Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Perigos da vida ativa sem vida interior.

“Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (Ef. VI, 11).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Caríssimos, na verdade, a vida das obras sem a vida interior é o caminho curto e certo da tibieza e do pecado. Primeiramente a tibieza, porque o padre absorto pela vida ativa e esquecido da vida interior, escorrega necessariamente no hábito do pecado venial, o que já é tibieza. É fácil compreendê-lo: Eis um padre ativo, trabalhador, mas inexperiente; aliás correto em sua conduta, mesmo piedoso, mas de uma piedade talvez mais de sentimento que de vontade. A oração mental, se ainda a pratica, é coisa vaga, vaporosa; o exame de consciência, a leitura espiritual superficiais, quando não omitidas; o Breviário despachado o mais depressa possível e, muitas vezes, o mais tarde possível. Esta alma é um terreno preparado para a dissipação cada dia mais acentuada, para as curiosidades, para os apegos por demais naturais, para a invasão progressiva de toda forma de fraquezas e sutis sensualidades.

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Com tudo isso consideremos o germe de corrupção que a concupiscência entretém em nossa natureza, a guerra sem tréguas que nos movem nossos inimigos de dentro e de fora, os perigos que nos ameaçam de toda parte. Então as feridas são frequentes, as faltas se acumulam fatalmente. Pululam os pecados veniais. O que outrora perturbava a consciência reta, hoje passa por vão escrúpulo desprezível. De resto, as obras prosperam, (pelo menos parece); os homens aplaudem, mas o Anjo do Santuário já está desconfiado, está triste, talvez já chore. Está prevendo o infalível desenlace. A alma está cega, está enfraquecida, basta uma tentação mais forte, uma ocasião mais perigosa e dá-se a queda. E do hábito dos pecados veniais, da tibieza ao pecado mortal, a passagem é fácil e freqüente. Num retiro clerical, diz D. Chautard, um padre disse-me: “Foi a dedicação que me perdeu! Minha disposição natural fazia-me experimentar alegria em me despender, felicidade em prestar serviço. O sucesso aparente dos meus empreendimentos ajudando, Satanás soube obrar tão bem durante longos anos, para me iludir, excitar o delírio da ação, desgostar-me de todo trabalho interior, até finalmente atrair-me ao abismo”.

Como caiu esta alma? Por falta de fé, de piedade, falta de vida interior. A alma acaba por ver as obras e não a Deus, procura a si e não a Deus, daí relaxamento, presunção, imprudência, anemia e morte. “É preciso, diz o card. Lavigérie, persuadir-se de que para um apóstolo não há meio termo entre a santidade completa, ao menos desejada e prosseguida com fidelidade e coragem, ou a perversão completa”. O padre, ou é santo, e então santifica; ou não o é, e então, arruína. O Santo Cura d’Ars derramava muitas lágrimas “pensando na desgraça dos sacerdotes que não correspondem à santidade de sua vocação. O sábio e prudente Pe. Desurmont afirmava: “Meditação, ou grande, muito grande risco de condenação para o padre em contato com o mundo”. Portanto, caríssimos colegas no sacerdócio, para obviar tão grande perigo, nunca descuidemos da vida interior.

E para nos animarmos a trabalhar neste sentido é bom meditarmos nas vantagens e na fecundidade da vida interior. É o  que, com a graça de Deus, iniciaremos neste artigo e prosseguiremos no seguinte.

1. O homem de vida interior está sempre vigilante, desconfia de si a cada instante, e se acautela contra o perigo, segundo o conselho de São Paulo: “Revesti-vos  da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio…” (Ef. VI, 11). Qual é esta armadura? Conhecimento do seu nada, convicção de nada poder sem a graça, pureza de intenção, solicitude pela sua salvação e, por isto, oração freqüente e suplicante.

2. A vida interior repara as forças que o apostolado porventura nos faz perder. É como aquele pão do profeta Elias. São Vicente de Paulo queria que os missionários, depois de algumas missões, voltassem para casa para refocilar o corpo e o espírito no recolhimento. Ordenava-lhes um dia de retiro. É a este  repouso que Jesus Cristo convidou os Apóstolos depois de suas primeiras missões: “Vinde à parte, num lugar deserto e descansai um pouco” (S. Marc. VI, 31). Caríssimos colegas no sacerdócio, sem isto as nossas obras de apostolado (em si tão santas) podem se tornar “ocupações malditas”, na expressão de S. Bernardo a seu discípulo o Papa Eugênio III: “Temo que, no meio de vossas numerosas ocupações, deixeis endurecer vossa alma. Fareis bem em suspender de vez em quando vossas ocupações, para não vos deixar dominar por elas. Sem isso é para temer que chegueis aonde não desejais chegar. Aonde? ao endurecimento do coração. Sim, é até lá, continua o Santo, que podem levar “as ocupações malditas”. E eis o comentário de D. Chautard: “Que há aí de mais augusto, de mais santo que o governo da Igreja? Haverá nada mais útil para a glória de Deus e para o bem das almas? E contudo, malditas ocupações, exclama S. Bernardo, se hão de servir para impedir a vida interior daquele que a elas se dedica. ‘Ocupações malditas’, que expressão! Vale por um livro inteiro, tanto ela amedronta e tanto obriga a refletir. E estaria exigindo um protesto, se não caísse da pena tão precisa de um doutor da Igreja, de um São Bernardo”.

3. A vida interior multiplica as energias e os méritos: Em Jesus Cristo está a força da vida interior. Podemos enumerar seus caracteres:

1º – Empreender coisas difíceis e enfrentar resolutamente os obstáculos.
2º – Desprezo das coisas da terra: “Omnia detrimentum feci et arbitror ut stercora”.
3º – Paciência nas tribulações: “Fors ut mors dilectio”.
4º – Resistência às tentações: “… cui resistite fortes in fide”.
5º – Martírio interior. Testemunho da própria vida que clama a Jesus: “Quero ser todo vosso”. Combater as concupiscências, domar os vícios, trabalhar com energia na aquisição das virtudes: “Bonum certamen certavi”.

“Sem esta vida, diz S. Pio X, as forças faltarão para suportar com perseverança as dificuldades que acarreta todo apostolado, a frieza e o pouco concurso dos mesmos homens de bem, as calúnias dos adversários (e piores quando vindas dos próprios colegas como delas foram vítimas alguns santos, por ex, o S. Cura d’Ars e S. Pio de Pietrelcina).

A vida interior dá ainda um acréscimo de méritos: pela vida de oração, de piedade, de união a Nosso Senhor, porque quanto mais dificultoso o ato de virtude, mais meritório, não por causa da dificuldade, mas por causa da intensidade de amor que a dificuldade supõe. (Continua no próximo artigo).

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3 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Perigos da vida ativa sem vida interior.”

  1. Este texto se encaixa muito bem na maioria dos católicos leigos, a começar por mim mesmo. Urge voltar-se para a vida interior.

  2. Um assunto muito palpitante hoje em dia na Igreja é a questão do ativismo religioso, pois os esquemas adotados por certas pastorais no presente aparentariam privilegiar demasiado os exteriorismos, como se fosse o principal no processo de evangelização.
    E reparem que, em vez de certos grupos de oração teriam como meta não de se evangelizarem por primeiro, mas preparam-no para os outros – CEBs, PJs e similares – e muitas vezes esses grupos estão contaminados com ideologias disfarçadas de “debates e estrategias pastorais”, mais se parecendo terem soluções por meio de artificios para converterem as pessoas – a saber, se é que almejam conversão à Igreja católica de sempre!!
    A atitude que deve mover nossa fé deveria se pautar na confiança na fé na graça divina, jamais no ativismo pessoal, e tais ações poderiam ser desses que se considerariam auto-suficientes – os que se acham bons demais para “perderem” algumas horas na Igreja rezando para se converterem por primeiro, imprescindível para depois o fazerem com os outros!
    Vemos que existem tantas pastorais em que, diversas delas, mais entrariam num processo, quando os membros se reúnem, as invés de se dedicarem a um encontro de fé para se aperfeiçoarem na vida interior, entrariam demasiado mais em debates inocuos em que se escolhem as melhores estrategias para evangelizarem e promoverem conversões – isso não funciona!
    Os protestantes é são experts em ativismo, como de tantos deles ouvi: “hoje converti varios” – entretanto, alienados como são, não notaram que foi para o relativismo religioso, heresia e o incauto se tornou mais um “fiote” de Lutero!
    Aliás, o ativismo religioso parece no presente ser o privilegiar o antropocentrismo ideológico, disfarçado de fé católica em que até o IGUALITARISMO, CIDADANIA, JUSTIÇA PARA TODOS, *”OPÇÃO PELOS POBRES”, RESPEITO ÀS DIVERSIDADES E MAIS SIMILARES RELATIVISMOS, entram bastante até em BOLETINS PAROQUIAIS EM PRECES COMUNITARIAS, em detrimento do Senhor Deus e de suas imprescindíveis graças como o motor principal do êxito de nossas ações, sendo nós, ao máximo, canais de conversão para distribuição de suas graças – mesmo assim se vinculados ao Mestre Jesus pelas mesmas graças!
    Já pensou “evangelizando” amasiados, sodomistas, glbtistas, “católicos-espiritas” ou pessoas vivendo em graves pecados?
    Eu sou a videira, vós os ramos; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Jo 15,5

  3. Faltante:
    * Parece que há tempos a “opção pelos pobres” das ideologias disfarçadas de catolicismo vem passando a ser a substituta do Senhor Deus.