Joseph Ratzinger, 65 anos depois.

“E assim caiu a fúria da crítica protestante sobre o sacerdócio católico”. No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal Müller narra a sua resistência indomável contra a ofensiva dos seguidores de Lutero

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.comROMA, 28 de junho de 2016 – “No momento em que o idoso arcebispo impôs suas mãos sobre mim, um pequeno pássaro – talvez um pardal – voou por detrás do altar-mor da catedral e entoou um canto alegre. Para mim. foi como se uma voz do alto me dissesse: está tudo bem, você está no caminho certo”.

jpg_1351331Na autobiografia de Joseph Ratzinger, há também essa recordação de sua ordenação sacerdotal, ocorrida há 65 anos, 29 de junho de 1951, festa de São Pedro e São Paulo, na catedral de Freising, pelas mãos do cardeal Michael von Faulhaber.

Para comemorar o aniversário com o Papa Emérito, na Sala Clementina, estava também o atual Papa Francisco.

Na ocasião, foi oferecido a Ratzinger um volume que recolhe 43 de suas homilias, com um prefácio escrito pelo próprio Francisco, que já havia sido antecipado há poucos dias pelos jornais  “La Repubblica” e “L’Osservatore Romano”:

> “Toda vez que eu leio as obras de Joseph Ratzinger …”

O volume, intitulado “Ensinar e aprender o amor de Deus”, foi publicado simultaneamente em seis idiomas: em italiano pela Cantagalli, nos EUA pela Ignatius Press, na Alemanha pela Herder, na França pela Parole et Silence, na Espanha pela Biblioteca de Autores Cristianos, e na Polônia pela Universidade Católica de Lublin.

O trecho que segue é retirado da introdução ao livro, escrito pelo cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e curador da obra completa de Ratzinger.

No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal narra sua indomável resistência contra a ofensiva dos seguidores de Lutero.

Sacerdócio Católico e tentação protestante

Gerhard L. Müller

O Concílio Vaticano II tentou reabrir um novo caminho para a compreensão da verdadeira identidade do sacerdócio. Por que então chegamos agora, no pós Concílio, a uma crise de identidade que historicamente só é comparável com as consequências da Reforma Protestante do século XVI?

Eu penso na crise da doutrina do sacerdócio ocorrida durante a Reforma Protestante, uma crise de caráter dogmático, na qual o sacerdote foi reduzido a um mero representante da comunidade, mediante uma eliminação da diferença essencial entre o sacerdócio ordenado e aquele comum de todos os fiéis. E depois na crise existencial e espiritual, ocorrida na segunda metade do século XX, e que explodiu cronologicamente depois do Concílio Vaticano II -, mas certamente não por causa do Concílio – e cujas consequências hoje ainda sofremos.

Joseph Ratzinger destaca com grande perspicácia que onde é menosprezado o fundamento dogmático do sacerdócio católico, não apenas se esgota a fonte de onde se pode efetivamente beber da vida que nutre os que seguem a Cristo, mas desaparece também a motivação que introduz tanto uma compreensão razoável da renúncia ao casamento pelo reino dos céus (cfr. Mt 19, 12), como do celibato como um sinal escatológico do mundo de Deus que virá,  um sinal para ser vivido com a força do Espírito Santo, na alegria e na certeza.

Se a relação simbólica que pertence à natureza do sacramento é obscurecida, o celibato sacerdotal torna-se o resquício de um passado hostil ao corpo e começa a ser acusado e combatido como a única causa da escassez de sacerdotes. Não menos importante, desaparece, em seguida, também as evidências no ensino e na prática da Igreja, de que o sacramento da Ordem deve ser administrado somente aos homens. Um ofício concebido em termos funcionais na Igreja é exposto à suspeita de legitimar um domínio, que, ao invés, deveria ser baseado e limitado ao sentido democrático.

A crise do sacerdócio no mundo ocidental, nas últimas décadas, é também o resultado de uma desorientação da identidade cristã perante uma filosofia que transfere para o interior do mundo o sentido mais profundo e o fim último da história de cada existência humana, privando-o assim do horizonte da transcendência e da perspectiva escatológica.

Esperar tudo de Deus e fundamentar toda a sua vida a Deus, que em Cristo nos doou tudo: esta e só esta pode ser a lógica de uma escolha de vida que, no completo dom de si, põe-se a caminho no seguimento de Jesus, participando de sua missão de Salvador do mundo, a missão que Ele cumpre no sofrimento e na cruz, e que Ele inevitavelmente revelou através de sua Ressurreição dentre os mortos.

Mas, na raiz desta crise do sacerdócio, é necessário também levar em contra os fatores intra-eclesiais. Como mostrado em seus primeiros discursos, Joseph Ratzinger possui desde o início uma sensibilidade aguçada para perceber imediatamente o choque com o qual se anunciava o terremoto: e isso especialmente na abertura, por parte de muitos católicos, à exegese protestante em voga nos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Muitas vezes, do lado católico, não se percebeu as visões preconceituosas das exegese nascidas da Reforma. E assim sobre a Igreja Católica (e ortodoxa), caiu a fúria das críticas ao sacerdócio ministerial, na presunção de que ele não tem um fundamento bíblico.

O sacerdócio sacramental, tudo que se refere ao Sacrifício Eucarístico -, assim como tinha sido afirmado pelo Concílio de Trento – à primeira vista não parecia ser baseado na Bíblia, tanto do ponto de vista terminológico, tanto no que diz respeito às prerrogativas particulares do sacerdote sobre aos leigos, especialmente no que tange ao poder de consagrar. A crítica radical ao culto – e com ela a superação, que visava um sacerdócio que se limitaria à pretensão de mediação – parecia perder terreno para uma mediação sacerdotal na Igreja.

A Reforma atacou o sacerdócio sacramental, porque argumentava-se que ele colocava em questão a unicidade do sumo sacerdócio de Cristo (de acordo com a Carta aos Hebreus) e marginalizava o sacerdócio universal de todos os fiéis (de acordo com 1 Pedro 2: 5). A esta crítica, finalmente, juntou-se a idéia moderna da autonomia do sujeito, com a praxis individualista que dela resulta, a qual vê com desconfiança qualquer exercício de autoridade.

Que visão teológica se seguiu?

Por um lado, observou-se que Jesus, de um ponto sociológico-religioso, não era um sacerdote com funções de culto e portanto, – para usar uma formulação anacrônica – era um leigo.

Do outro, com base no fato de que no Novo Testamento, para os serviços e ministérios, não foi adotada qualquer terminologia sacral,  mas denominações consideradas profanas, parecia que se poderia considerar como inadequada a transformação – na Igreja das origens, a partir do III século – daqueles que desenvolviam meras “funções” dentro da comunidade, em detentores impróprios de um novo sacerdócio do culto.

Joseph Ratzinger apresenta, por sua vez, um exame crítico detalhado, uma crítica histórica à teologia protestante e o faz distinguindo os preconceitos filosóficos e teológicos do uso do método histórico. Ao fazer isso, ele consegue mostrar que com as aquisições da moderna exegese bíblica e uma análise precisa do desenvolvimento histórico-dogmático, podemos chegar de modo bem fundamentado às afirmações dogmáticas produzidas sobretudo no Concílio de Florença, Trento e do Vaticano II.

O que Jesus significa para o relacionamento de todos os homens e de toda a criação com Deus – portanto, o reconhecimento de Cristo como o Redentor e Mediador universal de salvação, desenvolvido na Carta aos Hebreus através da categoria de “Sumo Sacerdote” (Archiereus) – nunca dependeu, como condição, da sua participação no sacerdócio levítico.

O fundamento do ser e da missão de Jesus reside muito mais na sua proveniência do Pai, daquela casa e daquele templo onde vive e deve ficar (cfr. Lc 2, 49). É a divindade do Verbo que faz de Jesus, na natureza que Ele assumiu, o único e verdadeiro Mestre, Pastor, Sacerdote, Mediador e Redentor.

Ele nos torna partícipes desta sua consagração e missão por meio do chamada dos Doze. A partir deles, surge o círculo dos Apóstolos que fundaram a missão da Igreja na história como dimensão essencial da natureza eclesial. Eles transmitem o seu poder aos chefes e pastores da Igreja universal e particular, os quais operam a nível local e supra-local.

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4 Comentários to “Joseph Ratzinger, 65 anos depois.”

  1. O papa Bento XVI exercia um pontificado extremamente frutuoso e se empenhava em corrigir todos os erros que havia na Igreja à ocasião, inclusive de tendencias de protestantização a partir de dentro, sendo o papa mais odiado desde o venerável Pio XII, o mais caluniado dos próximos a nós, que possuía uma rede imensa de inimigos, inclusive dentro da Igreja, bastando ver de como também o vilipendiava a midia globalista, inclusive o perverso Charlie Hebdo!
    Uma das grandes queixas de S Pio de Pietrelcina, correlacionando-se ao acima, é que os católicos, a partir da propria hierarquia, eram e persistem pouco combativos às perniciosas heresias protestantes, alienantes, relativistas, além de dissensas entre si, cada qual argüindo a outra de ser herege, como tanto temos visto!
    Ao inverso, esses eram e se seguem extremamente agressivos para cooptarem os católicos incautos e desinformados de suas doutrinas inconsistentes, todavia, habeis em os conduzirem por meio de embustes varios para seu ambiente sectario!
    Poder-se-ia até recordar, dando para se tirar algo de: … “porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz no trato com seus semelhantes”. Lc 16, 8.
    Quanto aos ataques ao sacerdocio celibatario e alguns problemas desse comportamento entre o clero que tanto propalam, combatendo-o, sabe-se perfeitamente que entre os protestantes a incidencia é bem mais alta de peripecias sexuais das mais diversas especies, inclusive ataques de pedofilia; são suspeitíssimos ao menos para tocar nesse assunto de forma acusatoria – andam com o rabo preso!
    Adotar o casamento, tomando como base os padres ortodoxos? Enfrentam similares problemas de adulterios, segundas uniões, problemas familiares comuns a qualquer leigo casado, e o povo até prefere lidar com celibatarios por serem mais acessíveis ao não estarem divididos entre o sacerdocio e as ocupações mundanistas!
    Lembram-se do caso do pastor Felipe Heiderich acusado por Bianca Toledo sua mulher, por prática de pedofilia, estrela gospel, idem pastora “ungida e profetisa”?
    ASSUSTADORAS as considerações do ultra anticatólico Julio Severo, expondo a propria podridão dentro do relativista protestantismo:
    … Além de ela expor a ligação maior entre homossexualismo e pederastia, o caso também expõe as fraquezas das estrelas gospel que dão testemunhos miraculosos, mas ao se depararem cara a cara com pecadores cheios de opressão pesada, são “enganadas” e ficam misteriosamente impotentes em seus dons proféticos…
    … Se o dom de profecia dela está tão certeiro contra os pastores do Brasil, por que ela não viu os próprios problemas da casa dela? Por que enquanto viajava pelo Brasil ela deixava seu filho nas mãos de um suposto satanista sem experimentar visões proféticas de Deus sobre o que ocorria no lar dela? Por que ela esperou o problema dela aparecer para começar a acusar os pastores?
    É fato que Bianca Toledo foi ordenada pastora por outros pastores. Na fama dela, eles também se embalaram. Mas onde estavam eles quando ela tomou a decisão trágica de casar com um homossexual depois de se separar de seu primeiro marido?
    … “Alguém que de fato ouve a voz de Deus se aproxima de um homossexual ou bruxo ou outro pecador para ser instrumento de libertação e ministração, não para levar vantagem carnal e sexual. Agora que a “pastora” escolheu expor o problema para o mundo inteiro, inclusive como ela foi ENGANADA e não sabia que seu segundo marido era homossexual, a mensagem que o mundo está recebendo é que nem pastores que ouvem a voz de Deus podem ajudar pecadores homossexuais…
    Aliás, doutrinarem a quem de forma consistente e cristã se estão alienados à verdadeira fé e imiscuídos no casuismo protestante?

  2. “Videbam Satanam sicut fulgur de caelo cadentem” [“Eu vi Satanás cair do seu como um relâmpago”] (Lc 10, 18). O demônio sem dúvida fez de tudo para ver S.S. Bento XVI declarando aquela “renúncia”. Lembrem-se do raio misterioso horas depois da renúncia naquele dia 11 de fevereiro. Mas as portas do inferno nunca poderão prevalecer contra a verdadeira Igreja de Cristo! Que venha o triunfo do Coração Imaculado de Maria, para glória da Ssma. Trindade. Amém.

  3. Quem diria? De teólogo liberteiro amalucado amigo de Gutierrez a “Novo Ottavianni”! Eis a METANÓIA de sua eminência cardeal Gerhard Müller!

    Há quantos anos não vemos um cardeal atacar explicitamente a Reforma Protestante, ainda que com luvas de pelica?

    Sentir diária e presencialmente a misericórdia de Francisco no Vaticano deve ser uma penitência braba. Este pontificado salvou uma alma, tenho certeza!