Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O Sacramento da Penitência, obra prima da misericórdia Divina.

“Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (S. João XX, 22 e 23).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

O Senhor mostra-se misericordioso na absolvição sacramental. Procuremos compreendê-lo através de uma parábola.

confissao– Uma vez havia um rei poderoso, bom e misericordioso. Esse rei acolheu em seu palácio um homem pobre e ignorante. Ele mandou vesti-lo de novo, instruir, educar. Depois lhe deu um alto cargo em sua corte. Um mendigo transformado em cortesão! Mas, ouvi o que ele fez. Em vez de ser reconhecido e fiel a seu benfeitor, tentou, com uma traição fazer uma conjura para expulsar do trono o rei. Este, porém, descobriu tudo a tempo, e com toda justiça condenou-o à forca, já que se tratava de crime de lesa-majestade.

– Quando, na grande praça cheia de gente, lá estava o carrasco para enforcar o malfeitor, eis que chega um escudeiro do rei, o qual grita: “O rei quer conceder graça a esse assassino…, mas sob uma condição…!” O cortesão retoma fôlego e abre o coração à esperança. Mas pensa: qual será esta condição? Ei-la: arrependido, ele devia confessar a sua culpa (que era secreta) a um dos Ministros, à sua escolha. Conjecturai o contentamento do condenado! Ter a salvação por tão pouco preço! É claro: confessou logo o seu crime, e o Ministro verificando que o culpado estava arrependido, em nome do rei, deu-lhe o perdão. Depois o bom rei ainda o acolheu em seu palácio.

Aplicação da parábola: Quem é o rei? É Deus. E o malfeitor, quem é? É o pecador que ofendeu um Rei e um Pai tão bom. Tal pecador mereceu a condenação ao inferno. Mas como o Senhor quer a salvação de todos, eis que instituiu um Sacramento, por meio do qual qualquer pecador, manifestando a um Ministro de Deus os seus pecados, ainda pode obter o perdão e salvar-se. É o Sacramento da Penitência ou Confissão. O culpado deveria se arrepender do que fez e ter propósito firme de nunca mais fazer o mal porque ofendeu a um Pai tão bondoso, ofendeu ao Sumo Benfeitor que é também o Supremo Senhor, e é a própria Bondade.

Seria o ideal! Mas Deus se contenta com um arrependimento imperfeito, isto é, movido mais pelo medo do castigo do que propriamente por amor a um Pai tão bondoso! Por este temor o pecador não quer pecar mais e tem esperança do perdão pelos merecimentos de Jesus Cristo. Deus Pai, enviou ao mundo o seu queridíssimo Filho Único, no qual põe toda a sua complacência. O Filho de Deus se fez Homem, tomou um corpo para poder sofrer e morrer por nós na Cruz. E antes de subir aos Céus, deixou o Sacramento da Penitência pelo qual o seu Sangue Divino, lava as nossas almas, e em atenção ao seu valor infinito, o Pai perdoa o pecador mesmo quando só apresenta um arrependimento imperfeito, que se chama atrição. Isto constitui grande consolo! Nem sempre estamos certos de atingir aquela detestação do pecado como ofensa ao Sumo Bem, que move infalivelmente Deus a nos conceder o perdão. Sem embargo, as nossas disposições, acaso menos perfeitas, não obstam a que, no Sacramento, obtenhamos, pela absolvição do sacerdote, plena misericórdia. Desde que chaguemos ao confessionário atritos, decididos a não mais recair, ser-nos-ão perdoadas as culpas.

Daí a grande responsabilidade dos sacerdotes quanto aos moribundos. Não deixemos os nossos caros enfermos comparecerem diante do Juiz sem terem recebido o Sacramento da Penitência. Não sabemos se lograrão chegar à contrição perfeita! Estando em pecado mortal, e só conseguem ter a atrição e não recebem o Sacramento, estão condenados para sempre! O Papa S. Celestino I (422-432) exprobrava aos rigoristas de antanho de matarem cruelmente as almas dos doentes, recusando-lhes a absolvição no leito de morte (D. 111). O mesmo crime cometem os progressistas laxistas de hoje, por descaso ou mal entendida misericórdia.

Mas há  um  detalhe importantíssimo que não consta na parábola: Imaginemos que aquele culpado da parábola, depois de ser assim tão misericordiosamente perdoado e restituído à amizade do rei, recaísse ainda muitas e muitas vezes, mas sempre arrependido embora só imperfeitamente, confessasse o seu crime ao Ministro do Rei. Seria sempre perdoado em atenção aos méritos infinitos do Sangue que o Filho do Rei derramou numa Cruz por toda a humanidade.

E assim, caríssimos, um pecador está no fundo do abismo, sobrecarregado de enormes e numerosas faltas. Se morresse assim sem ter um arrependimento perfeito com o desejo de se confessar, ou então com arrependimento imperfeito mas sem ter recebido a absolvição (às vezes a unção dos enfermos) estaria condenado eternamente. Mas se confessa com o coração penetrado de dor, ao menos da contrição imperfeita, com que a divina bondade se contenta, quando se junta ao sacramento, e ei-lo reconciliado com Deus e consigo mesmo! Os seus pecados estão perdoados; deixam de chamar sobre a sua cabeça terríveis vinganças, porque já não existem. “Por amor de mim, diz o Senhor, por amor da glória que tenho em perdoar, eu mesmo apagarei as tuas iniquidades, e não me lembrarei dos teus pecados” (Cf. Isaías XLIII,25).

O silêncio absoluto a que é obrigado o meu confessor, é o sinal do silêncio eterno que Deus guardará a respeito das minhas prevaricações. Afogam-se no Sangue de Jesus Cristo, como os Egípcios nas ondas do Mar Vermelho.

Mas o Sagrado Coração de Jesus deseja que creiamos sem duvidar nunca do seu perdão. Porque ele é Deus, mas Deus de amor! É Pai, mas Pai que ama com ternura e não com severidade. O Coração de Jesus é infinitamente sábio, mas também infinitamente santo, e como conhece a miséria e fragilidade humanas, inclina-se para os pobres pecadores com Misericórdia infinita. Jesus Cristo ama as almas, depois que cometeram o primeiro pecado mortal, e vêm pedir humilde e confiantemente o perdão. E ama-as ainda, quando choram o segundo pecado e, se isso se repetir, setenta vezes sete, ou seja, sempre, ama-as e perdoa-as sempre, e lava no mesmo Sangue divino o último como o primeiro pecado.

O Coração de Jesus não se cansa das almas, e espera sempre que venham refugiar-se n’Ele, por mais miseráveis que sejam! Não tem um pai mais cuidado com o filho que é doente, do que com os que têm boa saúde?

Para com esse filho, não são maiores as delicadezas e a sua solicitude? Assim também o Coração de Jesus derrama sobre os pecadores, com mais liberalidade do que sobre os justos, a sua compaixão e a sua ternura. Na verdade a Misericórdia do Coração de Jesus é inesgotável: às almas frias e indiferentes, o Coração de Jesus é fogo, e fogo que deseja abrasá-las, porque as ama; às almas piedosas e boas, o Coração de Jesus é caminho para se adiantarem na perfeição e chegarem com segurança ao termo feliz. Mas Jesus Cristo quer que todas as estas almas se aproximem do Sacramento da Confissão com grande confiança na sua Misericórdia.

E ainda mais: o pecador privado de todos os bens e prestes a cair no desespero pela sentença de condenação, recupera todos esses bens e inunda-se de alegria pela sentença da absolvição. Tudo quanto tinha perdido, separando-se de Deus, lhe é restituído ao reconciliar-se com Jesus Cristo: “Não há condenação, para os que estão incorporados em Jesus Cristo”. Os merecimentos adquiridos, poder de merecer, doce paz, direito ao Céus, eis o que ainda recebe de volta pela misericórdia divina dispensada na absolvição sacramental. Ó reconciliação cheia de encantos, quem pode conhecer-te, e recusar a felicidade que tu obténs. Razão tinha São Paulo em dizer: “Quem não amar a Jesus Cristo, seja anátema!”

6 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: O Sacramento da Penitência, obra prima da misericórdia Divina.”

  1. Obrigado, Padre, por essa belíssima reflexão! O senhor não imagina o bem e a consolação imensos que produziu em mim, e certamente produzirá em muitos, a lembrança de tamanha misericórdia. Reze por mim e por todos que lerem esse texto, por favor. Sua bênção.

    • Caríssimo Diogo, do fundo do coração, envio-lhe a bênção sacerdotal. Que Deus e Sua Mãe Santíssima o abençoem copiosamente. Rezarei por você e peço que reze por mim: Oremus invicem!

  2. O Sacramento da Penitencia possui todos os atributos acima relacionados no post e proporciona todos os bens que não sabemos mensurar, mas para que faça os devidos efeitos é bom que se tomem as devidas precauções para que não acrescente mais graves faltas para o penitente!
    O diabo devota um cuidado particular com os que vão se confessar, fazendo-os envergonhar-se de seus pecados, retrairem-se, omitirem a quantidade, mitigarem a gravidade, não os relacionarem ao todo e uma serie de medidas que as pessoas não “se ridicularizem e se humilhem” tanto…
    Ainda mais nesse tempo em que as confissões são frente à frente, mais inibidos ainda podem ficar, mais se pareceria artimanha dele de adoção desse modelo para mais confissões mal feitas!
    E por incrível que pareça, a aproximação indevida a esse sacramento tem sido causa perda de muitas almas, condenando-se ao inferno, pessoas aparentemente muito religiosas e sempre acedendo a ele, confirmam-nos varios grandes santos!
    O célebre Padre Sarnelli, na sua obra “O mundo santificado” exclama:
    “Infelizmente são incalculáveis as almas que fazem confissões sacrílegas: sabem disso, em parte, os missionarios experientes, e cada um de nós virá sabê-lo, com grande pasmo, no vale de Josafá.
    Não só nas grandes capitais, mas nas cidades menores, nas comunidades, no meio daqueles que passam por piedosos e devotos encontram-se em grande número os sacrílegos”…
    As confissões são sacrílegas quando se cala propositadamente faltas graves, sabendo que tinha obrigação de confessá-las; ou então quando não sentimos a dor necessária ou não fizemos o propósito de evitar o pecado no futuro, como exemplo, os amasiados, pessoas gays etc., que no próximo encontro incidirão no adulterio e já previam à hora da confissão que lhes bastariam apenas a oportunidade de se encontrarem!
    São nulas, quando o penitente ignorava a falta de dor e de propósito, tendo necessidade nesses casos de confissões mal feitas proceder a uma confissão geral, quer por malícia, por vergonha, calou ou negou nas confissões precedentes algum pecado mortal ou então alguma circunstância que muda a espécie do pecado, ou tendendo convertê-lo em falta mais leve!
    Mesmo o caso de não relatar com precisão o número dos pecados mortais que conhecia bem; ou exprimiu suas culpas ao confessor de tal modo que ele não as compreendeu; ou então o enganou com mentiras graves quando respondeu às suas perguntas, saindo nesses casos pior que entrou e ainda incidindo em S Comunhões sacrílegas – sem essas disposições necessarias, melhor lhes teria sido que não acedesse a ele!

  3. Na Tradição da Santa Madre igreja o confessionário sempre foi obrigatório. Para os homens pode ser aberto, mas para as mulheres o melhor são os confessionários fechados com a portinhola, e o pano de tal modo que nem a penitente é vista e nem esta vê o confessor. A confissão é auricular, isto é, o penitente está a sós com o confessor, e este, e só ele, ouve o penitente ou a penitente.
    Confesso que fiquei edificado vendo o Papa Francisco atendendo confissões no confessionário tanto aqui no Rio de Janeiro na JMJ como na praça de São Pedro em Roma. É bom, porém, que, quando a atendimento das confissões é feito ao ar livre, o confessionário seja fechado e haja um proteção de tal modo que o(a) penitente não seja visto(a) pelos transeuntes. Não podemos dar lugar ao demônio que está em torno de nós como um leão rugindo e procurando nos devorar. E ele aproveita qualquer brecha para se intrometer e transformar o remédio em veneno. Quando estive em Ars, atendi confissão tanto de homem como de mulher. E lá estão os dois confessionários: na sacristia o confessionário dos homens. É aberto. Em um lugar diferente numa capela lateral (de Santa Filomena) aberta para a nave central está o confessionário das mulheres inteiramente fechado. O povo não deve ver nem o penitente falando nem igualmente deve ver o confessor falando. É claro que em determinadas circunstâncias são feitas exceções, mas devemos tomar muito cuidado com estas exceções!!!
    Não tenho tempo aqui para falar do modo como muitos progressistas ou até não progressistas atendem confissões. O mais seguro é ser fiel inteiramente à Tradição atinente a esta questão, na qual pode estar em jogo a salvação de almas.

  4. Mas eu não fiquei nem um pouco “edificada” com aqueles confessionários em cadeirinhas de boteco em plena praça de São Pedro! Ali Bergoglio deu o tom de como ele quer demolir o Sacramento da Penitência: um bate papo onde o fiel nem precisa mais acusar os seus pecados! Só o fato de ter se sentado ali já seria um sinal de arrependimento e contrição! Penitência então, nem pensar!
    De onde ele anda tirando essas idéias? Basta ler Osservazioni sulla morale cattolica de Alessandro Manzoni:
    http://www.classicitaliani.it/manzoni/Osservazioni02.html

    […] Aqueles entre os inovadores do século XVI, que foram os mais seguidos, combateram mais precisamente, desde o princípio, a doutrina Católica da penitência e, sobretudo a parte que diz respeito à contrição necessária para a eficácia desse Sacramento. E com quais argumentos? Talvez por que achassem ser uma doutrina que lisonjeava as paixões, que oferecia ao pecador um meio ilusório tanto no efeito quanto na aparência para cancelar uma longa lista de crimes? Longe disso, na verdade era bem o oposto. Combatiam a Doutrina do Sacramento da Penitência por achá-la dura demais, quase que tirânica , como se ela impusesse arbitrariamente às consciências uma lei impossível de ser cumprida.
    Tal doutrina, segundo Lutero, seria um insulto ao sacramento e um instrumento de desespero, pelo fato da eficácia da absolvição estar ligada ao grau de contrição do penitente. Em sua busca pela verdade e para consolar as consciências agravadas, Calvino igualmente acusou a doutrina católica ( por requerer contrição para a remissão dos pecados) de atormentar e agitar estranhamente as consciências, para reduzi-las à uma luta contra si mesmas, em longas contrastes, sem nunca encontrar um porto, onde finalmente repousar .

    E qual doutrina eles usaram em seguida para substituir a doutrina católica por eles reprovada? Aquela mesma que antes haviam atribuído erroneamente aos Católicos, mas que jamais foi conhecida pelos Católicos, exceto por sua condenação explícita por parte da Igreja, isto é que o pecador é justificado só pela fé. […]

    Observações do católica moral, cap. IV

  5. Caríssima Sra. Dona Gercione Lima, com certeza as fotos que a senhora teve ocasião de ver não foram as mesmas que vi. Volto a repetir: fiquei edificado por ver o Papa atendendo confissão em confessionário, e volto outrossim a fazer minha observação: sendo ao ar livre seria aconselhável que houvesse uma proteção lateral.
    Não me preocupo com minha pessoa, sempre procuro desfazer qualquer mal entendido para que as almas não venham a sofrer prejuízo. Reze por mim.