Quando toda a Europa viu-se excomungada.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 13-07-2016 | Tradução: FratresInUnum.com – Houve uma época em que toda a Europa cristã ficou excomungada, sem que ninguém fosse herege. Tudo começou em 27 de março de 1378 quando, quatorze meses após seu regresso de Avinhão, o Papa Gregório XI veio a falecer em Roma. No conclave,  que se desenrolou pela primeira vez no Vaticano depois de 75 anos, participaram dezesseis dos vinte e três cardeais então existentes na Cristandade, a grande maioria dos quais franceses, consequência do longo período avinhonês.

grande_scisma_1378-361x278No dia 8 de abril,  o Sacro Colégio elegeu para o sólio pontifício o Arcebispo de Bari, Bartolomeo Prignano, douto canonista de costumes austeros,  que não era cardeal e por isso estivera ausente do conclave. Naquele mesmo dia o povo irrompe no conclave, para reclamar a eleição de um Papa romano, mas os cardeais não ousaram anunciar a eleição já ocorrida, fazendo crer que o eleito havia sido o velho cardeal Francesco Tiabldeschi,  natural de Roma. Contudo, no dia seguinte, Bartolomeo Prignano foi entronizado, assumindo o nome de Urbano VI (1378-1389), e em 18 de abril era coroado regularmente em São Pedro.

Aconteceu, contudo, de se reunirem no mês de julho, na cidade de Anagni, doze cardeais franceses e o aragonês Pedro de Luna, que deram a lume em 2 de agosto uma declaratio na qual a Sé romana era definida como vacante, e a eleição de Urbano VI como inválida, porque extorquida pelo povo romano mediante rebelião e tumulto. Em 20 de setembro, na catedral de Fondi, foi eleito como novo Papa o cardeal Roberto de Genebra,  que tomou o nome de Clemente VII (1378-1394). Este último, após uma vã tentativa de ocupar Roma, sediou-se novamente em Avinhão, dando início ao “Grande Cisma do Ocidente”.

A diferença entre o Cisma do Ocidente e o Cisma do Oriente que em 1054 dividiu a Cristandade, é que este último foi um cisma no sentido verdadeiro e estrito do termo, uma vez que os ortodoxos se negavam e se negam reconhecer o Primado do Papa,  Bispo de Roma e Pastor da Igreja universal. O Cisma do Ocidente, pelo contrário, foi um cisma material, mas não formal, porquanto não houve da parte de nenhuma das duas facções vontade de negar o Primado pontifício. Urbano VI e Clemente VII, e posteriormente seus sucessores, estavam convictos da legitimidade de sua eleição canônica e em nenhuma das partes  em  conflito havia erros doutrinários. Hoje a Igreja assegura que os Papas legítimos foram Urbano VI e seus sucessores, mas não era então fácil discernir o legítimo Vigário de Cristo.

Em 1378, a Cristandade se divide assim em duas “obediências”. Enquanto a França, a Escócia, Castela, Portugal, Saboia, Aragão e Navarra reconheceram Clemente VII,  a Itália setentrional e central, o Império, a Inglaterra, a Irlanda, a Boêmia, a Polônia e a Hungria permaneceram fiéis a Urbano VI. Durante mais de quarenta anos os católicos europeus viveram um drama cotidiano. Não somente havia dois Papas e dois colégios cardinalícios, mas com frequência dois bispos numa mesma diocese, dois abades num mosteiro e dois párocos numa paróquia. E como ambos os Papas se excomungaram reciprocamente e aos respectivos seguidores,  todo fiel na Cristandade achava-se excomungado por um deles

Até os santos se dividiram. No lado oposto a Santa Catarina de Siena e a Santa Catarina da Suécia, filha de Santa Brígida, que sustentavam Urbano VI, estavam São Vicente Férrer, o bem-aventurado Pedro de Luxemburgo e Santa Coleta de Corbie, que aderiram à obediência de Avinhão.  A situação era confusa como nunca e não se podia encontrar uma saída.

Quando em 16 de setembro de 1394 morreu repentinamente Clemente VII, Papa de Avinhão, pareceu ter chegado o momento de desatar o nó. Bastaria que os cardeais franceses não procedessem à eleição de um novo Pontífice e que o Papa de Roma, Bonifácio IX (1389-1404), que sucedeu a Urbano VI, se demitisse. Em vez disso, os cardeais elegeram um novo Papa em Avinhão, Pedro de Luna, homem austero, mas obstinado, que reivindicou com força os seus direitos e reinou durante 22 anos com o nome de Bento XIII (1394-1422). Por sua vez, a Bonifácio IX sucederam os Papas “romanos” Inocêncio VII (1404-1406) e Gregório XII (1406-1415).

As discussões, entretanto, continuavam a se desenvolver entre os teólogos. O ponto de partida foi a famosa passagem do decreto de Graciano, que dizia: “O Papa tem o direito de julgar a todos, mas não pode ser julgado por ninguém, a menos que não se afaste da fé” (A nemine est judicandus, nisi deprehenditur a fide devius – Dist. 400, c. 6). A regra de que ninguém pode julgar o Papa (Prima sedes non judicabitur) admitia, e admite, uma só exceção: o pecado de heresia. Tratava-se de uma máxima sobre a qual todos estavam de acordo e que podia ser aplicada não só ao Papa herético, mas também ao Papa cismático. Mas quem era o culpado do cisma?

Muitos, para resolver o problema, caíram num erro grave e perigoso: a doutrina da conciliarismo, segundo a qual um Papa herege ou cismático pode ser deposto por um Concílio, porque a assembléia dos bispos é superior ao Papa. Os principais expoentes desta doutrina foram o chanceler da Universidade de Paris, Pierre d’Ailly (1350-1420), mais tarde cardeal de Avinhão, e o teólogo Jean Charlier de Gerson (1363-1429), que também foi reitor e professor da Universidade de Paris.

Essa falsa tese eclesiológica levou alguns cardeais das duas obediências a procurar a solução em um Concílio geral inaugurado em Pisa no dia 25 de março de 1409 com a finalidade de convidar os dois Papas a abdicar, e de depô-los caso se recusassem. Assim aconteceu. O Concílio de Pisa,  que se declarou ecumênico e representante de toda a Igreja universal, depôs os dois Papas rivais como “cismáticos e hereges”, e declarou vacante a Sé romana. Em 26 de junho, o Colégio dos Cardeais elegeu um terceiro Papa, Pietro Filargo, Arcebispo de Milão, que tomou o nome de Alexandre V (1409-1410) e foi sucedido no ano seguinte por Balthazar Cossa, que adotou o nome de João XXIII (1410-1415). O verdadeiro Papa só podia ser um, mas naquele momento não estava claro quem fosse, nem para os teólogos, nem para os fiéis.

João XXIII, com o apoio do imperador alemão Sigismund (1410-1437), tomou a iniciativa de um novo Concílio, que se abriu na cidade imperial de Constança no dia 5 de novembro 1414. O prelado tinha como objetivo ser reconhecido como o único Papa, confirmando o Concílio de Pisa, do qual extraía a sua legitimidade. Para este fim, ele havia criado muitos purpurados italianos, que o apoiavam. A fim de poderem vencer a maioria italiana, os franceses e os britânicos conseguiram fazer com que o voto fosse expresso não por capita singulorum, ou seja, por cabeça, mas por nationes, por grupos nacionais. Foi reconhecido direito de voto à França, à Alemanha, à Inglaterra, à Itália e, mais tarde, à Espanha, as cinco maiores nações europeias desse tempo.

Tratou-se de um princípio profundamente revolucionário. Em primeiro lugar, as nações ou os partidos políticos entraram, de fato, vigorosamente na vida da Igreja, subvertendo a relação de dependência que sempre tiveram com Ela nas questões religiosas. Em segundo lugar e sobretudo, ao se pretender atribuir decisões deliberativas ao voto dos Padres conciliares, foi minado o princípio de que o Papa é o árbitro supremo, moderador e juiz do Concílio.

Ao perceber João XXIII que o Concílio não queria confirmá-lo como Papa, fugiu de Constança na noite de 20 para 21 de março de 1415, mas foi recapturado, deposto como simoníaco e pecador público, e excluído, juntamente com os outros dois Papas, da futura eleição.

Em 6 de abril de 1415 a Assembléia emitiu um decreto, conhecido como Haec Sancta, declarando solenemente que o Concílio, assistido pelo Espírito Santo, representava toda a Igreja militante e hauria seu poder diretamente de Deus; por isso todos os cristãos, inclusive o Papa, eram obrigados a obedecer-lhe. Completou-o em nível disciplinar o decreto Frequens, de 9 de outubro de 1417, pelo qual os Concílios Ecumênicos deviam permanecer uma instituição eclesiástica estável e, em consequência, como escreve o historiador Hubert Jedin, “uma espécie de instância de controle sobre o papado”.

Haec Sancta é um dos documentos mais revolucionários da história da Igreja, porque nega o primado do Romano Pontífice sobre o Concílio. Este texto, reconhecido inicialmente como autêntico e legítimo, só mais tarde foi rejeitado pelo Magistério Pontifício.

Nessa situação caótica, o Papa romano Gregório XII concordou em abdicar. Foi a última renúncia ao trono papal anterior à de Bento XVI. Gregório XII perdeu todas as prerrogativas pontifícias, como sucede ao Papa que, por razões excepcionais, deixa o governo da Igreja. O Concílio reconheceu-o como cardeal e nomeou-o bispo de Porto e legado estável na Marca de Ancona, mas Gregório, antes que o novo Papa fosse eleito, morreu aos 90 anos em Recanati, em 18 de outubro 1417. Bento XIII, o Papa de Avinhão, permaneceu inflexível, mas foi abandonado até mesmo pelos países da sua obediência, deposto como perjúrio, cismático e herético em 26 de julho de 1417.

Os cardeais das duas obediências reunidos elegeram finalmente, em 11 de novembro 1417, o novo Papa, Oddone Colonna, romano, que tomou o nome de Martinho V (1417-1431) em honra do santo que se festejava no dia da eleição. O Grande Cisma do Ocidente terminava e a paz parecia ter atingido a Igreja, mas o pós-Concílio reservava surpresas amargas ao sucessor de Martinho V. (Roberto de Mattei)

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14 Comentários to “Quando toda a Europa viu-se excomungada.”

  1. É interessante notar que o Grande Cisma do Ocidente, com toda a gravíssima situação caótica que o acompanhou, terminou em 1417 – completando, pois, exatos 600 anos desse fato histórico no ano que vem, justo o ano do centenário de Fátima e de vários outros fatos de grande relevância histórica. Será que em 2017 vamos de algum modo assistir, por graça de Deus e triunfo do Imaculado Coração, ao fim da bagunça gerada com o Vaticano II? Ouso esperar um milagre…

  2. e por falar em excomungados. Esta historia do Cisma levada para os dias de hoje. http://www.waragainstbeing.com/node/50

  3. Esses fatos devem deixar muita gente sem saber o que dizer.
    Se todo mundo foi excomungado, foi todo mundo pro inferno? Pelo menos aqueles que foram excomungados pelo Papa verdadeiro (que na época não estava bem claro qual era)? Difícil afirmar isso, ainda mais se pessoas posteriormente canonizadas estavam nesse grupo.

    • Excomunhão não significa passaporte para o inferno e nem é infalível. Significa “apenas” que o excomungado está excluído da comunidade católica e portanto não pode participar da vida da Igreja. Quando alguém morre excomungado, Deus avalia a justeza da excomunhão e o grau de culpa do indivíduo.

    • Olá JB.
      Certamente que não, pois a própria situação relatada nos mostra que seria impossível.
      Mas o medo que a ameaça de excomunhão causava e ainda causa (hoje em dia só para alguns poucos que sabem o que isso significa, mesmo que superficialmente) é o efeito espiritual, então foi ensinado ao povo em alguma relação entre uma (excomunhão) e outra (condenação).
      Tirando o medo da condenação da alma, o resto era interesse humano (em outros tempos e sociedades), medo de ser visto como um pária social, alguém com quem as pessoas consideradas como “de bem” deveriam evitar de se relacionar.

  4. É importante conhecermos a história da Igreja, mas essas informações não diz mais nada ao homem moderno. E de verdade: nem para os Católicos e seus problemas atuais. Ora, quase um continente interior excomungado é muito esquisito e exagerado para a mente de hoje.

    Sim, que lição se tira disso? Que o clero é o poder supremo? Que manda quem pode mesmo e pronto?

    Não me chama a atenção não. A história da nossa amanda Igreja possue riquezas e ensinamentos muito mais ricos do que esses.

  5. Este artigo do professor Roberto Mattei apenas mostra que a verdade teológica diz que só pode haver UM Papa. No passado como hoje há dois Papas. Ora alguém é anti-papa. Quem? Temos de esperar, como no passado, que Deus nos mostre quem é o anti-papa.

  6. Sempre achei que Portugal e Castela estavam com o Papa de Roma. Há alguma fonte que eu possa pesquisar isso?

    • Castela estava com Avinhão. Portugal a princípio oscilou entre um e outro mas logo decidiu-se por Roma, inclusive para marcar a rivalidade com Castela.

  7. Caros fratres, me desculpem por fugir do tema desta publicação, mas alguém que saiba inglês poderia fazer o imporante serviço de nos traduzir a recente entrevista do Cardeal Caffarra?
    Ao que me disseram, a entrevista é um raio de esperança em tempos sombrios

    Segue o link:

    http://www.onepeterfive.com/cardinal-caffarra-on-marriage-family-amoris-laetitia-confusion-in-the-church/

  8. A intenção do texto do Prof. De Mattei, ao fazer a retomada da história do Cisma do Ocidente, parece ser, sim, apontar ou sugerir a possibilidade de que hoje possamos estar vivendo, sem saber oficialmente, diante de um papa legítimo e um antipapa (p.ex., se a renúncia de S.S. Bento XVI ao “ministério ativo” não tiver sido, de fato, válida, entre outras razões, estaríamos diante de um antipapa Francisco). Além disso, destaca-se o fato da repreensão e julgamento aplicados a um papa declaradamente herético (coisa que Francisco é às claras), algo que os membros da Igreja de então viam como possível de se aplicar.

    Quanto à recente entrevista de Caffarra, há tradução para o italiano de quase toda a entrevista, no blog de S. Magister em , sob o título “Caffarra: ‘Shönborn erra, e isto é o que eu gostaria de dizer ao Santo Padre”.

    Deus tenha piedade de sua Igreja.

    Kyrie, eleison!

    P.S.: Querida Sra. Gercione Lima, recordo-me sempre de sua pessoa e família em minhas preces. Por gentileza, não deixe de ver uma mensagem-pedido que deixei em comentário à matéria “Cardeal Christoph Schönborn e o convite explícito ao sacrilégio”, publicada aqui no Fratres. Minha cordial saudação em Cristo.

  9. A crise da Igreja esta tambem no surgimento de movimentos neo cismaticos que atacam a primazia do Papado bem definida no Concilo Vaticano Primeiro. Tudo isto so torna a situacao pior e tao confusa quanto no passado.

  10. Trecho do Livro Azul do Movimento Sacerdotal Mariano – Fátima, 11 de março de 1995
    …O meu segredo diz respeito à Igreja.
    A grande apostasia chegará ao seu cume na Igreja, e se difundirá em todo o mundo; se consumará o cisma no afastamento geral do Evangelho e da verdadeira fé.
    Entrará na Igreja o homem iníquo que se opõe a Cristo e que levará ao seu interior a abominação da desolação, dando assim cumprimento ao horrível sacrilégio que falou o profeta Daniel. (Mt 14,15). A humanidade chegará ao cume da corrupção e da impiedade, da rebelião contra Deus e da aberta oposição a sua Lei de amor. Ela conhecerá a hora do seu maior castigo, que já vos foi predito pelo profeta Zacarias (Zc 13, 7-9).
    Então este lugar aparecerá para todos como sinal luminoso da minha presença materna, na hora suprema da vossa grande tribulação. A minha luz se difundirá daqui, por toda parte do mundo e desta fonte jorrará a água da Divina Misericórdia, que descerá para regar a aridez de um mundo já reduzido a um imenso deserto.
    Se a humanidade já não é capaz de discernir os ensinamentos perversos do verdadeiro ensinamento de Cristo estamos vivendo a grande apostasia.