Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus.

“Haurireis águas com gáudio das fontes do Salvador” (Isaías XII, 3).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Caríssimos, faremos, Deo volente, vários artigos extraídos da Encíclica de Pio XII “HAURIETIS AGUAS” sobre o culto do SS.  Coração de Jesus. O santo Padre, o Papa, sugeriu aos padres a leitura desta encíclica para meditarmos sobre a misericórdia do Coração de Jesus.

Sacratíssimo Coração de Jesus, tende piedade de nós!2. “Inumeráveis são as riquezas celestiais que nas almas dos fiéis infunde o culto tributado ao Sagrado Coração, purificando-os, enchendo-os de consolações sobrenaturais, e excitando-os a alcançar toda sorte de virtudes. Portanto, tendo presentes as palavras do apóstolo São Tiago: “Toda dádiva preciosa e todo dom perfeito do alto vem, desce do Pai das luzes” (S. Tiago I, 17), neste culto, que cada vez mais se incende e se estende por toda parte, com toda razão podemos considerar o inapreciável dom que o Verbo Encarnado e Salvador nosso, como único mediador da graça e da  verdade entre o Pai Celestial e o gênero humano, concedeu à sua mística Esposa nestes últimos séculos, em que ela tem tido de suportar tantos trabalhos e dificuldades. Assim, pois, gozando deste inestimável dom, pode a Igreja manifestar mais amplamente o seu amor ao Divino Fundador, e cumprir mais fielmente a exortação que o evangelista São João põe na boca do próprio Jesus Cristo: “No último dia da festa, que é o mais solene, Jesus pôs-se em pé, e em voz alta dizia: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim do seu seio, como diz a Escritura, manarão rios de água viva. Isto o disse pelo Espírito que haveriam de receber os que nele cressem” (S. Jo VII 37-39). Ora, aos que escutavam essas palavras de Jesus, pelas quais Ele prometia que do seu seio haveria de manar uma fonte “de água viva”, certamente não lhes era difícil relacioná-las com os vaticínios com que Isaías, Ezequiel e Zacarias profetizavam o reino do Messias, e com a simbólica pedra que, golpeada por Moisés, de maneira milagrosa haveria de jorrar água (cf. Is 12, 3; Ez 47, 1-12; Zac 13, 1; Êx 17, 1-7; Nm 20, 7-13; 1 Cor 10, 4; Apc 7, 17; 22, 1).

3. A caridade divina tem a sua primeira origem no Espírito Santo, que é o amor pessoal, assim do Pai como do Filho, no seio da Trindade augusta. Com sobradíssima razão, pois, o Apóstolo das gentes, como que fazendo-se eco das palavras de Jesus Cristo, atribui a esse Espírito de Amor a efusão da caridade nas almas dos que crêem: “A caridade de Deus foi derramada nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado” (Rom 5, 5).

4. Este estreito vínculo que segundo a Sagrada Escritura, existe entre o Espírito Santo, que é amor por essência, e a caridade divina, que deve acender-se cada vez mais na alma dos fiéis, demonstra abundantemente a todos nós, veneráveis irmãos, a natureza íntima do culto que se deve tributar ao Coração de Jesus Cristo. Com efeito, se lhe considerarmos a natureza particular, manifesto é que este culto é um ato de religião excelentíssimo, visto exigir de nós uma plena e inteira vontade de entrega e consagração ao amor do Divino Redentor, do qual é sinal e símbolo vivo o seu Coração traspassado. Consta igualmente, e em sentido ainda mais profundo, que este culto aprofunda a correspondência do nosso amor ao Amor divino. Pois só em virtude da caridade se obtém que os homens se submetam mais perfeita e inteiramente ao domínio de Deus, já que o nosso amor de tal maneira se apega à divina vontade, que vem a fazer-se uma coisa só com ela, consoante aquelas palavras: “Quem está unido ao Senhor é com Ele um mesmo espírito” (1 Cor 6, 17).

5. Conquanto a Igreja em tão grande estima tenha tido sempre e ainda tenha o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus, a ponto de se empenhar em fomentá-lo e propagá-lo por toda parte entre o povo cristão, e conquanto se esforce diligentemente por defendê-lo contra o “naturalismo” e o “sentimentalismo”, todavia é muito doloroso verificar que, no passado e em nossos dias, alguns cristãos não têm este nobilíssimo culto na honra e estima devidas, e às vezes não o têm nem mesmo aqueles que se dizem animados de zelo sincero pela religião católica e pela própria perfeição.

6. “Se conhecesses o dom de Deus” (Jo 4, 10). Servimo-nos destas palavras, veneráveis irmãos, nós, que por disposição divina fomos constituído guarda e dispensador do tesouro da fé e da religião que o divino Redentor entregou à sua Igreja, para admoestar todos aqueles dos nossos filhos que, apesar de, vencendo a indiferença e os erros humanos, já haver o culto do Sagrado Coração de Jesus penetrado no seu Corpo Místico, ainda abrigam preconceitos para com ele, chegam até a reputá-lo menos adaptado, para não dizer nocivo, às necessidades espirituais mais urgentes da Igreja e da humanidade na hora presente. Porque não falta quem, confundindo ou equiparando a índole primária deste culto com as diversas formas de devoção que a Igreja aprova e favorece, mas não prescreve, o têm como um acréscimo que cada um pode praticar à vontade, e alguns há também que consideram oneroso este culto, e mesmo de nenhuma ou pouca utilidade especialmente para os militantes do reino de Deus, empenhados em consagrar o melhor das suas energias, dos seus recursos e do seu tempo à defesa da verdade católica, para ensiná-la e propagá-la, e para difundir a doutrina social católica, fomentando práticas religiosas e obras por eles julgadas mais necessárias nos nossos dias. Por último, há quem creia que este culto, longe de ser um poderoso meio para estabelecer e renovar os costumes cristãos na vida individual e familiar, é antes uma devoção sensível não informada em altos pensamentos e afetos…

7. Outros, finalmente, ao considerarem que esta devoção pede penitência, expiação e outras virtudes, sobretudo as que se chamam “passivas”, por não produzirem frutos externos, não a julgam a propósito para reacender a piedade, a qual deve tender cada vez mais à ação intensa, encaminhada ao triunfo da fé católica e à valente defesa dos costumes cristãos, os quais hoje, como todos sabem, se vêm facilmente infectados pelo indiferentismo, que não reconhece nenhum critério para distinguir o verdadeiro do falso no modo de pensar e de agir, e, assim, se vêem lamentavelmente afeados pelos princípios do “materialismo” ateu e do “laicismo”.

(Continua nos próximos artigos).

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2 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus.”

  1. Padre, como é muito diferente a linguagem usada por Pio XII, tão católica, tão imbuída do sobrenatural, da linguagem dos papas Conciliares, não é? É muito triste constatar isso, mas é evidente… Eu já me pegava pensando nisso quando lia antes as encíclicas de JPII, mas não admitia interiormente, por considerar na época um “desrespeito com o Santo Padre”. Deus tenha piedade de nós!

  2. O culto ao Sagrado Coração de Jesus reporta-se à Idade Média, quando grandes místicos àquele tempo já propunham aos fieis a contemplação da Paixão do Senhor, e mais especificamente a devoção às Suas Sagradas Chagas, dentre as quais a do seu Sacratíssimo Coração, transpassado pela lança, por um gesto de extremo amor á humanidade, por sinal sempre ingrata a seus apelos e, particularmente em nossa época, repleta de infindos apelos exteriores, pessimamente atendendo em seus desejos de Lhe devotarmos toda nossa afeição!
    O mundo presente não dá contas de quando nossa “hora” termina, e começa a “hora” de Jesus, ou seja, até onde podemos ir e quando principia os direitos de Jesus sobre nós; o mundo rebelde atual tem prevalecido sobre sua vontade, daí o caos atual por preferir o transitorio em detrimento do que é definitivo e nos aporta a segurança!
    *”Oh, se compreendêssemos o amor de que o Coração de Jesus está abrasado para conosco! Não contente de nos ter criado, de preferência a tantos outros, o Verbo divino chegou a se fazer homem por nosso amor, a escolher uma vida penosíssima e a morrer sobre uma cruz. Este amor levou-O ainda a se deixar ficar conosco no Santíssimo Sacramento, onde parece que não tem outro ofício senão o de amar os homens. Mais: o amor levou-o a fazer-se nosso sustento, afim de se unir a nós e fazer dos nossos corações e o seu próprio uma só coisa. Porque então correspondemos tão mal ao amor de Jesus?
    *S Afonso.