Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Efeitos da misericórdia de Deus com respeito aos pecadores.

‘Não quero a morte do ímpio, mas que se converta e viva” (Ezequiel XXXIII, 11).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

São três os admiráveis efeitos da misericórdia divina com respeito aos pecadores:

O-pai-misericordioso-e-os-dois-filhos1) Deus espera-os com paciência;

2) Busca-os com solicitude;

3) Recebe-os com alegria, quando voltam arrependidos.

1- ESPERA-OS COM PACIÊNCIA:  Nesta meditação, em primeiro lugar convém relembrar o que é o pecado e a aversão que Deus lhe tem, e, consequentemente as razões que parecem obrigar a Justiça divina a puni-lo sem delongas. Assim teremos mais facilidade em fazer uma ideia de quanto é misericordiosa esta paciência de Deus em esperar o pecador, isto é, em não condená-lo logo. Então, que faz o homem, quando se rebela contra Deus pelo pecado mortal? Vamos relembrar algumas passagens bíblicas:

“Estendeu sua mão contra Deus, e se fez forte contra o Onipotente. Correu contra ele com o pescoço levantado, armou-se duma soberba inflexível” (Jó XV, 25 e 26);

“Estes são os que disseram a Deus: Retira-te de nós, pois não queremos saber nada dos teus caminhos. Quem é o Onipotente para que o sirvamos? (Jó, XXI, 14 e 15);

“Crucificam de novo o Filho de Deus em si mesmos e O expõem à ignomínia” (Hebreus, VI, 6).

Que audácia! que insolência! que furor ímpio e sacrílego! E esses vasos de ira, que mereceriam por tantos títulos ser quebrados, Deus sofre-os com paciência, cinqüenta, sessenta anos e, às vezes até mais do que isto!

“E se Deus querendo mostrar a sua ira e tornar manifesto o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição” (Romanos, IX, 22). Deus alimenta estes pecadores, bondosamente os traz no seu seio, enche-os de benefícios.

Pouco falta para que os justos se escandalizem. Aliás, a Bíblia diz: “Os meus pés por pouco não vacilaram, diz o profeta Davi, por pouco se não transviaram meus passos. Porque invejei os iníquos, vendo a paz dos pecadores” (Salmo LXXII, 2 e 3); “Levanta-te, por que dormes, Senhor?” (Salmo XLIII, 23). Na verdade os maus abusam duma bondade, que não podem compreender, e gloriam-se dos seus atentados contra o Céu: “Até quando os pecadores, Senhor, até quando os pecadores se hão de gloriar? (Salmo XCII, 3). Persuadem-se que, se Deus não pune os seus crimes, é porque não os vê: “E chegam a dizer: Porventura Deus sabe isto, e tem disto notícia o Altíssimo? Eis que estes pecadores, que têm tudo na abundância neste mundo, adquiriram novas riquezas” (Salmo LXXII, 11 e 12). Mas que dizeis? Não pode o Senhor vingar-se? Ele que só com um olhar faz estremecer a terra: “Aquele Senhor que, só com olhar para a terra, a faz tremer; que toca os montes, e eles fumegam” (Salmo CIII, 32) pode ser indiferente às ofensas que recebe?

Deus aborrece necessária e infinitamente o pecado; só o considera bastante punido no inferno, bastante chorado pelas lágrimas de um Deus, bastante reparado pela morte de um Deus. Ora, em Deus tão inimigo do pecado, que prodigiosa misericórdia não é, tanta constância em suportar o pecador! É o que expressa o próprio divino Espírito Santo: “Por isso o Senhor espera o momento em que terá misericórdia de vós; ele exaltará a sua glória, perdoando-vos, porque o Senhor é um Deus de equidade; ditosos os que esperam n’Ele” (Isaías XXX, 18); “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns pensam, mas usa de paciência convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos se convertam à penitência” (2 Pedro III, 9). Isto é o que suspende o seu braço, e impede que os ministros da sua ira procedam contra os que o ofendem. Os servos do pai de família pedem licença para arrancar o joio que o homem inimigo semeou no seu campo; todas as criaturas pedem a Deus licença para vingar à sua glória ultrajada pelo pecador. E a tantas vozes que pedem vingança, Deus responde: Deixai crescer a ambos. É verdade que Eu evitaria muitos insultos, ferindo os ímpios a quem a minha bondade não comove; mas custa-me perdê-los. Ah! antes quero que voltem para mim e vivam! “Não quero a morte do ímpio, mas que se converta e viva” (Ezequiel, XXXIII, 11).

Caríssimos, não são estas delongas, esta paciência, este amor do Senhor um poderoso motivo de conversão? De fato, a bondade de Deus, não é para a gente pecar mais, mas para se arrepender por ter ofendido um Pai tão bondoso. É motivo para se fazer penitência. Assim dizia a santa mulher Judite: “Mas, porque o Senhor é paciente, arrependamo-nos disto mesmo, e derramando lágrimas, imploremos a sua misericórdia; porque Deus não ameaça como os homens, nem ele se inflama em ira como os filhos dos homens” (Judite VIII, 14 e 15).

2 – DEUS BUSCA O PECADOR COM SOLICITUDE. Está na ordem das coisas humanas que o ofensor dê os primeiros passos para a reconciliação. É Deus, porém, que busca ao homem  pecador! Quando deveria fazer milagres de rigor para nos punir, faz milagres de clemência para nos salvar.  O pecador foge e Deus chama-o pela voz da consciência: Que fizeste, meu filho?! Medite na incerteza da hora da morte; pensa nas penas da outra vida; medite nos benefícios de Deus , na sua justiça e na sua bondade. Caríssimos, ai de nós se não fosse a misericórdia divina! Somos um nada pecador, nada para o bem, mas, infelizmente com muita força para nos arrancarmos dos braços de nosso Pai do Céu e nenhuma temos, quando se trata de voltarmos para Ele! É mister que digamos com Davi: “Andei errante como ovelha que se desgarrou; buscai o vosso servo” (Salmo CXVIII, 176). E Deus assim o faz, e multiplica as parábolas para no-lo explicar. É um pastor que deixa todo o seu rebanho no deserto, para ir buscar uma ovelha que se havia perdido.

Onde está ela? Chegará ele a tempo? – É como uma mulher que perdeu uma dracma. Ela acende a sua candeia, revolve tudo em sua casa, até que a ache. Dir-se-ia, ó meu Deus, que a perda duma alma  é para vós a perda de um reino! Jesus Cristo é o Bom Pastor que nos ensinou com palavras, e com o exemplo. Basta lermos os Santos Evangelhos!

3 – DEUS RECEBE COM ALEGRIA O PECADOR QUE VOLTA ARREPENDIDO – Recordai-vos do acolhimento feito ao filho pródigo, das festas celebradas por ocasião da sua volta. É o pastor quando achou a sua ovelha, com que alegria a põe sobre os seus ombros. Não a coloca para ir andando na sua frente, não! a carrega carinhosamente nos ombros! E pensar que o este pecador havia levantado a mão contra o Onipotente!!!

Mas o pastor, não só carrega a ovelha, mas apenas chega a sua casa, a alegria transborda-lhe do coração; ele convida os seus amigos a felicitá-lo. Dir-se-ia que um homem feliz a mais é para Deus um acréscimo de felicidade. Caríssimos, nesta meditação vamos fazer a seguinte reflexão: Se o Bom Pastor recebe com alegria a ovelha desgarrada, por que há de recear o pecador arrependido não ser acolhido na sua volta, ou abandonado na suas fraquezas? Deus amou-me, quando eu o perseguia; odiar-me-á quando Lhe torno a trazer um coração contrito e humilhado? Buscou-me, quando d’Ele fugia; repelir-me-á, quando me lanço nos seus braços.?

Ó Jesus, agora entendo que se para ir ao céu é preciso fazer violência a si mesmo, também não é menos verdadeiro que para se condenar é preciso Vos fazer violência. Se o pecador nunca desanimar de se levantar, Deus também nunca deixará de o receber. São Francisco de Sales dizia: “O leito de uma boa morte deve ter por colchão a caridade, mas é utilíssimo ter a cabeça apoiada nos dois travesseiros: expirar com uma confiança humilde na misericórdia de Deus”. Amém!

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2 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Efeitos da misericórdia de Deus com respeito aos pecadores.”

  1. “O Senhor é misericordioso e clemente, lento para a cólera, mas paciente e generoso em seu amor. Não nos tratou segundo nossos pecados, nem nos puniu segundo nossas maldades” Sl 102 8,10.
    No entanto, não deveremos desconsiderar de forma alguma:
    “Que o ímpio abandone o seu caminho; e o homem mau, os seus pensamentos.
    Volte-se ele para o Senhor, que terá misericórdia dele;
    volte-se para o nosso Deus, pois ele dá de bom grado o seu perdão”. Is 55:7
    O Reino dos Céus pertencerá aos que forem violentos, os que souberem dominar os vicios e paixões mundanas e, ao contrario, colocarem-se e seus dons em favor do Evangelho; dessa forma, não cedendo às paixões mundanas, nem compartilhando de seus modismos alienantes.
    Aliás, no presente, dado o estado de putrefação social ética-moral e religiosa, parece que a classe de diabo mudo tem conseguido grandes resultados, calando diversos que são ordenados para denunciarem os males – acuam-se e seriam emudecidos por ele!
    Assim sendo, poderíamos nos avaliar se já nos adiantamos algo nessa conquista do reino dos céus, examinando os nossos pensamentos e ações se se harmonizam com os valores evangélicos; ou se acaso seguimos a cartilha do mundo, estamos sendo coniventes com seus relativismos, distando-nos do reino dos céus.
    S João Batista foi o último profeta do Novo Testamento; tinha um espírito destemido e isento de respeito humano de Elias abrir para o povo um caminho de conversão, prepará-lo para ser batizado e aceitar a Salvação de Jesus acompanhada de sua misericordia, O qual olha para Si e praticamente em nada para nós referentemente às nossas fragilidades – desde que desejemos e nos esforcemos para purificar-nos delas.
    Que diferenças radicais de S João Batista e suas severas admoestações com certas homilias atuais, versando só de “misericordia, tolerancia, acolhimento, compreensão, não discriminação” e outros eufemismos significando mesmo alienação à fé, sincretismo e relativismos?
    Concluindo, nunca caiamos nessa misericordia relativista que certos modernistas propagam por aí, desvinculada da justiça e da conversão, e que apenas nos conduz à relativização da fé, tornando-nos uns relapsos ou sincréticos.

  2. “…quando voltam arrependidos.” – Penso que este pequeno pormenor tem sido tem sido muito desvalorizado.