Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Sertum Laetitiae.

“Quem busca a lei será cheio de bens; mas quem obra com simulação, nela achará ocasião de tropeço” (Eclesiástico XXXII, 19).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“SERTUM LAETITIAE” é uma Carta Encíclica que o Papa Pio XII escreveu em 1º de novembro de 1939 à Hierarquia Eclesiástica dos Estados Unidos da América. Depois de louvar o progresso espiritual daquele país, passa a mostrar os males a serem combatidos.

Eis o que a respeito diz o grande Pio XII:

Pio XII“Queremos, todavia, que o nosso louvor seja salutar. A consideração do bem já obtido não deve levar à inércia do ócio, nem produzir deleites de vã glória nos espíritos, mas acender novos ardores no combate contra o mal e solidificar com maior firmeza todas as obras salutares, úteis e dignas de louvor. O cristão que respeita a dignidade do seu nome nunca deixa de ser apóstolo; o soldado de Cristo jamais há de sair do combate, de cuja participação somente a morte o pode arrancar. Bem conheceis onde deve ser mais atenta a vossa vigilância e que programa de ação traçar ao trabalho dos sacerdotes e fiéis, para que a Religião de Cristo, removidos os óbices, senhoreie os espíritos, oriente os costumes, e, causa única da salvação, penetre os refolhos íntimos e as próprias veias da sociedade civil.

Muito embora os progressos dos bens exteriores e materiais, nos confortos melhores e mais copiosos que dele provêm para a vida, não se devam desprezar; não obstante, de modo algum são eles suficientes para o homem, nascido para coisas melhores e mais sublimes. Feito à imagem e semelhança de Deus, a Deus anela por inelutável impulso da alma, sempre triste e inquieto, se escolhe colocar seu amor onde não está presente a verdade suma e o infinito bem. De Deus afastar-se é morrer, para Deus converter-se é viver, em Deus permanecer é iluminar-se; a Deus, porém, não se chega com atravessar espaços corpóreos, mas sob a direção de Cristo, pela plenitude de uma fé sincera, intemerata consciência, e vontade reta, pela santidade das obras e pela obtenção e uso de uma liberdade genuína, cujas sagradas normas foram promulgadas pelo Evangelho. Se, ao contrário, se desprezam os divinos mandamentos, não só não se obtém a felicidade posta além do breve espaço de tempo assinado à existência terrena, mas vacila a própria base na qual assenta a verdadeira civilização da humanidade, e só se devem esperar lastimáveis ruínas; é que os caminhos que levam à vida eterna são a força viva e seguro alicerce das realidades temporais.

Como, de feito, podem ter garantias o bem público e o decoro da civilização, se se subverte o direito e se despreza e ridiculariza a virtude? Acaso não é Deus a fonte e o sustentáculo do direito? O inspirador e prêmio da virtude? Ele, a Quem nenhum legislador se assemelha (Cf. Job 36, 22)? Em toda parte  –  segundo a confissão de homens sérios  –  é esta a raiz amarga e fértil de males: o desconhecimento da divina majestade, a negligência dos preceitos morais oriundos do alto, uma lamentável inconstância que hesita entre o lícito e o ilícito, o bem e o mal. Daí o cego e imoderado amor próprio, a sede dos prazeres, o alcoolismo, as modas dispendiosas e impudicas, a criminalidade mesmo de menores, a ambição do poder, a negligência com relação aos pobres, a cupidez de riquezas iníquas, o abandono dos campos, a leviandade em contrair o matrimônio, os divórcios, a desagregação das famílias, o resfriamento do mútuo afeto entre pais e filhos, a desnatalidade, a degenerescência da raça, o enlanguescimento do respeito para com as autoridades, o servilismo, a revolta, a negligência dos deveres para com a pátria e para com o gênero humano. Elevamos, além disso, a voz de nosso paterno lamento, porque ainda em tantas escolas frequentemente se despreza ou se ignora a Jesus Cristo, restringe a explicação do universo e da humanidade ao naturalismo e racionalismo, e se ensaiam novos sistemas educativos, dos quais não se podem esperar senão tristes frutos para a vida intelectual e moral da Nação.

A vida doméstica, outrossim, se, observada a lei de Cristo, floresce de verdadeira felicidade, assim também, quando repudia o Evangelho, perece miseravelmente e é devastada pelos vícios. “Quem busca a lei será cheio de bens; mas quem obra com simulação, nela achará ocasião de tropeço” (Ecli 32, 19). Que pode haver na terra mais jucundo e alegre que a família cristã? Nascida junto ao altar do Senhor, onde o amor foi proclamado santo vínculo indissolúvel, consolida-se e cresce no mesmo amor que a graça suprema alimenta. E então “é por todos honrado o matrimônio e imaculado o tálamo” (Heb 13, 4); as paredes tranquilas não ressoam de litígios nem são testemunhas de secretos martírios pela revelação de astutos manejos de infidelidade; a solidíssima confiança mútua afasta o espírito das suspeitas; no recíproco afeto de benevolência se aliviam as dores, e acrescentam-se as alegrias. Lá os filhos não são considerados peso insuportável, senão dulcíssimo penhores; nem uma condenável razão utilitária ou a procura de estéril prazer fazem que se impeça o dom da vida e que caia em desuso o suave nome de irmão e irmã.

Com que solicitude cuidam os pais que cresçam os filhos não apenas fisicamente vigorosos, senão que, seguindo a tradição dos antepassados, que lhes são frequentemente relembrados, sejam adornados da luz que lhes comunica a profissão da fé puríssima e a honestidade moral! Comovidos por tantos benefícios, os filhos cumprem seu máximo dever, isto é, honram a seus progenitores, secundam os seus desejos, sustentam-nos na velhice com seu auxílio fiel, tornam jucundas suas cãs com um afeto que, inalterado pela morte, no céu se há de tornar ainda mais glorioso e completo. Os membros da família cristã, não queixosos na adversidade, não ingratos na prosperidade, sempre estão plenos de confiança em Deus, a cujo império obedecem, a cujo querer se confiam, cujo socorro jamais esperam em vão. Aqueles, pois, que nas igrejas exercem funções diretivas ou de magistério, exortem assiduamente os fiéis a que constituam e mantenham famílias segundo a norma da sabedoria do Evangelho  – buscando assim com assíduo cuidado preparar para o Senhor um povo perfeito. Pelo mesmo motivo, cumpre também sumamente atender a que o dogma, que por divino direito afirma a unidade e indissolubilidade do matrimônio, seja compreendido em sua importância religiosa e santamente respeitado por todos os que contraem núpcias. Que tão capital ponto da doutrina católica tenha validíssima eficácia para a sólida estrutura da família, para o bem-estar crescente da sociedade civil, para a saúde do povo e para uma civilização cuja luz não seja falsa (…). (…) Nada mais feliz pode haver para cada homem, cada família e cada nação, do que obedecer ao Autor da salvação, seguir seus mandamentos, aceitar o seu Reino, no qual nos tornamos livres e ricos de boas obras: “Reino de verdade e vida, reino de santidade e graça, reino de justiça, amor e paz” (Prefácio da Missa de Cristo Rei). (Apenas excertos da encíclica “Sertum Laetitiae”).

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One Comment to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Sertum Laetitiae.”

  1. *”Enquanto a modestia não for colocada em prática, o mundo vai continuar a degradar”.
    O papa Pio XII – de seu tempo o mais caluniado de todos, foi o alvo preferido das ideologias marxistas – nesse primoroso texto acima do post, compartilha com os destinatarios de seus comportamentos como cristãos exemplares e, ao mesmo tempo, os adverte dos perigos que os circundam, pois o modernismo já possuía raízes algo sólidas em seu tempo.
    Observemos como do principio ao fim o texto é meticulosamente redigido e são abordados os assuntos nos mínimos detalhes para que não surjam segundas interpretações, além doutros mais cuidados para que não comprometam o deseja de essencial passar na mensagem.
    Apesar de tantos desvelos, ainda há muitos aliados aos inimigos da Igreja, via midia globalista que truncam textos pontificios por exclusão ou acréscimo de palavras para atendimento de seus planos de sempre de depreciarem e caluniarem a Igreja!
    Ao contrario do que sucede hoje em dia, certos tópicos de exortações apostólicas estão sendo questionadas até pelo prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, D Muller, que lida especificamente com esse múnus, e que não tem estado nada satisfeito com certos ensinamentos que oportunizariam ambiguidades, subjetivismos ou confusão!
    Doutro lado, a frase de cima, como no seu pontificado as modas já corrompiam a ponto de bradar dessa forma, imaginemos de uns tempos para cá em que a “misericordia” parece dar cobertura a erros de todas as formas, e a sociedade ter se relativizado a ponto de não se distinguir mais se se anda dentro de um bordel ou nos locais públicos, devido à grave imodestia, talvez da grande maioria das mulheres, iguais ou piores que as dos cabarés!