Léonard, apelo ao Papa.

Pouco depois de ser dispensado da Arquidiocese de Bruxelas-Malines, o arcebispo Léonard dirigiu um apelo ao Papa. É interessante, porque diz respeito ao Sínodo da Família e ao documento – Exortação Pós-Sinodal – que, segundo o que alguns andam dizendo, o Papa iria tornar público ainda no próximo mês.

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com: Uma das demissões mais inexplicáveis, entre as mais difíceis de se entender, feita durante o reinado do Papa Francisco, tocou o arcebispo de Malines-Bruxelas, Dom André-Joseph Léonard.

leonard2Dom Léonard foi demitido no termo dos seus cinco anos de serviço, sem receber o barrete cardinalício que normalmente acompanha a Arqudiocese de Bruxelas. Ele foi atacado física e publicamente pelas feministas do Femen, defendeu a doutrina católica, e tendo recebido uma diocese que em 2010 contava com apenas quatro seminaristas, deixou um seminário com 55 candidatos.

Professor em Louvain por vinte anos, por treze anos esteve à frente do seminário universitário e como Bispo de Namur antes de ir para Bruxelas. É bem provável que ele foi vítima da antipatia de outros irmãos no episcopado que o viam como muito conservador e em pouca sintonia com o conselheiro do Papa, o controverso Cardeal Danneels.

Pouco depois de ter deixado o cargo, ele respondeu a uma série de perguntas feitas pelo site La Croix e, embora a entrevista tenha sido dada há alguns dias, parece útil repropor algumas passagens para os leitores italianos, referindo-se ao original AQUI.

Leonard também dirige um apelo ao Papa. É interessante, porque diz respeito ao Sínodo da Família e ao documento – Exortação Pós-Sinodal – que, segundo o que andam dizendo, o Papa iria tornar público ainda no próximo mês. Isso depois de ter dito que estava um pouco “decepcionado com o texto final, porque nele se cultivou a ambiguidade em pontos mais delicados”.

“Alguns bispos disseram-me que os textos foram deliberadamente redigidos de forma ambígua, para que sejam interpretados em diferentes direções”. E aqui está o apelo:

“Espero que tenhamos uma palavra benevolente e sem nuances, bem clara em questões de doutrina e disciplina da Igreja Católica no que diz respeito ao casamento e à família. A bola está agora no campo do Papa. É hora de ele exercer o seu mandato petrino de unidade e continuidade da Tradição, como havia declarado em seu discurso de encerramento do primeiro Sínodo sobre a família”.

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10 Comentários to “Léonard, apelo ao Papa.”

  1. Fiquei impressionado com a “aposentadoria” do arcebispo Léonard.
    Todos já sabiam que ele não era alinhado com a agenda liberal do cardeal Denneels.
    Vale a pena lembrar que existe um alinhamento ideológico entre o Cardeal Denneels e o Papa Francisco.
    Ao ler a respeito do dado comparativo do número de vocações da arquidiocese de Bruxelas sob Denneels (4) e depois sob Léonard (55), muitas coisas vêm à memória, dentre elas o que aconteceu com dom Rogélio.
    Os lobos continuam a agir furiosos contra a Fé católica.

  2. D Léonard, infelizmente, comporta-se e tem pontos de vista doutrinarios distoantes dos atuais “apologetas da fé católica” atuantes nesse setor no Vaticano, por ser apegado ao tradicional Magisterio da Igreja: ele é politicamente incorreto, e com esse procedimento tradicional, não passa no crivo dos atuais censores da doutrina supostamente católica!
    …*”Infelizmente, em nossos dias, está ficando cada vez mais evidente que o Vaticano, por meio da Secretaria de Estado, tomou a estrada do politicamente correto. Alguns Núncios tornaram-se propagadores do liberalismo e do modernismo. Eles se tornaram especialistas no princípio “Sub secreto Pontifício”, através do qual manipulam e calam as bocas dos bispos…
    … **”Em nossos dias, a voz da maioria dos bispos se assemelha ao silêncio dos cordeiros diante de lobos furiosos, os fiéis são abandonados como ovelhas sem defesa”!…
    Excetuam-se D Léonard e alguns muitos poucos que não se acuam frente aos desafios, jamais se enquadrando no “canes non valentes latrare” e não se esquecem de atender a: “À boca a trombeta: o inimigo cai como uma aguia sobre a Casa do Senhor”. Os 8,1.
    Recentemente, na França, nos atentados e nas gravíssimas profanações em Fontainebleau tem havido questionamentos em sites católicos de a CEF omitir-se – a CNBB francesa; sabe-se de apenas de um bispo, além de um Cardeal numa carta de pezares e de solidariedade, D Sarah, que se dispuseram em se manifestar até agora!
    * ** Carta aberta de um arcebispo sobre a crise na Igreja.

  3. Não entendi a razão do espanto: o Código prevê que, ao completar 75 anos (o que o em.o arcebispo fez em maio passado), a renúncia seja apresentada. No caso em questão, sete meses depois do pedido, tempo razoável.

    Quanto à púrpura, não se pode culpar Francisco por tê-la negado, uma vez que Léonard estava no governo da sé bruxelense há pouco mais de dois anos neste último pontificado, ao passo que estava há três no pontificado anterior, sem que ninguém acusasse Bento XVI de ter deixado o purpurado na geladeira…

    • D´Origo: D. Eugênio teve sobrevida episcopal; este jamais seria o caso do Arcebispo de Bruxelas. Seja como for, é mais honroso ser bedel em Louvain que Reitor das PUCs brasileñas, e Mons. Léonard lecionou em Louvain. É grande mérito ser sapateado por carniceiras e ser o odor da boa doutrina em tempo de carniça. As luzes se apagam. Restam o zig-zag das baratas e a avidez das ratazanas; resta toda aquela bicharada que projetaram em São Pedro, sem excluir a antiga serpente…

    • Giuseppe, há um porém: Bento XVI em tese não poderia ter dado a púrpura a Léonard porque seu antecessor (Danneels) ainda não havia completado 80 anos. Não é comum em nenhum lugar do mundo que uma mesma sede tenha dois cardeais eleitores, então a decisão de Bento XVI não só foi correta como previsível. Danneels fez 80 anos em junho de 2013, a partir daí o caminho estava livre para Francisco tornar Léonard cardeal. Não fez por motivos que só ele e Deus sabem…

    • É verdade, Carlos. Eu não havia percebido este detalhe.

      Em todo caso, não se sabe objetivamente as causas das demoras pontifícias: no caso do Rio, levou quase dois anos para D. Orani ser criado cardeal após Scheid haver completado os oitenta.

  4. São Paulo teve 2 cardeais, Hummes e Scherer, por uns bons anos sem que o primeiro completasse 80 anos…

    • Pedro, o caso de São Paulo, minha diocese, não é estranho. Dom Cláudio foi chamado a Roma para ser prefeito da Congregação para o Clero e em seu lugar ficou Dom Odilo, que poucos meses depois foi nomeado cardeal. Como dom Cláudio não estava mais a serviço da arquidiocese não foi anormal o cardinalato a dom Odilo. Quando dom Cláudio renunciou por idade da Congregação, voltou a morar em São Paulo como prefeito emérito. Assim calhou dele e de dom Odilo serem eleitores no conclave de 2013.
      E outro detalhe: isso já havia acontecido antes quando o cardeal Agnelo Rossi foi chamado a Roma para assumir a Congregação para Propagação da Fé e em seu lugar ficou Dom Paulo, que pouco depois foi criado cardeal. Conclui-se então que neste contexto não há nada anormal.
      O caso de Danneels e Léonard é distinto.

    • Não. São Paulo não teve dois cardeais eleitores ao mesmo tempo. O Cardeal Hummes estava em Roma, como Prefeito da Congregação para o Clero, quando Dom Scherer recebeu a púrpura cardinalícia.

  5. Talvez o ponto mais importante desse post não seja a questão da saída de cena de Mons. Léonard, mas o seu canto de cisne, em forma de apelo dirigido a Francisco, pedindo “unidade e continuidade da tradição”, dois fatores bastante achincalhados nesses três anos de dispersão e ruptura. Francisco, de fato, radicaliza o processo de mundanização da Igreja como pretensa solução para esta fazer-se ouvida no mundo leigo e indiferente que a cerca.

    Uma boa meditação sobre o problema das relações da Igreja com a cultura “moderna” e seu falido humanismo, é o corajoso anúncio que Bento XVI fez ao areópago da cultura laica francesa reunida para ouvi-lo no colégio “des Bernadins” em 12 de setembro de 2008. No final, Ele diz:

    “Uma cultura meramente positivista que relegasse para o âmbito subjetivo, como não científica, a pergunta acerca de Deus, seria a capitulação da razão, a renúncia às suas possibilidades mais elevadas e, portanto, o descalabro do humanismo, cujas consequências não deixariam de ser graves. O que fundamentou a cultura da Europa, a procura de Deus e a disponibilidade para O escutar, permanece também hoje o fundamento de toda a verdadeira cultura.”

    https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2008/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20080912_parigi-cultura.html

    Vale também à pena rever o acolhimento que Bento XVI teve nesse dia: