O grande cerco ao cardeal Müller.

IHU – Há uma distância que vem sendo notada por todos no Vaticano, a existente entre o papa e o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Gerhard Ludwig Müller. Uma frieza que ficou evidente a partir da exclusão do purpurado alemão da apresentação da exortação apostólica pós-sinodal Amoris laetitia há duas semanas.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 19-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem esclareceu o conteúdo do esperado e delicado documento foram – além do casal Miano – o cardeal Lorenzo Baldisseri e o cardeal Christoph Schönborn. O primeiro, em versão notarial, sendo secretário do Sínodo dos bispos; o segundo, encarregado de ilustrar o perfil teológico da exortação.

De Müller, nem mesmo a sombra, assim como tinha acontecido nas duas assembleias de 2014 e 2015, quando o grande debate não só midiático, mas sobretudo interno à Igreja – como demonstra a série de publicações enviadas à imprensa por sacerdotes, bispos e cardeais nos últimos dois anos –, vertia justamente sobre a interrogação de saber se o que mudaria seria a doutrina, mais do que a simples práxis pastoral.

O fato é que o cardeal ex-bispo de Regensburg e Francisco têm linhas diametralmente opostas sobre o tema. Basta comparar os escritos de Müller com as palavras de Bergoglio, em que o primeiro relembra a exigência de confirmar aqueles “saudáveis” marcos plantados pela Igreja ao longo dos séculos, e o pontífice que afirma claramente que a misericórdia vai muito além da lei e do legalismo, que nada está excluído do infinito amor de Deus.

A divergência fica evidente se tomarmos uma passagem em particular da Amoris laetitia, o parágrafo 311 do oitavo capítulo, em que se afirma que se “é verdade que a misericórdia não exclui a justiça e a verdade”, é preciso reiterar fortemente que “a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus. Por isso, convém sempre considerar inadequada qualquer concepção teológica que, em última instância, ponha em dúvida a própria omnipotência de Deus e, especialmente,
a sua misericórdia”.

Müller, em um artigo publicado na véspera do primeiro Sínodo no jornal alemão Tagespost e, depois, retomado peloL’Osservatore Romano, porém, tinha ressaltado que “ao mistério de Deus pertencem, além da misericórdia, também a santidade e a justiça; se escondermos esses atributos de Deus e não levarmos a sério a realidade do pecado, não podemos nem mesmo mediar às pessoas a Sua misericórdia”.

Via dupla no Vaticano

Mais do que sobre a exortação em si, que, contudo, não vê recebidas todas as indicações enviadas pelo ex-Santo Ofício, o problema – assinalado no Vaticano – é que o prefeito tem um papel totalmente marginal na escrita e no debate sobre atos de tão grande importância, a tal ponto que mais de uma pessoa do outro lado do Rio Tibre chegou a falar de uma possível – embora não iminente – mudança na liderança da Congregação, profetizando também a eventualidade de que o segundo sucessor de Ratzinger decida se afastar.

O próprio papa prefere outra linha, e ele admitiu isso explicitamente no sábado, na costumeira coletiva de imprensa a bordo do avião papal de volta a Roma da viagem relâmpago para Lesbos. Questionado sobre a Amoris laetitia e sobre a dúvida sobre a abertura de portas aos divorciados recasados, por parte do correspondente em Roma do Wall Street Journal, Francis X. Rocca, Francisco se limitou a remeter à leitura do discurso proferido pelo cardealSchönborn, “que é um grande teólogo. Ele é membro da Congregação para a Doutrina da Fé e conhece bem a doutrina da Igreja”.

Acontece que o arcebispo de Viena foi o verdadeiro “vencedor” do Sínodo, tendo delineado no círculo menor em língua alemã, em outubro passado, a proposta que, depois, seria retomada quase integralmente na exortação papal. Grupo do qual Müller também fazia parte, que deu, sim, a luz verde ao texto – o cardeal Walter Kasper, não por acaso, no Sínodo ordinário, repetiu várias vezes, satisfeito, o placet do prefeito –, mas que nunca fez mistério do fato de alimentar dúvidas sobre a ambiguidade de algumas posições contidas nele.

Todos elementos que encontram espaço no último livro de Müller, Informe sobre la esperanza, publicado na Espanhae em breve na Itália, pela editora Cantagalli. E no qual, dentre outras coisas, o purpurado alemão diz que “nós, católicos, não temos nenhum motivo para festejar o dia 31 de outubro de 1517”, isto é, a data que relembra o início daReforma luterana. Evento que o papa irá celebrar na Suécia, no próximo dia 31 de outubro.

7 Comentários to “O grande cerco ao cardeal Müller.”

  1. Francisco às vezes parece um adolescente, punindo os que ele não gosta “dando gelo” e “excluindo do clube dos legais”. Lastimável.

    E… Quem diria… Quem diria!!! Müller! Um teólogo da libertação! Sendo uma sã resistência contra o papa! Estamos, realmente, no fim dos tempos.

  2. Quando o papa Bento XVI renunciou, eu achei que o papa seguinte seria Christoph Schönborn. Errei. Mas continuo achando que ele será o próximo. E digo mais, ele me dá mais medo que o papa Francisco, pois Schönborn é mais esperto, menos espontâneo, menos transparente, menos emotivo, mas igualmente heterodoxo (pra dizer o menos), embora não pareça muito a primeira vista.

  3. Os textos do papa Francisco em geral, em certos trechos, insistiriam na necessidade de ir além de preceitos e quesitos legais, que consideraria obsessivos, relacionados sobretudo com algumas circunstancias da vida moral – em evidencia o da sexualidade, o mais envolvente – para dar espaço ao que entenderia por misericordia, a qual suporia fazer o homem feliz quando concedida, mesmo se se manteria em graves erros, dando margem a reações bastante contundentes do Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, D Müller; segundo esse, tais aspirações mais alienariam os cristãos, desviariam-nos da verdade e conteriam fortes doses de relativismo.
    Trataria-se dessa forma, a partir da visão do papa Francisco, de abandonar uma perspectiva que consideraria negativista, também legalista, que reduz a ética-moral a uma série infinita de proibições ou a uma longa lista de pecados, obstruindo a uma perspectiva mais flexível de comportamentos, que coincide com o anúncio do que contribui para a verdadeira realização e entronização dos desejos humanos de menos opressão, de mais liberdades!…
    Inexistiriam ideologias “liberais” por detrás disso?
    As negativas de D Müller é porque a adoção desse modelo não permitiria ao homem condição de alcançar a verdadeira felicidade pela proposta vazia acima, por desatender a Doutrina da Igreja, da renuncia a si mesmo e elas contemplariamm ao máximo fugazes momentos de felicidade, inseguros, caducos, que não preenchem o vazio interior e o afastam da fé – e ele tem toda razão!

  4. Teresa, exatamente por Christoph Schönborn ser menos espontâneo, menos transparente, menos emotivo, certamente ele não seria tão bem sucedido em fazer os estragos que Bergoglio vem fazendo.
    Estão tentando a todo custo construir uma imagem de marketing do “Papa misericordioso, liberal, sem preconceitos” e sobretudo desconhecido já que poucos conhecem seu passado.

  5. Nós vemos claramente. O “dedo” de Deus governando todas as coisas. Quando parece que o mundo vai desabar, surge uma voz para defender os santos Designo de Deus. Todos nós quando vimos a programação do Sínodo em Roma. Trememos dos “pés à cabeça”. Com medo de Roma aprovar uma doutrina contraditória aos ensinamentos da Santa Igreja. Quando menos esperamos; surge cardeais com têmpera para defender o que a Santa Igreja sempre ensinou. Aí está os “olhos” de Deus sempre atento para não macular à Sua Esposa Imaculada. Aqui no nosso querido Brasil, será que alguém não percebeu algo de extraordinário, neste últimos dias de política na nossa nação? Precisamos rezar mais, a oração é a “força do homem e a fraqueza de Deus”.

  6. Uma pergunta: Como o atual pontificado está se descolando muito da base católica, não estarão preparando um sucessor — que poderia vir a ser o Cardeal Müller — do mesmo modo como estão dando um passo atrás no bolivarianismo e no lulopetismo com vista à implantação de governos semi-bolivarianos e semi-petista? Não nos esqueçamos das ligações do Cardeal Müller com a Teologia da Libertação.