Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: A contrição.

“Contra Vós só pequei e fiz o mal na vossa presença”  (Salmo L, 6)
“O temor de Deus afasta o pecado” (Eclesiástico I, 27)

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Baseada no Concílio de Trento, a Teologia formula e prova teses atinentes à contrição. Este Sacrossanto Concílio Ecumênico na Sessão XIV (25-11-1551) expõe a Doutrina sobre o Sacramento da Penitência, e no Capítulo 4, nº 897 e 898 fala da Contrição, primeiro da contrição perfeita e, depois, da imperfeita, também chamada  atrição. E neste artigo nos deteremos mais sobre esta última.

CONCÍLIO DE TRENTO, Capitulo 4. A CONTRIÇÃO:

Nº 897. A contrição, que tem o primeiro lugar entre os mencionados atos do penitente, é uma dor da alma e detestação do pecado cometido, com propósito de não tornar a pecar. Este movimento de contrição foi necessário em todo tempo para se alcançar o perdão dos pecados. No homem que cai depois do Batismo, ela é como que uma preparação para a remissão dos pecados, se estiver unida à confiança na divina misericórdia e ao propósito de executar tudo o mais que se requer para receber devidamente este sacramento.

contricaoDeclara, pois, o santo Concílio que esta contrição encerra não só o deixar de pecar e o propósito, bem como o começo de uma nova vida, mas também o ódio da vida passada, conforme as palavras: Lançai de vós todas as vossas maldades, em que prevaricastes, e fazei de vós um coração novo e um espírito novo (Ez XVIII 31). E por certo, quem tiver considerado aqueles clamores dos santos: Contra vós só pequei e fiz o mal na vossa presença (Salmo L, 6; estou esgotado à força de tanto gemer, rego o meu leito com lágrimas todas as noites  (Salmo VI, 7); passarei em revista todos os meus anos na vossa presença entre amarguras de minha alma  (Isaías XXXVIII, 15) e outros deste gênero, facilmente entenderá que eles procediam de um ódio veemente da vida passada e de grande detestação dos pecados.

Nº 898. [O santo Concílio] ainda ensina que, embora algumas vezes suceda ser esta contrição perfeita por força da caridade, e reconciliar o homem com Deus, antes que seja realmente recebido este santo sacramento, contudo não se deve atribuir esta reconciliação à contrição somente, independente do desejo de receber o sacramento, que aliás está contido nela. [Agora o Concílio vai falar de contrição imperfeita, também chamada atrição]. Quanto àquela contrição imperfeita, chamada atrição, porque nasce ordinariamente da consideração da torpeza do pecado ou do temor do inferno e dos castigos, se com a esperança do perdão excluir a vontade de pecar, [o santo Concílio] declara que ela não somente não faz o homem mais pecador e hipócrita, mas ainda que é dom de Deus e moção do Espírito Santo, que verdadeiramente ainda não habita no homem penitente, mas que somente o move; e ajudado por ele o penitente se dispõe a alcançar a amizade de Deus no sacramento da Penitência. Porquanto, abalados por este temor salutar, os ninivitas fizeram penitência na pregação de Jonas, cheia de terrores, e alcançaram a misericórdia do Senhor (Cf. Jonas III). Por isso é com falsidade que certa gente acusa os autores católicos como se tivessem escrito que o sacramento da Penitência confere a graça sem nenhum movimento bom por parte daqueles que o recebem: o que a Igreja de Deus jamais ensinou nem creu. Mas também é falsa a afirmação de que a contrição é extorquida e forçada, e não livre e voluntária. Nos Cânones o santo Concílio de Trento, nº 915, Cân. 5 assim reza: “Se alguém disser que aquela contrição que se concebe pelo exame e pela lembrança e detestação dos pecados, em que se rememoram com amargura da alma os anos passados (Isaías XXXVIII, 15), ponderando a gravidade, a multidão e a fealdade dos seus pecados, a perda da bem-aventurança eterna, o incorrer na eterna condenação, aliada ao propósito de melhor vida não é dor útil e verdadeira nem predispõe para a graça, mas torna o homem hipócrita e o faz [ainda] maior pecador; [e disser] enfim que ela é uma dor forçada e não livre e voluntária – SEJA EXCOMUNGADO”.

Caríssimos, eis, então, as teses que os Teólogos formulam e provam: [Aqui só exporei o que se refere à atrição: ASSERÇÃO: A atrição concebida pelo temor do inferno e dos castigos é um ato bom e útil que pode excluir,  com a esperança do perdão, toda vontade de pecar (É de fé definida).

Explicação dos termos:

FEALDADE OU TORPEZA DO PECADO,  isto é, enquanto o pecado se opõe à regra dos costumes e das virtudes.

INFERNO: pena eterna, tomada adequadamente enquanto abrange a pena do dano (perda de Deus) e pena dos sentidos; e inadequadamente, enquanto designa só a pena dos sentidos, portanto, com referência a Deus somente enquanto infligida por Ele. Esta atrição que vem do medo do castigo, é chamada também pelos teólogos de SERVIL; porque os servos costumam se mover pelo temor dos castigos infligidos pelos seu senhor, enquanto os filhos se movem antes pelo amor. Alguns teólogos ainda distinguem a atrição servilmente servil e simplesmente servil. A primeira é quando o pecador pelo medo do castigo só exclui o ato do pecado, mas não o afeto ao mesmo. Em outras palavras: detesta só o castigo mas não o pecado, ou seja, estaria disposto a pecar caso não houvesse castigo. Santo Tomás de Aquino chama este temor de mundano.  É óbvio que esta atrição é má. Já a atrição simplesmente servil, é boa como acima ficou explicado pelo Concílio de Trento. Os protestantes antigos com Lutero, diziam que a atrição concebida pelo medo dos castigos de Deus é má e nociva porque torna o homem hipócrita, e mais do que isto, torna-o mais pecador ainda. O bispo Jansênio e Quesnel e Baio e os Pistorienses diziam, mais ou menos, a mesma coisa, isto é, que esta atrição servil, não só não tem nenhuma bondade e utilidade, mas torna o homem réu diante de Deus.  Lutero foi condenado pelo Papa Leão X; Jansênio, por Alexandre VIII; Quesnel, por Clemente XI;  os Pistorienses por Pio VI. (Cf. D. 746, 1305, 1410 sq. e 1525).

O Concílio de Trento, como vimos acima, supõe perfeitamente que esta atrição pode excluir toda vontade de pecar; condenando assim a teoria de Lutero, embora sem declinar o seu nome. Quanto à ESPERANÇA DO PERDÃO diz Santo Afonso que só pelo fato de o pecador se aproximar sinceramente do sacramento da Penitência está indicando explicitamente que tem esperança no perdão por causa dos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Concílio de Trento prova esta tese como acima transcrevemos. Nas Sagradas Escrituras muitos são os textos. Apresentarei apenas três do  A. T. : “O temor do Senhor é o início da sabedoria” (Salmo CX, 10); “O Temor de Deus afasta o pecado” ( ); “O temor de Deus é o início de seu amor” (  ). No N. T. aquelas palavras de Jesus sobre as quais já refletimos: “Não deveis temer os que só podem matar o corpo; temei, porém, Aquele que depois de matar, tem poder para lançar na Geena o corpo e a alma” (São Lucas XIII, 3, 5).

Prova pelos Santos Padres:  Denzinger nº 1525: O Papa Pio VI, ao condenar os Pistorienses, apresenta a autoridade do Concílio de Trento e a sentença comum dos Santos Padres, especialmente a de Santo Agostinho: “que entre primeiro o temor, pelo qual venha o amor: o temor é o medicamento, o amor, a saúde”. Sobre o medo do inferno diz ainda o Doutor da Graça: “Bonus est iste timor, utilis est” (= Este temor é bom e útil).

A Teologia Tradicional prova, outrossim, que a simples atrição é suficiente para a justificação acompanhada do sacramento e que não se requer nenhum amor inicial por motivo de caridade.  Esta doutrina da Santa Igreja é sumamente consoladora, porque os pobres pecadores, dificilmente teriam tranquilidade na incerteza de terem realmente uma
contrição perfeita. A Justiça divina reconhece a nossa miséria, e a sua Misericórdia vem ao seu encontro para perdoar com menos exigências da nossa parte, porque o Divino Salvador nos mereceu esta graça.  Como devemos agradecer a Deus por sua Igreja ter condenado o rigorismo dos Jansenistas!

Deo volente, no próximo artigo versaremos sobre o puro Amor de Deus. Amém!

 

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2 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: A contrição.”

  1. Após termos sido batizados e incidentes em pecados, o sacramento da penitência é específico para remover todos eles cometidos após a remissão na alma do pecado original; o penitente professa claramente, por palavras e posteriores ações que seu coração se apartará doravante da malicia do pecado; no sacerdote, em suas palavras e ações, reconhece a misericórdia de Deus, que perdoa esses mesmos pecados pelo poder do proprio Jesus que o investiu para agir em Seu nome.
    Dessa forma, estabeleceu que: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos’ (Jo XX, 23).A absolvição enunciada pelas palavras do sacerdote exprime a remissão dos pecados, que se opera dentro da alma.
    No entanto, para que essa contrição, perdão e mesmo confessar-se validamente, é necessario que haja arrependimento e propósito de não mais voltar a incidir no erro, quer dizer, nessas horas não subtender que voltará a cair no erro com sua ajuda, arrependido de momento, mas no recôndito da alma admite que ainda o preza e não abandonará como se expressaria…
    Assim sendo, sob pena de ser uma falsa contrição e, em caso de receber o Sacramento da Penitencia poderia ser inválido, sairá pior que entrou e ainda aproximar-se da S Comunhão acumulado de mais pecados ainda não perdoados anteriormente a ela.
    Santo Afonso já afirmou que um dos pecados que mais leva pessoas para o inferno é ceder ao demonio da mudez, quer por omissão de revelar os pecados, quer por os atenuar para não passar vergonha diante do confessor.
    Note-se que no presente, pela adoção de confissões à frente ao sacerdote, deve-se resistir mais fortemente ao diabo da mudez para revelar os pecados, particularmente os que mais tiver dificuldade em expor, caso de envolvimento nos referentes à impureza!
    À hora de cometer o pecado o diabo instiga a os cometer; posteriormente a ele, provoca auto acusação no faltoso e, à hora da confissão tenta com força para revelá-los à metade e evitar aqueles que “humilham demais, abrandando-os ou em número menor”, de forma que “não passe vergonha”…
    “Se o homem recusasse a amizade de Deus, para alcançar um reino ou um império do mundo inteiro, já seria isso uma horrenda perversidade, pois que a amizade de Deus é muito mais preciosa do que o mundo todo e milhares de mundos. E afinal por amor de que coisa o pecador ofende a Deus? Por um pouco de terra, para satisfazer a sua ira, por um gozo bestial, por uma vaidade, um capricho. ‘Eles me desonraram por um punhado de cevada e um pedacinho de pão’. Ez 13, 19.
    Um dos meios de evita os pecados nesse quesito é exercitar-se na contrição perfeita, mesmo á hora da confissão!

  2. Como já deixei indicado no fim do presente artigo, no próximo, se Deus quiser, mostrarei como chegar à contrição perfeita. Na hora de rezar o ato de contrição tomemos a cuidado de o fazer com atenção e do fundo do coração: “Senhor meu Jesus Cristo…” Prestemos atenção como, primeiro aduzimos os atos de amor perfeito (contrição perfeita), depois, os atos de atrição (contrição imperfeita). Se conseguirmos o primeiro, ótimo!, mas, se não, o segundo que é mais acessível à nossa miséria, já é o suficiente junto com a absolvição que estamos recebendo no momento.