Paulo VI e o caso das freiras violentadas no Congo. O que o Papa jamais disse.

Por Sandro Magister | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com: Na  pirotécnica conferência de imprensa no vôo de regresso do México para Roma, o Papa Francisco entre outras coisas sacou a história segundo a qual “Paulo VI – o grande – em uma situação difícil, teria permitido às freiras na África, o uso de contraceptivos em casos de violência sexual “. Ele acrescentou que “para evitar a gravidez não é um mal absoluto, e em certos casos, como ao que referi do Beato Paulo VI, [que] foi claro.”

Dois dias depois, até o padre Federico Lombardi se saiu com a mesma história, em entrevista à Rádio Vaticano realizada com o intuito de endireitar o que saiu errado nas declarações do Papa publicadas pelos meios de comunicação, e que interpretado com aparente sinal verde para os contraceptivos, já estavam cantando vitória.

“O contraceptivo ou preservativo, especialmente em casos de emergência e gravidade, podem igualmente ser objeto de um discernimento de consciência sério. Isso diz o papa. […] O exemplo que [Francisco] fez de Paulo VI e da autorização para uso da pílula para as religiosas que estavam em risco muito sério e contínuo de  violência sexual pelos rebeldes no Congo, naqueles tempos da tragédia da guerra do Congo, sugere que não era uma situação normal em que tal medida foi considerada ” .

Agora, que Paulo VI tenha dado explicitamente aquela permissão é questionável. Ninguém  jamais foi capaz de citar uma única palavra dele a esse respeito. No entanto, esta lenda urbana continua de pé por décadas, e no presente estão sendo usadas até mesmo por Francisco e seu porta-voz.

Para reconstruir como é que esta história nasceu é necessário voltar não ao pontificado de Paulo VI, mas ao do seu antecessor, João XXIII.

Era o ano 1961, e a questão : “se era lícito para as freiras em perigo de serem estupradas recorrer aos contraceptivos, em uma situação de guerra como aquela que assolava o Congo”, foi submetida a três teólogos morais de autoridade:

– Pietro Palazzini, então secretário da Sagrada Congregação do Conselho que depois se tornou cardeal;

– Francesco Hurth, professor jesuíta na Pontifícia Universidade Gregoriana;

– Ferdinando Lambruschini, professor da Pontifícia Universidade Lateranense.

Os três juntos formularam as suas opiniões em um artigo na revista do Opus Dei “Estudos Católicos”, número 27, 1961, pp. 62-72, sob o título: “Uma mulher pergunta:.. Como negar-se à violência? Moral exemplificada. Um debate”

Todos três eram a favor de se admitir a legalidade desse ato, embora com argumentos diferentes entre eles. E este parecer favorável não só passou ileso, sem qualquer consideração submissa ao Santo Ofício, mas tornou-se doutrina comum entre os moralistas católicos de todas as escolas.

Em 1968, Paulo VI publicou a encíclica “Humanae Vitae”, que condenou como “intrinsecamente má toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação “. E essa condenação foi posteriormente publicada em 1997, com as mesmas palavras, no Catecismo da Igreja Católica.

Mas, mesmo após a publicação da “Humanae Vitae”, a legalidade do hipotético comportamento das freiras congolesas continuou a ser pacificamente admitida sem que Paulo VI e seus sucessores dissessem uma palavra a esse respeito.

Aliás, de fato em 1993, no pontificado de João Paulo II, essa questão voltou mais uma vez ao centro das atenções, desta vez não por causa da guerra no Congo, mas na Bósnia. O teólogo moral que naquele ano se tornou porta-voz de autoridade para a doutrina comum em favor da legalidade foi o jesuíta Giacomo Perico, com um artigo na revista “La Civiltà Cattolica” impresso com o imprimatur das autoridades do Vaticano, com o título: “O estupro, o aborto e anticoncepcionais. “

Na verdade, a controvérsia entre os moralistas, a partir de então e até hoje, não diz respeito à legalidade do ato em questão, mas aos fundamentos desta legalidade.

Há quem retém a legalidade deste ato como uma “exceção” a qual poderiam ser associadas outras, avaliando-se caso a caso, e invalidando assim o status de “intrinsecamente mau” – e, assim, sem exceção – poderia ser aplicada à “Humanae vitae “no que diz respeito à contracepção.

E há aqueles que consideram o comportamento das freiras congolesas ou bósnias como um ato de legítima defesa contra os efeitos de um ato de violência que não tem nada a ver com o ato sexual livre e voluntário do qual se deseja excluir a procriação, que é o único sobre o qual recai a sentença – sem exceção –  da ” Humanae vitae” .

O estudioso que reconstruiu com mais clareza o choque entre essas duas correntes é Rhonheimer Martin, professor de ética e filosofia política na Universidade Pontifícia da Santa Cruz, no livro “Ética da procriação e da defesa da vida humana”,  Universidade Católica de Imprensa Americana, Washington, 2010, nas páginas 133-150.

Na opinião de Rhonheimer é a segunda tese, a mais fiel ao Magistério da Igreja, enquanto a primeira, tipicamente casuística e ” proporcionalista”, é uma crítica à “Veritatis Splendor”, a encíclica de João Paulo II sobre a teologia moral.

Mas, curiosamente, é precisamente sobre essa primeira tese que parecem se inclinar tanto o Papa Francisco, na conferência de imprensa em 17 de fevereiro, como ainda mais o padre Lombardi na entrevista de 19 a Rádio Vaticano.

Tanto um como o outro, de fato, fazem uma distinção entre o aborto, um mal absoluto que não admite nenhuma exceção, e a contracepção, que segundo o que – eles dizem – “não é um mal absoluto”, mas “um mal menor” e, portanto, pode ser permitido em “casos de emergência ou situações especiais”.

Padre Lombardi cita uma outra destas exceções permitidas: o uso do preservativo em situações de riscos de contágio da AIDS, comentado por Bento XVI em seu livro-entrevista “Luz do Mundo”, em 2010.

Mas, de fato, isso também é reduzido a um caso de exceção. Ignorando a nota de esclarecimento – de parecer bem diferente – que a Congregação para a doutrina da fé, dando voz ao Papa Bento, publicou em 21 de dezembro de 2010, com relação  à polêmica que explodiu como resultado daquele livro.

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12 Comentários to “Paulo VI e o caso das freiras violentadas no Congo. O que o Papa jamais disse.”

  1. E se o Papa tivesse autorizado as freiras a usarem contraceptivos diante da ameaça de estupro? Alguém seriamente acredita que existe a obrigação de estar “aberto à vida” durante um estupro?!

    São situações muito diferentes, já que a encíclica de Paulo VI fala em “ato conjugal”, uma relação sexual livre dentro do casamento.

  2. Caras… de boa… esse papa é igual os párocos que temos aqui nas nossas cidades. O que sabem é o que viram a TV, leram no Face… senso geral, sabe? De verdade… talvez ele sequer tenha lido a “Humanae Vitae”. Eu mesmo não li… o que sei foi lendo umas coisas no site Montfort. Com o papa, acontece a mesma coisa…

    E ele é papa! Estamos bem, hein, amiguinhos!

  3. Se o Papa disse que Paulo VI disse o que de fato não disse, então mentiu o Papa, e mentiu publicamente afirmando algo que não aconteceu, imputando sobre um predecessor seu um falso testemunho que em muito contribui para a defenestração da memória desse que já não pode se defender , portanto não venham os cleaners desdizer o que foi dito, o Papa mentiu.

  4. É necessário que vozes se levantem e digam com prontidão o que precisa ser dito. Magister é um bom jornalista. Quando, porém, nos lembramos do descaso com que atualmente se trata a Religião tudo parece letra morta. Não decerto para os católicos, mas para aqueles que já não sabem mais o que estão fazendo na Igreja e com a Igreja. Faz tempo que esse Padre Lombardi é apenas o bobo da corte tentando apagar o incêndio do circo com seu conta gotas de desmentidos e diz que disse. Qualquer pessoa com o mínimo de dignidade já teria pedido as contas (aliás, foi o que Bento XVI fez). Mas há os holofotes, o comichão, há o centro do picadeiro, há o espetáculo de luz e cores. Não perdoaram nem a basílica.

  5. Carlos Antônio, de fato tem um padre que escreve um blog interessante (Fr. John Zuhlsdorf ) onde ele diz claramente:

    “It’s not an urban legend, it’s a LIE: Paul VI did NOT give permission to nuns to use contraceptives”.

    Ou seja: “Não é uma lenda urbana. É uma MENTIRA. Paulo VI NÃO deu permissão para as freiras usarem anticoncepcionais.

    E ele vai mais longe explicando que a questão foi levantada na revista Studi Cattolici, n° 27, no ano 1961 com o título: “Una donna domanda: come negarsi alla violenza? Morale esemplificata. Un dibattito”.
    E Paulo VI só subiu ao Trono de São Pedro em 1963.
    http://wdtprs.com/blog/2016/02/its-not-an-urban-legend-its-a-lie-paul-vi-did-not-give-permission-to-nuns-to-use-contraceptives/

  6. Sou um dos ferrenhos defensores de Bergoglio. Constantemente vejo seus discursos sendo desvirtuados e interpretados de forma bem distinta daquilo que ele desejou falar. Algumas vezes por falta de clareza dele mesmo e outras (a maioria) por um discurso antiberbogliano crescente dentro da própria Igreja.

    Sinto que muitas vezes seus discursos e respostas são postos em interesses bem alheios ao verdadeiro sentido de suas próprias palavras. Porém, dada tamanha incoerência e contradição nesta resposta que poderia ser tão simples e objetiva, a lambança está feita e tenho que admitir que não é “forçoco” ou de “má fé” interpretar que Francisco sinalizou uma ruptura com o ensinamento da Igreja ou uma abertura ao uso do contraceptivo ainda que sua entrevista não seja um ato formal de ensino do Magistério. Ao citar o caso do grande (sic) Paulo VI, Francisco não cria qualquer distinção, não aponta diferenças. É como se os colocasse em uma balança e ambos tivessem o mesmo peso, logo, a mesma solução.Portanto, por ocasião desta infeliz resposta dada pelo Papa Francisco, sinto que no mínimo ele deve uma nota de esclarecimento para corrigir-se e evitar tamanha confusão causada não só pelo seu próprio discurso, como também pelo de Lombardi que parece nem querer concordar e nem desautorizar o Papa explicitamente.

    A pergunta da jornalista é advinda de um discurso claro de “neo-eugenia”. Ela não trata do uso profilático em vista da prevenção da transmissão do Zika, ela claramente o relaciona a uma medida anticoncepcional a fim de se evitar o possível nascimento de uma criança com microcefalia. Seria isto eugenia ou não? Utilizar o discurso do “mal menor” neste caso é admitir que a vida de uma criança com microcefalia é em si má, quando na verdade a vida de qualquer ser humano é sempre graça e dom divino.

    Métodos de contracepção e profiláticos (de prevenção de transmissão de doenças) são moralmente distintos. Embora em relação à contracepção a discussão na Teologia Moral é menor e em geral os discursos são sempre concordes com o ensinamento da Igreja que afirma que é “intrinsecamente má toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação”, o mesmo não acontece quando se fala em métodos profiláticos. Nestes casos a Teologia Moral tem discutido a tolerância em alguns casos específicos, sobre tudo nos casos fora do matrimônio e do amor conjugal. De qualquer forma o discurso do mal menor pode levar a uma enorme confusão, como ocorreu com as interpretações por ocasião da publicação do livro-entrevista de Bento XVI, “Luz do Mundo”. Caso este que jamais deveria ter sido colocado em paralelo ao caso de Francisco. Pois no caso de Bento XVI é necessário o uso de má fé para se interpretar erroneamente, no de Francisco não.

  7. Este episódio é muito triste temos um papa que utiliza o nome de um antecessor e de uma mentira para justificar as suas intenções e segue-se que o próprio Vaticano utiliza a mesma mentira para justificar os actos do papa, uma vergonha.
    Se analisarmos esta mentira com atenção veremos que o propósito dela era justificar o uso da pílula para toda a população. Se as religiosas podiam usar a pílula porque “estavam em risco muito sério e contínuo de violência sexual pelos rebeldes no Congo”, com que autoridade é que elas ou os sacerdotes do Congo podiam dizer às mulheres católicas que estas não deveriam utilizar contraceptivos? Por maioria de razão estas mulheres deveriam utilizar a pílula uma vez que estavam tão expostas ou mais que as próprias religiosas ao perigo de violação. Qual é a medida de probabilidade de violação , para que se possa declarar “risco muito sério e contínuo de violência sexual “, 10% 90% 1%? O critério é matemático(?) é subjectivo, objectivo, depende de quê?
    Este episódio atribuído a Paulo VI não pés nem cabeça para andar, mas foi chamado à memória por este papa com o único fim de legalizar o uso da pílula e do contraceptivo, o papa não tem razões teológicas para o fazer e utiliza a mentira descaradamente para atingir os seus fins.
    Então qual será o seguimento lógico desta telenovela? Ora se as mulheres podem utilizar a pílula ou outros contraceptivos para não engravidarem filhos com o Zika, então o que dizer da sida que pode matar?
    A apostasia dos senhores que mandam na Igreja é tão grande que se permitem mentir descaradamente a todo universo humano sem que alguém lhes venha chamar a atenção na cara.
    O Cristo é a verdade e a vida, mas estes senhores optaram por não escolher a Verdade e Vida mas Satanás pai da mentira.

  8. O fato acima poderia ter sido uma tentativa de justificar-se para facilitar a introdução dos métodos anticonceptivos nas relações normais, consentidas, tendo como meta se esquivar de causar eventual mal ao neonato, caso de suposta microcefalia, associada ao Zika Vírus.
    Nos supostos casos de possíveis violações sob uso de força, as considerações devem ser vistas sob a forma de auto preservação de agressores e nenhum consentimento.
    Mas admitir pacificamente a associação acima como propagam as redes de tv e midia geral seria cair em ciladas, sendo bom recordar que manipulações para se adotar facilitação ao aborto e esquemas de despopulação são metas ambiciosas das grandes fundações abortistas internacionais, que são maquiavélicas e, para atenderem seus projetos, “todos os meios justificam os fins”!
    Assim sendo, as alegações Zika Vírus-micocefalia deveriam ser recebidas com reservas, mesmo se aceitas pelo Vaticano pela Secretaria de Estado, que estaria compartilhando de procedimentos politicamente corretos, mais de uns tempos para cá.
    Teríamos que aguardar os que tentarão provar em contrario, justamente por aqueles serem grupos de atendimentos de conveniencias de ideologias, e uma mentira propagada constantemente sem oposição, tornar-se-á com o tempo uma verdade, ainda que falsa!

  9. Eu acho que mesmo em caso de estupros, o anticoncepcional preventivo deveria ser proibido. Pois havendo a mínima, menor que seja, de haver a concepção e a pílula agir como um agente abortivo, já deveria ser motivo para tal proibição. A vida é um bem absoluto que deve superar o direito das tais freiras de expulsar o sêmen do agressor de seus corpos… Não que elas não tenham esse direito, mas não por métodos preventivos que podem, ainda que de forma não desejada, causar a morte de um inocente… fazer comparações com vinhos é só ma fé de cleaners…
    No dia em que existir uma pílula que impede a gravidez, sem qualquer tipo de risco em causar um aborto, aí o assunto pode começar a ser debatido. Até lá, ainda que a pílula seja 99,9999999999% segura em não causar um aborto, ela deve ser proibida…

  10. Junior, o seu comentário foi perfeito. É exatamente a percepção que eu tenho. Na melhor das hipóteses, a mais absoluta mediocridade – tanto intelectual, quanto espiritual – impera no seio da atual liderança da Igreja. É absolutamente desprezível ter um líder desse naipe.

  11. Comentários judiciosos.Mas que força poderão ter diante da dissimulação empedernida daqueles que, conscientemente e de má fé, estão no labor da destruição sistemática da Dogmática Católico Romana?

  12. O fato é que Francisco I disse uma mentira. Intencionado ou não, mas disse. O que mais me espanta é que uma hipótese de uso de contraceptivos em caso extraordinário pode ser usado como argumento para uma prática ordinária, que é o aborto por descuido. Se formos pensar seriamente no assunto, ninguém em sã consciência engravida propositadamente para depois abortar. Isto é um absurdo! O aborto ocorre, de modo geral, em casos sempre extraordinários. Os pretextos são fartamente conhecidos por todos: “não contava com esta”; “isto vai detonar minha vida”; ” fui enganada”; etc. Assim, se para freiras foi “autorizado” o uso de contraceptivos em um caso especial, por que não se pode autorizar a “pílula do dia seguinte” em caso de estupro, sempre quando este for consumado? No início dos anos 1960 a pílula anticoncepcional apareceu como um método que poderia ser aprovado pela Igreja. Teve gente que a chamou de “pílula católica”!!! Até que veio a “Humanae vitae” e derrubou o que não prestava. Talvez naquele tempo o boato surgiu numa situação em que não estava claro ou não se era lícito usar a dita cuja. Mas hoje a situação é outra, apesar de quererem mudar o que não se pode. Uma coisa é certa: a fala de Francisco I não ajudou em nada. Nem às mulheres grávidas com zica, nem ao povo de Deus. Ninguém!