Associação ‘Voice of the Family’: Os Católicos não podem aceitar elementos da Exortação Apostólica que ameaçam a Fé e a Família.

Declaração da importante associação ‘Voice of the Family’, que reúne entidades pró-vida e pró-família de todo o mundo.

A promulgação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia pelo Papa Francisco, marca a conclusão de um processo sinodal que foi dominado por tentativas de subverter o ensinamento católico sobre questões relativas à vida humana, o matrimônio e a família, em assuntos que incluem, mas não de modo limitado,  a indissolubilidade do matrimônio, a contracepção, métodos artificiais de reprodução, homossexualidade, “ideologia de gênero” e os direitos dos pais e crianças. Estas tentativas de distorcer o ensinamento católico enfraqueceram o testemunho da Igreja com relação às verdades de ordem natural e sobrenatural e têm ameaçado o bem-estar da família, especialmente seus membros mais fracos e mais vulneráveis.

A Exortação Apostólica Amoris Laetitia é um documento muito longo, que discute uma ampla variedade de assuntos relacionados à família. Há muitas passagens que refletem fielmente a doutrina católica, mas isso não pode e não diminui a gravidade daquelas passagens que comprometem o ensino e a prática da Igreja Católica. Voice of the Family pretende apresentar análises completas dos problemas graves no texto ao longo dos próximos dias e semanas.

Voice of the Family expressa as seguintes preocupações iniciais,  com a maior reverência ao ofício papal e unicamente movidos por um desejo sincero de ajudar a hierarquia na sua proclamação da Doutrina Católica sobre a vida, o casamento e a família e para promover o verdadeiro bem da família e de seus membros mais vulneráveis.

Nós  consideramos que ao levantarmos as seguintes preocupações nós cumprimos o nosso dever,  como claramente está previsto no Código de Direito Canônico, o qual afirma:

“De acordo com o conhecimento, competência e prestígio que possuem, eles [os fiéis] têm o direito e às vezes até mesmo o dever, de manifestar aos sagrados pastores sua opinião sobre questões que dizem respeito ao bem da Igreja e de fazer manifestar-se junto ao resto dos fiéis cristãos, sem prejuízo da integridade da fé e moral, com reverência para com os pastores, e atentos à utilidade comum e a dignidade das pessoas. “(Canon 212 § 3)

Admissão de “divorciados novamente casados” à  Sagrada Comunhão

Amoris Laetitia, ao longo do capítulo VIII (parágrafos 291-312), propõe uma série de abordagens que preparam o caminho para católicos “divorciados novamente casados” receberem a Sagrada Comunhão, sem verdadeiro arrependimento e mudança de vida. Estes números incluem:

(I) exposições confusas da Doutrina Católica sobre a natureza e os efeitos do pecado mortal, sobre a imputabilidade do pecado e sobre a natureza da consciência

(II) a utilização da linguagem ideológica no lugar da terminologia tradicional da Igreja

(III) o uso de citações seletivas e enganosas de documentos anteriores da Igreja.

Um exemplo particularmente preocupante de citação inadequada do ensino anterior é encontrado no parágrafo 298 que cita a declaração do Papa João Paulo II, feita na Familiaris Consortio, onde se menciona situações existentes “em que, por motivos graves, tais como a educação dos filhos, um homem e uma mulher não podem satisfazer a obrigação de  se separarem”. No entanto, em Amoris Laetitia a segunda metade da frase do Papa João Paulo II, que afirma que esses casais “assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos casais casados”(Familiaris Consortio, n ° 84), é omitida.

Além disso, na nota de rodapé para esta citação enganosa, lemos:

“Em tais situações, muitas pessoas, conhecem e aceitam a possibilidade de viver como irmãos e irmãs que a Igreja lhes oferece,  mas observam que se faltam certas expressões de intimidade, muitas vezes ocorre que a fidelidade corre risco e o bem das crianças é comprometido “(Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes, 51)”.

O documento faz referência a esta visão errônea mas não explica por que é uma abordagem falsa, o que a saber é:

(I) Todo ato sexual fora de um matrimônio válido é intrinsecamente mau e nunca é justificável cometer um ato intrinsecamente mau, mesmo a fim de alcançar um bom final

(Ii) “A fidelidade corre perigo” por atos de intimidade sexual fora do casamento, mas a fidelidade só é vivida quando dois indivíduos em uma união inválida se abstém de qualquer intimidade sexual em fidelidade à sua união original, que continua válida perante Deus.

(III) A citação implica que as crianças vão sofrer porque seus pais, com a ajuda da graça divina, vivem a castidade. Pelo contrário, esses pais estão dando aos seus filhos um exemplo de fidelidade, da castidade e da confiança no poder da graça de Deus.

O documento cita Gaudium et Spes, mas a passagem é citada fora de contexto e não sustenta o argumento apresentado. O contexto deixa claro que Gaudium et Spes está falando de católicos casados no contexto da procriação, não daqueles coabitando numa união inválida. A frase completa é a seguinte:

“Mas quando se suspende a intimidade da vida conjugal, não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole; porque, nesse caso, ficam ameaçadas tanto a educação dos filhos como a coragem necessária para ter mais filhos.” (Gaudium et Spes, n ° 51).

Por isso, é difícil evitar a conclusão de que a Exortação Apostólica está, no mínimo, levantando a possibilidade de que atos sexuais adúlteros podem em alguns casos ser justificados e o que é pior, distorcendo a Gaudium et Spes como se ela pudesse dar sustento a isso.

Outras abordagens que minam a doutrina católica sobre a recepção dos sacramentos serão discutidas por Voice of the Family em duas etapas.

 

Direitos dos pais  e educação sexual

Amoris Laetitia inclui uma seção intitulada “A Necessidade da Educação Sexual” (parágrafos 280-286). Esta seção abrange mais de cinco páginas sem fazer sequer uma referência aos pais. Por outro lado, há referência a “instituições educacionais”. No entanto, a educação sexual é “um direito e dever fundamental dos pais”, que “deve estar sempre sob a sua solícita guia, quer em casa quer nos centros educativos escolhidos e controlados por eles” (Papa João Paulo II, Familiaris Consortio, n ° 37 ). A omissão deste ensinamento desampara gravemente os pais num momento em que os direitos dos pais sobre educação sexual estão sob graves e persistentes ataques em muitas nações do mundo e por instituições internacionais. Nesta seção, Amoris Laetitia não cita qualquer um dos documentos anteriores da Igreja que afirmam categoricamente esse direito. No entanto, cita um psicanalista, Erich Fromm, associado à Escola de Frankfurt. Referências anteriores do documento para os direitos dos pais (parágrafo 84), embora bem-vindas, não podem compensar a exclusão dos pais nesta seção.

Uniões homossexuais

Amoris Laetitia, ao seguir uma abordagem semelhante à adotada anteriormente em documentos do Sínodo, implica que “uniões entre pessoas do mesmo sexo” podem oferecer uma “certa estabilidade” e podem ter um tipo de semelhança ou relação com o casamento. Ali se declara que:

“Precisamos reconhecer a grande variedade de situações familiares que podem oferecer uma certa estabilidade, mas uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, não podem simplesmente ser equiparadas ao casamento.” (§ 53)

Há uma grande pressão por parte de instituições internacionais para a rejeição da definição tradicional da família por meio da adoção de uma linguagem que se refere à “variedade” ou “diversidade” nas formas de família. A implicação de que “uniões do mesmo sexo” são parte da “grande variedade de situações familiares” é precisamente o que grupos pró-família vem lutando arduamente para se opor. Ao usar esse tipo de linguagem, a Exortação Apostólica mina todo o trabalho do movimento pró-família para proteger a verdadeira definição de família e, consequentemente, para proteger as crianças que dependem da estrutura da família querida por Deus para o seu bem-estar e desenvolvimento saudável.

Vale ainda ressaltar que, no n.º 251, o ensinamento autêntico da Igreja, segundo o qual “não existe absolutamente nenhuma razão para considerar as uniões homossexuais sob qualquer forma semelhante ou mesmo remotamente análoga ao plano de Deus para o casamento e a família, ” foi reajustado.

“Ideologia de gênero”

Amoris Laetitia endossa um aspecto central da “ideologia de gênero”, ao afirmar que “precisa ser enfatizado” que o sexo biológico e o “gênero” sócio-cultural podem ser “distintos, mas não separados” (parágrafo 56). Esta aceitação do princípio subjacente da teoria de gênero mina outras partes do documento em que se faz uma crítica da ideologia e seus efeitos. A falsa noção de que o sexo biológico é distinguível do chamado “gênero” foi primeiramente proposta em 1950 e é a base da “ideologia de gênero”. Oposição às consequências da “ideologia de gênero” será impossível se o seu primeiro princípio errôneo é aceito.

Atentados à vida humana inocente

Amoris Laetitia falha em lidar com a escala das ameaças para as crianças não nascidas, idosos e pessoas com deficiência. As estimativas conservadoras indicam que mais de um bilhão de vidas por nascer foram destruídas pelo aborto ao longo do século passado. No entanto, em um documento contendo 263 páginas que fala dos desafios para a família, há apenas um pequeno número de referências passageiras ao aborto. Não há nenhuma menção à destruição causada por métodos artificiais de reprodução, que também resultaram na perda de milhões de vidas humanas. A ausência de uma discussão séria dos atentados à vida por nascer, neste contexto, é uma grave omissão.

Também há uma mínima referência à eutanásia e ao suicídio assistido, apesar da pressão crescente para sua legalização em todo o mundo. A falha em discutir adequadamente essa ameaça é também uma outra omissão muito lamentável.

 

Contracepção

Amoris Laetitia falha em enfatizar adequadamente o ensinamento católico sobre o uso de contracepção. Esta é uma omissão preocupante dado que (i) a separação dos fins procriativos e unitivos do ato sexual é um grande catalisador para a cultura da morte e que (ii) existe uma desobediência generalizada e ignorância do ensinamento da Igreja nesta área PRECISAMENTE por causa da falha da hierarquia em comunicar esta verdade. A discussão do documento sobre a questão da consciência é igualmente falha tanto no parágrafo 222, que trata da “paternidade responsável”, como no Capítulo VIII que trata da admissão aos Sacramentos por parte daqueles que estão vivendo em adultério público. O parágrafo 303 é particularmente preocupante, especialmente na seguinte afirmação:

“No entanto, a consciência pode fazer mais do que reconhecer que uma dada situação não corresponde objetivamente às exigências gerais do Evangelho. Ela também pode reconhecer com sinceridade e honestidade que por enquanto é a resposta mais generosa que pode ser dada a Deus, e chegar ao ponto de ver com uma certa segurança moral que é o próprio Deus quem está pedindo, em meio à complexidade concreta dos próprios limites, embora ainda não seja totalmente o objetivo ideal. Em todo caso, vamos lembrar que este discernimento é dinâmico; ele deve permanecer sempre aberto para novas fases de crescimento e de novas decisões que podem fazer com que o ideal seja plenamente realizado”.

Esta declaração parece adotar uma falsa compreensão da «lei da gradualidade” e sugere que há certas ocasiões em que o pecado não é apenas inevitável, mas até ativamente desejado pelo próprio Deus para aquela pessoa. Claramente, isso seria inaceitável.

 

Conclusões

Esta é apenas uma breve introdução para os muito numerosos problemas encontrados em Amoris Laetitia. Será necessário novos estudos para discernir plenamente todas as implicações do texto, mas é abundantemente claro que o documento falha em fornecer uma exposição clara e fiel da Doutrina Católica e leva inevitavelmente a conclusões que podem resultar em violações do ensino imutável da Igreja Católica e daquelas disciplinas que estão intimamente fundadas sobre ela. Nossa visão inicial fornece motivo suficiente para considerar este documento como uma ameaça à integridade da fé católica e ao autêntico bem da família.

Reiteramos mais uma vez que fazemos estas críticas com grande reverência ao ofício do papado, mas com a consciência de nossos deveres como leigos católicos para o bem da Igreja, e os nossos deveres como ativistas pró-família e pró-vida que lutam  para proteger a família e seus membros mais vulneráveis.

Voice of the Family é uma coalizão internacional de 26 organizações pró-família e pró-vida e esteve presente em Roma ao longo de ambos os sínodos Extraordinário (2014) e Ordinário da Família (2015). Voice of the Family publicou análises profundas dos documentos oficiais dos sínodos.

7 Comentários to “Associação ‘Voice of the Family’: Os Católicos não podem aceitar elementos da Exortação Apostólica que ameaçam a Fé e a Família.”

  1. Muito obrigado por esta tradução.

  2. Ja já vem os defensores incansáveis do Papa Francisco: “Nãaaao, mas ele quis dizer é que…”

    Se quis dizer, por que não disse?
    Quero é ver encontrar ambigüidade em documentos importantes do papa São Pio X. “Faça X, caso contrário seja punido com Y”.
    “O ensinamento da Igreja é A e seja excomungado quem discordar”
    Simples, direto e claro.
    Oremos pelo Papa.

  3. “Esta é apenas uma breve introdução para os muito numerosos problemas encontrados em Amoris Laetitia. Será necessário novos estudos para discernir plenamente todas as implicações do texto, mas é abundantemente claro que o documento falha em fornecer uma exposição clara e fiel da Doutrina Católica e leva inevitavelmente a conclusões que podem resultar em violações do ensino imutável da Igreja Católica e daquelas disciplinas que estão intimamente fundadas sobre ela. Nossa visão inicial fornece motivo suficiente para considerar este documento como uma ameaça à integridade da fé católica e ao autêntico bem da família.”

    Mas não é de Fé ( conforme definido pelo Concílio Vaticano de 1870 ) que um Papa não pode dar o mal em seus atos oficiais, aqueles que lhe são de ofício, de acordo com seu múnus? Seríamos nós que entendemos tudo errado?

    Salve Maria.

    • Palavras de Roberto di Mattei:

      “A união sexual extraconjugal não é considerada intrinsecamente ilícita, mas, enquanto ato de amor, sujeita a uma avaliação de acordo com as circunstâncias. Mas geralmente não há nenhum mal em si, pois não existe pecado grave ou mortal.

      A equiparação entre pessoas em estado de graça (situações “regulares”) e pessoas em estado permanente de pecado (situações “irregulares”) não é apenas linguística: parece sucumbir à teoria luterana do homem simul iustus et pecator, condenada pelo Decreto sobre a justificação do Concílio de Trento (Denz-H, nn. 1551-1583).”

      Será que as pessoas estão entendendo a gravidade desses fatos, de suas implicações?

  4. O grande dilema por que passa a Igreja no momento, que tem se aprofundado e que afeta demasiado os católicos, principalmente a imensa maioria que não possui conhecimentos mais detalhados dos fatos e é desinformado pela grande midia, até da supostamente católica, bem menos ainda avaliam suas implicancias negativas na prática da fé, estando justamente numa tentativa que diversos da Alta Cúpula fariam de forçar um equilibrio entre a doutrina tradicional da Igreja e seu Magisterio infalível com concessões que antes interditas, jamais seriam analisadas com admissíveis!
    Afinal, sempre seguiram rigorosamente a doutrina desde o Senhor Jesus, de seus teólogos e santos no decorrer de tantos séculos, no mesmo ritmo e, de tempos para cá, aventam-se possibilidades de, na prática pastoral, oportunizarem-se brechas para “certas concessões para determinados casos particularizados, a criterio de cada pastor, sob a égide da misericordia e afins”; no entanto, poderiam estar ferindo os rígidos principios bimilenares de sua doutrina de sempre, além de que facilitariam novas aberturas para outros pontos doutrinarios.
    O exemplo da firmeza e rigidez doutrinarias anteriores foram as não concessões à Rebelião Protestante, erroneamente chamada de “Reforma”, hoje deformada com milhares de seitas relativistas, batendo-se entre si e que, á época, foi excomungada sem comiseração alguma por atentar contra a fé!
    De repente, defrontamo-nos com o revolucionario cardeal Kasper – junto a mais apoiadores infiltrados na Igreja; seriam da Regua e Compasso? – desde o Vaticano, querendo nos impingir heterodoxismos, como ele nos antecipou há cerca de um mês de uma verdadeira “revolução” antes da publicação da “Amoris laetitia”!
    Mas atentemos ao que disse seu opositor Dom G Müller, por uma especie de supressão do pecado mortal, que se transformaria em venial:
    “O maior escândalo que se pode dar à Igreja não é que nela inexistam pecadores, mas que se cesse de chamar pelo nome a diferença entre o bem e o mal e que se os relativize, que se cesse de explicar o que é o pecado, ou que se pretenda o justificar em nome de uma presumida imensa proximidade e misericordia para com o pecador”.
    Não seria isso a entronização e incensação do novo deus-homem do globalismo em detrimento do Senhor Deus?

  5. No tempo da inversão de valores, até a Igreja não escapa – imaginem nas outras, que rôlo!
    “Onde houver erros, que eu leve a verdade,
    Onde houver dúvidas, que eu leve a fé”…
    S Francisco está sendo desprezado porque está contrario?