Um papa como nunca se viu antes . Um pouco “protestante”.

O romance entre Francisco e os seguidores de Lutero. O alarme de cardeais e bispos contra a “protestantização” da Igreja Católica. Mas também a desconfiança dos teólogos luteranos influentes.

ROMA, 22 de julho de 2016 – Na carta preocupada que treze cardeais dos cinco continentes prepararam para entregar ao Papa Francisco no início do último Sínodo, eles o alertavam para o perigo de levar a Igreja Católica ao mesmo “colapso das igrejas protestantes liberais” da era moderna, acelerado pelo seu abandono dos elementos fundamentais da fé e prática cristã, em nome adaptação pastoral”.
 
 
Depois, “in extremis”, os treze eliminaram estas duas linhas da carta, que foi efetivamente colocada nas mãos do papa. Mas, hoje, rescreveriam-na literalmente, peça por peça, diante do idílio cada vez mais acentuado que está se desenvolvendo entre Francisco e os seguidores de Lutero.
 
No dia 31 de outubro, Jorge Mario Bergoglio vai voar para a Suécia, em Lund, onde será acolhido pela “bispa” local e juntos celebrarão, com a Federação Luterana Mundial, os quinhentos anos da Reforma Protestante. E, quanto mais se aproxima a data, mais o Papa expressa sua simpatia pelo grande herege.
 
Na última de suas palestras no avião, ao retornar da Armênia, voltou a tecer elogios a Lutero. Ele disse que Lutero estava animado pela melhor das intenções e que sua reforma foi “um medicamento para a Igreja”, passando por cima das diferenças dogmáticas essenciais que durante cinco séculos opõem protestantes e católicos, porque – essas são sempre suas palavras, desta vez ditas no templo luterano em Roma – “a vida é maior do que as explicações e interpretações”:
 
 
O ecumenismo de Francisco é feito assim. O primado é dado aos gestos, abraços, e qualquer ação de caridade feita em conjunto. Os contrastes de doutrina, ainda que sejam abismais, deixa-se para as discussões dos teólogos, que voluntariamente confinaria em uma “ilha deserta”, como ele gosta de dizer, nem mesmo usando tom de brincadeira.
 
A evidência até agora insuperável desta sua abordagem foi dada, em 15 de novembro passado, durante uma visita à igreja luterana de Roma: a resposta que ele deu para uma protestante que lhe perguntou se ela poderia receber a comunhão na missa, juntamente com o marido Católico.
 
A resposta de Francisco foi um redemoinho fantasmagórico de sim, não, eu não sei, você que sabe. Mas não porque o papa não sabia o que dizer. A “liquidez” de expressão foi desejada. Era a sua maneira de colocar tudo em discussão, tornando tudo uma questão de opinião e, portanto, praticável:
 
 
Com certeza, até “La Civiltà Cattolica”, a revista dos jesuítas de Roma, que agora é a porta-voz da Casa Santa Marta, chegou a confirmar que sim. Francisco queria dar a entender precisamente isto: que até mesmo os protestantes podem receber a comunhão na missa católica :
 
 
Há uma frase do Cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, segundo a qual “nós católicos não temos motivo algum para comemorar 31 de outubro de 1517, ou seja, o início da Reforma que levou ao fracasso do cristianismo ocidental”.
 
Mas Papa Francisco nem lhe dá ouvidos e faz a festa, sem se importar que Müller – que era apenas um dos treze cardeais da carta memorável – a veja como um outro passo rumo à “protestantização” da Igreja Católica:
 
 
Um papa como Bergoglio, de fato, não desagradaria a um Lutero moderno. Nada mais de indulgências, nem purgatório, que há cinco séculos foram a faísca da ruptura. Ao invés, a exaltação superlativa da misericórdia divina, que lava gratuitamente os pecados de todos.
 
 
Não é dito, no entanto, que o idílio é correspondido por todos os protestantes. Na Itália, a sua linhagem histórica consiste na pequena, mas animada Igreja Valdense. E os dois teólogos mais destacados, Giorgio Tourn e Paolo Ricca – ambos da mesma geração de Bergoglio e ambos formados na escola do maior teólogo protestante do século XX, Karl Barth – são muito críticos sobre a deriva secularizante, tanto da sua igreja como da Igreja de Papa Francisco.
 
“A doença – disse Ricca em um recente debate sobre a Reforma – é que todos nós estamos voltados para o social como algo sacrossanto, mas no social esgotamos o discurso cristão e fora dali nos tornamos mudos.”
 
E Tourn: “A política do Papa Bergoglio é fazer caridade. Mas, é claro que só o testemunho do amor fraterno não conduz automaticamente a conhecer a Cristo. Não existe hoje um silêncio de Deus, mas o silêncio sobre o nosso Deus.”.
 
 
Francisco, no entanto, segue avante inabalável e pouco dias atrás chegou a nomear um teólogo protestante amigo seu, Marcelo Figueroa, como diretor da nova edição argentina do “L’Osservatore Romano”:
 
 
__________
 
 
Esta nota está em “L’Espresso” nº 30 de 2016, à venda a partir de 22 de julho, na página de opinião intitulado “Settimo cielo” confiada a Sandro Magister.
 
Aqui está o índice de todas as notas anteriores:
 
 
___________
 
 
Abaixo, as referências a três comentários recentes particularmente agudos em identificar as características essenciais do protestantismo luterano e seus efeitos na história.
 
A primeira é por Antonio Livi, professor emérito de filosofia do conhecimento na Pontifícia Universidade Lateranense, estudioso de renome internacional:
 
 
A segunda é de Ermanno Pavesi, secretário-geral da Federação Internacional dos Médicos Católicos:
 
 
O terceiro é do Professor Rocco Pezzimenti, diretor do departamento de economia, políticas e línguas modernas na Universidade Livre de Maria Santissima Assunta em Roma:
 
Tags:

5 Comentários to “Um papa como nunca se viu antes . Um pouco “protestante”.”

  1. Um papa como nunca se viu antes!
    Um pouquinho católico.

  2. O protestantismo, apesar de todas as loas que receba do papa Francisco ou eventualmente doutros Altos Hierárquicos que rigidamente deveriam repudiá-lo, nem por isso deixará de ser o que é, ou seja, o cristianismo transmutado em relativismo, exponenciado por milhares de seitas divergentes entre si, cada qual querendo se passar por mais verdadeira que a outra, assim como uma heresia e excomungada no Concilio de Trento!
    S Pio de Pietrelcina tinha pavor do soberbo e orgulhoso protestantismo e concordamos plenamente com o que afirmava esse magnifico santo:
    “O protestantismo é como uma nuvem negra que rapidamente cobre todo o brilho do sol. Sabeis, pois, que uma nuvem não é mais grandiosa que o sol, e que ela não o cobre para sempre. A nuvem passa pelo sol, assim como o protestantismo passará perante a Igreja, sem lhe causar dano algum, pois o que não provém do céu jamais poderá vencer o próprio céu.”
    “Olhe para o Protestantismo como um grande hospital, onde os médicos não são verdadeiros médicos, e os remédios não fazem efeito porque não possuem a substância correta. Verás, pois, que se um moribundo adentrar nesse hospital suplicando que lhe cure, sequer ouvirá uma solução para sua doença, ou será atendido de forma desleixada, e a morte será o seu único fim. Assim é o protestantismo: há pastores que não são pastores, e há doutrinas que não salvam, por não serem as doutrinas de Cristo. E seu único fim [do protestante] é a morte eterna, se a misericórdia divina não contrapuser a justiça temerosa.”
    Por fim, a forma radical com a qual Padre Pio tratava a heresia protestante deve ser tomada como um exemplo para nós que somos filhos da Igreja de Cristo, pois, como o próprio santo disse, “é impossível amar a Igreja e não lutar para destruir esta heresia”.

  3. O melhor livro já escrito sobre Lutero é do padre Julio Maria de Lombaerde. `O diabo, Lutero e o Protestantismo´,super bem documentado, deveríamos comprar e distribuir ao mundo!

  4. Ou um papa é católico ou não é papa. Não sei a razão de tanta dúvida em coisa tão simples.

  5. Um Papa como nunca se viu antes ! Cada dia mais “ONU”. Hoje é o dia do Earth Overshoot Day (sobreexploração da Terra) segundo L’Osservatore.
    Aprendi hoje, não sabia que existia este “cálculo”.