A penitência: desejada pelo Céu e odiada pelo mundo.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comSe há um conceito radicalmente oposto à mentalidade moderna é o da penitência.

ihs-305x278O termo e a noção de penitência evocam a ideia de um sofrimento que infligimos a nós mesmos para expiar os nossos pecados ou os de outras pessoas e nos unirmos aos méritos da Paixão redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo. O mundo moderno rejeita o conceito de penitência por estar imerso no hedonismo e professar o relativismo, que é a negação de qualquer bem pelo qual vale a pena sacrificar-se, exceto a busca do prazer. Só isso pode explicar episódios como o furibundo ataque midiático em curso contra os Franciscanos da Imaculada, cujos mosteiros são descritos como locais de tortura, só porque neles se pratica uma vida de austeridade e penitência. Usar o cilício ou gravar o monograma do nome de Jesus no peito é considerado uma barbárie, enquanto praticar o sadomasoquismo ou tatuar indelevelmente o próprio corpo é considerado hoje um direito inalienável da pessoa.

Com toda a força de que os meios de comunicação são capazes, os inimigos da Igreja repetem as acusações anticlericais de sempre. O que é novo é a atitude das autoridades eclesiásticas, que em vez de defender as freiras difamadas, as abandonam ao carrasco midiático com secreto comprazimento, fruto da incompatibilidade entre as regras tradicionais que essas religiosas estão decididas a observar e os novos padrões impostos pelo “catolicismo adulto”.

Mesmo que o espírito de penitência tenha pertencido desde o início à Igreja Católica – como o recordam as figuras de São João Batista e de Santa Maria Madalena – qualquer incitamento às práticas ascéticas antigas é considerado hoje intolerável até por muitos eclesiásticos. No entanto, não há doutrina mais razoável do que aquela que fundamenta a necessidade de mortificação da carne. Se o corpo está em revolta contra o espírito (Gl 5, 16-25), não é razoável e prudente reprimi-lo? Nenhum homem está livre do pecado, nem mesmo os “cristãos adultos”. Não age portanto segundo um princípio lógico e salutar quem expia seus pecados mediante a penitência?

As penitências mortificam o “eu”, dobram a natureza rebelde, reparam e expiam os próprios pecados e os dos outros. Se, pois, considerarmos as almas que amam a Deus, que buscam a semelhança com o Crucificado, então a penitência se torna uma exigência do amor. São famosas páginas de De Laude flagellorum de São Pedro Damião, o grande reformador do século XI, cujo mosteiro de Fonte Avellana se caracterizava por uma extrema austeridade nas regras. Escrevia ele: “Quero sofrer o martírio por Cristo, mas não tenho ocasião; submetendo-me às flagelações, pelo menos manifesto a vontade de minha alma ardente” (Epístola VI, 27, 416 c.).

Toda reforma na história da Igreja foi feita com a intenção de reparar os males do tempo por meio da austeridade e da penitência. Nos séculos XVI e XVII, os Mínimos de São Francisco de Paula praticaram (e o fizeram até 1975) um voto de via quaresmal que lhes impõe a abstenção perpétua não só de carne, mas de ovos, de leite e de todos os seus derivados; os Recoletos consomem a própria refeição no chão, misturam cinza nos alimentos, prosternam-se diante da porta do refeitório sob os pés dos religiosos que entram; os Irmãos hospitalares de São João de Deus estabelecem na sua constituição “comer no chão, oscular os pés dos irmãos, sofrer repreensões públicas e acusar-se publicamente”. Análogas são as regras dos Barnabitas, dos Escolápios, do Oratório de São Felipe Neri, dos Teatinos. Não há instituto religioso, como documenta Lukas Holste, que não inclua em sua constituição a prática do capítulo de culpas, a disciplina várias vezes por semana, os jejuns, a diminuição das horas de sono e de repouso (Codex regularum monasticarum et canonicarum, (1759) Akademische Druck und Verlaganstalt, Graz 1958).

A essas penitências “de regra” os religiosos mais fervorosos juntavam as chamadas penitências “superrogatórias”, deixadas a critério de cada um. Santo Alberto de Jerusalém, por exemplo, na Regra escrita para os Carmelitas e confirmada pelo Papa Honório III em 1226, depois de descrever o gênero de vida da Ordem e as respectivas penitências a praticar, conclui: “Se alguém no entanto quiser dar mais, o próprio Senhor em seu retorno o recompensará”.

Bento XIV, que era um Papa meigo e equilibrado, confiou a preparação do Jubileu de 1750 a dois grandes penitentes, São Leonardo de Porto Maurício e São Paulo da Cruz. Frei Diego de Florença deixou um diário da missão realizada por São Leonardo de Porto Maurício na Praça Navona, em Roma, de 13 a 25 julho 1759. Com uma pesada corrente em volta do pescoço e uma coroa de espinhos na cabeça, o santo se flagelava diante da multidão, gritando: “Ou penitência ou inferno” (São Leonardo de Porto Maurício, Obras Completas. Diário de Fra Diego, Veneza, 1868, vol. V, p. 249). São Paulo da Cruz terminava sua pregação infligindo-se golpes tão violentos, que com frequência algum fiel não resistia mais ao espetáculo e saltava no palco, com o risco de ser atingido, para deter-lhe o braço (Os processos de beatificação e de canonização de São Paulo Cruz, Postulação geral dos Padres Passionistas I, Roma 1969, p. 493).

A penitência foi praticada ininterruptamente durante dois mil anos pelos santos, canonizados ou não, que com suas vidas têm ajudado a escrever a história da Igreja; por Santa Joana de Chantal e Santa Veronica Giuliana, que gravaram com um ferro quente o cristograma no peito, e por Santa Teresinha do Menino Jesus, que escreveu o Credo com o seu sangue, no final do livrinho dos Santos Evangelhos que trazia sempre sobre o coração.

Contudo, essa generosidade não caracteriza somente as monjas contemplativas. No século XX, dois santos diplomatas iluminaram a Cúria Romana: o cardeal Merry del Val (1865-1930), Secretário de Estado de São Pio X, e o Servo de Deus Mons. José Canovai (1904-1942), representante da Santa Sé na Argentina e no Chile. O primeiro usava sob a púrpura cardinalícia uma camisa de crina trançada com pequenos ganchos de ferro. Do segundo, autor de uma oração escrita com sangue, o cardeal Siri escreve: “As correntes, os cilícios, as flagelações horríveis com lâminas de barbear, as feridas, as cicatrizes aumentadas pelas sucessivas lesões, não são o ponto de partida, mas de chegada de um fogo interior; não a causa, mas a eloquente e reveladora explosão desse fogo. Tratava-se da clareza com a qual ele via em si e em cada coisa um meio para amar a Deus, e com a qual, no lancinante sacrifício do sangue, via garantida a sinceridade das demais renúncias interiores” (Memorial para a Positio de beatificação de 23 de Março 1951).

Foi nos anos cinquenta do século XX que as práticas espirituais e ascéticas da Igreja começaram a declinar. O padre João Batista Janssens, Geral da Companhia de Jesus (1946-1964), interveio mais de uma vez para chamar os próprios irmãos a retornar ao espírito de Santo Inácio. Em 1952 ele lhes enviou uma carta sobre a “mortificação contínua”, na qual se opunha às posições da nouvelle théologie, tendentes a excluir as penitências reparadoras e impetratórias, e escrevia que jejuns, flagelação, cilícios e outros rigores deviam permanecer escondidos dos homens, segundo a norma de Cristo (Mt 6, 16-18), mas deviam ser ensinados e inculcados nos jovens jesuítas até o segundo noviciado, chamado de terceiro ano de aprovação (Dizionario degli Istituti di Perfezione, vol. VII, col. 472). Ao longo dos séculos, as formas de penitência podem mudar, mas não o espírito, que é sempre oposto ao do mundo.

Prevendo a apostasia espiritual do século XX, Nossa Senhora em pessoa recordou em Fátima a necessidade da penitência. Penitência não é senão a recusa das falácias do mundo, a luta contra os poderes das trevas, que disputam com as forças angélicas o domínio das almas, e a mortificação contínua da sensualidade e do orgulho, enraizados no mais profundo do nosso ser. Somente aceitando essa luta contra o mundo, o demônio e a carne (Ef 6, 10-12), podemos compreender o significado da visão cujo centésimo aniversário celebraremos dentro de um ano. Os pastorinhos de Fátima viram “ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência!” (Roberto de Mattei)!

Tags:

13 Comentários to “A penitência: desejada pelo Céu e odiada pelo mundo.”

  1. “Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação 2 Cor 6,2.
    A penitência é um pesar por um passado anterior de culpas, é a reparação e a satisfação oferecidas à santidade e à bondade do Senhor Deus por O termos ofendido; é um soberbo que se humilha, é um pecador sensual que mortifica seu corpo afastando-se das acasiões de adulterio, é o homem injusto que restitui, é o vingativo que perdoa, é enfim o pecador que lamenta e mortifica-se por seus erros, podendo ser de diversos modos.
    “Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos. 1 Cor 15,32, citação de S Paulo ao se referir à frase do pagão Menandro, serve para os cristãos que vivem no mundo de hoje tais quais, arredios à penitencia por terem perdido à fé e aderidos á máxima acima nomeada; “aproveitar a vida” é a ordem que o sistema propaga!
    Nada mais justo que, quando o homem decide voltar para o Senhor Deus, seu primeiro pensamento recaia sobre de como compensar pelas faltas passadas, por meio de penitência, de expiação delas o quanto possa no restante de tempo de vida, mas deve ser resoluto na decisão e não voltar mais atrás, senão piorará ao anterior!
    Eis o caráter seguro de uma verdadeira conversão, sacrificando os diversos prazeres que bajulam os sentidos, mas seguindo os caminhos da Lei do Senhor Deus, além dos modelos que as ordens religiosas adotam.
    No momento presente, dentre muitas mais, já que vivemos dentro de autênticas reedições mais devassas que de Sodoma e Gomorra, à vista de todos, é afastar-se de quaisquer programações diabólicas da midia, como certas redes de tv, novelas, programas nada diferentes de bacanais, não frequentar campos de nudismo, como piscinas, praias etc e, nas ruas ser discreto nos olhares com as mulheres em geral, vestindo-se iguais ou piores que as meretrizes ás portas de moteis, além de um comportamento diferente dos mundanistas!

  2. A própria palavra penitência vem de ‘pena’, no sentido de castigo ou sanção. Impor penitência a si significa fazer uma reparação em si mesmo em decorrência de um mal anteriormente feito ou devida a uma infração cometida. A penitência, na Teologia Espiritual tem o sentido de correção da alma, no combate às concupiscências da carne, tendo em vista que o sofrimento consensual decorrido se associe às dores e à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. O hábito de fazer penitência, portanto, traz méritos ao penitente que poderá lucrar os mesmos em seu favor ou em favor de outros. É uma forma salutar e eficientíssima para dar um ‘up grade’ na alma que busca a perfeição e o domínio dos sentidos contra as tentações da carne, tendo como baliza a busca da perfeição cristã e não mera ‘ataraxia’. Num mundo onde o sensualismo exacerbado estimula diariamente, e de forma intensa, as pessoas a viverem num permanente estado de excitação sexual, a penitência é o melhor remédio, já que vai agir na raiz do problema, que é o espírito enfraquecido pelo pecado original. A oração e a prática das obras de misericórdia associados á penitência corporal, como formas de alcançar a graça santificante, continuam sendo infalíveis meios para se alcançar a salvação.

  3. A seita maçônica adoradora do homem moderno do Vaticano II nem nisso deixa de perseguir os verdadeiros católicos: os penitentes são entregues aos lobos do mundo com as graças desses impios com títulos eclesiásticos. Mas o Senhor esta a ver tudo, e Sua vingança será implacável! (Deuteronômio 32,35)

  4. Um resumo das considerações do Padre Faber sobre as dez utilidades da mortificação ou penitência.
    Domar o corpo, a fim de submeter as paixões revoltosas ao poder da graça e à parte superior da nossa vontade. Não encontraremos em pessoa alguma a força de vontade ou a seriedade de espírito, se ela não se esforçar deveras por subjugar o corpo.
    Estender nosso horizonte espiritual: Criar a sensibilidade de consciência (consciência delicada – um dos maiores dons de Deus na vida espiritual). Se não é o único meio, pelo menos é um dos principais.
    Obter crédito diante de Deus. O sofrimento torna-se facilmente uma força perante as coisas de Deus. Quando nós queixamos de ficarem as nossas orações sem resposta, da falta de êxito dos nossos esforços para desarraigar algum pecado habitual, de cedermos às tentações, às surpresas do gênio ou da loquacidade, podemos atribuir tudo isto a nossa vida imortificada.
    Avivar o nosso amor a Deus. Manifestam e aumentam o nosso amor. E quando o objeto que amamos e contemplamos é, como Jesus, um objeto de dor e de sofrimentos, o amor nos excita com mais ou menos veemência a imitá-lo.
    Desapegar-nos das vaidades do mundo e inundar-nos com a alegria espiritual. Nada em si é tão oposto às vaidades do mundo como a mortificação, que destrói tudo o que elas mais prezam e mais amam. A alegria espiritual, esta é como a enchente da maré, que entra por onde encontra lugar vazio. A proporção, portanto, que os nossos corações se desapegam das amizades terrenas, isto é, das afeições que não constituem para nós um dever, eles se tornam capazes de gozar da doçura de Deus. As pessoas mortificadas são sempre alegres.( Não existe santo triste, seria um triste santo). O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo.
    Impedir que cometamos um erro grave, abandonando cedo demais a Via Purgativa: Grande perigo na vida espiritual. Muitos se apressam tanto no começo, que ficam sem respiração e abandonam por completo a corrida. Assemelham-se aos insensatos que correm loucamente para fugir de sua sombra. A natureza deseja sair do seu noviciado. A alma ligeiramente fatigada de vigiar a si mesma, quer agora converter o mundo. Peca por indiscrição e zelo imprudente. A água transborda a força de ferver, apagando assim o fogo, isto é, destrói a ação do Espírito Santo, pela indiscrição. Oh! quantos santos malogrados, heróis vencidos, vocações frustradas!!! Nenhum mal resultaria em demorarmo-nos por muito tempo nas regiões inferiores da vida espiritual. Pelo contrário, elevar-nos com demasiada rapidez, expõe-nos a muitos perigos. Um mal que foi mortificado, parece estar morto à primeira vista: finge-se morto assim como os lobos. Mas, então qual será a duração da Via Purgativa? Quem o poderá dizer? Depende do fervor, do grau de humildade; mas, em todo caso, devemos contá-la por anos e não por meses.
    Conceder-nos o dom da oração mental. O célebre autor espiritual Da Ponte, no 3º Tratado do seu “Guia Espiritual” conta minuciosamente uma visão que se manifestou, diz ele, a uma pessoa do seu conhecimento. Deus fez ver a esta pessoa o estado de uma alma tíbia e preguiçosa, dada à oração sem a mortificação. Eis a visão: Ela viu entre uma larga planície um alicerce profundo e muito firme, branco como o marfim, e ao lado passeava um jovem de resplandecente beleza. Este chamou-a e disse-lhe: Eu sou filho de um rei poderoso, e deitei este alicerce a fim de construir um palácio onde pudésseis morar e receber-me quando vier vos visitar, o que farei frequentemente, com a condição de terdes um quarto pronto para me receber e de abrirdes logo que eu bater. Mais tarde, porém, virei morar sempre convosco, e vos alegrareis de me ter por vosso hóspede constante. Podeis julgar pela grandeza destes alicerces do que será o edifício. Entrementes farei a construção e vós deveis trazer-me todo o material. A dama começou a tornar-se muito admirada e aflita, por achar impossível trazer ela mesma todo o material necessário. O jovem porém disse: Não temais, podereis fazê-lo facilmente. Começai por trazer já alguma coisa e eu vos ajudarei. Então ela começou a procurar em redor para ver se encontrava qualquer coisa, mas parou logo e fitou o jovem, cuja beleza a encantava e deleitava; mas não se esforçou em lhe agradar, mesmo receou muito ao ver que a vigiava. Não obstante não corou com a sua desobediência, e, enquanto ficava ociosa, viu os alicerces cobrirem-se gradualmente com pó e com palha trazidos pelo vento e por vezes tais furacões de pó se levantavam que as escondiam por completo. Ou, então, chuvas torrenciais cobriam tudo com lama, lama esta que se estendia gradualmente e era a causa de uma vegetação fértil e má. Em breve, nada restava dos alicerces, e por fim um furacão encobriu também o jovem, e tudo desapareceu da sua vista sob um montão de imundícies. A dama muito se afligiu ao ver-se só, tanto mais que em breve foi cercada por detestáveis montes de cal, de areia e de pedra. Lastimou sua tibieza e sua ociosidade, mas crendo estar o jovem ainda escondido em alguma cavidade dos alicerces, clamou em alta voz: Senhor, eis que venho! Trago comigo o material; por favor aproximai-vos da construção; arrependo-me profundamente da minha lentidão e da minha indolência. Enquanto se mantinha nestas disposições a visão lhe foi explicada pelo seguinte modo: Os alicerces significam a fé e os hábitos das outras virtudes que Jesus Cristo infunde na alma no batismo, desejando construir nela um belo edifício de alta perfeição, com a condição de a alma cooperar com Ele, trazendo o material necessário, isto é, a observância dos preceitos divinos e dos conselhos, o que poderá fazer com o auxílio de Nosso Senhor. Mas a alma tantas vezes se deleita em meditar nos mistérios de Cristo, que se torna tíbia e ociosa, não se esforçando por lhe obedecer, e por esta falta de atenção e indolência, os pecados veniais obscurecem aos poucos os hábitos das virtudes, e os olhos da alma se tornam tão turvos que não podem mais ver a Nosso Senhor. Para castigar esta apatia, Ele permite, por vezes, que a alma caia em pecado mortal, que tudo mancha e tudo destrói. Em seguida, devido à misericórdia de Deus, a alma se arrepende, e encontra as pedras da contrição, a cal da confissão, e as areias da satisfação, e em alta voz implora a Jesus que perdoe os seus pecados e comece novamente a construção.
    Dar à santidade profundeza e força, assim como os exercícios de ginástica desenvolvem os músculos e os robustecem. Isto refere-se ao que foi dito há pouco, de não abandonar cedo demais a Via Purgativa. Exemplo: Simeão Estilita quando primeiro começou a se sustentar sobre a coluna, ouviu no sono uma voz lhe dizer: Levanta-te, cava a terra. Pareceu-lhe ter cavado algum tempo e depois cessado, quando a voz lhe disse: cava mais fundo! Quatro vezes cavou, quatro vezes descansou, e quatro vezes a voz repetiu: cava mais fundo! Depois disse-lhe: Agora constrói tranquilamente. Este trabalho humilhante de cavar é a mortificação. Existe infelizmente uma piedade mesquinha e pobre, uma sentimentalidade religiosa que não se eleva além da beleza da devoção ou de um cerimonial comovente, devoção boa para o dia de sol, não para a tempestade; e o erro na construção desse edifício fraco e caduco está na falta da mortificação em sua base. (Falo com experiência material e espiritual: o escultor escolhe para matéria do seu trabalho, uma madeira ao mesmo tempo, fácil de cortar e firme, que é o cedro. Assim também ao esculpir Jesus Crucificado nas almas, é mister o escultor espiritual encontrar a docilidade da humildade e a firmeza da mortificação. Não há como trabalhar em matéria mole).
    Utilidade que se refere às austeridades corporais. Estas levam a alma a atingir a graça mais alta da mortificação interior. É a maior das ilusões supor ser possível mortificar o juízo e a vontade, sem mortificar também o corpo. A mortificação interior é certamente mais excelente, todavia a exterior é mais eficaz.
    A mortificação é uma escola excelente onde será adquirida a régia virtude da discrição. A discrição é o hábito de dar exatamente no alvo, e, para acertá-lo, é preciso ter no olhar uma exatidão e na mão uma firmeza sobrenaturais. É sobretudo no uso da mortificação que se exerce e se prova a discrição; esta virtude se manifesta na obediência, na humildade, na falta de confiança em si, na perseverança e no desapego das próprias penitências. Exemplo: Foi esta a prova imposta pelos bispos a Simeão Estilita. Enviaram um mensageiro ordenando-lhe que descesse da coluna. Se hesitasse, eles saberiam por este sinal que sua extraordinária vocação não provinha de Deus. Mas, apenas dada a ordem começou Simeão a executá-la. Na sua docilidade os bispos reconheceram a vontade de Deus e mandaram que permanecesse onde estava.

    PERIGOS E ILUSÕES NA PRÁTICA DAS PENITÊNCIAS EXTERIORES
    Vamos seguir o Padre Faber:

    “Muitas mortificações se fazem preceder pela vanglória que toca a trombeta em frente delas. A outras, ela acompanha. A algumas fornece mesmo toda a sua vida, toda a sua animação, toda a sua perseverança. É como se este espírito maligno recebesse do seu mestre esta ordem de permanecer alerta: “Cada vez que uma alma está prestes a praticar uma mortificação, esteja perto!” O remédio para isto é praticarmos todas as nossas mortificações por OBEDIÊNCIA. Então torna-se difícil à vanglória, à ostentação, à singularidade, à afetação, à obstinação, à indiscrição, de se agarrarem às nossas penitências para corroerem a amêndoa preciosa da sua vida interior. E estes são os seis principais perigos da mortificação. Também não devemos nos esquecer de tomar precauções contra uma ideia supersticiosa que por vezes acompanha nossas austeridades e que diz respeito ao valor do sofrimento. Muita mortificação permanece mortificação quando não causa sofrimento, e o seu valor intrínseco não depende da soma de dor física e de desconforto corporal, mas da veemência da intenção sobrenatural. Mortificar é dar a morte a alguma coisa, e por esta razão a paixão já morta está mais mortificada do que a moribunda, embora esta última seja ainda susceptível de dor, enquanto que a primeira já está de todo insensível. É curioso quantos são levados inconscientemente por esta noção supersticiosa dada ao valor do mero sofrimento. Não quero dizer que este não tenha valor, mas não é a pedra preciosa; é o metal que a encaixa. Foi este erro que fora da Igreja, e por vezes também em certas pessoas em seu seio, fez nascer a ilusão de que a perfeição consiste em contrariar sempre os nossos gostos. De acordo com esta teoria, as nossas afeições e as nossas paixões nunca conseguiriam amar as coisas de Deus, ou se harmonizar com a graça. Há quem tenha escrúpulos a respeito da caridade com o próximo, porque acha nisso um grande prazer sensível, como também em visitar os pobres ou enfim em seguir uma inclinação particular na devoção. Há até diretores que impõem esta regra errônea às almas que dirigem, o que é na maior parte das vezes tão absurdo quanto indiscreto. O misticismo ortodoxo só poderia permitir semelhante máxima no caso de uma vocação clara e particular, vocação esta tão rara quanto o chamado de Santa Teresa e de Santo André Avelino, que fizeram voto de praticar sempre o que fosse mais perfeito. No entanto a Igreja hesitou ante estes votos quando foi chamada a canonizar os santos e recusou-se a continuar antes de ter a prova evidente de uma operação especial do Espírito Santo. Ninguém jamais se tornou santo, nem mesmo se aproximou da santidade, por deixar de cultivar a doçura de caráter ou as suas virtudes naturais, pelo escrúpulo do grande prazer que achavam nisso. O Jansenismo fez consistir nesta subtileza todo o segredo da perfeição. Esta ideia do ascetismo, além de odiosa, é totalmente contrária aos princípios católicos.

    Às dificuldades e aos perigos da mortificação ajuntaremos uma palavra a respeito de suas ilusões. É uma matéria vasta. Guilloré, que tratou deste assunto longamente e com sua severidade habitual, resume tudo, descrevendo as quatro classes de pessoas que são sobretudo sujeitas a elas.
    A primeira classe dos que se iludem, abrange os que sempre levaram vida inocente, e que por esta razão se dispensam com facilidade da prática das austeridades; como nada os atrai a seguir este caminho, não tentam também atrair os outros. Não compreendem por que razão hão de maltratar um corpo tão pouco rebelde, ou lhe infligir sofrimentos tão constantes, quando raras vezes os importuna.
    A segunda classe compõe-se dos que, apesar de não terem levado vida inocente, acham-se, não obstante, por causa do seu temperamento apático, indispostos às austeridades. Custam a crer que uma coisa tão acima de sua cobardia, como é esta perseguição de si mesmos, possa ser necessária e indispensável. Concordam quanto a sua utilidade, mas não quanto a sua necessidade; pois neste caso onde estaríamos nós? As suas teorias sobre a perfeição ou suas aspirações sentimentais para obtê-la desaparecerão como fumaça.
    A terceira classe dos iludidos é a dos que ofenderam gravemente a Deus, e julgam por isso que não devem pôr termo às suas austeridades. Deste modo saem dos limites da sã razão, de um lado, e das inspirações da graça, do outro.
    A quarta classe compreende os homens de zelo ardente e de temperamento entusiasta, que encontram a paz na guerra, o repouso na luta, e que satisfazem a natureza, castigando os seus corpos.
    Ao terminar, gostaria de acrescentar ao que acabamos de ler da pena do Padre Faber, o seguinte: Nunca devemos esquecer que o valor intrínseco da mortificação não depende, na verdade, da soma de dor física e de incômodo corporal mas da veemência do amor de Deus com que a fazemos. Assim, uma grande penitência feita com pouco amor a Deus teria menos valor que uma pequena mas feita com grande amor de Deus. Mas também é óbvio que as extraordinárias penitências em alguns santos, eram sinal e efeito do seu extraordinário amor a Deus. Não esqueçamos, outrossim, que os santos em tudo e especialmente na prática das penitências eram profundamente humildes, totalmente discretos ou prudentes e docilmente obedientes aos seus diretores espirituais. E aí não há lugar para ilusões nem perigos.

  5. Muitos Santos alçaram a glória sem grandes penitências; outros, justamente por causa delas.

    O mínimo de penitência é necessário a todos, e a graça suficiente para cumpri-la não há de faltar. Mas é possível também a falsa penitência, sem a virtude da caridade, como a que faziam certas freiras de quem se disse que eram “observantes como os anjos e soberbas como os demônios”.

    Mas problema não é esse.Os vagabundos espirituais e morais que atacam as práticas penitenciais da Igreja, fazem-no dizendo que a Igreja emprestou isso do paganismo, a saber, dos filósofos neoplatônicos, os quais, segundo esses hereges, teriam influenciado a “visão de mundo” cristã, fazendo- a pessimista como a daqueles filósofos. Essa estupidez é bastante difundida nos ambientes relaxados e decadentes que são, hoje, boa parte dos “seminários” católicos.

    Lembremos ainda da maligna seita do Neo-catecumenato, com suas doutrinas espúrias, perversas e heréticas sobre a “paganização” da Igreja. Pois essa seita maligna, valorizando apenas a Ressurreição de Jesus Cristo, pretende, como o diabo, banir o escândalo da Cruz. Por isso mesmo, os cristãos não deveriam, segundo essa seita, se conformar à Cruz mediante a penitência e a mortificação. Como não lembrar de Lutero e a questão das Boas Obras?

  6. Acredito que não é a penitência que faz os santos; são os santos que fazem penitência.
    Auto-torturas bizarras, num leigo ordinário, podem trazer em segredo estranhas gratificações à sensualidade e ao orgulho.
    A santidade e os santos, é claro, são outra coisa.
    A um leigo bastam as penitências ordinárias da Igreja: jejum nos dias de preceito e abstinência às sextas-feiras, além de mortificações incruentas dos sentidos, tais como a guarda dos olhos, dos ouvidos e da língua. Suportar com paciência e em silêncio as injúrias também é uma boa idéia (acaso mais difícil que iniciativas espetaculares).

  7. Quem se interessar por saber algo da doutrina bizarra, estranha e injuriosa do Descaminho catecumenal, espécie os ítens “sacrifício e expiação”, leia o opúsculo (link abaixo) do zeloso teólogo passionista Pe. Enrico Zoffoli, antigo docente das Pontifícias Universidades de Santo Tomás de Aquino (in Urbe) e da também da Lateranense. A epígrafe do opúsculo (1Tm 4,1s), já lhe antecipa o teor.

    Quanto à pretensa doutrina, espalhafatosa e protestante, da paganização da Igreja, eu mesmo a ouvi, mais de uma vez, de um “presbítero” do tal Descaminho Catecumenal. Isso sem falar dos que deixam a Igreja pela Sinagoga.

    Opúsculo:
    http://www.internetica.it/neocatecumenali/Zoffoli_Eresie-del-cnc.pdf

    Sobre o Autor:
    https://it.wikipedia.org/wiki/Enrico_Zoffoli

  8. Tal como procediam os profetas, o apelo de Jesus à conversão e à penitência não visam em primeiro lugar as obras exteriores , saco de cinzas, cilicios, jejuns e as mortificações físicas, mas a conversão do coração, a penitência interior, a mais dificil e necessaria, pois sem ela as obras de mortificação exteriores continuariam estéreis e enganadoras; indicariam, por ex., a vaidade, procedimento dos antigos fariseus em público.
    Já a conversão interior, ao contrário, impele expressar essa atitude por sinais visíveis, gestos e obras de penitência chamadoras de atenção, mas que sejam discretas – a exterior que também não pode faltar, complementa a interior.
    A penitencia maior mesmo deve ser a compunção de coração, a dor de ter ofendido a Deus é que bom – não porque me ajuda e me salva – mas por Ele mesmo e cumprir por amor seus santos Mandamentos; ter um diretor espiritual sabio é bom, pois quem quiser entrar nesse caminho será tentado muito mais pelo diabo, como já de se achar um santo, e que tem pavor dos que lutam para chegarem a uma vida espiritual mais elevada!

  9. Caros irmãos,

    é sabido que antes do C.V. II, as praticas de auto-flagelação eram mais comuns do que hoje, e também que muitas santos faziam tais penitencias, soube de fontes não tão confiáveis que o papa São João Paulo II se flagelava.

    Sei bem que essa pratica pode facilmente nos levar para um caminho que não é o que buscamos, mais a pergunta é: auto-flagelação é um pecado e não devemos fazer jamais? a resposta a essa pergunta seria “depende”? é possível essa pratica sem desagradar a Deus? como?

  10. Outro dia eu vi uma garota fazendo uma auto-tortura bizarra! Acho que foi pra mortificar os pecados da língua que ela trazia um piercing de todo tamanho na língua e trazia também um anel de porco no nariz…acho que era pra evitar que ela chafurdasse onde não devia!
    Mas o mais incômodo mesmo eram aqueles coturnos pesados. A coitada tinha que marchar o dia inteiro de lá pra cá calçando aquelas botas de militar!
    O seu companheiro de “penitência” era o que mais me causava dó! O coitado tinha a orelha completamente deformada por um anel de todo tamanho que lhe causava um rasgo enorme e no pescoço usava uma coleira cheia de pregos por fora.
    E aqueles anéis enormes cheios de caveiras que eles tinham nos dedos? Será que era pra recordar os Novíssimos?
    Outra coisa: ambos vestiam-se completamente de preto…acho que era o luto por seus pecados que tanto sofrimento causaram a Nosso Senhor…só pode!
    Com tantos sinais externos de penitência, é óbvio que eles deviam também ser rigorosos na prática do sexto mandamento!
    Ah aqueles santos antigos não sabiam o que era penitência de verdade!!

  11. Difícil encontrar um diretor espiritual com as qualidades mínimas para poder elevar a santidade de um leigo comum com eu. Depois que perdi o meu diretor fiquei apenas com as instruções gerais que aplico nas contingencias do dia-a-dia. Que faço em desejar um diretor santo, doutor, e sábio, procuro ao menos o que é santo. Este me livra das armadilhas do demônio. No mais, ler e procurar num manual de espiritualidade é o mesmo que ler bula de remédio e tomar sem se consultar com o médico.

    Nossa Senhora, suplico, que me ajude.

  12. S. Francisco chamava o corpo de “irmão burrinho”.
    Um ditado goiano diz que “o burro é alimar munto bão, mais num tem um qui num odeia o dono”.
    Se você maltratar o seu burro, torturando-o com pancadas, abandonando-o sem alimento e sem trato nos seus males, das duas uma: ou ele morrerá, deixando-o a pé, ou, quando v. menos esperar, receberá um violento coice.
    Portanto, trata bem do seu burro, mas dome-o a preceito, não lhe permitindo nenhuma balda, e deixando sempre claro quem é o cavaleiro, e quem é a montaria.

    • Risos…

      Gostei muito, senhor Ronald, da figura do “irmão burrinho” de S. Francisco.

      Muito me alegra ler artigos sobre espiritualidade e mística. Campo da santa doutrina da Igreja que foi totalmente jogado ao lixo nos últimos cinquenta anos.

      Li todos os comentários e me alegrei com todos eles. Particularmente do Rev. Padre Elcio que trouxe o Rev. Padre Faber e a sensacional metáfora sobre a água fervendo: ” A água transborda a força de ferver, apagando assim o fogo, isto é, destrói a ação do Espírito Santo, pela indiscrição”….

      Que Nossa Senhora ajude a todos, do artigo aos comentários, pela alegria que me proporcionaram.