heresia, favoráveis aos hereges, falsas, errôneas, perniciosas, escandalosas, temerárias, injuriosas à prática comum da igreja (Denz.H, nºs. 2600-2700).

Cada um desses termos tem um significado diferente. Assim, a proposição na qual o Sínodo professa “estar persuadido de que o Bispo recebeu de Jesus Cristo todos os direitos necessários para o bom governo da sua diocese”, independentemente do Papa e dos Concílios (no. 6), é “errônea” e “induz ao cisma e à subversão do regime hierárquico”; aquela em que se rejeita o limbo (no. 26) é considerada “falsa, temerária, ofensiva às escolas católicas”; a proposição que proíbe a colocação no altar de relicários ou flores (nº 32) é qualificada de “temerária, injuriosa ao piedoso e reconhecido costume da Igreja”; aquela que auspicia o retorno aos rudimentos arcaicos da liturgia, “voltando a uma maior simplicidade de ritos, expondo-a em vernáculo e pronunciando-a em voz alta” (nº 33), é definida como “temerária, ofensiva aos ouvidos pios, ultrajantes à Igreja, favoráveis às maledicências dos hereges contra a própria Igreja”.

Uma análise do Relatório Final do Sínodo dos Bispos de 2015, conduzida segundo os princípios da teologia e da moral católica, não pode senão encontrar graves lacunas naquele documento. Muitas de suas proposições poderiam ser definidas como mal soantes, errôneas, temerárias, e assim por diante, embora de nenhuma se possa dizer que seja formalmente herética.

Mais recentemente, em 6 de janeiro de 2016, foi difundida em todas as redes sociais do mundo, uma videomensagem do Papa Francisco dedicada ao diálogo interreligioso, onde católicos, budistas, judeus e muçulmanos parecem colocados no mesmo plano como “filhos de (um) Deus” que cada um encontra na sua própria religião, em nome de uma comum profissão de fé no amor. As palavras de Francisco, combinadas com as dos outros protagonistas do vídeo e sobretudo com as imagens, veiculam uma mensagem sincretista que contradiz, pelo menos indiretamente, o ensinamento sobre a unicidade e a universalidade da missão salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, reafirmado pela encíclica Mortalium animos de Pio XI (1928) e pela Declaração Dominus Jesu, do então Prefeito da Congregação da Doutrina Fé, cardeal Joseph Ratzinger (6 de agosto de 2000).

Se quisermos, como simples católicos batizados, aplicar as censuras teológicas da Igreja a esse vídeo, deveríamos defini-lo como: favorecedor da heresia quanto ao conteúdo; equivocado e capcioso no que diz respeito à forma; escandaloso quanto aos efeitos sobre as almas. Contudo, o julgamento público e oficial de seu conteúdo incumbe à autoridade eclesiástica, e ninguém melhor nem com mais título que o atual Prefeito da Congregação para a Doutrina Fé para exprimir-se a respeito. Muitos católicos desconcertados clamam por isso em alta voz.

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9 Comentários to “A fé católica não é ofendida só com a heresia.”

  1. A fé católica não é ofendida só com heresias formais, mas com tudo que, de alguma forma, a desmereça e a contamine de ideias discordantes de seu Magisterio doutrinario tradicional de sempre, como os de seus grandes santos e doutores.
    De igual forma, em diversos graus, é vilipendiada quando de apoio ou adesão a ensinamentos de seitas relativistas à sua margem, como as protestantes; como procedimentos de católicos refratarios à sua doutrina ou estejam contaminados de modernismos e os propagando; de sincretismo religioso, disseminação de crendices, mesmo de um catolicismo que alivia as punições aos que desobedecem a ele, quer de forma grave ou mais leve; cada caso deveria ser analisado para ver as dimensões da ofensa e repercussão negativa que teria causado a outrem.
    No momento presente, a grande ofensa, dependendo de onde provenha, é a dimensão deleteria que pode causar ao rebanho, já que um pronunciamento infeliz, inconveniente, capcioso, dubio ou mesmo de conotação herética de alguma alta autoridade hierárquica poderia causar danos quase irreversíveis no rebanho, devido à midia ser acessível a multidões imediatamente ao ser publicado o promunciamento, e as mentes serem afetadas por eventuais erros.
    Um exemplo de comportamento bem próximo de heresia formal ou ela mesma seria de membros da Igreja – pior ainda se sacerdotes, temos varios exemplos – aderirem ou apoiarem candidatos de partidos comunistas, sentirem afeição por seitas e as defenderem, filiarem-se á maçonaria, aliviarem as punições às injustiças, como que quase as entronizando, assim como viverem como se o Senhor Deus não existisse, o ateísmo atual, dentre muitos mais.

  2. Tudo isso para dizer uma obviedade, qual seja: que a conduta de Bergoglio é inaceitável sob qualquer prisma ( e qualquer outra similar antes ou após ele, por qualquer pessoa que seja ).

    Como alguém, que apregoa o contrário da Fé Católica pode ter Autoridade de origem divina para zelar sobre nossas almas e nossa salvação??

  3. As celebridades facebookianas da “fidelidade incondicional ao Romano Pontífice” estão guardando silêncio monacal sobre esse vídeo. Os blogues neocons idem. Pobre gente.

  4. Nesses tempos de confusão, violência e desânimo, vale à pena ouvir o que o Papa diz sobre Cristo e a Igreja:

    “Veja cada um como edifica… Ninguém pode pôr outro fundamento, diverso daquele que já foi posto, isto é, Jesus Cristo” (1 Cor 3, 10-11), diz São Paulo na segunda Leitura. O Senhor Jesus é a pedra que suporta o peso do mundo, que mantém a coesão da Igreja e que recolhe na unidade final todas as conquistas da humanidade. Nele temos a Palavra e a presença de Deus, e é dele que a Igreja recebe a sua vida, a sua doutrina e a sua missão. A Igreja não tem consistência por si mesma, mas é chamada a ser sinal e instrumento de Cristo, em pura docilidade à sua autoridade e em serviço total ao seu mandato. O único Cristo funda a única Igreja; Ele é a rocha sobre a qual se alicerça a nossa fé. Ancorados nesta fé, procuremos juntos mostrar ao mundo o Rosto de Deus, que é amor e o Único que pode responder ao anseio de plenitude do homem. Eis a grande tarefa: mostrar a todos que Deus é Deus de paz e não de violência, de liberdade e não de coação, de concórdia e não de discórdia. Neste sentido, penso que a dedicação deste templo da Sagrada Família, numa época em que o homem pretende edificar a sua vida de costas para Deus, como se já nada tivesse para lhe dizer, é um fato de grande significado”.

    Bento XVI, Papa.
    Barcelona, 7.XI.2010

    http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2010/documents/hf_ben-xvi_hom_20101107_barcelona.html

  5. Foi com satisfação que percorri, atento, o artigo escrito pelo Prof. Roberto de Mattei. Com efeito, agradou-me verificar que segue a doutrina católica tradicional, a respeito de difíceis questões teológicas, tratadas com segurança e conhecimento especializado.

    Entretanto, ao chegar ao último parágrafo, surpreendi-me por constatar que De Mattei defende que “o julgamento público e oficial de seu conteúdo incumbe à autoridade eclesiástica, e ninguém melhor nem com mais título que o atual Prefeito da Congregação para a Doutrina Fé para exprimir-se a respeito.”

    O tema tratado no artigo é de grandiosa importância, máxime em tempos de um clero que promove a autodemolição da Igreja Católica, e leva o leitor a considerar que os leigos devem permanecer à espera do pronunciamento público e oficial de algum membro do clero, sobretudo do atual Prefeito da Congregação para à Doutrina da Fé (conhecido discípulo do Padre Gustavo Gutiérrez, considerado por muitos como o pai da Teologia da Libertação).

    Não obstante, o artigo publicado foi inspirado no estudo de Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, intitulado “Não só a Heresia Pode Ser Condenada pela Autoridade Eclesiástica”, Revista Catolicismo n.º 203, Novembro de 1967. Creio ser de grande utilidade para os leitores do conceituado site católico Fratres in Unum tomarem conhecimento do penúltimo subtítulo do referido artigo, “Uma objeção final: censurar não é ofício de leigos”, que reproduzo a seguir:

    “Em face deste quadro das censuras doutrinárias, algum leitor poderia objetar que nada tem a ver com isso, uma vez que é só ao Papa e aos Bispos – e nunca a um simples leigo – que cabe a missão de censurar uma asserção que se oponha à fé.

    A objeção não procede. Com efeito, os teólogos, depois de mostrarem que a missão de pronunciar censuras doutrinárias cabe em primeiro lugar Soberano Pontífice e aos Bispos, e a todos aqueles que têm jurisdição no foro externo, acrescentam que “os particulares podem, também eles, usar de sua inteligência cristã para apreciar e qualificar livros ou proposições em face da ortodoxia e doa costumes. Essa é uma faculdade e, até certo ponto, um dever de cada um com vistas à conservação, defesa e propagação da fé […]” (Quilliet, col. 2102).

    Por isso, os manuais costumam distinguir as censuras judiciais, que são pronunciadas por uma autoridade eclesiástica, de modo oficial, das puramente doutrinárias ou científicas, que são proferidas por teólogos, gozando portanto de mera autoridade privada de quem as emitiu (cf. Tanquerey, p.116).

    A essas considerações, Dom Antonio de Castro Mayer acrescenta que “a condenação dos erros dos heresiarcas em geral, como Lutero, Jansênio, e mais recentemente os modernistas, foi sempre precedida de uma polêmica esclarecedora travada entre os inovadores e alguns beneméritos defensores da Fé, eclesiásticos ou leigos, agindo sob responsabilidade própria” (p.65).”

  6. Por causa da falta de entusiamo de alguns da Igreja em promoverem as missões como outrora, merecem o abaixo!
    «Si no hacemos de la verdad un punto importante en la proclamación de nuestra fe, y si esta verdad ya no es esencial para la salvación del hombre, entonces las misiones pierden su significado. En efecto, se elaboró la conclusión, y lo sigue siendo hoy, que en el futuro, sólo debemos buscar que los cristianos sean buenos cristianos, los musulmanes buenos musulmanes, los hindúes buenos hindúes, y así sucesivamente. Y si llegamos a estos resultados, ¿cómo sabemos cuándo alguien es un “buen” cristiano, o “buen” musulmán? La idea de que todas las religiones son – o pretenden serlo – sólo símbolos de lo que finalmente es incomprensible, está ganando terreno rápidamente en la teología, y ya ha penetrado la práctica litúrgica. Cuando las cosas llegan a este punto, la fe es dejada a un lado, porque la fe realmente consiste en creer la verdad por cuanto es conocida» (El Concilio y la dignidad de lo sagrado – Joseph Raztinger, 13 julio 1988)

  7. O artigo do prof. Roberto de Mattei pode desconcertar inúmeros católicos que possuem escassa formação doutrinária e consideram que absolutamente todas as manifestações papais, discursos ou documentos, são revestidos de infalibilidade. O escritor italiano – ao tratar do escandaloso vídeo de 6 de janeiro gravado pelo Papa Francisco – chega à conclusão de que a qualificação teológica a ser dada ao pronunciamento papal é a de favorecimento de heresia. Não considera que tenha havido propriamente heresia, apoiando-se no Dicionário de Teologia Dogmática, do cardeal Parente e de Mons. Piolanti, que afirmam que uma proposição é “herética, caso se oponha abertamente a uma verdade de fé definida como tal pela Igreja”. Contudo, não se poderia cogitar de que houve de fato heresia?
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    Vem ao caso rememorar a resposta dada por um teólogo brasileiro em 1967 ao problema que formulou dessa maneira: “A pergunta que nos fazemos é a seguinte: é necessário que um católico defenda por palavras, faladas ou escritas, proposições opostas à fé, para que se torne herege ou suspeito de heresia? O conjunto das atitudes de uma pessoa, o seu modo de ser, de agir e de portar-se, pode caracterizar o herege, ainda que ela nada diga ou escreva de formalmente contrário à fé? Em suma: alguém pode cair em heresia por atos que pratique? … Ora, é uma tese pacífica entre os teólogos que não apenas por palavras, mas também por gestos, atitudes, sinais, omissões, é possível exteriorizar uma heresia, incorrendo assim nas penas canônicas” (“Atos, Gestos, Atitudes e Omissões Podem Caracterizar o Herege”, por Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, publicado em Catolicismo, n.º 204, de dezembro de 1967.)
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    Ora, no vídeo, cuidadosamente preparado por uma equipe técnica e divulgado pelo Vaticano, notam-se gestos, atitudes, sinais, omissões do Papa Francisco e de outros participantes, junto com afirmações de Francisco que a mim parecem – implícita, mas claramente – heréticas, por negarem a certeza dogmática de que somente a Igreja Católica é verdadeira e somente nela os homens podem encontrar Deus, pois, se é possível encontrar Deus em outras religiões, segue-se que a Igreja Católica não é a única verdadeira e as outras também são verdadeiras: “Muitos pensam de modo diferente, sentem de modo diferente, procuram Deus ou encontram Deus de muitos modos; nesta multidão, nesta variedade de religiões, só há uma certeza que temos para todos: somos todos filhos de Deus”.
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    Uma última observação me parece caber a respeito da afirmação do prof. De Mattei: “Contudo, o julgamento público e oficial de seu conteúdo incumbe à autoridade eclesiástica, e ninguém melhor nem com mais título que o atual Prefeito da Congregação para a Doutrina Fé para exprimir-se a respeito.” Não compreendo como o prof. de Mattei peça um “julgamento público e oficial” ao cardeal Müller, Prefeito dessa Congregação, como sendo a autoridade eclesiástica mais competente. Trata-se de um vídeo do Papa. Ora, o Prefeito da Congregação é uma autoridade essencialmente inferior e subordinado ao Papa, e portanto, não tem competência para fazer esse “julgamento público e oficial”. Com efeito, dessa forma preconizada pelo prof. De Mattei, haveria um ato declaratório jurídico, público e oficial, da defecção na fé do Pontífice. Mas, como é óbvio, tal declaração não pode ser uma decisão judicial em sentido estrito, dado que o Papa não tem na Terra superior que o julgue.
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    Uma declaração não jurídica, entretanto, feita por um Concílio, por um Cardeal Prefeito de Congregação, ou por um simples leigo, não seria um ato oficial em razão do qual a destituição do Pontífice se desse. Mas “visaria apenas premunir a opinião católica contra a heresia do chefe da Igreja. Semelhante declaração não jurídica é admitida como legítima por todos os autores” (“Considerações sobre o Ordo Missae de Paulo VI”, por Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira. Edição mimeografada para o Autor, São Paulo, 1970. Parte I, cap. V, n. 2, nota 2 da página 27.).
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    Por essa via, a da declaração não jurídica, até o simples leigo pode emitir sua opinião ou mesmo proferir censura, ao fazer uso de sua inteligência cristã para apreciar e qualificar livros ou proposições, e também atos, gestos, atitudes e omissões, de eclesiásticos ou leigos, inclusive do Romano Pontífice, em face da ortodoxia e dos costumes. E aqui recorro à relevante e pertinente citação apresentada acima pelo leitor Dr. Lucas Janusckiewicz Coletta: “Essa é uma faculdade e, até certo ponto, um dever de cada um com vistas à conservação, defesa e propagação da fé”. Trata-se de manifestação legítima, de quem age com mera autoridade privada e sob responsabilidade própria. Sem dúvida, é a hora e vez dos católicos tradicionalistas leigos erguerem sua voz!