Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O temor de Deus.

“Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; mas temei antes aquele que pode lançar na Geena a alma e o corpo” (S. Mateus X, 28) e cf. também S. Lucas XII, 4 e 5: “A vós, meus amigos,  vos digo: Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, e depois nada mais podem fazer; temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno…”

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Não pode haver ninguém mais amigo do que Jesus Cristo, que quis morrer para nos salvar. E quem avisa, amigo é. Como a amigos, Jesus nos dá este aviso em Mateus X, 28 e Lucas XII, 4 e 5. Portam-se, porém, como inimigos aqueles que aconselham a atitude da avestruz perante o dogma do inferno: Deus é Pai, não temais, não existe o inferno. Isto é tapar os ouvidos a advertência paternal de Deus. Jesus Cristo manda que se tema o inferno, justamente para nele não vir a cair com a alma, e depois do Juízo Final, também com o corpo.

“O princípio da sabedoria é o temor do Senhor” (Eclesiástico I, 16). Os ninivitas agiram com sabedoria porque temeram os castigos de Deus, quando Jonas lhes foi anunciar a destruição da cidade. Se os primeiros homens temessem a Deus, que é Pai mas também Juiz, não teriam praticado excessos, que moveram o mesmo Deus a afogá-los no dilúvio! Se o temor de Deus tivesse entrado em Sodoma e Gomorra com as advertências de Lot, não teriam sido os seus habitantes reduzidos a um montão de cinzas! Devemos amar a Deus, que dá o céu a quem o merece; e temê-Lo, porque castiga com o inferno os pecadores que, depois de abusar da Misericórdia, desprezam a Justiça divina e não se convertem até ao último instante de vida.

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O Juízo Final – Fra Angélico

Existem duas espécies de temor: o temor de servo que teme a culpa por medo do castigo que Deus pode infligir. Sobretudo teme o extremo e eterno castigo que é o inferno, onde, depois da ressurreição dos corpos no juízo final, os réprobos serão lançados não só com as almas mas também com os corpos. E só Jesus Cristo, Juiz Supremo, tem este poder. Os homens só podem lançar o corpo na sepultura. Este temor reverencial, embora não seja perfeito, contudo, é bom porque afugenta o pecado: “O temor do Senhor expulsa o pecado” (Eclesiástico I, 27).

Mas há outra espécie de temor e este é o melhor porque é um temor de filho. Não apenas é bom, mas santo, como diz o Salmo XVIII, 9 e 10: “As justiças do Senhor são retas, alegram os corações, o preceito do Senhor é claro, esclarece os olhos. O temor do Senhor é santo, permanece pelos séculos dos séculos; os juízos do Senhor são verdadeiros, cheios de justiça em si mesmos”. O temor filial consiste em temer o castigo também por medo da culpa. E à medida que cresce esse temor, aumenta outrossim o amor que nos une a Deus.

Diz Santo Tomás de Aquino que os atos exteriores devem brotar da disposição interior. A humildade é a disposição interior para todas as virtudes. O temor de Deus e a reverência diante da Majestade infinita de Deus procedem da humildade interior mas que mui naturalmente se mostram também no exterior. Pela humildade a alma tem sempre Deus diante dos olhos, sem jamais o esquecer. Teme ofender um Pai que é todo Amor, um Supremo Senhor que é todo Justiça, pois,  premia um copo d’água dado a alguém por Seu amor, como castiga uma palavra ociosa.

O próprio Nosso Senhor recomenda esse temor reverencial àqueles que se dignou chamar seus amigos: “Digo, porém, a vós, meus amigos…” (S. Lucas XII, 4).  Este temor do inferno, inclui também o amor a Deus, pois, o condenado, além de outros tormentos, sofre ainda mais pela “pena do dano”, isto é, ter perdido para sempre o Supremo Bem, o Pai de Bondade. Embora entre assim o amor de Deus, o motivo principal, porém, é o medo do castigo. A alma começa com este temor, mas, é óbvio que, à medida que vai adiantando na vida espiritual, este temor bom, mas menos digno, cede pouco a pouco o lugar ao amor, como móbil principal e depois habitual de ação. O Concílio de Trento, no entanto, fala com muita insistência da incerteza em que estamos a respeito da perseverança final; a nossa vida é uma provação contínua na fé, e nunca devemos largar esta arma do temor de Deus. E mesmo não podemos abandonar nunca o temor do castigo porque o próprio Espírito Santo nos dá este aviso: “Em todas as vossas obras, meditai nos vossos novíssimos e não pecareis jamais” (Ecli. VII, 40). A morte, cuja hora é incerta, abre a porta para a eternidade; logo vem o juízo, e aí a alma já saberá qual será a sua sorte eterna; ou feliz eternamente no Céu, ou infeliz eternamente no inferno.  Afinal, é o próprio Jesus que inculca este temor reverencial de servo.

Caríssimos, e como não temer, se o próprio Divino Mestre nos exorta a isso?! Se um rei do alto de uma torre sustentasse um criminoso pelos cabelos, de maneira que, abrindo apenas as mãos,  fizesse o inimigo se precipitar numa fossa repleta de serpentes venenosas, ou numa geena cheia de imundícies fumegantes, será que este criminoso teria a ousadia e temeridade de,  com um punhal,  ameaçar o ofendido? E o pecador está em verdade, suspenso por um fio que é a vida, e suspenso sobre um “poço de fogo” (Apoc. IX, 2). Deus tem poder de cortar este fio e lançar na geena, não só o corpo mas também a alma e isto para sempre: “Ide malditos para o fogo eterno preparado para os demônios e seus seguidores” (S. Mat. XXV, 41 ).

Jó fala sobre si fazendo uma outra comparação: “Eu sempre temi a Deus como a ondas suspensas sobre mim, e nunca pude suportar o peso de sua majestade” (Jó, XXXI, 23) E acrescentamos: se o Espirito Santo diz que os santos devem temer o inferno, que dizer dos pecadores? E estes deixariam de sê-lo se temessem o inferno. O mesmo Deus elogiou a santidade de Jó. E o que ele diz de si, foi sob inspiração do mesmo Espírito Santo! Logo o temor não é contrário à santidade. O temor de Deus, mesmo o servil, é pábulo para a santidade. Uma característica da santidade é justamente o desapego universal de todas as coisas humanas. Então entendemos bem a comparação de Jó. Como os navegantes no perigo não pensam em banquetes, em glórias, em passatempos, em prazeres, em riquezas, mas só naquilo que importa, isto é, em salvar a vida, assim no nosso caso, os santos não pensam em outra coisa senão em salvar a sua alma, e assim salvar também o corpo, que Jesus vai ressuscitar brilhante como o sol.

Jó usa esta comparação, para dizer também que sempre se tinha voltado para Deus com aquela confiança intensa com a qual se recomenda quem vê as ondas e uma terrível tempestade, que o ameaçam. E como os navegantes, mesmo no meio de gritos de invocações, não deixam de fazer todo o indispensável para salvar-se a ponto de lançar tudo no mar caso seja necessário, assim fazem em nosso caso também os santos, e Jó com esta metáfora queria indicar que ele tinha também agido sempre assim: “O meu coração não me acusa nada em toda a minha vida” (Jó XXVII, 6).

Caríssimos, procuremos amar a Deus de verdade e veremos como o nosso Deus é digno de um temor tal que não possa haver maior. “O TEMOR DO SENHOR É UMA GLÓRIA E UMA HONRA, É UMA ALEGRIA E COROA DA ALEGRIA” (Ecli. I, 11). Amém!

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2 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O temor de Deus.”

  1. Deverá haver um equilibrio na vida pessoal com relação ao temor a Deus, de procurar amar ao Senhor por ser bom em Si e não O ofender e o temor de ser condenado às penas do inferno, dando sempre preferencia àquele, sem se esquecer desse.
    Já o amor servil em que a pessoa quer apenas se salvar, sem procurar amar o Senhor Deus, e ao mesmo tempo procura “aproveitar a vida o quanto não ofenda no legalismo”, correrá o risco de incidir no “Quem ama a sua vida, perdê-la-á; e quem neste mundo odeia a a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna”. Jo 12,25, por tratar-se de um comportamento medíocre, mero mercenarismo e desenfreado egoísmo; o abaixo, de como deverá se aproximar ao máximo:
    “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor.” 1Jo 4. 18. Ou seja, o temor ao Senhor citado na bíblia não pode significar um medo patológico de Deus que nos faça fugir Dele, assuste ou menos ainda, atormente; antes, é algo que nos aproxima ainda mais Dele, de forma filial, mas respeitosa e reverencialmente o quanto possam, tendo-se em conta que as graças do Senhor alimentando a sabedoria para bom discernimento de como melhor proceder o completam.
    Hoje em dia, por vivermos no tempo do alienante misericordiosismo, o qual apenas é evidenciado de forma geral nas homilias, desvinculado da justiça, tal como sucede no relativismo protestante – “crêem, portanto já sentiriam salvos” – e a ideia que outrora era bastante realçada, particularmente na S Quaresma, das penas aos pecadores, do inferno e suas consequencias, praticamente inexiste. Nas homilias, de muitos anos pra cá, como agora em 2016, cada vez,mais, parece que a classe de diabo da mudez emudeceu muitos sacerdotes, e abordagem desse tópico parece heresia, raríssimas vezes se ouvem referencias a isso, e quando o fazem, além de forma superficial, parece falarem nisso de forma reticente, como um sacerdote disse “de forma a não assustar o povo”…
    Também, com as Campanhas da Fraternidade (do eco-humanismo)…
    Em todas as coisas convém que nos preparemos para o fim e de como compareceremos perante o Juiz dos juízes, severo a quem nada é oculto, que não se aplaca com dádivas, nem aceita desculpas: mas julgará com justiça.
    “Mas julgará com justiça aos pobres, e repreenderá com eqüidade aos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio, Is 11,4.
    Que não sejamos estultos, pois responderemos ao Senhor que conhece o âmago de nossa alma, todos os crimes em que incidimos, às vezes, até trêmulos diante de homens como a nós, quando irados!
    Prepararemo-nos para o dia do Juizo, quando ninguém poderá ser escusado ou defendido por outrem, pois apenas cada um terá bastante o que fazer por si.
    “Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” Ti 2,12

  2. No intuito de não prolongar ainda mais o artigo, que aliás já foi um pouco longo, vi-me obrigado a renunciar tratar mais detalhadamente sobre o temor servil, sobre o qual pode haver mal entendidos. Nada mais seguro do que citar os santos e doutores santos da Igreja; Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, 2ª parte da 2ª parte, q.XIX trata “DE DONO TIMORIS” em 12 artigos. No 1º a, prova q. Deus pode ser temido; no 2º a. dá a divisão do temor em filial, inicial, servil e mundano; 3º a. prova que o temor mundano é sempre mau; 4º a. prova q. o temor servil é bom; 5º a. prova q. o temor servil e o t. filial, não são substancialmente idênticos; 6º a. prova q. o amor servil pode coexistir com a caridade.; 7º a. prova q. o temor de Deus é o início da sabedoria; 8º a. prova q. o temor inicial não difere substancialmente do temor filial; 9º a. prova que só o temor filial é dom do Espírito Santo. Os outros 3 artigos não têm tanta importância para o nosso caso. Se Deus quiser, oportunamente farei um artigo extraído de Santo Tomás, como acabei de dar uma resenha.
    Agora ouçamos outro santo: Nos seus “EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS” Santo Inácio de Loiola dá as normas para se sentir com a Santa Igreja; e no nº 370 expõe a 18ª norma, que assim reza: “Ainda que acima de tudo se há de estimar servir intensamente a Deus Nosso Senhor por puro amor, devemos louvar muito o temor da Divina Majestade; porque não só o temor filial é coisa piedosa e santíssima, senão que também o temor servil, onde a pessoa não conseguir outra coisa melhor ou mais útil, ajuda muito para sair do pecado mortal; e quem dele saiu, facilmente vem ao temor filial, que é inteiramente aceito e grato a Deus Nosso Senhor, por estar unido [inseparavelmente] do amor divino”.
    São Francisco de Sales no seu livro “TRATADO DO AMOR DE DEUS” l. XI, c. XVII mostra como o temor servil permanece com o divino amor; e no c. XVIII mostra como a amor se serve do temor natural, servil e mercenário. Só vou relatar o final deste capítulo: “Os que temem a Deus com uma afeição filial, têm medo de lhe desagradar, pura e simplesmente por ele ser um pai tão doce, tão benigno e tão amável. Todavia, quando sucede que este temor filial se alia e mistura com o temor servil da eterna condenação ou com o temor mercenário de perder o Paraíso, nem por isso deixa de ser agradável a Deus, e chama-se então temor inicial, quer dizer, temor dos principiantes, dos que começam a exercitar-se no amor divino”…