“Amoris Laetitia” tem um escritor fantasma. Chama-se Víctor Manuel Fernández.

Impressionantes semelhanças entre as passagens-chave da exortação do Papa Francisco e dois textos de dez anos atrás de seu principal conselheiro. Um duplo sínodo para uma solução que já estava escrita.

Por Sandro Magister, Roma, 25 de maio de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com:  São os parágrafos-chave da exortação pós-sinodal “Amoris Laetitia”. E são também os mais deliberadamente ambíguos, como evidenciado pelas interpretações múltiplas e conflitantes e aplicações práticas que elas imediatamente tiveram.

jpg_1351304São os parágrafos do oitavo capítulo, que de fato dão sinal verde à comunhão para divorciados novamente casados.

Que é era isso que o Papa Francisco queria chegar, agora ficou claro para todos. E além disso, era o que ele já fazia quando era arcebispo em Buenos Aires.

Mas agora descobre-se que algumas formulações-chave de “Amoris laetitia” tem uma pré-história Argentina, modeladas a partir de artigos de 2005 e 2006 escritos por Víctor Manuel Fernández, desde então e ainda hoje o pensador de referência do Papa Francisco e escritor fantasma de seus maiores textos.

Abaixo são comparadas algumas passagens de “Amoris laetitia” com frases dos dois artigos de Fernández. A semelhança entre um e outro é fortíssima.

Mas, antes, é necessário enquadrar todo o conjunto da obra.

* * *

Naqueles anos, Fernández era professor de teologia na Universidade Católica Argentina de Buenos Aires.

E, na mesma universidade, foi realizada em 2004 uma conferência teológica internacional para o aprofundamento da “Veritatis Splendor”, a encíclica de João Paulo II “sobre algumas questões fundamentais do ensinamento moral da Igreja”, decididamente uma crítica da ética “de situação”, a corrente do relativismo já presente entre os jesuítas do século XVII e hoje mais do que nunca generalizada na Igreja.

Atenção. A “Veritatis Splendor” não é um encíclica menor. Em março de 2014, em um de seus raros e meditadíssimos escritos como Papa emérito, Joseph Ratzinger, ao indicar na sua opinião, quais eram as encíclicas “mais importantes para a Igreja” entre as quatorze publicada por João Paulo II, citou primeiramente quatro, com poucas linhas cada, mas, em seguida, acrescentou uma quinta, que era justamente a “Veritatis Splendor”, à qual dedicou uma página inteira, chamando-lhe de “realidade inalterada” e concluindo que “estudar e assimilar esta encíclica continua a ser um grande e importante dever.”

Na “Veritatis Splendor”, o Papa emérito via restituída à moral Católica o seu fundamento metafísico e cristológico, o único capaz de vencer a pragmática deriva da “moralidade atual”, segundo a qual não existe mais o que é realmente errado e o que é verdadeiramente bom , mas apenas aquilo que, do ponto de vista, é melhor ou pior.

Bem, essa conferência em 2004, em Buenos Aires, dedicada em especial à teologia da família, moveu-se na mesma direção pontilhada por Ratzinger. E foi em reação a essa conferência que Fernández escreveu os dois artigos citados aqui, quase que em defesa da ética da situação.

Também por causa desses dois artigos, a Congregação para a Educação Católica bloqueou a candidatura de Fernández para reitor da Universidade Católica Argentina, mas, em seguida, teve que se dobrar, em 2009, ao então Arcebispo de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio, que abriu fogo e chamas para obter o nada obsta para a promoção de seu pupilo.

Em 2013, apenas recém-eleito papa, Bergoglio deu a Fernández até mesmo as insígnias da ordem episcopal, com o título da extinta Sé metropolitana de Tiburnia, enquanto mantém confinado na Biblioteca Apostólica Vaticana o principal responsável pela rejeição de Fernández, o teólogo dominicano Jean-Louis Brugues, sem fazê-lo cardeal, como é tradição para todos os bibliotecários da Santa Igreja Romana.

E desde então Fernández passa mais tempo em Roma do que em Buenos Aires, ocupadíssimo com a tarefa de escritor-fantasma de seu amigo papa, sem que, entretanto, tenha crescido as suas credenciais como um teólogo, já muito longe de ser uma estrela brilhante.

O primeiro livro, na verdade, que revelou ao mundo o gênio de Fernández foi: “Cura-me com a tua boca, a arte de beijar”, publicado em 1995, na Argentina, com esta apresentação ao leitor feita pelo próprio autor:

Eu deixo claro que este livro não foi escrito com base na minha própria experiência, mas na vida de pessoas que se beijam. Nestas páginas, quero resumir o sentimento popular, o que as pessoas sentem quando pensam em um beijo, o que sentem os mortais quando se beijam. É por isso que eu falei longamente com muitas pessoas que têm muita experiência nessa matéria, e mesmo com tantos jovens que aprendem a beijar em sua própria maneira. Eu também consultei muitos livros e eu queria mostrar como os poetas falam do beijo. Assim, a fim de sintetizar a imensa riqueza da vida saíram essas páginas em favor do beijo, que, espero, irá ajudá-los a beijar melhor, que espero incentivá-los a liberar em um beijo o melhor do seu ser “.

No tocante à consideração que Fernandez tem de si mesmo, vale a pena observar uma citação de um ano atrás em uma entrevista ao “Corriere della Sera”, onde Fernández manifesta seu desprezo pelo Cardeal Gerhard L. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e examinador prévio dos projetos de textos papais – mas que há três anos vem sendo isolado:

Eu li que alguns dizem que a Cúria Romana é uma parte essencial da missão da Igreja, ou que um prefeito do Vaticano é a bússola segura que impede a Igreja de cair no pensamento ‘light’, ou que esse prefeito garante a unidade da fé e garante ao pontífice uma teologia séria. Mas os católicos, ao lerem o Evangelho, sabem que Cristo garantiu uma guia e uma iluminação especial para o papa e para todos os bispos ligados a ele, e não a um prefeito ou a outra estrutura. Quando se ouve dizer coisas desse tipo parece quase que se o Papa fosse apenas um representante deles, ou mesmo um que veio para perturbá-los e que deve ser controlado. […] o Papa está convencido de que o que já foi dito ou escrito por ele não pode ser punido como um erro. Portanto, todos podem repetir essas coisas sem medo de receber sanções no futuro“.

Esse, então, é o personagem que Francisco mantém ao lado como seu pensador de referência, o homem que escreveu grande parte do “Evangelii Gaudium”, o programa de seu pontificado, a “Laudato si,” a encíclica sobre o meio ambiente e, finalmente, a “Amoris Laetitia”, a exortação pós-sinodal sobre a família.

* * *

E aqui seguem as passagens da “Amoris laetitia” em que são evidentes as formulações de Fernández de dez anos atrás.

É útil para ler tendo em mente o que foi dito recentemente por Robert Spaemann, um grande filósofo e teólogo com quem Fernández não pode sequer ser colocado em comparação:

“O verdadeiro problema é uma influente corrente de teologia moral,  já presente entre os jesuítas no século XVII, que reivindica uma mera ética situacional. João Paulo II desafiou a ética da situação e a condenou na sua encíclica “Veritatis Splendor”.’ Amoris Laetitia ‘também rompe com este documento magisterial “.

__________

Comparação entre a “Amoris Laetitia ” e dois dos artigos Víctor Manuel Fernández de dez anos atrás.

Os textos com as respectivas abreviaturas:

AL – Francisco, Exortação Apostólica “Amoris Laetitia”, 19 de março de 2016.

Fernández 2005 – V. M. Fernández, “El sentido del carácter sacramental y la necesidad de la Confirmación” em “Teologia” 42 n. 86, 2005, pp. 27-42.

Fernández 2006 – V. M. Fernández, “dimensão trinitária de la moral II Profundización de Aspecto Ético a la luz de ‘Deus caritas est’..”, Em “Teologia” 43 n. 89, 2006, pp. 133-163.

Eles são indicadas de cada vez, ao lado da abreviatura de “Amoris laetitia”,  o número dos parágrafos e para os artigos de Fernández as páginas.

“AMORIS LAETITIA” 300

(AL: 300)

Evita-se o risco de que um determinado discernimento particular, leve a pensar que a Igreja sustenta uma dupla moral.

(Fernández, 2006: 160)

Não se propõe, assim, uma dupla moral ou uma “moral de situação.”

“AMORIS LAETITIA” 301

(AL: 301)

301. Para se entender adequadamente por que é possível e necessário um discernimento especial nalgumas situações chamadas «irregulares», há uma questão que sempre se deve ter em conta, para nunca se pensar que se pretende diminuir as exigências do Evangelho. A Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada «irregular» vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante..

(Fernández, 2005: 42)

Tendo em conta as restrições que limitam ou suprimem a atribuição (CEC cf. 1735), há sempre a possibilidade de que uma situação objetiva de pecado coexista com a vida da graça santificante.

(AL: 301)

Os limites não dependem simplesmente dum eventual desconhecimento da norma. Uma pessoa, mesmo conhecendo bem a norma, pode ter grande dificuldade em compreender «os valores inerentes à norma»[339] ou pode encontrar-se em condições concretas que não lhe permitem agir de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa..

[Nota 339: João Paulo II, Apostólica. AP. “Familiaris Consortio”, 22 de novembro de 1981, 33: AAS 74 (1982), 121].

(Fernández, 2006: 159)

Quando o sujeito histórico não se encontra em condições subjetivas para agir de forma diferente ou compreender “os valores inerentes à norma” (cf. FC 33C), ou quando “um compromisso sincero em relação a uma norma determinada podem não levar imediatamente a aceitar o cumprimento desta disposição “[Nota 45].

[Nota 45: B. Kiely, ” Veritatis Splendor’ y la moralidad pessoal”, de G. Del Pozo abejón, “Comentários à la” Veritatis Splendor “, Madrid, 1994, p (ed.). 737].

(AL: 301)

Como bem se expressaram os Padres sinodais, «pode haver fatores que limitam a capacidade de decisão».[340] E São Tomás de Aquino reconhecia que alguém pode ter a graça e a caridade, mas é incapaz de exercitar bem alguma das virtudes,[341] pelo que, embora possua todas as virtudes morais infusas, não manifesta com clareza a existência de alguma delas, porque a prática exterior dessa virtude está dificultada: «Diz-se que alguns Santos não têm certas virtudes, enquanto experimentam dificuldade em pô-las em acto, embora tenham os hábitos de todas as virtudes».[

[Nota 341: Veja Summa Theologica I-II, q. 65, um. 3, a 2; De malo, q. 2, uma. 2].

[Nota 342: Ibid., No 3].

(Fernández, 2006: 156)

São Tomás reconhecia que qualquer um pode ter a graça e a caridade, mas sem poder exercer bem qualquer uma das virtudes “propter aliquas dispositiones contrarias” (ST I-II 65, 3, ad 2). (ST I-II 65, 3, ad 2). Isso não significa que ela não possua todas as virtudes, mas que nem sempre podem manifestar claramente a existência de qualquer uma delas porque o ato externo desta virtude encontra dificuldade por causa das disposições em contrário: “Diz-se que alguns santos não têm certas virtudes, devido às dificuldades que sentem nos atos delas, embora eles têm o hábito de todas as virtudes “(ibid., ad 3).

“AMORIS LAETITIA” 302

(AL: 302)

302. A propósito destes condicionamentos, o Catecismo da Igreja Católica exprime-se de maneira categórica: «A imputabilidade e responsabilidade dum acto podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e outros fatores psíquicos ou sociais».[343] E, noutro parágrafo, refere-se novamente às circunstâncias que atenuam a responsabilidade moral, nomeadamente «a imaturidade afetiva, a força de hábitos contraídos, o estado de angústia e outros fatores psíquicos ou sociais».[344] Por esta razão, um juízo negativo sobre uma situação objetiva não implica um juízo sobre a imputabilidade ou a culpabilidade da pessoa envolvida.[345].

[Nota 343: No. 1735].

[Nota 344: Ver ibid, 2352;. Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração. “Iura et bona” sobre eutanásia, 5 de maio de 1980, II: AAS 72 (1980), 546. João Paulo II, criticando a categoria de “opção fundamental”, reconheceu que “sem dúvida, podem existir situações muito complexas e obscuras sob o aspecto psicológico, que influenciam a culpabilidade subjetiva do pecador “(Reconciliatio e paenitentia”, 02 de dezembro de 1984, 17 ibid, n.. “: AAS 77, 1985, 223)].

[Nota 345: Cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, a Declaração sobre a admissibilidade da comunhão aos divorciados novamente casados, 24 de junho de 2000, 2].

(Fernández, 2006: 157)

Isso aparece de forma explícita no Catecismo da Igreja Católica: “A imputabilidade ou responsabilidade de uma ação pode ser diminuída ou anulada pela ignorância, violência, medo, hábito, afeições desordenadas, e outros fatores psíquicos ou sociais “(CIC 1735). O Catecismo faz referência igualmente à imaturidade afetiva, a força do hábito adquirido, o estado de angústia (cf. CCE 2352). Ao aplicar esta convicção, o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, afirma, referindo-se à situação dos divorciados novamente casados, que só se fala de “pecado grave, entendido objetivamente, porque (p. 158) sobre a imputabilidade subjetiva, o ministro da Comunhão não poderia julgar “[Nota 42].

[Nota 42: Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, a Declaração de 24 de Junho de 2000, n.º 2].

(Fernández, 2005: 42)

Por outro lado, uma vez que não se pode julgar a situação subjetiva das pessoas [Nota 23] e tendo em conta os condicionamentos que limitam ou suprimem a culpabilidade (CEC cf. 1735), há sempre a possibilidade de que uma situação objetiva do pecado coexista com a vida da graça santificante.

[Nota 23: Sobre este ponto algumas intervenções recentes do Magistério não deixam margem para dúvidas. O Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, diz, referindo-se à situação dos divorciados que voltaram a casar, que  se fala de “pecado grave, entendido objetivamente, porque quanto à imputabilidade subjetiva o ministro da Comunhão não poderia julgar”: Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, a Declaração de 24 de Junho de 2000, ponto 2-A. Da mesma forma, em uma notificação recente da Congregação para a Doutrina da Fé, argumenta-se que para a doutrina católica “existe uma avaliação precisa da moralidade objetiva das relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo”, e “o grau de culpabilidade moral subjetiva que estas relações podem ter em cada caso individual é uma questão que aqui não está em questão “: Congregação para a doutrina da fé, Notificação sobre os escritos de Rev.do P. Marciano Vidal, 22 de fevereiro de 2001 2b,. Evidentemente, a base destas afirmações é como defende o Catecismo da Igreja Católica no ponto de 1735, citado no final do texto deste artigo].

“AMORIS LAETITIA” 305

AL: 305

Por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio duma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja.[351] O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites.

[Nota 351: Em alguns casos, também pode ser a ajuda dos sacramentos …].

(Fernández, 2006: 156)

Este dinamismo trinitário que reflete a vida íntima das pessoas divinas também pode ser realizado mesmo dentro de uma situação objetiva do pecado (p. 157), desde que, devido ao peso dos condicionamentos, não sejam subjetivamente culpados.

(Fernández, 2006: 159)

… Uma  “realização  de valor dentro dos limites da capacidade morais do sujeito” [Nota 46]. Há, então, “possíveis objetivos” para este objeto condicionado, ou “etapas intermediárias” [Nota 47] na implementação de um valor, ainda que sejam sempre orientadas para o cumprimento da norma.

[Nota 46: G. Irrazabal, “La ley de la gradualidad Como cambio de paradigma”, no “Moralia” 102/103 (2004), p. 173].

[Nota 47: Cf. G. Gatti, “Educação moral”, em AA.VV., “Nuevo Diccionario de Teologia moral”, Madrid, 1992, p. 514].

(Fernández, 2006: 158)

Não há dúvida de que o Magistério Católico  já admitiu claramente que um ato objetivamente mau, como é o caso de uma relação pré-marital ou o uso de um preservativo em uma relação sexual, não necessariamente levam a perder a vida da graça santificante , a partir do qual se origina o dinamismo da caridade.

(Fernández, 2005: 42)

Por outro lado, uma vez que não se pode julgar a situação subjetiva das pessoas e tendo em conta os condicionamentos que limitam ou suprimem a culpabilidade (CEC cf. 1735), há sempre a possibilidade de que uma situação objetiva de pecado coexista com a vida de graça santificante.

(Fernández, 2005: 42)

Isso não justifica então a administração do batismo e confirmação para adultos que se encontram em uma situação objetiva do pecado, cuja culpa subjetiva não se pode emitir juízo?

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6 Responses to ““Amoris Laetitia” tem um escritor fantasma. Chama-se Víctor Manuel Fernández.”

  1. Inspirados talvez inconscientemente pelo Modernismo e pela “Moral Nova”, muitos soem dizer que “o que manda é o coração”, querendo com isto dizer que o que importa é o agir segundo o que se acha ser certo. Mas, na verdade, não é bem assim. Deus, Nosso Senhor colocou no mais íntimo do homem a consciência. Dadas, porém, as consequências do pecado original, a consciência deve ser bem educada e formada para que, sendo certa e reta, procure fazer sempre o que é do agrado de Deus, e evitar tudo o que Lhe desagrada. Neste sentido valeria a sentença acima enunciada: O que manda é o coração, sim, mas o coração reto que procura fazer sempre a santíssima vontade de Deus.

    “O Divino Salvador, dizia Pio XII, trouxe para o homem ignorante e fraco sua verdade e sua graça; a verdade para lhe indicar o caminho que conduz a seu fim; a graça para lhe conferir a força de poder atingi-lo. Percorrer este caminho significa, na prática, aceitar a vontade e os mandamentos de Cristo e tornar sua vida conforme com eles, isto é, cada ato interior e exterior que a livre vontade humana escolhe e fixa. Ora, qual é, senão a consciência, a faculdade espiritual que, nos casos particulares, indica à vontade, para que ela os escolha e resolva, os atos que são conformes à vontade divina? Ela é, portanto, o eco fiel, o puro reflexo da regra divina dos atos humanos. De tal sorte que as expressões, tais como “o julgamento da consciência cristã”, ou esta outra “julgar segundo a consciência cristã”, têm o seguinte sentido: a regra da decisão última e pessoal para uma ação moral provém da palavra e da vontade de Cristo. Ele é, com efeito, o caminho, a verdade e a vida, não somente para todos os homens tomados em conjunto, mas para cada um tomado individualmente (Cf. S. João XIV, 6); Ele o é para o homem adulto, Ele o é para a criança, Ele o é para o jovem.

    Segue-se daí que formar a consciência cristã de uma criança ou de um jovem consiste primeiramente em esclarecer seu espírito sobre a vontade de Jesus Cristo, sobre a Sua lei, sobre o caminho que ele lhe indica e, além disto, em agir sobre sua alma, o quanto isto possa ser feito do exterior, a fim de o induzir a cumprir sempre livremente a vontade divina. eis qual é a mais alta tarefa da educação.

    Mas onde o educador e a criança encontrarão concretamente, facilmente e com certeza, a lei moral cristã? Na lei do Criador impressa no coração de cada um (Cf. Rom. II, 14-16), e na revelação, isto é, no conjunto das verdades e dos preceitos ensinados pelo Divino Mestre. Todo este conjunto – a lei escrita no coração, ou lei natural – Jesus Nosso Redentor o confiou, como o tesouro moral da humanidade, à Sua Igreja, para que Ela o pregue a todas as criaturas, o ilustre e o transmita, intacto e preservado de toda contaminação e erro, de uma geração à outra”. (…)

    “Na doutrina moral católica, como no dogma, quer-se fazer de qualquer modo uma radical revisão para daí deduzir uma nova ordem de valores”. (…) O vício capital desta “nova moral” é, como explica Pio XII: “Submetendo todo critério ético a consciência individual, ciosamente fechada em si mesma e arvorada como juiz absoluto de suas determinações, esta teoria, bem longe de lhe aplainar o caminho, a afasta do verdadeiro caminho que é Cristo”.

    “O Divino Redentor entregou Sua Revelação, da qual as obrigações morais são parte essencial, não aos homens isoladamente, mas à Sua Igreja, à qual Ele deu a missão de os guiar e de guardar fielmente este depósito sagrado”.

    “Do mesmo modo, a assistência divina, destinada a preservar a Revelação de erros e deformações, foi prometida à Igreja e não aos indivíduos. Sábia previdência, pois que a Igreja, organismo vivo, pode assim, com segurança e facilidade, seja esclarecer e aprofundar as verdades, igualmente morais, seja aplicá-las, mantendo intacto o essencial, nas condições variáveis de lugar e de tempo. Considere-se, por exemplo, a doutrina social da Igreja, que, surgida para responder a necessidades novas, nada fez senão a aplicação da eterna moral cristã às presentes circunstâncias econômicas e sociais”.

    “Como é, então, possível conciliar a previdente disposição do Salvador, que confiou à Igreja a proteção do patrimônio moral cristão, com uma espécie de autonomia individualista da consciência?”

    “Esta última, subtraída de seu clima natural, não pode produzir senão frutos venenosos, que se reconhecerão pela simples comparação com certas características da conduta tradicional e da perfeição cristãs, cuja excelência é provada pelas obras incomparáveis dos Santos”.

    “A “nova moral” afirma que a Igreja, em lugar de suscitar a lei da liberdade humana e do amor, e de insistir sobre ela como justo estímulo da vida moral, se apóia, ao contrário, por assim dizer exclusivamente e com uma rigidez excessiva, sobre a firmeza e a intransigência das leis morais cristãs. (…).

    ” Ora, a Igreja quer, ao contrário – e ela o põe expressamente em evidência quando se trata de formar as consciências – que o cristão seja introduzido nas riquezas infinitas da fé e da graça, de um modo persuasivo, a ponto de se sentir inclinado a penetrá-los profundamente.

    “Entretanto, a Igreja não pode deixar de advertir os fiéis de que estas riquezas não podem ser adquiridas e conservadas senão pelo preço de obrigações morais precisas. Uma conduta diversa terminaria por fazer esquecer um princípio dominante, sobre o qual sempre insistiu Jesus, seu Senhor e Mestre. Com efeito, Ele ensinou que para entrar no reino dos céus não é suficiente dizer: “Senhor, Senhor”, mas que é preciso que a vontade do Pai Celeste seja cumprida (cf. S. Mateus VII, 21). Ele falou da “porta estreita” e do “caminho estreito” que conduz à vida (cf. S. Mateus, VII !# e !4), e Ele acrescentou: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque, eu vo-lo declaro, existem muitos que procurarão aí entrar, sem o conseguirem” (cf. S. Lucas, XIII, 24). Cristo fixou, como pedra de toque e traço distintivo do amor a Ele, a observância dos mandamentos (cf. S. João, XIV, 21-24). Igualmente, ao jovem rico que O interroga, Ele responde: “Se queres entrar na vida, observa os mandamentos”. (…) Ele estabeleceu, como condição a quem O quer imitar, que renuncie a si mesmo e tome cada dia a própria cruz (cf. S. Lucas, IX, 23). (…) Ele acrescenta: “eu vo-lo digo, a vós meus amigos, não tenhais medo dos que podem matar o corpo, mas que, isto feito, nada mais podem. Dir-vos-ei o que deveis temer: temei Aquele que, após ter dado a morte, tem o poder de vos lançar no inferno”(cf. S. Lucas, XII, 4-5).

    Excertos da alocução “La Famiglia” que Pio XII fez em 1952.

    O que não pode acontecer é que o Vigário de Cristo, ele mesmo venha a ensinar a “Moral de situação”.
    E então? …

    Eis o que disse Pio XII sobre a Moral Nova:

    “O sinal distintivo desta moral está precisamente em não se basear nas leis morais universais, como por exemplo os Dez Mandamentos, mas nas condições ou circunstâncias reais e concretas, em que se deve agir, e segundo as quais a consciência individual tem de julgar e escolher. Este estado de coisas é único e vale uma vez só para qualquer ação humana. É por isso que a decisão da consciência, afirmam os defensores desta ética, não pode ser comandada pelas ideias, princípios e leis universais.

    A fé cristã fundamenta as suas exigências morais no conhecimento de verdades essenciais e consequentes relações. Assim fala São Paulo na Epístola ao Romanos (I, 19-21) da religião em geral, que seja cristã, quer anterior ao cristianismo [no A.Testamento]: pela criação, diz o Apóstolo, o homem descobre e encontra de algum modo o Criador, o seu poder eterno e a sua divindade, e com tanta evidência que se considera e sente obrigado a reconhecer Deus e a prestar-Lhe culto, de sorte que descurá-lo ou pervertê-lo pela idolatria é sempre falta grave para toda gente.

    Não afirma o mesmo a ética de que falamos. Não nega pura e simplesmente os conceitos e princípios morais gerais (embora se aproxime muito por vezes de semelhante negação), mas desloca-os do centro para as extremidades da periferia. Pode acontecer que a decisão da consciência lhes corresponda em muitas ocasiões. Mas não são, por assim dizer, uma série de premissas, das quais a consciência tira as conclusões lógicas para cada caso particular, o caso “duma vez”.Não. No centro encontra-se o bem, que importa fazer ou guardar, no seu valor real e individual; por exemplo, no domínio da fé, a nossa relação pessoal com Deus. Se a consciência seriamente formada decidir que o abandono da fé católica e a adesão a outro credo conduz mais a Deus, este passo encontrar-se-á “justificado”, apesar de ser tido geralmente como “deserção” da fé. Ou então, no domínio da moralidade, quanto ao dom corporal e espiritual de si mesmo, entre jovens. Aqui a consciência seriamente formada resolveria que, em virtude da sincera inclinação mútua, eram convenientes as intimidades físicas e sensuais, muito embora estas manifestações sejam permitidas apenas entre esposos. – A consciência atualmente reta decidiria assim, porque da hierarquia dos valores infere o princípio de superioridade dos valores pessoais, que podem utilizar os bens inferiores do corpo e dos sentidos, ou pô-los de parte, conforme sugerir cada situação. – Precisamente segundo este princípio, pretendeu-se com insistência, em matéria de direitos conjugais, que era mister, em caso de conflito, deixar à consciência séria e reta dos esposos, conforme as exigências das situações concretas, a faculdade de impossibilitar diretamente a realização dos valores biológicos, em proveito dos valores pessoais.

    Por mais contrários que pareçam à primeira vista aos preceitos divinos, os juízos de consciência desta natureza valeriam, entretanto, diante de Deus, porque, diz-se, a consciência seriamente formada avança o “preceito” e a “lei” em presença do próprio Deus.

    Tal decisão é, pois, “ativa” e “produtiva”, não “passiva” e “receptiva” da resolução de lei, gravada por Deus no coração de cada homem, e menos ainda do Decálogo, escrito nas tábuas da lei, pelo dedo do Senhor que concedeu à autoridade humana o encargo de o promulgar e defender’ (Excertos da Alocução de Pio XII à FEDERAÇÃO MUNDIAL DAS JUVENTUDES FEMININAS CATÓLICAS sobre a “Moral Nova”).

  2. O processo de subversão da doutrina tradicional da Igreja por outro modelo, deus-e mais velozmente após o aparecimento da Teologia da Libertação-TL, e pelo lançamento de suas raízes em varias nações de tradições católicas; aos poucos, multidões foram sendo subvertidas por essa corrente modernista, de aparencia religiosa, mas atendente ao relativismo ideológico, como ao niilista socialismo, constatando-se que nenhum de seus “teólogos” refuta os procedimentos anticristãos do post, ao contrario, integralmente eles as avalizam.
    As aplicações concretas no mundo visível da pobreza na América Latina e ao ensino de teologia em toda a Igreja universal, a corrente até então subterrânea do modernismo dos jesuítas no tempo certo veio à tona aproveitando-se de ambiente de pobreza e propondo a “libertação”.
    Sem dúvidas, espalhou-se rapidamente à vista de todos, pois sua apresentação há muito esperada, finalmente chegou com modelos dos que endossam uma doutrina cativante, bem à moda das seitas protestantes, uma para cada cliente ou estilo de vida.
    Dessa forma, a recém-chegada, revolucionária e dissimulada doutrina parecia tão humana em sua compreensão e tão divina em seu instin­to; seus adeptos sedizentes de não serem sectarios, intolerantes jamais; no entanto, esses “gentis” sempre exigiam que seus pontos de vistas ou teses fossem aceitos e suas atitudes externas pareciam tão tolerantes, isentas de pre­conceitos, cativantes e dizendo-se serem amantes da paz.
    A nova atitude religiosa da religião da descrença tinha atrativos particulares, principalmente para os intelectuais que discordavam da rigidez e mais ainda dos dogmas da doutrina da Igreja; esses eram os orientadores, encarnando em si a modernidade, e passaram a ditar as regras e, quem não as seguisse, como sucede no presente, será tido como discriminador, homofóbico etc., e esses, como excelentes comunicadores, foram os arautos da Engenharia Social presente, e prepararam o mundo para essa nova religião modernista, hoje bastante enraizada, tendo como provas o decréscimo do cristianismo de 2000 anos; no entanto, cada vez mais sendo entronizada sua parodia!

  3. Logo no início do seu pontificado, o Papa Francisco deu uma entrevista em que disse que os bispos não deveriam ser burocratas de escritório e sim pastores. Ora, então o que justifica ter ordenado bispo o reitor de uma universidade? É um caso único no mundo! Reitor de universidade não se encaixa na qualificação de “burocrata de escritório”?

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