Papa: a Igreja não reivindica espaço privilegiado na bioética.

O Pontífice convida a Comissão de Bioética a se aprofundar nos temas ligados à devastação ambiental, à deficiência e aos padrões a serem harmonizados. “Hoje se corre o risco de perder qualquer referência que não seja a do lucro”.

Por Iacopo Scaramuzzi – La Stampa | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com: “Todos são cientes do quanto a Igreja é sensível a assuntos éticos, mas, talvez ainda não tenha ficado claro a todos que a Igreja não reivindica qualquer posição privilegiada nesse campo”.

Foi o que disse o Papa Francisco em um encontro com a Comissão Nacional para Bioética Italiana, enfatizando o risco do utilitarianismo e do lucro serem usados como únicas referências nos progressos da ciência biológica e tecnologia médica.

Ele, então, exortou este organismo consultivo do governo italiano, liderado pelo católico Francesco Paolo Casavol, para que procure se aprofundar em temas ligados à “devastação ambiental e também ao prejuízo e a marginalização de indivíduos vulneráveis”. Em suma, ele pediu para que se tomasse a tarefa de contrapor à “cultura do descartável” que nos dias de hoje assume muitas formas, inclusive aquela de tratar embriões humanos como material descartável, assim como os doentes e idosos quando se aproximam do fim da vida. O Papa também pediu para que as normas e os padrões nos campos médicos e biológicos sejam harmonizados.

“Tenho o prazer de poder manifestar o apreço da Igreja pelo fato de que, há 25 anos, foi instituído na Itália, junto à presidência do Conselho de Ministros, o Comitê Nacional de Bioética”, disse Francisco. “E todos sabem o quanto a Igreja é sensível a questões éticas, mas, talvez, nem a todos tenha ficado igualmente claro que a Igreja não reivindica qualquer espaço privilegiado neste campo, pelo contrário, ela fica satisfeita quando vê que a consciência cívica, em seus vários níveis, é capaz de refletir, discernir e agir tendo como base a racionalidade livre e aberta e os valores constitutivos da pessoa e da sociedade. De fato, exatamente, essa maturidade cívica responsável é o sinal de que a semeadura do Evangelho – esta sim, revelada e confiada à Igreja – produziu seus frutos e conseguiu promover a busca da verdade e da bondade nas complexas questões éticas e humanas”.

É necessário, para o Papa, “servir ao homem, o homem todo, todos os homens e mulheres, com especial atenção e cuidado – como já foi referido – às pessoas mais vulneráveis e desfavorecidas, que estão lutando para fazer ouvir sua voz, ou que não podem ainda ou não poderão mais fazê-la ouvir. Neste terreno comum é que a comunidade eclesial e a civil se encontram e são chamadas a cooperar de acordo com as suas respectivas competências distintas”.

A comissão “tem repetidamente tratado – disse o Papa hoje – do respeito pela integridade do ser humano e a tutela de sua saúde, desde a concepção até a morte natural, considerando a pessoa em sua singularidade, sempre como um fim e nunca simplesmente como um meio. Este princípio ético é fundamental também no que diz respeito às aplicações da biotecnologia no campo da medicina, que nunca podem ser utilizadas de uma forma prejudicial à dignidade humana, e nem tampouco devem ser guiadas apenas por fins industriais e comerciais. A bioética – disse o papa Argentino – nasceu para confrontar, através de um esforço crítico, as razões e as condições da dignidade da pessoa humana, com os avanços da ciência e das tecnologias biológicas e médicas, as quais, por seu ritmo acelerado, arriscam perder qualquer referência que não seja a utilidade e o lucro”.

O Comitê Nacional de Bioética interveio nos últimos anos em questões legislativas controversas, como na questão do fim da vida, da interrupção da gravidez, da pesquisa com células-tronco e da barriga de aluguel. O Papa, hoje, incentivou o trabalho da Comissão “em algumas áreas.”

Em primeiro lugar, “a análise interdisciplinar das causas da degradação ambiental. Espero que a Comissão seja capaz de formular linhas de orientação, em áreas que, ligadas às ciências biológicas, sejam capazes de estimular a conservação, preservação e cuidados com o meio ambiente. Neste contexto, é oportuno um confronto entre as teorias biocêntricas e antropocêntricas, em busca de caminhos que reconheçam a correta centralidade do homem em relação a outros seres vivos e todo o ambiente, até mesmo para ajudar a definir as condições irrenunciáveis para a proteção das gerações futuras”.

“Um cientista um pouco amargo e cético – acrescentou o Papa –, certa vez, quando eu falei essas coisas sobre a proteção das gerações futuras, me respondeu assim: ‘Diga-me, padre, haverá geração futura?'”. Em segundo lugar, “a questão da deficiência e da marginalização das pessoas vulneráveis em uma sociedade fundamentada na competição, na aceleração do progresso. E o desafio de combater a cultura do descartável, a qual tem muitas expressões, entre as quais aquela de tratar embriões humanos como material descartável, e do mesmo modo as pessoas doentes e idosas que estão se aproximando da morte”. Em terceiro lugar, “os esforços cada dia mais crescentes em direção a um confronto internacional com vista a uma possível e desejável, embora complexa, harmonização das normas e regras das atividades biológicas e médicas, regras que saibam reconhecer os valores e os direitos fundamentais.”

O papa finalmente elogiou a Comissão por ter sensibilizado a opinião pública, a partir da escola, sobre questões como a compreensão do progresso biotecnológico. Para Francisco, em geral, “a pesquisa sobre complexas questões bioéticas não é fácil e nem sempre chega-se a uma harmoniosa conclusão; pois esta sempre requer humildade e realismo, e não teme o confronto entre diferentes posições; e que , finalmente, o testemunho dado à verdade contribui para o amadurecimento da consciência social”.

Hoje, neste meio tempo, no escritório da sala de imprensa do Vaticano, foi apresentada a mensagem do Papa para o XXIV Dia Mundial do Enfermo, que será realizado no dia 11 de fevereiro próximo, e que foi anunciado em setembro passado. Entre os oradores estão Mons. Zygmunt Zimowski, presidente do Conselho Pontifício para os profissionais de saúde (para a Pastoral da Saúde), Mons. Jean-Marie Mate Musivi Mupendawatu e padre Augusto Chendi, secretário e subsecretário do dicastério, e padre Peter Felet, secretário-geral da Assembleia dos Ordinários Católicos da Terra Santa e referência local para a organização do Dia Mundial do Enfermo, que será sediado esse ano em Nazaré.

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7 Comentários to “Papa: a Igreja não reivindica espaço privilegiado na bioética.”

  1. É necessário “servir ao homem, todos os homens e mulheres, com especial atenção e cuidado às pessoas mais vulneráveis e desfavorecidas”

    Pensei que a Igreja existia para servir a Deus. Dizer que a Igreja não deve ter lugar privilegiado na Bioética é trair a sua Missão de denunciar o pecado e ensinar a verdade. Mas para Bergoglio não. A Igreja existe para servir ao homem. Depois o papa diz “A Igreja não pode se transformar numa ONG”. Vai entender.

  2. No fundo, Deus é apenas um ideia bonita e vantajosa para esse pessoa modernista. Esse papa veio ao mundo para nos mostra o quanto devemos nos humilhar e fazer penitência.

  3. Os maiores inimigos da ética e de tudo que se atenha a ela são justamente os globalistas, aos quais os partidos comuno-socialistas servem, cuja ética (mesmo a moral) é o oportunismo; deveriam ser os primeiros a serem denunciados e confrontados pela Igreja, pois a ética deles é justamente serem antiéticos. São naturalmente caóticos, a partir da propria natureza, constituição de seus programas de governo e das leis que os regem, as quais visam apenas poder e dinheiro, nada mais.
    Nesse assunto, a Igreja deveria ter um departamento especial que cuidasse especificamente desse caso, pois o progresso presente é muito rápido, precisa avaliar cada nova proposição, tomar uma decisão sim ou não e jamais ficar na retaguarda à espera de soluções alheias, todas eles baseadas em ideologias!
    Quanto à questão ambiental e tudo que se refira a ela, se o mundo se ativesse à Doutrina Social da Igreja todas as pendencias relativas ao meio ambiente estariam sendo equacionadas dentro dos parãmetros que ela propõe, não se visaria primordialmente o lucro como os partidos socialistas com suas ideologias niilistas priorizam, mas propagandeiam que visam o bem de todos!
    As proprias falcatruas em que se metem, experts no esquema de furtar, fraudar e chantagear já seriam o bastante para serem execrados pela Igreja, e eles, por onde passam, deixam também um infindo rastro de destruição ambiental, ainda o ético-moral-religioso, por tratarem de regimes altamente degradantes sob todos os aspectos!
    Um exemplo para se ter ideia da falsidade, uma propaganda:
    “Brasil, um país de todos” (da mafia comunista)!

  4. Não faz muito tempo, as autoridades eclesiásticas referiam-se à Igreja como Mãe e Mestra (Mater et Magistra), Luz dos povos (Lumen Gentium) e outros títulos sonoros, apesar, muitas vezes, do conteúdo por vezes derrapante desses documentos. A Igreja católica tinha o que dizer sobre o dever de transmitir a Vida Humana (Humanae Vitae), sobre as relações entre Fé e Razão (Fides et Ratio), sobre o esplendor da Verdade (Veritais Splendor) que brilha nas obras do Criador, sobre o evangelho da vida (Evangelium Vitae) que está no centro da mensagem de Jesus.

    Agora, as Lojas determinaram, e seus lacaios simoníacos e serviçais cumprem com zelo e afinco, que a Igreja não tem mais nada a dizer de transcendente e universal; fale Ela sobre as urgências do esgoto, dos riachos e da poluição, sem esquecer dos magníficos chipanzés de traseiro amarelo e dos bodes que a tudo perscrutam com muita atenção. Que esplêndido caminho trilhamos com a Primavera Conciliar. Que frutos sazonados e saborosos!

  5. Seria bom se o Pe. Luís Carlos Lodi nos esclarecesse sobre esta mal soante declaração do bispo de Roma.

  6. É, nos dias de hoje a Igreja já não reivindica espaço privilegiado em NADA.