Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (III).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação da Conferência do Pe. Mateo Crawlei-Boevey SS. CC.

“Para que encarnou-se o Verbo? Para estabelecer uma nova lei, portentosa, poderosa, lei positiva e fundamental do cristianismo, lei imperecível e salvadora, a lei da Misericórdia.

O Bom Pastor

O Bom Pastor.

E por isso a desconfiança Lhe fere o Coração. Sabeis qual foi, na realidade, o maior delito de Judas, ainda maior que a traição e os suicídio? Ter recusado a crer naquela misericórdia que Jesus ofereceu-Lhe, de joelhos, quando lavou-lhe os pés, na última Ceia!

Não alteremos o Evangelho, que não temos esse direito. O Senhor veio não para os justos e sadios, mas para os pecadores e enfermos (Mc 2, 17). E a retribuição que Ele pede em troca de uma tão grande condescendência é o amor de confiança, que é sempre o mais sincero e o
mais humilde dos arrependimentos. Quem não compreende isso, não compreendeu ainda o que há de mais delicado e belo no Coração de Jesus!

Nada, nem ninguém, pode impedir-nos a aproximação do seu Peito ferido. Vossos pecados, dizeis? Lavou-os com Seu Sangue. Vossa indignidade? Ele a conhece mil vezes melhor que vós mesmos. E quanto a qualidades, não pede senão uma: crerdes com humildade e confiança em seu Amor. Sabei que se alguma coisa há que O distancie de vós é justamente esse olhar para trás, para vossa vida passada. E esse duvidar do seu Coração, e revolver-vos em vossas próprias misérias, o que aliás, frequentemente, mais que arrependimento, é refinado amor-próprio. Se não quereis envenenar vossas feridas, não as toqueis excessivamente. Vossas mãos as irritam… Só as de Nosso Senhor curam e as cicatrizam.

Pela última vez, não abuseis da palavra “respeito”, sob cuja sombra tem-se inculcado sempre o mais repugnante e odioso jansenismo. Confiai-vos a Ele, que é Pai e Mãe e Salvador. Confiar não é nem será jamais falta de respeito, como nunca será igualmente obedecê-Lo, acercar-se d’Ele quando Ele, conhecedor de vossas fraquezas, chama e insiste oferecendo-vos o Coração.

Resistir a esse chamado, sob pretexto de não estar ainda suficientemente purificados e dignos, é soberba disfarçada. E nesse caso, sede ao menos sinceros e confessai que sobre amor-próprio e que falta o amor de Nosso Senhor. Se amásseis, como seria diferente o vosso modo de raciocinar, pois que tão diversa é a atitude da humildade, irmã gêmea da confiança! Motivo tinha Santo Agostinho para dizer: “Ama, e faze o que quiseres”. O que quiseres, porque tendo na alma a conselheira de uma verdadeira caridade, não há perigo que, amando e confiando, chegues a ofender a quem ames.

Como é belo pensar que antes de Pentecostes São Pedro disse: “Retira-te de mim, Senhor, que sou um pecador” (Lc , 8). E Pedro caiu! Depois que a luz de Pentecostes lhe mostrou junto ao abismo da sua fraqueza um outro da infinita misericórdia, deve ter pensado e exclamado com freqüência: “Senhor, não Te afastes … aproxima-Te mais, muito mais, inteiramente, porque sou um grande pecador”. Perguntai a um São Francisco de Assis, a um S. João da Cruz, a um Francisco de Sales, a um S. Paulo, onde encontraram o segredo da vida, da santidade, do amor: à distância de Nosso Senhor, ou no afã de chegar à intimidade, no caminho da fraqueza e da confiança?

Onde, senão no Evangelho, aprendeu Teresinha a teologia prodigiosa com a qual está provocando, segundo afirmam graves doutores, um renascimento espiritual. Quero dizer a teologia que chamaríamos dos garotos, daqueles atrevidozinhos que, encarapitados nos joelhos do Mestre (Mt 19, 13-15) e sedentos de carinhos, aprenderam muito antes de Teresinha que o amor tende à união e que esta supõe confiança ilimitada.

Não é este o perfume mais puro e celestial do Evangelho? Quem se excedeu na medida, os meninos ou Jesus? Se houve excesso, foi de ternura e condescendência de Nosso Senhor. As almas pequeninas e simples tiveram sempre o privilégio de compreender essas exigências e sublimidades do amor. Entre as crianças que disputam o posto de honra, para ouvir as batidas do Coração do Amigo, e os apóstolos e S. Pedro, que se surpreendem com tanta familiaridade, que não a compreendem e se afastam: Deixai-Me os garotos, prefiro-os incomparavelmente, nesse momento do céu … Na vida e no morte, quero para mim a sua simplicidade, sua confiança e … o seu posto!

Não percebeis quão capcioso é o ardil do inimigo distanciando-vos do Senhor, com a obsessão dos vossos pecados. Daí a desanimar-vos, a abater-vos, e fazer-vos logo rolar mais para baixo, basta um passo. Estudai um instante diante do Sacrário a atitude de Jesus com a Samaritana … (Jo 4). Evita Nosso Senhor dirigir a palavra a essa grande culpada? Fala-lhe em tom ou de forma a fazê-la retirar-se envergonhada de sentir-se tão próxima d’Ele que é a mesma Santidade? Qual o fruto imediato dessa proximidade? Confusão e fuga da Samaritana, ou expansão de confiança simples, de arrependimento e conversão?

Aprendamos a lição, para proveito nosso e das almas. Todo o mal grave começa e se consuma no afastamento de Jesus. E toda virtude e principalmente a do arrependimento e a da humildade, levam-nos como por instinto ao Coração do Salvador.

Porque, se às vezes, procurando embora essa intimidade, não vedes nem sentis, não apalpais os frutos de aproveitamento e correção dos defeitos, não atribuais a esterilidade à vizinhança de Jesus. Sabei discernir. Nem todo progresso espiritual é sensível. Além disso, com freqüência, passados longos anos nesta via de amor e confiança, vêem-se mais claramente as maldades da natureza. Não se trata, portanto, de haver piorado junto de Nosso Senhor. Mas cresce a luz, o sol, que é seu Coração, penetra em vós, e mostra hoje na alma “bactérias” cuja existência, um ou dez anos atrás, não havíeis percebido a pouca luz. Ademais, Ele continua a permitir que sintais, ainda depois de convalescidos, o mal-estar do vosso pecado, para que seja expiado e se complete, com a humilhação, a cura da alma. Continuais trabalhando por aproximar-vos de Jesus, com menos preocupações e com mais confiança em Sua misericórdia. Pensai mais no Médico e no Seu tratamento que na doença e no doente.

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2 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (III).”

  1. … “E a retribuição que Ele pede em troca de uma tão grande condescendência é o amor de confiança, que é sempre o mais sincero e o mais humilde dos arrependimentos””.
    Não seria uma contraposição a modelo incensado no presente em que entronizam a misericordia, que aparenta preceder a tudo mais, normalmente desacompanhada dos necessarios arrependimento e mudança de vida?
    Para que ela se justificasse, não poderia ser desviada para uma certa e indeterminada misericordia a qualquer preço, que mais se pareceria alienante à fé?
    O fato que sucedeu com S Pedro de confiar na misericordia de Jesus e lançar-se a seus pés confesso pecador, ser perdoado e reerguer-se, não foi justamente o oposto de Judas Iscariotes, ao desesperar-se e se enforcar?
    “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”!
    Essa proclamação, não mecanicamente pronunciada, mas provinda do coração, associada a uma vida que condiga com o expressado verbalmente, bem que poderia ser o desejável para se obter a verdadeira misericordia!

  2. grande parte das desgraças do mundo laico pagão são devidas ao desespero. A desconfiança na Misericórdia de Deus fez com que os homens depositassem esperança somente nos próprios esforços humanos (“salvar o planeta”, controle de natalidade, democracia).
    O mundo pagão moderno já nasceu velho. É estéril, não produz fruto porque nele não há vida em abundância, a vida em Cristo.