A “Igreja pobre”, do Vaticano II ao Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 15-06-2016 | Tradução: FratresInUnum.comSegundo a opinião dominante dos teólogos, os documentos do Papa Francisco constituem meras indicações genéricas, de caráter pastoral e moral, destituídas de qualidade magisterial significativa. Esta é uma das razões pelas quais esses documentos são discutidos mais livremente do que acontecia antigamente com os textos pontifícios.

catacombe-417x278Entre as análises mais penetrantes dos textos do atual Pontífice, assinala-se o estudo de um filósofo da Universidade de Perugia, Flavio Cuniberto, intitulado Senhora Pobreza. O Papa Francisco e a refundação do cristianismo (Blacks Pozza, Vicenza 2016), dedicado particularmente aos documentos Evangelii Gaudium (2013) e Laudato sì (2015). O exame ao qual o Prof. Cuniberto submete os textos é o do estudioso que procura compreender suas teses de fundo, muitas vezes escondidas numa linguagem deliberadamente ambígua e elíptica. Sobre o tema da pobreza, Cuniberto traz à luz duas contradições: a primeira de natureza teológico-doutrinária, e a segunda de caráter prático.

Em relação ao primeiro ponto, teológico-doutrinário, ele observa que o Papa Francisco, em contraste com o que pode ser deduzido a partir do Evangelho, faz da pobreza uma condição mais material do que espiritual, para transformá-la assim em uma categoria sociológica. Esta exegese transparece, por exemplo, na escolha em citar, para o sermão das bem-aventuranças, o evangelho de Lucas (6, 20), e não o relato mais preciso de São Mateus (5, 3), que usa o termo “pauperes spiritu”, ou seja, aqueles que vivem humildemente diante de Deus.

Mas, para o Pontífice, a pobreza parece ser ao mesmo tempo um mal e um bem. Com efeito, observa Cuniberto, “se a pobreza como miséria material, exclusão, abandono, é indicada desde o início como um mal a ser combatido, para não dizer o mal dos males, e é, portanto, o objetivo principal da atividade missionária”, o novo significado cristológico que lhe atribui Francisco “faz dela simultaneamente um valor e, de fato, o valor supremo e exemplar”. Trata-se, sublinha o filósofo de Perugia, de um emaranhado complicado. “Por que combater a pobreza e erradicá-la quando ela é, pelo contrário, um ‘tesouro precioso’, e mesmo o caminho para o Reino? Inimigo a combater ou tesouro?” (pp. 25-26).

O segundo ponto, de caráter prático, refere-se às “causas estruturais” da pobreza. Supondo que esta seja um mal radical, o Papa Bergoglio parece individuar sua causa essencial na “desigualdade”. A solução indicada para erradicar esse mal seria aquela marxista e terceiro-mundista da redistribuição da riqueza: tirar dos ricos e dar aos pobres. Uma redistribuição igualitária que passaria por uma maior globalização dos recursos, não mais restrita às minorias ocidentais, mas estendida a todo o mundo. Mas na base da globalização está a lógica do lucro, que é criticada de um lado e propiciada de outro como uma forma de vencer a pobreza. O supercapitalismo, de fato, para se alimentar, necessita de um público de consumidores cada vez mais extenso, mas essa extensão do bem-estar em grande escala acaba alimentando as desigualdades que se desejaria eliminar.

O livro do Prof. Cuniberto merece ser lido juntamente com o de um estudioso napolitano, o sacerdote Beniamino Di Martino, intitulado Pobreza e riqueza. Exegese dos textos evangélicos (Editrice Dominicana Italiana, Nápoles 2013). O livro é muito técnico e o Pe. Di Martino desmonta, através de uma análise rigorosa dos textos, as teses fundamentais de certa teologia pauperista. A fórmula “contra a cupidez, não contra a riqueza”, resume, segundo o autor, o verdadeiro ensinamento dos Evangelhos.

Mas, pergunto eu, de onde provém essa confusão teológica, exegética e moral, entre pobreza espiritual e pobreza material? Não se pode ignorar o chamado “Pacto das Catacumbas”, assinado em 16 de novembro de 1965, nas Catacumbas de Domitila em Roma, por quarenta e cinco Padres conciliares que estavam tentando viver e lutar por uma Igreja pobre e igualitária.

O grupo tinha entre seus fundadores o padre Paul Gauthier (1914-2002), que havia participado da experiência dos “Padres operários” do cardeal Suhard, condenada pela Santa Sé em 1953. Depois, com o apoio do bispo Dom Georges Hakim, do qual foi teólogo no Concílio, ele fundou na Palestina a família religiosa de Os companheiros e as companheiras de Jesus carpinteiro. Gauthier era auxiliado em Roma por sua companheira de luta Marie-Thérèse Lacaze, que se tornou sua mulher quando ele deixou o sacerdócio.

Entre os que apoiaram o movimento estavam Dom Charles M. Himmer, bispo de Tournai (Bélgica), que acolhia suas reuniões no Colégio Belga de Roma; Dom Helder Câmara, que ainda era bispo-auxiliar do Rio e depois se tornou arcebispo de Recife; e o cardeal Pierre M. Gerlier, arcebispo de Lyon, em estreito contato com o cardeal Giacomo Lercaro, arcebispo de Bolonha, que se fazia representar pelo seu conselheiro Pe. Giuseppe Dossetti e pelo seu bispo auxiliar Dom Luigi Bettazzi (cfr. O Pacto das Catacumbas. A missão dos pobres na Igreja, por Xabier Pizaka e José Antunes da Silva, Edições Missionárias Italianas 2015).

Dom Bettazzi, o único bispo italiano participante do Vaticano II ainda vivo, também foi o único italiano a aderir ao “Pacto das Catacumbas”. Atualmente com 93 anos, ele participou de três sessões do Concílio Vaticano II e foi bispo de Ivrea de 1966 a 1999, quando renunciou por motivos de idade.

Se Dom Helder Câmara foi o “arcebispo vermelho” brasileiro, Dom Bettazzi entrou para a história como o “bispo vermelho” italiano. Em julho de 1976, quando parecia que o comunismo poderia tomar o poder na Itália, Dom Bettazzi escreveu uma carta ao então secretário do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, ao qual reconhecia a intenção de realizar “uma experiência original de comunismo, diferente dos comunismos de outras nações”, e lhe pedia para “não hostilizar a Igreja”, mas, ao contrário, “estimular nela uma evolução segundo as exigências dos tempos e as expectativas dos homens, sobretudo dos mais pobres, que porventura o senhor poderá ou saberá mais apropriadamente interpretar”. O líder do PCI respondeu ao bispo de Ivrea através da carta Comunistas e católicos: clareza de princípios e bases de entendimento, publicada em “Renascita” de 14 de outubro de 1977.

Nessa carta, Berlinguer negou que o PCI professasse explicitamente a ideologia marxista como filosofia materialista ateia, e confirmou a possibilidade de um encontro entre cristãos e comunistas no plano da “des-ideologização”. Não se trata de pensar do mesmo jeito, mas de juntos fazer o mesmo caminho – afirmava Berlinguer em substância –, na convicção de que não se é marxista no pensamento, mas se torna na prática.

O primado marxista da praxis penetrou na Igreja de hoje sob a forma de absorção da doutrina pela pastoral. E a Igreja corre o risco de tornar-se marxista na prática também falseando o conceito teológico de pobreza.

A pobreza autêntica é o desprendimento dos bens da terra, de modo que eles sirvam para a salvação da alma, e não para a sua perdição. Todos os cristãos devem ser desapegados dos bens, porque o Reino do Céu é reservado aos “pobres de espírito”, e alguns deles são até chamados a viver uma pobreza efetiva, renunciando à posse e ao uso dos bens materiais. Mas esta escolha tem valor pelo fato de ser livre, e não imposta por outrem, como nos regimes coletivistas.

Desde os primeiros séculos, as seitas heréticas pretenderam, pelo contrário, impor a comunhão dos bens, a fim de consumar nesta terra uma utopia igualitária. Na mesma linha coloca-se hoje quem quiser substituir a categoria religiosa dos pobres em espírito pela categoria sociológica dos materialmente pobres.

Dom Luigi Bettazzi, autor do livro A Igreja dos pobres, do Concílio ao Papa Francisco (Pazzini 2014) recebeu, em 4 de abril de 2016, a cidadania honorária de Bolonha e poderia receber a púrpura do Papa Francisco, sob cujo pontificado, de acordo com o mesmo ex-bispo de Ivrea, desenvolveu-se o Pacto das Catacumbas “como uma semente de trigo colocada sob a terra e crescida lentamente para dar seus frutos”.

4 Comentários to “A “Igreja pobre”, do Vaticano II ao Papa Francisco.”

  1. Para quem viveu fora da realidade da América Latina nessas últimas décadas, esta é a hora de saírem com análises e artigos tentando desvendar e entender a mentalidade de um bispo que foi formado, contaminado e deformado até a medula pela teologia da libertação.
    “O primado marxista da praxis penetrou na Igreja de hoje sob a forma de absorção da doutrina pela pastoral. E a Igreja corre o risco de tornar-se marxista na prática também falseando o conceito teológico de pobreza”.
    Corre o risco? Roberto de Mattei, precisa fazer um estágio na Igreja do Brasil sob os auspícios da CNBB!
    O que Bergoglio está tentando fazer na Igreja Universal é expandir esse câncer que dizimou a fé Católica na América Latina!
    O primado marxista da praxis penetrou na Igreja sim, mas não é de hoje! A Igreja na América Latina tronou-se marxista na prática falseando o conceito teológico de pobreza e se Deus não abreviar esse tempo, quem está correndo o mesmo risco é a Igreja como um todo!
    Que me desculpe Roberto de Mattei, mas na minha opinião esse artigo é só desperdício de caneta e papel. Esse discursinho de “pobreza” vindo de Bergoglio só engana quem quer se deixar enganar, pois como todo TL o seu discurso não condiz com a prática.
    Nós vimos o que o Partido dos Trabalhadores fez com o Brasil! O discurso sempre foi o da erradicação da miséria, da distribuição de renda, do combate à pobreza enquanto eles mesmos se locupletavam com o dinheiro público e levavam o país à bancarrota.
    No caso da Igreja, esses comunistas infiltrados estão provocando uma bancarrota ainda mais terrível que é a bancarrota moral, a perda das almas e a destruição da fé.
    Gastam papel pra escrever encíclicas heréticas, repetem à exaustão esse mesmo discurso hipócrita de “opção preferencial pelos pobres” pra enganar trouxas, mas na prática vivem de braços dados com os poderosos desse mundo. Os mesmos que eles criticam da boca pra fora, enquanto os recebe de braços abertos!
    Sandro Magister denuncia isso com muita propriedade no seguinte artigo:

    “Papa Francisco é implacável contra o rico epulão que faz o pobre Lázaro passar fome, contra o que ele chama de “economia que mata.”

    No entanto, os homens mais ricos do mundo e os todo-poderosos das finanças fazem fila para serem recebidos por ele. E ele não só os recebe de braços abertos, mas cobre-os de elogios.

    O último a se beneficiar do apreço do papa foi Christine Lagarde, recebida no Vaticano no dia 18 de janeiro, novamente confirmada em fevereiro, como a chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) , e no início de março elogiada por Francisco como “uma mulher inteligente que sustenta que o dinheiro deve estar a serviço da humanidade e não o contrário “, diante de um grupo de surpresos socialistas católicos franceses.

    No início de seu pontificado Jorge Mario Bergoglio havia surpreendido a todos ao pregar uma Igreja “pobre e para os pobres”, ao mesmo tempo que contratava para consulta no Vaticano as mais famosas e caras instituições do mundo em sistemas organizacionais e financeiros, da McKinsey à Ernst & Young, da Promontory à KPMG.

    Mas agora a música mudou. Já não são os cofres do Vaticano que estão pagando as contas dessas empresas, são os grandes empresários autorizados a se encontrar com o Papa para fazer-lhe ofertas de altas doações.

    Tem quem o diz publicamente e outros não. Em 22 de janeiro, Tim Cook, CEO da Apple, não fez segredo de que ele tinha colocado nas mãos de Francisco um cheque de valor altíssimo durante a audiência que teve com ele não na prosaica residência em Santa Marta, mas na biblioteca papal solene do Palácio Apostólico.

    No dia 28 de Janeiro foi a vez de Leonardo DiCaprio que fez o mesmo. Na filmagem do encontro ele é visto entregando ao Papa um envelope com um cheque onde está escrito “para obras de caridade próximas ao seu coração.” Mais de que como ator de filme, DiCaprio obteve audiência como titular de uma fundação contra o aquecimento global, em cujo nome ele havia intervido alguns dias antes no Davos World Economic Forum, e onde recebeu um prêmio.

    Também no Fórum de Davos, Papa Francisco tinha feito ouvir a sua voz com uma mensagem em defesa da criação e desenvolvimento do homem “integral”. E DiCaprio, como acontece com muitos outros, recebeu de presente uma cópia vermelha de sua encíclica “Laudato si ‘.”

    Natureza e tecnocracia, esta é a combinação vencedora. Sete dias antes da audiência com Tim Cook da Apple, Bergoglio recebeu o número 1 do Google, Eric Schmidt, acompanhado pelo chefe do Google Ideas Jared Cohen, também essa uma fundação empenhada em suas frentes contra a pobreza, promovendo energia e meio ambiente, cujo imperativo é “não seja mau”, não seja mau.

    E no final de fevereiro, ele recebeu Kevin Systrom, fundador e CEO do Instagram, a rede social de fotografia com ativos de 400 milhões de usuários em todo o mundo. Também em fevereiro, o Papa Francisco se reuniu com uma delegação do World Wildlife Fund for Nature, liderado pela sua Presidente Mundial Yolanda Kakabadse.

    Mas, neste contexto, o maior golpe foi o show “son et lumière” mostrado na noite de 8 de Dezembro, o dia de abertura do Jubileu da misericórdia, na fachada e cúpula da Basílica de São Pedro, a controversa amostra, chamada um hino à natureza sem a menor aceno ao Criador, e também muito caro, mas inteiramente oferecido ao papa pelo Banco Mundial, a fundação Okeanos e co-fundador Vulcan Inc. da Microsoft Paul Allen.

    E faltou pouquíssimo pra que Francisco recebesse em audiência o mesmo Bill Gates, que é o numero 1 absoluto da Microsoft, assim como o homem mais rico do mundo na lista da Forbes. Quem melou o encontro foram alguns cardeais africanos, que lembraram ao papa que a Fundação Bill & Melinda Gates é muito ativa na promoção do aborto nos países pobres.

    Nenhuma objeção no entanto, para o segundo da lista da Forbes, o mexicano Carlos Slim, o magnata das telecomunicações. Os custos para a radiodifusão e os centros de conferência de imprensa de Francisco em sua viagem ao México em fevereiro passado foram cobertos inteiramente por ele.
    http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1351250

  2. Tenho uma dúvida?

    Igreja pobre deve ser entendido no sentido literal???

    Ele nao está falando de uma Igreja pobre em espírito. Ou seja, de uma Igreja não apegada a bens materiais???

    Ou ele está falando de uma Igreja pobre com poucos recursos. Por que? Com poucos recursos. ajuda-se menos pessoas economicamente falando também.

  3. A pobreza que parece inspirar o Vaticano no presente, ao invés de realçar o desprendimento dos bens como fim último, se não for igual, seria similar à propagandeada pela esquerdista TL e idem governos da Américas Latina, Central e África e mais há varias décadas, entroniza as esquerdas!
    Note que todos os seus protagonizadores, por sinal são altamente suspeitos de se vincularem a movimentos anárquicos e revolucionarios, além de serem muito simpáticos aos marxistas e vice-versa – se não é que são infiltrados deles dentro da Igreja, passando-se como do clero!
    Há ricos que são desprendidos e pobres que são apegados aos bens!
    Tudo indica que o que se entroniza no momento correlacionado aos pobres não passaria da ideologista “DOUTRINA DO POBRISMO” – o pobre como o centro de tudo, antropocentrismo e substituindo até o Senhor Deus!
    Fazer a pobreza como o mal maior de todos os problemas do homem é algo concebível apenas em mentes recheadas de esterco marxista, portanto material-ateístas!
    Dessa forma, possui todas as características de fraudes midiáticas que os esquerdistas anunciam como ideais que almejam para resgatar os mais desafortunados; ao contrario, trata-se um ardil para conduzi-los ao poder e depois os escravizar; a ilha-prisão Cuba é um exemplar incontestável dessas falsidades, do capitalista e burguês Fidel Castro querendo livrar os cubanos “duzamerikanu”!
    O verdadeiro significado de “pobres em espírito” no sentido evangélico da palavra estão em:
    “Busquem o Senhor,
    todos vocês, os humildes da terra,
    vocês que fazem o que ele ordena.
    Busquem a justiça,
    busquem a humildade;
    talvez vocês tenham abrigo
    no dia da ira do Senhor. Sof 2,3.
    Os ideologistas, na sua farisaica “opção preferencial pelos pobres”, com vital apoio das esquerdas “católicas”, caso da TL, e com silencio dos outros que não os denunciavam, incluindo-se a CNBB, por meio desse ardil, vêm se elegendo desde o traidor do Brasil FHC até às hienas do PT no presente – eles mesmos o reconhecem!
    Há pouco tempo descobriram tratar-se um bando de falsarios e chantagistas, obreiros do martelo e foice, vorazes tão somente por poder e dinheiro, governo de bandos quadrilheiros os PCs, devidamente acobertados por uma midia bem paga para falsear a realidade!
    Porém, nesses anos todos farrearam à vontade, roubaram dezenas de bilhões e levando dezenas de milhões para o IGUALITARISMO DA MISERIA, procedimento em que são experts – de menos para os burgueses dirigentes do bando mafioso, evidentemente que se excluem!

  4. Esta história de Igreja pobre é uma grande farsa, porque os tais defensores dos pobres, enquanto regulam recursos para os paramentos e celebrações litúrgicas, (substituem os vasos sagrados por utensílios de cerâmica e outros materiais mais simples) bem como nas edificações dos templos, são afeitos ao conforto e vida farta, andam com bons trajes e carros novos (e isto não é em benefício do anúncio do Evangelho com certeza).