Papa Francisco no olho do furacão: sobre a família, com as mãos atadas pelos bispos.

IHU – Como prossegue o caminho de Francisco? A recente exortação pós-sinodal traz o ar fresco da realidade na concepção católica da família, expressa uma linguagem e uma abordagem pastoral novas, convidando a olhar para as pessoas e para as situações na sua concretude, reitera a visão de Igreja de Francisco como uma comunidade que consola, acompanha e acolhe os homens e as mulheres do século XXI.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 12-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas a Amoris laetitia é um ato papal de governo e de direcionamento, que também deve ser medido pelo modo em que reflete os equilíbrios internos de um órgão complexo como a Igreja. Os sinais das freadas impostas são vistosos.

Só o fato de que em nenhum lugar se cite o termo “comunhão aos divorciados recasados” é eloquente. Mais indicativo ainda é que toda a problemática é confiada ao exame caso a caso, e a alusão à Eucaristia se encontra apenas em uma nota de rodapé, a 351, onde se fala genericamente de “sacramentos”.

Significa que o Papa Bergoglio tinha as mãos atadas e não podia ir excessivamente mais longe do que o que foi decidido pelos bispos do mundo no relatório final do Sínodo de 2015. Sínodos, concílios e conclaves são os únicos momentos na Igreja Católica em que se manifesta um aspecto participativo baseado no princípio democrático: um homem, um voto.

O resultado desses eventos diz muito sobre a situação interna na Igreja. A longa marcha dos dois Sínodos revela que dois pontos cruciais do programa dos reformadores foram silenciosamente rejeitados pela maioria do episcopado mundial – quer por conservadorismo, quer por apego à tradição ou por medo de se mover em mar aberto – a tal ponto de fazê-los desaparecer completamente da pauta.

É preciso voltar para o relatório intermediário do Sínodo de outubro de 2014 para reencontrá-los expressados claramente.

1. A proposta de um explícito “caminho penitencial” válido para os divorciados em segunda união, no término do qual os cônjuges de um segundo casamento, satisfeitas certas condições, poderiam ter acesso à comunhão.

2. O reconhecimento também do caráter positivo da vida de casal homossexual. Vale a pena reler vale o que foi escrito, então, no relatório intermediário: “Sem negar as problemáticas morais conectadas com as uniões homossexuais, reconhece-se que há casos em que o apoio mútuo até o sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros”.

A primeira proposta já podia ser percebida no relatório do cardeal Kasper (por precisa solicitação de Francisco) no consistório dos cardeais de fevereiro de 2014. Ela foi decididamente escanteada e substituída pelo exame caso a caso, confiado ao confessor.

Uma flexibilidade ditada pela necessidade, que evidenciaria rapidamente na Igreja um panorama desigual. Clemência em alguns territórios, rigorismo em outros. Como disse o cardeal Schönborn, “um confessor pode estar mais disposto; outro, mais severo… é o discernimento”;

A segunda proposta tinha sido redigida pelo secretário especial do Sínodo, o arcebispo Bruno Forte (escolhido pessoalmente pelo papa), que, no texto, tinha transferido a definição de Francisco, revelada publicamente pela sua acolhida no Vaticano de um transexual com a sua namorada e pelo seu cordial encontro nos EUA com um ex-aluno gay seu junto com o seu companheiro.

A abertura às convivências homossexuais foi totalmente cassada. Todos os trechos da Amoris laetitia sobre o respeito às pessoas homossexuais já faziam parte de documentos de Ratzinger, quando ele ainda era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Sobre esse terreno, a Amoris laetitia (por mais que seja conhecida a abordagem pessoal de Francisco) não dá nenhum passo à frente.

A verdade foi expressada por ocasião do terceiro aniversário da eleição papal por Andrea Riccardi, líder da Comunidade de Santo Egídio: nos últimos 100 anos, nenhum papa “jamais teve tantas resistências quanto Francisco… (internamente) às estruturas eclesiásticas, aos episcopados e os clero”. Palavras como pedras, que um historiador da Igreja não pronuncia com superficialidade.

A estratégia que a frente dos opositores está adotando é a de uma sistemática “contenção” do impulso reformista de Bergoglio. Viu-se isso nos Sínodos. Vê-se isso na Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, onde não passa o princípio da denúncia obrigatória à autoridade judiciária por parte do bispo contra os padres pedófilos (se a vítima concordar). Vê-se isso na sabotagem do desejo papal de colocar as mulheres em posições de “autoridade” na Igreja.

A operação de contenção se manifesta no contraponto sistemático – e sem precedentes contra um pontífice por parte do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – implementado pelo cardeal Müller. Francisco fala de uma Igreja hospital de campanha, e o cardeal responde que a Igreja “não é um sanatório, mas a casa de Deus”. Francisco vai viajar para a Suécia em outubro para comemorar os 500 anos da Reforma de Lutero, e Müller declara que “nós, católicos, não temos nada para festejar” em uma data que levou ao “cisma da cristandade ocidental”. A cada passo dado, o cardeal ressalta que Francisco “não é um teólogo profissional” e que deve ser teologicamente ajudado. Em um mundo como o vaticano, são palavras sutis, mas pesadas de deslegitimação.

Nos últimos dias, foi apresentado em Roma um manual sobre os sacramentos do Mons. Nicola Bux. Nunca, nas intervenções dos cardeais Burke e Sarah, foi nomeado o atual pontífice (exceto uma vez, sobre a encíclica Lumen fidei, que, aliás, foi escrita em forma de esboço por Bento XVI). Como se Francisco não existisse.

Ettore Gotti Tedeschi, elogiando “Bento XVI, o Grande” (ovação do público), afirmou que “a máxima autoridade da Igreja Católica deveria se preocupar com a sobrevivência do catolicismo”. Quase como se Bergoglio perdesse tempo em questões irrelevantes.

É um clima péssimo. O Papa Francisco se encontra no olho do furacão.

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5 Comentários to “Papa Francisco no olho do furacão: sobre a família, com as mãos atadas pelos bispos.”

  1. Há um clamor de diversos católicos melhor informados da fé e conservadores com relação a certas atitudes do papa Francisco, atinentes à direção que tem tentado dar à Igreja; no entanto, os inimigos dela, como os da midia globalista, parecem não se incomodarem como procediam com seus 2 antecessores, máxime o papa Bento XVI, o qual era sempre fustigado.
    Recentemente, o insurgimento do Cardeal G Müller e mais da CDF contra certas propostas da Amoris laetitia que considerariam progressistas, inadequadas ou que poderiam delas surgirem facilitações para subinterpretações pessoais, como nas considerações do “caso por caso” foram bastante sublinhadas, e bem que apreciariam que a exegese católica tradicional fosse considerada no texto dela, no entanto, ao que parece, teria sido desprezada.
    …. “A estratégia que a frente dos opositores está adotando é a de uma sistemática “contenção” do impulso reformista de Bergoglio. Viu-se isso nos Sínodos. Vê-se isso na Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, onde não passa o princípio da denúncia obrigatória à autoridade judiciária por parte do bispo contra os padres pedófilos (se a vítima concordar). Vê-se isso na sabotagem do desejo papal de colocar as mulheres em posições de “autoridade” na Igreja”…
    … “A operação de contenção se manifesta no contraponto sistemático – e sem precedentes contra um pontífice por parte do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – implementado pelo cardeal Müller. Francisco fala de uma Igreja hospital de campanha, e o cardeal responde que a Igreja “não é um sanatório, mas a casa de Deus”. Francisco vai viajar para a Suécia em outubro para comemorar os 500 anos da Reforma de Lutero, e Müller declara que “nós, católicos, não temos nada para festejar” em uma data que levou ao “cisma da cristandade ocidental”. A cada passo dado, o cardeal ressalta que Francisco “não é um teólogo profissional” e que deve ser teologicamente ajudado. Em um mundo como o vaticano, são palavras sutis, mas pesadas de deslegitimação.
    … “Nos últimos dias, foi apresentado em Roma um manual sobre os sacramentos do Mons. Nicola Bux. Nunca, nas intervenções dos cardeais Burke e Sarah, foi nomeado o atual pontífice (exceto uma vez, sobre a encíclica Lumen fidei, que, aliás, foi escrita em forma de esboço por Bento XVI). Como se Francisco não existisse”…
    Os trechinhos acima dariam algumas dimensões das resistencias ao papa Francisco, e os discordantes cardeais e bispos em acordo, estariam começando a tomar posições como pastores, sem dependerem de o consultar ou pedir seu aval!

  2. O problema é que a ignorância do Papa Francisco corresponde diretamente à ignorância de nossos padres, e é à nivel paroquial que a revolução se passa. Alias, tudo o que o Papa propôs já está em prática há muito tempo. Eu nunca conheci um padre que dissesse uma palavra sequer quanto aos divorciados recasados não poderem comungar.

    • Não é só ignorância, Fábio.

      Parte considerável do clero tem vida dupla, tripla e quádrupla. Se eles CELEBRAM a Missa e COMUNGAM em situação “irregular”, isto é, em pecado mortal, pois muitos vivem amasiados ou frequentam compulsivamente a prostituição masculina, que “direito” teriam eles, na ótica de Bergoglio, de negar a comunhão a um casal que vive “apenas” em concubinato? Por isso Bergoglio os vergasta chamando o tempo todo de hipócritas. Acontece que um ministro da Igreja, embora indigno e vivendo habitualmente em pecado mortal, não age como pessoa particular quando absolve ou nega a absolvição para alguém; ele age como pessoa pública em nome da Igreja, age “in persona Christi”. Bergoglio, ao que parece, não consegue nem fazer essa distinção e, sob o ponto de vista prático, valendo-se da sua retórica atabalhoada e grotesca, acaba reeditando também o erro dos donatistas.

  3. Por quem os sinos rachados dobram? Essa gente que gosta de filosofia alemã é uma piada. Para elas, nada é estável e inteiro, tudo passa exceto a banda chucrute “Hegel e suas hegeletes”. Que gente coitada! Pra elas, tudo está imerso na contingência da história, exceto elas mesmas, sempre idênticas a si no fumacê embolorado e psicodélico da T.L.

    Não há a mínima possibilidade de se entabular uma conversa decente com as hegeletes. Para elas, a verdade – toda verdade – muda, tem prazo de validade. Lá donna é mobile! Por isso, citar a Escritura e o Magistério é jogar pérolas aos porcos.
    Dá para entender por que Bergoglio é o Antipapa por antonomasia. Ele pretende instaurar essa concepção de metamorfose ambulante numa instituição regida por uma sólida identidade histórica. Ele está se opondo a todos os Papas de uma só vez, pois todos entenderam q um Papa é o garante da identidade e da tradição.
    Dont cry for him, Argentina.

  4. Consta que Ratzinger, primeiro como bispo na Alemanha, defendeu a comunhão para os “recasados” e depois, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, quando o assunto foi levantado em uma plenária da congregação, disse que a Igreja tinha realmente de discutir o assunto.