Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O perfeito amor de Deus.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de perfeição, porque serão saciados” (Mt 5, 6)

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Este puro amor é um dom de Deus. Donde os esforços conjugados da alma não bastam para adquirir esse amor. Deus, porém, nada concede com tanto prazer como o seu amor, e nunca o recusa a quem quer que se disponha a recebê-lo. A primeira condição é desejá-lo ardentemente.

“Desejar amar sempre mais, dizia S. Francisco de Sales, é o meio de progredir sempre no amor. Quem deseja muito o amor, bem o procura; quem bem o procura, bem o encontra”. No entanto, não bastam simples desejos. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de perfeição, porque serão saciados”. Quem tem fome e sede não se contenta com aspirações e suspiros, mas age, esforça-se e não descansa enquanto não encontrar alimento e bebida; quer a todo custo se saciar e dessedentar-se.

Da mesma forma quem tem uma fome ardente do puro amor, começa por pedi-lo com instância e aceitando de antemão todas as provações que a Sabedoria divina julgar necessária para purificá-lo e, em seguida, abrasá-lo. E a alma, por seu lado, multiplica os esforços, faz-se violência e luta com perseverança contra si mesma. Mas para entreter em si esse desejo ardente de perfeição é mister conservar sempre presentes ao espírito os motivos que o tornam tão desejável. Ao lermos suas epístolas, percebemos o quanto S. Paulo amava a Jesus: “Eu vivo, dizia, na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gál. II, 20). Esse pensamento de que seu Deus o tinha amado até à morte nunca deixava o santo Apóstolo, mantendo-o na disposição constante de lhe retribuir amor com amor.  E assim igualmente agiram todos os santos.  Um Santo Agostinho, uma Santa Teresa d’Ávila, uma Santa Teresinha etc. etc. Eis o que diz Tomás de Celano sobre S. Francisco de Assis: “Ardendo sempre de amor divino, anelava pôr mão a obras de força e, caminhando de coração magnânimo na estrada dos mandamentos divinos, desejava alcançar a máxima perfeição”.

Mais tarde o próprio Jesus, através de Santa Margarida Maria, vai mostrar que a devoção ao seu Sacratíssimo Coração tornaria fervorosas as almas tíbias, e muito perfeitas as almas fervorosas. Na verdade, caríssimos, esta devoção nos põe continuamente diante dos olhos o imenso amor de Jesus, e nos leva a não viver como ingratos e a nada recusar Àquele que tanto fez por nós. Dois corações ardentes em amor a Jesus, tiveram a dita de serem os primeiros a contemplar o Coração aberto de Jesus na Cruz, de serem os seus primeiros adoradores : o Coração Imaculado de Maria Santíssima, e o coração mais amante e mais amado entre os Apóstolos, o de S. João Evangelista!

Os exercícios de piedade, máxime a meditação da Paixão e Morte de Jesus e a contemplação do excesso de amor de Seu Coração Divino que é a Santíssima Eucaristia, como sacramento e como sacrifício. “Tendo amado os seus que estavam neste mundo, amou-os até o fim”, isto é, até o fim de sua vida, até o fim do mundo, e até ao último limite. E é neste último sentido que exclama Santo Agostinho: “Sendo poderosíssimo, não podia fazer mais; sendo sapientíssimo, não saberia fazer melhor; e sendo riquíssimo, não teria nada mais precioso para nos dar”. Deu-se inteiramente, e como Deus e como Homem!!! Jesus é o Ser digno de todo nosso amor. Também as leituras espirituais, quando bem escolhidas, são um meio excelente para nos recordar os benefícios de Deus, os encantos e o valor de seu serviço e manter sempre ardente no coração a sede do santo amor.

O segundo meio de aumentar o nosso amor é renunciar por Deus a toda afeição que não for inspirada por Ele, renunciar sobretudo o amor de nós mesmos. Devemos estar dispostos a dizer e a realizar: Quero, custe o que custar, agradar a Deus e consolar o Sagrado Coração de Jesus; quero santificar-me, pois, desejo a glória de Deus, quero conformar inteiramente minha vontade com a Sua, de tal modo que, por fim, não reste senão a vontade de Deus.

Entrego nas mãos de meu Pai do Céu o meu presente e o meu futuro. Tenho certeza que ele me tratará segundo sua bondade; não quero trabalhar senão para Ele, não desejo senão amá-Lo e fazer amá-lo.  Assim a alma tem que saber esquecer-se a si mesma.

Caríssimos, não pode haver perfeição no amor de Deus, sem a RENÚNCIA, e, por conseguinte, sem sacrifícios. É mister generosidade no caminho desta renúncia. No caminho do amor e do sacrifício, não deve haver hesitação, porque quem fica calculando, acaba recuando. Quem reflete demais, encontra sempre razões para fugir daquilo que lhe custa e acabar fazendo aquilo que lhe agrada.

São Francisco de Sales dizia: “Não conheço maior arte para chegar a amar do que amar, assim como aprendemos a estudar, estudando, a falar, falando, a trabalhar, trabalhando”. Exercer o amor é, portanto, o outro meio de ampliá-lo. Façamos, caríssimos, a cada instante atos de amor. Quando Deus nos manda sofrimentos, separações, lutos cruéis, entreguemo-nos ao amor e os atos de caridade que fizermos reconfortarão nosso coração, enquanto aproveitarão aos nossos mortos.

Quando o demônio nos tentar, façamos atos de amor de Deus, olhemos para o Coração de Jesus que tanto nos amou, olhemos para a Santíssima Trindade, tão cheia de amor por nós, e façamos nossos sacrifícios amorosamente. Digamos sempre: Meu doce Jesus, quero pensar em vós, quero amar-Vos. Para alcançar o perdão das faltas de minha vida, para repará-las, para testemunhar-Vos todo o meu arrependimento, para Vos consolar das penas que vos causei, eu Vos amo, ó Jesus, de todo o coração. Na secura espiritual digamos: Meu Deus, quero amar-Vos, aumentai em mim o amor; meu Deus, sede amado, que os pecadores venham a Vós, que os bons se tornem melhores, que vossos amigos íntimos, em
número cada vez maior, Vos consolem e Vos alegrem. Quero tudo quanto quiserdes e só aquilo que quiserdes. E assim, caríssimos, mesmo aquele que estiver na aridez, se for fiel, conservará em sua vontade a resolução enérgica e constante de fazer muito por Deus.

Mas é claro, não só com palavras, mas também com obras, devemos demonstrar o nosso amor: “Filhinhos, dizia S. João Evangelista, não amemos somente de boca e em palavras, mas sim pelas nossas obras” (Jo III. 18). Devemos dedicar-nos e consumir-nos por Jesus sem medir esforços, fazer sempre o que mais Lhe agrada, que será geralmente o que menos nos agrada. O mundo chama isto de loucura. Fala do que não entende. Na verdade, a loucura do amor é a verdadeira prudência. Santa Teresinha do Menino Jesus elevou-se em poucos anos até ao heroísmo do amor. Não era somente a intensidade e a pureza de seu amor, era também a ternura toda familiar, fruto de uma confiança sem limites, que, tornando essa alma tão agradável ao Senhor, O levava a lhe dar ao amor um incremento maravilhoso. Assim, se quisermos ver crescer o nosso amor, que cada um de nós se considere, não como o servo, mas como o amigo íntimo de Jesus, como seu irmão carinhosamente amado. Feliz aquele que compreende a ternura do Coração de Jesus! Amém!

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2 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O perfeito amor de Deus.”

  1. Belíssimo texto, gostei muito de ler. Parabéns

  2. Amar o próximo é muito mais difícil do que amar ao Senhor Deus que não vemos, particularmente nesse mundo em que as hostilidades á sua Palavras e às indicações comportamentais são ostensivas, sem rodeios; apesar de tudo, apenas conseguiremos chegar a esse objetivo se conseguirmos associar ambos em palavras e obras.
    Dá-se isso porque, quem nos ajuda, quem destroi as nossas más inclinações, quem nos coloca nos caminhos da verdade de tomarmos a resolução de amar uns aos outros, tanto mais precisamos investir, com seriedade no amor a Deus e no escutá-Lo a cada dia, para captarmos suas exigencias e colocarmos em prática seu amor em ambos aspectos, sem discrepancias, um ser consequencia do outro agindo unissonamente.
    Mais difícil que amar a Deus é deixar-se amar por Ele devido a sermos bastante enclausurados em nós mesmos e termos nossos ídolos, muitas vezes sem darmos conta disso; a maneira de retribuir tanto amor é abrir o coração e deixar-nos amar por Ele – Jesus é insistente, bate sempre á nossa porta – mas não força a entrada; se não Lha abrirmos, aguarda até ao último instante em que decidamos em não O aceitar mais e doravante poderemos até nos incorrer no endurecimento de coração que Ele mesmo colaborará que nos condenemos sob o; “…. por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira;
    Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniqüidade
    2 Ts 11-12
    Não é fácil deixar-nos amar por Ele devidas às restrições e fechamentos nossos acima; façamos nossas preces e contemos com suas imprescindiveis graças para sermos fieis. No entanto, temos de prosseguir nessa direção, sob pena de não aproveitarmos nossa vida concedida para chegarmos a esse estado de perfeição e decorrer disso a nossa salvação!